Eu quero apenas

17/04/2014

Eu quero apenas
[Sérgio Freire]

A chuva caía forte naquele dia. Era Quinta-feira Santa. Ícaro levantou, escovou os dentes no ritmo dos pingos da goteira no forro de gesso. Mais cedo ou mais tarde, ele sabia, o gesso abriria. Aprendera que mais cedo ou mais tarde as coisas sempre acontecem. Tudo é questão de tempo. O tempo é o senhor da razão. Ouvira a frase em algum lugar, ela ficou guardada e sempre vinha nas horas difíceis.

Colocou a mão no bolso do short com que dormira. Havia uma folha de papel dobrada. Era o desenho da família feito por Lígia, sua caçula de seis anos. Ele não jogava fora os desenhos das filhas. Não tinha coragem. Dobrava-os e os colocava dentro dos livros da estante. Quase todos os livros tinham desenhos das meninas.

Todos dormiam e a empregada ainda não tinha chegado. Resolveu comer algo a título de café da manhã. Na cozinha, descascou um tucumã, rasgou um pão com as mãos e jogou tudo dentro. Preparou displicentemente o sanduíche de que aprendera a gostar na casa da vó, nos idos da década de 70.

No escritório da casa, computador ligado, deu a primeira mordida. O gosto da infância o invadiu. No YouTube, procurou uma música que lembrava aquela época. Começou a ouvir “Eu quero apenas”, de Roberto Carlos. Sua memória o levava de volta aos seis anos de idade, para o segundo andar da casa de sua avó, no bairro de Aparecida. Da janela, dava para ver o rio. O tucumã, a música, a memória… Fechou os olhos.

“- Quer bolacha, meu filho?”

Ícaro abriu os olhos para encontrar fitando os seus as petecas azuladas dos olhos de sua vó. Cabelo cinza, já patinado pelo tempo, um sorriso nos lábios, a mão estendida lhe oferecendo uma bolacha salgada, daquelas do pote que ficava em cima da geladeira. O Pote era destino certo dos netos quando chegavam. De tão mágico, era substantivo próprio, escrito com letra maiúscula: o Pote.

“- Vó?!”, disse assustado.
“- Sua mãe foi na Zilma, costureira, e vai já voltar. Cuidado com essa janela”.

Estava num sonho. Mas era muito real para ser sonho. Pegou a bolacha oferecida e abraçou a vó forte, quase derrubando seu corpo frágil.

“- Eita ferro! Calma aí! Quase me derruba!”, disse a vó rindo com o inesperado ataque de carinho.
“- Vó! Eu te amo! Que saudade! Bênça, vó!”, disse, sem largar Dona Nazaré.
“Eu também te amo, Iko, meu filho. Deus te abençoe e te faça feliz. Mas come a bolacha. Tem suco de maracujá lá embaixo e, se quiser, a vó faz um sanduíche de tucumã. Não faça barulho, viu, que hoje não é dia.”

O cheiro da bata da vó lhe trazia paz. Só ela tinha aquele cheiro. As pessoas, cada uma no mundo, têm cheiros próprios, seus. Depois que inventaram os perfumes deixou-se de amar os cheiros das pessoas. Vós têm cheiro de aconchego. Ícaro ficou abraçado à dona Nazaré, respirando forte como se quisesse armazenar o cheiro que já não sentia há mais de dez anos, quando uma doença rápida a levou, deixando um vazio imenso. A vó, pacientemente, esperou o abraço terminar, sorriu e disse:

“- Iko, meu filho, a vó tá lá embaixo. Qualquer coisa me chama”.

Afinal, o que era aquilo? Ícaro estava vivendo na sua memória. Virou realidade a lembrança que tinha quando fechou os olhos quase quarenta anos depois daquela cena que agora vivia. Voltara a ter seis anos, mas com todas as lembranças de sua vida de quatro décadas e meia. Ele se beliscou, como manda o manual dos incrédulos. Doeu. Então era verdade. Ele tinha voltado para um tempo que lhe era muito caro.

Respirou fundo e foi até o quarto da vó. Sabia que existia uma folhinha atrás da porta. Um daqueles calendários religiosos com passagens bíblicas. Olhou a data: 27 de março de 1975. Quinta-feira Santa. A folhinha dizia “Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo que vos fiz” e indicava a leitura: Lc 4, 16-21. Aquilo tudo era muito real. Pela janela do quarto da vó ouviu o grito do seu João, bananeiro, passando no beco.

“- Ba-na-neiiiiii-ro! Banana prata, maçã e pacovã!”

Afinal, o que teria acontecido? A hipótese de Ícaro, um homem racional até demais, era a de que o sanduíche de tucumã, a música do Roberto e a memória tivessem alguma coisa a ver com aquilo. Pensou nas multidimensões da física, pensou nas histórias de viagens no tempo, pensou em tanta coisa… Sua cabeça fervia. Enlouquecera?

