A gente chora porque a gente se importa

09/07/2014

Hoje é dia de falar do jogo do Brasil e da derrota que nos tirou a possibilidade do hexacampeonato na Copa em casa. Há textos para todos os gostos, afinal foram 200 milhões de técnicos, 200 milhões de torcedores, 200 milhões de comentaristas esportivos, 200 milhões de ortopedistas especialistas em vértebras e 200 milhões de frustrados com a derrota. Por que não 200 milhões de escritores? Esse dia seguinte me traz algumas reflexões.

A primeira delas é quanto ao futebol e o que ele representa para o Brasil. Antropólogos já discorreram tinta bastante sobre o assunto e não vou reinventar a roda. Não há povo sem história e a história é sempre convocada a entrar em campo para explicar comportamentos coletivos. Em época de Copa, somos todos Brasil. É como se fôssemos convocados a vestir a camisa e nós mesmos tivéssemos de entrar em campo e fazer valer um traço pelo que somos respeitados pelo mundo: ser os melhores com a bola no pé. Daí a entrega, daí a garra, daí o choro. Perder tem um gosto de “sossega, aí, menino, que você não é isso tudo, não”. Perder é nos tirar o orgulho de dizer que se não somos o melhor em matemática, pelo menos não fazemos feio nos jogos escolares. As pessoas precisam ser reconhecidas e, para muitos, não confirmar ser campeão de uma Copa, ainda mais em casa, é a suprema frustração de uma superexpectativa de sucesso que salvaria a autoestima do sujeito, muitas vezes, talvez, a única em que ele se agarra nessa vida difícil que o joga para baixo.

Mas o mulato é inzoneiro e isso leva a uma segunda reflexão. Como inzoneiro é quem gosta de intriga, essa Copa também trouxe a inzona a seus limites, potencializada pelas redes sociais. Muita gente, num sinal de que o país está adolescendo, se revoltou com a Copa e com o sentimento coletivo de pertencimento ao momento de catarse da identidade de brasileiro via futebol. Como jovens rebeldes negando o pai, chutaram o balde do sentimento coletivo da realização pela bola e invocaram novos sentimentos coletivos, como a indignação pela falta de hospitais, de educação de melhor qualidade, de uma política mais decente. Admiro essas pessoas pela força de romper com um traço tão forte de nossa personalidade identitária, ainda que desconfie que tenham sofrido horrores com a derrota acachapante que levamos da Alemanha. O adolescente, sabe, no fundo, ama o pai mesmo quando diz que odeia.

Mas o adolescente, para se afirmar, quer causar, chocando, provocando, enfrentando, machucando. Foi isso que alguns fizeram com o sentimento de brasilidade que uma Copa traz. Criou-se um confronto inócuo entre os que queriam a Copa e os que não queriam a Copa. Dicotomizaram as opções: ou você torce pelo Brasil na Copa ou não tem sensibilidade social e está desautorizado a lutar por escolas, hospitais e tudo o mais. Mataram a possibilidade de você se indignar com a desigualdade social e, sem ser insensível à qualidade da educação, da saúde e da política, gritar um “Pega, porra!” bem alto, vindo das entranhas no gol do Fred no Neuer, gol que – Porra, Fred! – não veio. Mal perceberam os adolescentes subjetivos, mas eles transferiram sua paixão fundante pelo futebol para outro jogo: vocês, de camisa amarela, e nós, sem camisas. Qual um Zúñiga, entraram para rachar nas costas de gente que estava ali no campo só para se divertir, no lúdico, para gozar. Aliás, o gozo dos sem-copa nessa Copa foi tentar, com o fôlego do Robben, interditar o gozo alheio.

