A falta que nos faz

12/10/2014

O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?


Sniper

13/09/2014

Às vezes a melhor forma de companheirismo é manter o silêncio. É, na hora do desequilíbrio da relação, resistir à tentação de usar a informação privilegiada – que o amor dá no pacote – para fazer arder feridas abertas, que pedem para ser cuidadas pelo outro e não cutucadas pelo outro. Quando começa a se perder a certeza de que o silêncio também cura, se começa também a desnecessária sessão de agulhadas cirúrgicas, precisas, de quem conhece os pontos e sabe exatamente onde enfiá-las. É uma acupuntura às avessas: em vez de sarar, a agulhada queima, machuca, arde. É a informação privilegiada – feita para ajudar na partilha da vida a dois – sendo usada para fazer doer com precisão. É cruel isso. Porque não tem se tem defesa contra o franco-atirador que lhe tem na mira e conhece seus movimentos como ninguém…


Aviso

02/09/2014

Quando eu for velho eu vou usar laranja
Com bermuda florida que não combina e que vai ficar papagaiado em mim.
Vou gastar minha aposentadoria em minha coleção de corujas
Que vai se espalhar pela casa causando constrangimento às minhas filhas e dó às minhas visitas.
Vou a todo canto de chinelo e sempre vou dizer que não tenho dinheiro pra conta.
Quando eu for velho, vou sentar no chão quando estiver cansado, como fazia quando era criança, o que desde sempre me valeu o apelido de Velhinho.
Vou comer as amostras grátis no supermercado e pegar tudo que for brinde. “Para minhas netinhas”, direi eu à moça sem graça, que não me negará.
Quando eu for velho, vou roubar livros em livrarias e se o alarme tocar vou dizer que são meus pinos, meu filho.
Vou usar minha bengala para apertar válvulas de pneus de maus motoristas, desses que estacionam em vagas de velho. E vou sentar no meio-fio para ver a cara do imbecil.
Quando for velho, vou roubar flores dos jardins dos outros. Se for pego, vou dizer que é pra minha velha. Rirei um riso banguela e ganharei olhares ternos do dono do jardim.
Quando for velho, fingirei surdez precoce e profunda para ouvir as pessoas fofocando.
Vou escrever cartas à mão para um monte de gente, dizendo tudo que penso delas.
Vou furar as caixinhas de leite condensado e detoná-las inteiras, mesmo sendo jurado de asilo pelas minhas meninas, preocupadas com meu açúcar.
Quando eu for velho, darei a mim álibis para justificar desatinos que compensem a sobriedade de minha juventude. Fui muito certinho.
Quando for velho, e enquanto a mão obedecer, vou escrever poemas em folhas soltas e guardar dentro dos livros da estantes para que sejam descobertos por leitores anônimos quando eu me for.
Quando eu for velho, ninguém mais vai mandar eu fazer as coisas. Só farei o que quiser.
Ah, e quando eu for velho, eu vou dobrar a bainha da minha calça pra cima, com dobras bem largas.