Ícaro decidiu explorar aquilo. Foi à janela, viu o rio de suas memórias. Depois desceu devagar as escadas que levavam ao térreo da casa. Desceu segurando no corrimão de tijolos boleado, típicos nas casas daquela época. Sentiu o cheiro da comida da vó vindo da cozinha. Ao pé da escada, olhou para a esquerda e viu a sala, com o estofado bege e as almofadas. No canto da sala, o vaso branco com flores naturais. À direita, via-se a cozinha ao fundo. Para chegar na cozinha, no entanto, tinha de se passar pela sala de jantar. Uma saleta pequena, com uma mesa, quatro cadeiras e um armário, onde a vó guardava sua louça e seu tabaco, que mascava. No teto, um ventilador ligado rangendo e dançando ao ritmo do rangido e no compasso do relógio de parede marrom.

Na saleta, foi até uma espécie de depósito que ficava embaixo da escada. Puxou a cortina e viu, para seu espanto, que a Espada ainda estava lá. Como o Pote, a Espada era outro objeto sagrado na casa da vó. Sua mãe contava que havia pertencido a seu bisavô, que com ela lutara na Guerra do Paraguai. Passou a mão na Espada, fazendo um carinho quase reverencial.

A casa da vó tinha ainda uma área, uma espécie de solário. Tinha uma porta no corredor da cozinha e uma janela que dava para a sala de jantar. Lá, dona Nazaré cultivava umas plantinhas em vasinhos e mantinha uma cadeira de macarrão. A cozinha terminava num quintal, onde também eram cultivadas plantas e vegetais, além de um vistoso pé de pimenta murupi. A vó estava no quintal.

“- Vó… preciso dizer uma coisa”
“- O que foi, Iko, meu filho?”. A vó sempre dizia o nome do neto seguido de “meu filho”.
“- Promete que vai acreditar em mim?”
“- Prometo. Fale pra vó.”
“- Eu vim do futuro, vó. Parece invenção, mas é verdade. Vim de 2014.”
“- Ave Maria, Iko, meu filho. Então eu já morri”, disse rindo.
“- Já, vó… Por isso queria dizer que eu te amo muito. Porque, sabe, vó, depois que as pessoas morrem, a gente até diz, mas nunca ouve um ‘também te amo’ de volta. E não ouvir faz tanta falta…”
“Eu também te amo, Iko, meu filho. Você é um menino bom e não sei como é sua vida no futuro, mas tenho certeza de que ela é abençoada por Nossa Senhora Aparecida. Ela não abandona os meus. Pega aquele sabão ali pra vó.”
“- Eu tenho duas filhas, vó. Lígia e Anna Julia.”
“- Que nomes bonitos, Iko, meu filho!”
“- É. Tom Jobim e Los Hermanos…”
“- …”
“- Deixa pra lá, vó… Vó, deixa eu te dar um abraço de novo, sentir teu cheiro?”
“- Ô, meu filho, claro. Vem cá. A vó gosta tanto de você…”
“- Me dá um conselho, vó? Um pra eu levar pro futuro?”
“- Iko, meu filho, você parece preocupado com a vida lá no futuro. Mas, sabe, os problemas da gente são do tamanho que a gente faz. Se a gente fizer grande, eles vão ser grandes. Se a gente fizer pequeno, eles serão pequenos. E o tempo, meu filho, é o senhor da razão. Ele tudo sabe, ele tudo sara. Tenha fé em Jesus e em Nossa Senhora Aparecida que tudo vai dar certo”.
“- Sua bença, vó.”
“- Deus te abençoe, te faça feliz e te proteja dos males do mundo.”
“- Vó, tem sanduíche de tucumã? Eu quero…”

Ícaro ouvira da sua vó o que precisava. Sentiu o cheiro de sua bata, já tinha sua bênção. Podia voltar para a sua vida atribulada de adulto no futuro, embora preferisse, no fundo, poder ficar ali, em 1974, olhando o rio.

Subiu a escada, sentou na rede e pensou que aquele era um sonho lindo, real, mas que precisava acordar. A realidade lhe esperava. Mordeu o sanduíche, lembrou do papel. Pôs a mão no bolso do short e pegou o desenho dobrado de Lígia. Começou a balançar a rede e cantou, de olhos fechados:

“- Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba, não vou a Ipanema
Não gosto de chuva nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei, desliguei, foi engano
O seu nome não sei
Esqueci no piano as bobagens de amor
Que eu iria dizer,
Ah … Lígia Lígia…”

“- Pai? Tá dormindo?”