Freud fala em atos falhos: o lapsus linguae, o lapsus calami e o lapsus memoriae. Falamos coisas, escrevemos coisas e esquecemos coisas sem querer querendo. O pai da psicanálise acredita que nenhum “defeito” na língua é na sua totalidade um mero acidente ou acaso. Todo ato falho é um discurso bem-sucedido, do desejo que, licença Valesca, foi recalcado por alguma razão. Eu vi, nessa Copa, os revoltados falharem na sua tentativa de se desvincular de algo que lhes constitui: a brasilidade pelo esporte. Falharam pela jocosidade, pelo humor ácido, pela raiva que punham o tempo todo no centro do palco o amor do Brasil pelo futebol. Tal qual Malafaias e Bolsonaros, elegeram e combateram sua homoafetividade mostrando a importância do tema para si, não o retirando de suas pautas, sintomatizando sua importância. É como aquele católico que vira evangélico e tem de negar Nossa Senhora: deve ter doído para esse pessoal essa troca ilusoriamente necessária. Ilusioriamente porque, sim, dá para torcer pelo Brasil sem abrir mão de sua indignação social, desde que não compreendamos o mundo em preto e branco. Há muitos tons de cinza entre os dois extremos. Pun intended. Há dispersão. Faltou para muita gente a capacidade de compreender que um indivíduo é uma dispersão de sujeitos na ilusão de ser um só. Dá para ser pai, filho, professor, militante, amigo, adversário político e torcedor ao mesmo tempo. Basta saber circular e não abrir mão dos outros lugares para falar monotematicamente de um lugar só. “Alienare”, do latim, significa “abrir mão de”. Abre-se mão das possibilidades de dizeres diferentes para se alienar no sempre mesmo dizer. Aí fica chato.

Perdemos. Estamos fora da possibilidade de ser hexa em casa. Muitos choram. Compreensível: gozo interrompido. Alguns celebram. Gozo atingido. A complexidade do tecido social legitima os vários comportamentos. Concordar ou discordar é meramente um posicionamento em relação a tudo isso, mas não apaga, claro, a diferença, que sempre é melhor do que a singularidade imposta. O que eu ainda não consegui entender, no entanto, é como a tristeza de amigos, familiares, filhos e gente querida pode virar motivo de alegria para alguns. Porque quando a gente gosta, a gente chora junto. No mínimo, a gente respeita a dor. Eu me permiti bloquear pessoas nas redes sociais com esse sentimento daninho de tripúdio gratuito, que foram desrespeitosas com minha tristeza, que usaram suas questões mal resolvidas para machucar. A gente chora porque a gente se importa. Como minha filha, de sete anos, que dormiu soluçando e com febre no meu colo porque o Brasil perdeu. Valeu, Brasil. Vamos rir agora porque outro traço nosso é rir das nossas tristezas. Que entre o time-fora. Até a próxima Copa, claro. SF


João e Maria

15/06/2014

“Leve. A gente sabia ser leve. Criar nosso mundo, nossos enredos malucos. Eu era o rei e você a princesa. De repente você quis fugir da gente. Mas não fuja, não. Faça-me de seu brinquedo, minha criança. A gente tem de ser feliz. É nossa sina. Eu enfrento todos pela gente: batalhões de alemães e seus canhões só com meu bodoque. Sem medo. A gente nem chegou a saber o que é isso. Nossa inocência não teve tempo. Mas o nosso faz-de-conta terminou porque você sumiu no mundo. Sem me dizer nada. De rei virei bobo, de bobo virei arlequim, com um manto feito de retalhos coloridos de nossas histórias. Cada sutura um início, um meio, um fim. E vago por aí, louco das ideias, pés no barro, querendo saber o que vai ser de mim nessa vida velha sem porteira. Sem notícia da princesa…” SF


Deriva

15/06/2014

“Naquele momento eu compreendi. Há coisas que nos apontam caminhos. Coisas que não nos dão escolhas. É quase uma ordem. Sempre vivi na ilusão de ser sujeito, como o da gramática, aquele que decide e faz a ação. Aquele que afirma que sabe o rumo a tomar e vai. Capitão da sua nau. Naquele momento, eu aprendi que, sim, sou sujeito. Mas sou sujeito às vicissitudes dos ventos da vida, que caprichosos sopram pro lado oposto do que singra meu barco, nau sem rumo. Naquele momento, ela me ensinou que para quem está à deriva seguir a corrente do rio é às vezes a única alternativa. Há momentos em que a deriva é o caminho…” SF


