“Ele gostava tanto de estar com ela. Ela lhe despertava uma sensação de acolhimento, de conforto, de aconchego. O sorriso dela rasgava seu corpo num pentecostes afetivo. Suava-lhe as mãos, lhe tirava a respiração do ritmo. Cada vez que ela lhe dirigia a palavra, a brasa do carvão de seu afeto cintilava mais forte. Ela nem desconfiava que causava tudo aquilo nele. Talvez sim. Não. Certamente que ela sabia de tudo. Porque ela também se sentia leve com ele, com sua atenção, com seu querer transformado em olhar sorridente. Ela sentia vindo dele aquela admiração que cimenta as relações eternas. Por ele nutria igual sentimento. Os dois se sabiam. Mas jamais disseram nada. Medo de estragar o que tinham. Receio de ter de refazer o que era incompatível com a situação. Porque um instante só, se começasse, não faria justiça àquilo que mereciam. Mereciam o integral, não a fração. Mereciam o universo e não só quarto. Mereciam alma, não só corpo. Guardaram, no entanto, o melhor dos dois para o mundo do subentendido. O mundo ganhou uma linda amizade. Perdeu um amor exemplar”. SF
Sobre a leitura
Toda escrita é um reescrita. Toda leitura também o é. Ler e gostar é se ver sujeito pintado na escrita do outro. Daí o gozo. Ler e não gostar é se ver sujeito flagrado na escrita invasora. Daí a necessidade de reagir na autodefesa de seus avessos secretos. Ninguém lê impunemente. SF
Tornar-se possível
O escritor francês Jean Cocteau escreveu uma frase muito citada por aí: “Ne sachant pas que c’était impossible, été là et fait”. Na língua de Machado de Assis seria algo como “Não sabia que era impossível, foi lá e fez”. O que gosto nessa frase é que ela desloca as coisas de fora para dentro.
Passar por problemas na vida não é privilégio de ninguém. Todo mundo, cedo ou tarde, vê uma dificuldade aparecer no caminho. Todos nós nos deparamos com inevitáveis pedras no meio do caminho porque no meio do caminho tem sempre uma pedra, já avisava Drummond. Até aí é igual para todo mundo, em Manaus ou Fortaleza, Macapá ou Marabá, Ipatinga ou Itatinga. O que se faz com a situação é o que vai fazer a diferença.
As duas opções lógicas: dar-se por satisfeito e se acomodar ao script da vida ou, como na frase do escritor francês, ir lá, virar o jogo e fazer acontecer, principalmente quando todo mundo acha que dali não sai mais nada.
Quando a gente se deixa levar pelo que vem de fora, muitas vezes estanca no “impossível”. Não se move, não se mexe, paralisa a vida, o corpo, a mente, a alma. Mas quando a vontade é interna, quando vem de dentro, a gente dá um jeito. Se repensa, se refaz, se remexe e se reinventa. São as histórias que as revistas publicam sob o rótulo de superação. Porque é isso mesmo. É uma super ação que move o mundo.
A gente se supera. A gente se supera como autossabotadores. A gente se supera como um falso feliz com a vida. A gente se supera como um procrastinador profissional. A gente se supera simplesmente por não se querer só naquilo, mas por morar eternamente na querência do algo mais.
Minha mãe resolveu fazer faculdade depois de ter todos os filhos. Aí, depois de formada, resolveu estudar e fazer concurso para professora da universidade. Sua obstinação mudou nossa vida qualitativamente e deu um belo recado sobre o valor da educação nas nossas vidas. Há um claro e incontestável antes e depois na nossa família. Vai sem dizer que todos querem melhorar de vida. Mas melhorar de vida precisa ser entendido de forma mais ampla do que apenas melhorar financeiramente, o que é importantíssimo. Mas é mais. Por isso tantas pessoas hoje buscam fazer uma faculdade depois da época devida porque não lhes foi dada a chance naquela época, porque foram priorizadas outras coisas. Por isso tantas pessoas descontentes consigo dão uma guinada e começam de novo em busca da satisfação pessoal. Romper com o comodismo é para os fortes. Às vezes sangra.