Ostra

25/03/2014

Há sempre o tempo de se estender a mão, pedindo que alguém lhe puxe para ver a luz do dia, à beira da praia, para rolar na areia, depois de um tempo de escuridão e silêncio no fundo do mar. Mas, antes, é fundamental passar por essa solidão à sombra, curtir o silêncio do isolamento como se curte couro, gastar o encontro consigo como se gasta a felicidade. Nessa hora, como uma ostra, é necessário se fechar em si, reconhecer a pedra da dor em suas entranhas e transformá-la em pérola. Isso é um processo. É preciso interagir com a pedra: deixar ela arranhar o seu corpo, cortar sua mão, quebrar seu dente. E também reagir a ela, mordê-la, engoli-la, excretá-la. A tristeza também precisa de seu tempo e seu tempo precisa ser respeitado para o equilíbrio da vida. Dura horas, dias, meses ou anos. Ninguém sabe o tempo alheio para isso, ninguém sabe as correntes marinhas que nos engolem. Por isso é preciso compreender a necessidade da retirada da cena na hora da tristeza. Para o que vai e para os que ficam. Não é razão de lamento. Quando a hora chega é para se ir, de cabeça erguida. Porque essa hora eventualmente chega, como chega o nascimento no início e como chega a morte no final. Brincar de ser feliz na hora que é da dor é uma pantomima que faz mal ao artista da vida porque tem o pano da realidade, que sempre cai. É isso. SF


Lembra?

15/03/2014

E aí a gente foi se perdendo um do outro, se esquecendo de se amar, lembrando só quando tocava aquela música. De repente, a gente deixou de sentir falta, de passar perfume pra se ver, de ensaiar palavras no espelho. Quando se deu conta, a gente sequer se deu conta de que aquele amor que prometia arrebentar tudo, lacrar os amores, matar de inveja as pessoas acabou ficando por aí, largado, mambembe, roto e maltrapilho. Você não fez questão. Eu também não. Ninguém disse mais nada. A vida seguiu. Diz o Moisés, um amigo meu, que ele foi visto pedindo uns trocos no Centro, do lado da Igreja de São Sebastião. Era onde a gente ia casar, lembra?


Anjos da Morte

15/03/2014

Muitos anjos da morte cumprem o protocolo. Avisam antes, sinalizam, dão um tempo para a gente se preparar. Outros acham desnecessária essa burocracia. São anjos da morte no estilo fiscal. Chegam sem avisar, dão a batida e levam. Uns burocratas, eles não querem nem saber quem fica pra trás, no vazio da perda, no sofrimento abrupto rasgado no peito. E há os anjos da morte que purgam suas penas. São os que vêm para levar as crianças. Poucos sabem, mas de tão lancinante que é a morte de uma criança, até eles choram copiosamente ao cumprir sua obrigação…


Saideira

12/03/2014

“Definitivamente o amor tinha acabado. Eu não conseguia sentir nada por ele naquele momento. Não havia um sentimento conhecido para descrever o que eu sentia ao olhar pra ele, ali, parado, me olhando. Não era raiva, não era pena, não era nada. Percorri a lista de todos os sentimentos conhecidos e nenhum serviu. Quando a sensação não tem um nome é porque ela é grave. Escapar da linguagem não é pouca merda. Eu apostei todas as nossas fichas na gente. Eu queimei minhas pastas de planos alternativos. E ele agora me diz que é uma outra pessoa que lhe deixa as mãos suadas, que lhe dá frio na barriga. Só falta me dizer que ela goza mais do que eu. Sim, ele agora me pede pra eu apagar memórias, as sensações rasgadas na minha carne ao longo do tempo em que dividimos tudo. Filho da puta… Minha vontade era de apagá-lo da minha vida, como se fosse possível deletar porções de vida. Mas o cheiro dele estava entranhado na minha pele, no meu cabelo. A sensação daquelas mãos macias deixaram digitais por todo meu corpo. Ia levar anos pra eu tirar esse cara das minhas entranhas, abortá-lo a fórceps de mim. Eu não aguentei e avancei. Me joguei em cima dele com todas as minhas forças. Transamos feito loucos. Como no começo. Foi a visita da saúde. Antes do derradeiro suspiro, o corpo pede que se use o resto do que se tem na alma antes de morrer. Por isso as pessoas melhoram e, de repente, morrem. A gente morreu naquele dia, depois da saideira.” SF


Pacote de pai

10/03/2014

Assistir à reportagem sobre o caos nas escolas com minhas filhas e ir respondendo as perguntas delas. “Mas, pai, por que a escola é assim, toda acabada?”, “Por que quem tem dinheiro não ajuda?”, “E o Criança Esperança não serve pra ajudar?”, “Mas as crianças conseguem aprender assim nessa escola?”. Explicar o mundo real é dureza. Mas faz parte do pacote de ser pai…


De dentro pra fora

10/03/2014

Nas minhas andanças e observações do mundo, concluí que as pessoas mais felizes, mais saudáveis e com maior longevidade tendem a ser aquelas que estão criando coisas, fazendo coisas com os outros ou ajudando os outros. Parece ilógico em princípio, mas a felicidade chega pra gente de dentro para fora.


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