Os aís da vida

14/06/2014

Os aís da vida. Aí, no começo, bebês, a gente acha que é a nossa mãe. Aí vem a primeira pancada: não é. Aí, crianças, a gente acha que é o centro do mundo. Aí vem a segunda pancada: não é. Aí, na adolescência, a gente se rebela contra tudo e quer fazer tudo diferente achando que vai, com isso, mudar o mundo. Aí vem a terceira pancada: não vai. Aí, na meia-idade, quando as primeiras contas chegam, a gente se recusa a entrar no sistema e despiroca mochilando pelo mundo para fugir disso. Aí vem a quarta pancada: não foge. Aí vêm casamentos e filhos e você jura que com eles vai fazer as coisas bem diferentes. Aí vem o Belchior e joga na nossa cara que a gente faz igualzinho a nossos pais. Aí vem a quinta pancada: não cumpre. Aí vem a meia-idade e você tenta juntar todas as forças para fazer a vida ser mais do que uma mera sobrevivência, afinal depois de tanto investimento de vida, é apenas justo, não? Aí vem a sexta pancada: não é nada justo. Aí vem a velhice. O tempo passou, a gente olha para trás e dá um estalo. Aí percebe que a vida não era o que a gente tentava ser ou conseguir. Aí a gente percebe que a vida era o próprio processo de tentar. Aí vem a última pancada: não dá mais tempo. Aí só na outra agora.


Je vous salut, UA (28 anos depois)

01/06/2014

O ano era 1986. Dire Straits arrebentava os alto-falantes do meu fusca branco com o sax de “Your latest trick”, sax que até hoje ainda me treme as carnes. Eu começa o curso de Letras na UA. Era assim que a gente chamava a UFAM naqueles tempos coloridos do new wave e dos cabelos mullets. A UFAM veio um pouco depois. UA ou UFAM, a universidade tem o seu papel.

Fazer faculdade muda a vida da gente. Reclamamos porque, como dizem os veteranos, só há duas alegrias: uma quando entramos e outra quando saímos. Reclamamos das noites mal dormidas e viradas para fazer aquele fichamento do texto chato de Metodologia que a professora jura que é legal, filosofamos com Platão e mito das cavernas, achamos complexo, mas genial Marx e a sacação da mais-valia da aula de Sociologia. E conhecemos gente. Gente que vai seguir com a gente e dividir as angústias, os sorrisos e o salgado na cantina. Eu, por exemplo, conheci a minha primeira esposa na sala de aula. Ficamos batendo papo e rolou numa das ausências frequentes do professor de Psicologia. Aliás, isso é outra coisa que preciso pontuar: os professores e as disciplinas.

Em qualquer curso na UA, na UNICAMP ou em Harvard, há disciplinas boas e há disciplinas ruins. Há professores cujas aulas a gente não quer perder nem em dia de chuva torrencial e há outros para cujas aulas não ir se justifica por qualquer nuvem pesada no céu, um dia bonito de sol ou até mesmo um fio de tristeza nos olhos do cachorro. Tudo é motivo. Mas é assim. Logo a gente aprende que das boas aulas temos que sugar tudo e morrer de prazer. Eu e mais uns seis sempre ficávamos depois do horário ouvindo o professor João Bosco Araújo falar de filosofia numa das aulas mais encantadoras que tive oportunidade de assistir. Para as aulas ruins e chatas, resta cumprir tabela e torcer para o professor não atrapalhar. Tirei dez em Psicologia com o professor faltoso que certamente vale muito menos do que o 6,9 de filosofia registrado no meu histórico escolar, histórico esse resgatado com carinho meio amarelado de uma pasta de arquivo. A aula boa, aproveitemos. A aula ruim é fazer e seguir em frente do jeito que der. E por que escolhi falar sobre isso?