É preciso ter a coragem de viver uma vida que a gente queira e não que os outros queiram para nós. É preciso ter a coragem de não trabalhar tanto para realizar seu velho plano. É necessário ter a coragem de expressar seus sentimentos de forma clara antes que seja tarde. É fundamental não deixar de viver momentos com sua família e amigos por conta de pequenas coisas. É, enfim , preciso se deixar ser mais feliz. A decisão é nossa e de mais ninguém. Tornar-se possível é o desafio da vida.
Uma das cenas mais bonitas e marcantes do cinema tem Will Smith dando um conselho a seu filho no filme “À procura da felicidade”, ele próprio uma bela história de superação. Diz ele ao menino: “Nunca deixe que alguém te diga que não pode fazer algo. Nem mesmo eu. Se você tem um sonho, tem que protegê-lo. As pessoas que não podem fazer por si mesmas dirão que você não consegue. Se quer alguma coisa, vá e lute por ela. Ponto final.” Tudo é realizável. Tonar possível é uma escolha. Basta não dar ouvidos aos que dizem que o seu sonho é impossível. E mudar o foco para dentro. Aí é só ir lá e fazer, como disse Cocteau. Simples assim. É querer e fazer. Como a minha mãe. Como a mãe de muita gente. Gente que se tornou possível. E se fez feliz.
Olhos de metáfora
Como eu não tenho a disposição nem a disciplina de quem vai às cinco da manhã para a academia para exercitar o corpo, racionalizei um jeito de dizer que queimo calorias de outra forma. Há algum tempo, eu inventei um jogo para exercitar a minha mente. Faço uns spinnings e uns supinos, seguidos de steps e jumps, mexendo e ocupando toda a massa encefálica das áreas de Broca e de Wernicke, responsáveis pela linguagem no cérebro. Chamo meu joguinho de “olhos de metáfora”.
Metáfora é a palavra ou expressão que remete a sentidos figurados por meio de comparações implícitas. Ela sempre dá outros sentidos à frase e às coisas, desde que mantenha um ponto de interseção. Minha mãe dizia que meu pai era um “pão”. Pão é gostoso. Logo, o ponto de interseção da metáfora de minha mãe é a gostosura do pão e do meu pai, que não por acaso deu em mim. Em um livro interessantíssimo chamado Metaphors we live by, o linguista americano George Lakoff propôs a tese que de que a metáfora não é só uma figura de linguagem, mas a maneira própria da linguagem se estruturar. Estou com ele. Pensa melhor quem usa mais metáforas para pensar.
Então, como funciona meu joguinho? É o seguinte: quando eu leio uma frase, um fato ou qualquer texto, eu imediatamente aciono com uma piscada tripla o meu botão que ativa os olhos de metáfora. Meus olhos desfocam o sentido óbvio e passam a procurar possibilidades de sentidos derivados. Isso serve tanto para a leitura – que fica mais rica – quanto para a escrita – que fica mais poética. Olha o que eu fiz aqui: peguei um amor de um homem mais velho por uma moça mais nova, descrevi uma transa dos dois e como essa relação rejuvenesce o cara. Mas nem falei de sexo. Metaforizei usando a figura da torneira velha: virou poesia. Esse é o trabalho dos escritores: metaforizar a vida em textos.
Páscoa é passagem. Em hebraico, temos o “pessach”, a chamada “Páscoa Judaica”, que se originou quando os hebreus, há mais ou menos três mil anos, celebraram o êxodo e a libertação do seu povo pelas mãos de Moisés, após escravidão no Egito. Saíram do solo egípcio, ficando quarenta anos no deserto até chegar à região da Palestina, a terra prometida, atualmente Israel. Já dá para ler essa historinha não como uma história real, mas como uma metáfora. Mas vamos tomá-la como verdadeira. Pisc, pisc, pisc. Olhos de metáfora para a Páscoa. Vamos bater nos ovos de Páscoa. O ovo traz vida nova. O chocolate é doce. Quem inventou esse negócio de ovos de Páscoa metaforizou bonito a história religiosa: além de ganhar centenas de calorias, a Páscoa é um momento de vida nova e, queira o bom Deus, de vida doce e boa. Minhas filhas ganharão ovos de Páscoa no domingo e junto darei de presente a elas as historinhas de renovação de vida.