Vinte e oito anos depois, eu sou calouro de novo. Comecei meu curso de Psicologia. E tudo isso veio na memória como um filme bom. Lá estou eu de novo, caderno na mão, anotando nome de osso e estudando de madrugada as partes da escápula. Lá estou eu de novo, conhecendo pessoas legais, cheias de juventude – que um dia eu tive -, me fazendo querer que o fim de semana passe logo para a gente se encontrar de novo. O brilho nos olhos dessa moçada me energiza de uma forma bacana. Confesso que tenho gostado mais de ser aluno do que de ser professor. Pode ser mérito da novidade unida ao decurso de prazo mesmo. Afinal são 23 anos dando aulas na UFAM. Eu juro que eu tento dar uma aula bacana. Jamais assustaria os alunos batendo a cabeça do fêmur na mesa de ferro. Pausa. Risos. Volta. Mas por mais que eu tente dar uma aula agradável, penso que vez por outra meus alunos já me sentem meio cansado. Alguns devem certamente me colocar na lista das aulas chatas, preferindo ficar na cantina a me ouvir falar. Faz parte. Perceber-se cansado é um toque da vida para buscar mudanças. Talvez ser aluno de psicologia seja uma maneira de buscar a compreensão desses toques de forma fundamentada. Quem sabe?

Fazer outro curso de graduação me rejuvenesce, de certa forma. Colegas e amigos perguntam: “Por que diabos tu ainda vais estudar?”, “Mas tu já não és doutor? Pra quê?” Talvez uma pergunta responda a outra. Por ser doutor é que eu sei que não posso parar de estudar. Estudar o que eu não sei me exercita a mente e funciona como uma fonte de juventude para meus ânimos. O rádio é lateral. A Ulna é medial, Ci Thaline. O nó que esses 206 ossos estão dando na minha cabeça me devolve a humildade socrática: só sei que nada sei. Mas ando com o Atlas do Sobotta debaixo do braço para saber. É meu desafio. Acrômio, trocanteres, fossas e tubérculos. A linguagem anda enciumada de meus novos amiguinhos. Mas eu saúdo o novo sempre.

O título desse texto é o mesmo de um texto que escrevi em 1986, quando entrei na UA como calouro de Letras. Estava justamente a saudar a universidade. À época, o filme “Je vous salut, Marie!” de Godard havia sido censurado no Brasil. Eu saudava a UA, empolgado e desejoso de que aqueles tempos fossem tempos grandiosos na formação de um moleque de 17 anos. Queria aprender o mundo sem censuras, daí a provocação do título. Retomo o título 28 anos depois. Vivemos na democracia, tempos de liberdade de expressão, tempos de liberdade política, tempos outros, enfim. As roupas não têm mais aquelas cores berrantes, K&K e Company não são mais marcas da moda, eu já casei três vezes e Dire Straits só toca na sessão naftalina das rádios. Mas nesse lapso de vida de lá até aqui, aprendi a respeitar o conhecimento, a reverenciar a dúvida e a duvidar das certezas. Por isso resolvi começar de novo. Je vous salut, UFAM. Onde foi que deixei o meu CD azul do Dire?… SF


Démodé

20/05/2014

Tranquilidade“Num mundo de mudanças, do efêmero, do líquido, temos posta a urgência de correr, de se movimentar, de sempre partir, de sempre pular, de pisar no barro da trilha, de se atirar em queda-livre, de celebrar o novo. O estável, o perene, o sólido não são bem vistos. Contemplar sem pressa, ficar, preferir a endorfina à adrenalina são coisas que nos tornam cada vez mais anacrônicos, sujeitos fora do tempo. Como novos fumantes, negar a urgência nos leva a aproveitar o perene necessariamente em um canto retirado, escondido, para que a vida em fast-forward não nos veja e nos reprove. Querer o passo seguro, acostumado, manter os pés no chão, preferir caminhos conhecidos, olhar o penhasco de longe da segurança da planície e acariciar o velho patinado da vida… tudo isso nos põe à margem do espírito do tempo das urgências. Chegará o dia em que o ato de escrever uma carta de amor será banido pelo Zeitgeist. Porque cartas serão marcas de um passado distante, de uma gente que se organizava em torno do átomo e não do bit, do real e não do virtual. E porque o amor, sempre eterno em si, será um sentimento meio démodé, cheirando a mofo, coisa de uma gente que apostava num para-sempre e que não tem mais lugar nos tempos de uma vida que passa em vapts e vupts”. SF


Terra Nova, barco reformado

11/05/2014

Hoje estivemos nós e um grupo de amigos visitando um trabalho missionário no bairro da Terra Nova, Zona Norte de Manaus. É um trabalho da Pastoral do Menor levado no muque por duas irmãs que se mudaram de mala e cuia para o bairro. A Arquidiocese comprou a casinha, bem no meio de uma área de alta vulnerabilidade. A redondeza é barra pesada, segundo me falou uma das irmãs na conversa que tivemos quando fomos buscar os salgadinhos encomendados ali perto. Sim, salgadinhos. Era dia de festa. A festa que as duas, com apoio de jovens engajados, preparam para as mães da região.