Pisc, pisc, pisc. Olhos de metáfora para a vida. Saiamos do conceito de vida biológica e pensemos na vida do dia a dia, dos afazeres, das verdades. Será que não há nada nessa nossa vidinha que precise renascer? Um amor? Um projeto? Uma tomada de decisão que vem sendo empurrada com a barriga? Porque Páscoa, amigo, é passagem. Passe agora que a porta está aberta! Aproveite o momento! Será que não está na hora de se libertar daquele amor bandido que só lhe faz mal? Dar uma bicuda naquele emprego de bosta que só lhe faz infeliz? De dar um block naquele “amigo” chato das redes sociais? É Páscoa! Aproveite! Será que não está na hora de respirar fundo e partir para aquela luta que lhe espera pacientemente faz tempo? Metaforize-se em Moisés e saia das suas autoescravidões, cruze o seu deserto, se liberte de si mesmo, se desencontre de si para se reencontrar consigo.
Encontro, desencontro, Páscoa, escolhas, paciência, paixão. Nos encontros e desencontros da vida, a felicidade é uma questão de tempo. Entre momentos tão diferentes, entre nossas dores e amores, altos e baixos, nossa Páscoa individual depende fundamentalmente de nossas escolhas. Os frutos dessas escolhas serão colhidos cedo ou tarde. Vai sem dizer que necessitamos de paciência para colhê-los na hora certa para não arrancá-los da árvore ainda verdes. Mas é preciso, sobretudo, paixão, para também saber não deixá-los passar. Passar da hora, passar do ponto. Passar pela vida. Ficar passados. Ficar no passado.
Experimente jogar, leitor. Veja como os sentidos explodem. Feliz Páscoa! Pisc, pisc, pisc. Depois me conta suas metáforas para a minha frase.
Nós e o BBB
Depois de treze edições o BBB chega ao fim. Aí vêm os comentários inevitáveis: “Caramba! 30 milhões de votos! Povo alienado! E ninguém assina a petição do Renan Calheiros!” Ora, amigos, me rendi a escrever sobre o óbvio. Estão comparando coisas diferentes. Alienar vem do latim “alienare”, “abrir mão de”. Abrimos mão de outras coisas em prol de algo. O povo se aliena naquilo que lhe diz respeito. Eu me alieno na linguagem, muita gente se aliena na política, outros, ainda, nas causas dos animais sofridos e abandonados e outros tantos se alienam no BBB. Ninguém vive sem se alienar, sem se entregar a algo. Isso não é uma somatória: “é preciso tirar do BBB para aumentar na política”. Não penso que funcione assim. São coisas paralelas. A política só vai melhorar quando as pessoas que enchem a boca para falar horrores de BBB e quejandos começarem a lembrar em quem votaram na última eleição, começarem a cobrar de seus representantes, começarem a não dar caixinha para obter vantagem, pararem de estacionar em vaga de idoso sem ser idoso, tiverem coragem de fazer uma crítica sem medo de perder seu carguinho ou desagradar o político de plantão. Política não é mágica, não é pó de pirlimpimpim. É atitude. Não é o que se diz, mas o que se faz. Mas esse papo parece mau hálito, que só os outros têm. Se alguns de nós teve a chance de ir um pouco além na escolaridade e na compreensão da ordem das coisas, que ótimo! Usemos então essa capacidade não para culpar quem não a teve e não consegue se alienar na política, indo se alienar no BBB, no Naldo ou coisas que lhes parecem interessantes porque as fazem sorrir, discutir, pensar, debater, concordar, discordar. É a forma que essas pessoas têm de ser sujeitos no mundo. Dentro do limite que as aliena. Para mim, a questão que deveríamos por é: “como nós, dentro do que cada um faz na divisão social do trabalho, pode ampliar os limites para que um maior número de pessoas circule socialmente e possa enlarguecer sua participação de subjetividade para outros espaços, isso sem querer, numa atitude claramente autoritária, julgar e apagar os (poucos) espaços que lhes restam?” Porque senão a gente vai ficar naquela de querer matar o carteiro porque traz a má notícia. É mais fácil destruir do que desconstruir. Destruir me exclui. Eu jogo a bomba e resolve. Desconstruir me inclui. Preciso pensar melhor sobre qual fio cortar porque se essa bagaça explodir eu vou junto. É mais responsável. É mais justo. É menos intolerante. É mais difícil: daí a intolerância crescente. A Fernanda ganhou. Acho ela uma gracinha. Antes ela do que a falsa da Andressa. E hoje tem eleição na UFAM. E hoje tem aula pras minhas filhas. E hoje estou numa banca de mestrado na academia. E continua o pau na Comissão dos Direitos Humanos. E vai ter show do Naldo em Manaus. E hoje vence o meu cartão de crédito. E não devolveram o dinheiro da transmissão do Carnaval. E a vida continua. Pra todo mundo e não só pra gente no nosso mundinho. Alienati omnes sumus. Bom dia. SF
Sin perder la ternura…
Demoramos um tempinho – a tal da experiência – para perceber que em absolutamente tudo na vida – TUDO – temos de tomar partido e que tomar partido traz ganhos e perdas sempre. Não se posicionar, ilusoriamente para não se meter, é se manter numa mesma posição, o que ja é se posicionar. Ficar parado é já se meter e da forma mais estranha, sem se mexer, sem ser sujeito da vida, deixando que outros ocupem seu espaço. Hoje eu não tenho dúvidas: tudo que me diz respeito me interessa. As minhas circunstâncias me importam. Vejo, penso, me manifesto. Ganho simpatia e antipatia. Ganho amigos e inimigos. Ganho admiradores e detratores. Gente que eu nem conheço que me ama e me odeia com a mesma intensidade. Ganho e perco coisas. Por causa de minha opinião. Tenho desconfianças de quem é amado ou odiado por todos. A vida não é tão fechada assim. Não vivi na ditadura política para pegar em armas, nem fui exilado. Mas não dou mole para a ditadura de ideias, que quer nos mandar para o exílio da sua compreensão única dos fatos, da vida. As minha armas são as palavras. Eu opino, sim. Eu vou para cima. Endureço. Educadamente. Mas endureço. Porque “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Pensando alto aqui. SF
Vida que segue.
“Em silêncio eles sabiam o que queriam. E fizeram o que queriam. Naquele lugar onde somente seus próprios corpos nos espelhos eram suas testemunhas, eles perderam a vergonha, as roupas, o fôlego, a noção do tempo. Mãos espalmadas e entrelaçadas se apertavam num balé sincronizado de músculos relaxadamente tesos. As bocas tocavam-se finalmente, sentindo o sabor do hálito quente, termômetro dos quereres do corpo. Largaram-se lascivos à luxúria. Ele com a sede de marujo. Ela com a entrega das mulheres de Atenas. Ele, um servo dos desejos dela, obedecendo todas as ordens dadas em gritos ou sussuros. Ela, uma tocha de luz incandescente a queimar-lhes as entranhas de puro desejo, seus longos cabelos a varrer-lhe o rosto num vai e vem infinito como as ondas do mar. Exploram-se como bandeirantes de terras alheias. Conheceram-se em todos os sentidos e em várias profundidades. Foram ao Everest do prazer. E foram embora. Ela ainda tinha de fazer o jantar em casa para o marido. Ele ainda tinha de comprar o ovo de Páscoa da esposa. O dia acabou e começou de novo quando o sol nasceu.” SF