E como fomos parar lá? Já há algum tempo, motivados por um pedido no Facebook, um grupo de amigos, pais das turmas de minhas filhas, resolveu se organizar para proporcionar um Dia das Mães diferente a senhoras idosas de uma casa de repouso. Cada um colaborou com o que pôde. Minha mulher passou a semana montando kits, coisa que ela adora, sabe fazer bem e faz com prazer. Só esquecemos de combinar com o pessoal da casa de repouso. Quando entramos em contato, a agenda deles estava cheia. Que bom que estava. Precisávamos então dar outro destino aos kits. Eis que ontem foi o Dia das Mães na escola de minhas filhas. Ocorreu de perguntarmos à irmã diretora da escola se ela sabia de algum lugar. Ela sabia. Tínhamos trinta kits. O lugar indicado pela irmã, soubemos ao ligar, iria fazer a festa do Dia das Mães, exatamente a do salgadinho que fui buscar. Para trinta mães. Os caminhos e atalhos infalíveis da mão divina. Deus não dorme.

O trabalho que as irmãs fazem é muito bonito. É missionário no sentido mais divino do termo. Uma delas contou na conversa que sempre teve tudo na vida, que era fresca até pra comer. Até o dia em que conheceu um lixão e viu a realidade de catadores. Foi seu pentecostes. Largou tudo e resolveu viver a vida que vive, contra, inclusive, parte da família. Além de tudo admirável, aquelas irmãs são absolutamente carinhosas.

Pediram para eu dar uma palavra para as mães. Eu falei de fé, de vida, de agradecimento a Deus. Falei coisas que saíram Deus sabe de onde. Talvez eu tenha sido impulsionado pela minha fé dormida, despertada pela situação. Cantamos parabéns em torno de um bolo e os meninos – as minhas duas inclusive – entregaram cada um dos kits, recebendo um abraço carinhoso de cada mãe e aprendendo, na prática, as diferenças da vida e a importância de se importar com o próximo, como a minha mãe me ensinou.

Estávamos exaustos, pois estávamos desde cedo lá e já passava de nove e meia da noite. Mas mesmo cansados, estávamos leves. Ao nos despedir das irmãs, uma delas me chamou de lado, me deu um papelzinho e um pacotinho e disse: “Guarde no seu bolso. Abra depois. E leve para onde você for”. Recebi um beijo sincero e fomos.

Paramos num restaurante no meio do caminho para jantar. Peguei o presente e o papel no bolso. O presente era um terço de madeira. Sim, eu vou levá-lo para onde eu for, conforme recomendado. E vou usar para rezar hoje antes de dormir, como há muito eu não rezo. O outro presente, o papelzinho, tinha o desenho de um barco e dizia:

“Tenho um barco a conduzir: de mim depende o seu rumo. Eu preciso desse barco para empreender travessias, para descobrir lugares novos e percorrer aqueles conhecidos. Tenho sempre trabalho com o meu barco, pois preciso cuidar das rachaduras que aparecem com o tempo. Preciso pintá-lo como uma nova cor e deixá-lo sempre deslizante para que não complique a travessia.”

Fomos lá pensando em ajudar e alegrar aquelas pessoas. E fomos nós os ajudados e alegrados. Fomos lá para levar presentes. E fomos nós que recebemos presentes. Eu, por exemplo, descobrindo lugares novos, tive as rachaduras do meu barco cuidadas. Eu tive a cor do meu barco, meio desbotada, trocada. Meu barco hoje está mais bonito e deslizante para essa travessia chamada vida. E o seu barco, leitor querido? A quantas anda? Feliz Dia das Mães. SF


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