Linha 352

31/07/2014

Aí eu perguntei: – Vai pra Zona Leste? O motora do 352 fez que sim com a cabeça e eu entrei. Dei dez reais pro cobrador que me olhou com uma cara feia. Mas tinha acabado de ter aula de anatomia e de ter visto cadáveres. A cara dele, então, era fichinha. Ele me deu o troco em moedas de 5 centavos. Passei e consegui sentar lá na frente. Logo o ônibus lotou. Quando chegou no ICHL, umas três pessoas, quase que simultaneamente, jogaram as bolsas no meu colo e disseram: – Segura pra gente aí, tio! Teve um calouro sem noção que percorreu o corredor todo com a mochila maceta nas costas fazendo strike na cabeça das pessoas sentadas nas cadeiras do corredor. É. aquilo ali era uma aventura darwnista. A sobrevivência dos mais fortes. Uma bunduda começou a esfregar a bunda dela no meu ombro. Mais do que ônibus lotado, acho que ela tava folgando mesmo. Do meu lado, um cara que fazia história – presumi pelo livro do Hobsbawm no colo – começou a colocar umas músicas cabeças no celular de dois chips dele. Alto pra cacete. Uma galera reclamou, mas ele nem aí. Olhei e o pessoal que estava de pé, exceto a gorda da bundona que continuava se esfregando na cabeça do meu úmero, estava todo em 45 graus para evitar o esfrega dos pervertidos, como manda o manual. Uma menina pegou o celular pra falar. Uma senhora mais idosa foi chegando perto do Hobsbawm para pedir lugar. Ele, num reflexo impressionante, desligou o celular e caiu num sono fingido para garantir o assento. De repente, um ladrãozinho puxou da mão dela e saiu correndo pela porta quando o busão parou perto do Coroado. Tudo muito rápido. Um herói, um aluno de língua portuguesa, ameaçou correr atrás, mas a moça disse que tudo bem, que aquele celular peba era o do assalto mesmo. Ela explicou: ela sempre andava com dois: o celular dela de uso mesmo, entocado e desligado, e um pebinha, pro ladrão. Numa faixa de pedestre na Cosme Ferreira, o motora deu uma freada que foi um freio de arrumação só: galera deu uma compactada. A gorda bunduda simulou desequilíbrio e caiu sentada no meu colo. Alguém estava com problemas nas glândulas sudoríparas e sebáceas, que estavam juntas numa revolta só no odor que aquele sujeito exalava. Com a freada, o cheiro da criatura deu um 360 no ônibus todo, vindo da hipoderme. Sim, minha aula de anatomia tinha sido sobre o sistema tegumentar. O cebolal estava cruel, de fazer chorar. Pior que o formol do laboratório. Fui chegando perto da minha parada. Devolvi a bolsa aos donos, disse que ia sair. Pedi licença à gorda, que saiu do meu colo. Desci na parada em frente de casa. Quando olhei, vi que a gorda desceu atrás de mim. Apressei o passo. Ela também. Entrei no condomínio quase correndo e gritei pro porteiro: – Braga, fecha o portão! Nem olhei pra trás com medo de virar estátua de sal. Cheguei em casa. Antes de subir, tive a leve impressão de que meu carro, na garagem, deu uma risada sacana pra mim e piscou um pisca só. Foi só impressão, claro.

PS: Nem voltei de ônibus. Minha mulher foi me buscar. A historinha aí foi criada a partir de relatos dos colegas, que me dissuadiram da aventura. Ainda invejo aqueles que vivem com adrenalina no toco por ter de pegar o 352 todos os dias. Quantas histórias eles devem ter…


A gente chora porque a gente se importa

09/07/2014

Hoje é dia de falar do jogo do Brasil e da derrota que nos tirou a possibilidade do hexacampeonato na Copa em casa. Há textos para todos os gostos, afinal foram 200 milhões de técnicos, 200 milhões de torcedores, 200 milhões de comentaristas esportivos, 200 milhões de ortopedistas especialistas em vértebras e 200 milhões de frustrados com a derrota. Por que não 200 milhões de escritores? Esse dia seguinte me traz algumas reflexões.

A primeira delas é quanto ao futebol e o que ele representa para o Brasil. Antropólogos já discorreram tinta bastante sobre o assunto e não vou reinventar a roda. Não há povo sem história e a história é sempre convocada a entrar em campo para explicar comportamentos coletivos. Em época de Copa, somos todos Brasil. É como se fôssemos convocados a vestir a camisa e nós mesmos tivéssemos de entrar em campo e fazer valer um traço pelo que somos respeitados pelo mundo: ser os melhores com a bola no pé. Daí a entrega, daí a garra, daí o choro. Perder tem um gosto de “sossega, aí, menino, que você não é isso tudo, não”. Perder é nos tirar o orgulho de dizer que se não somos o melhor em matemática, pelo menos não fazemos feio nos jogos escolares. As pessoas precisam ser reconhecidas e, para muitos, não confirmar ser campeão de uma Copa, ainda mais em casa, é a suprema frustração de uma superexpectativa de sucesso que salvaria a autoestima do sujeito, muitas vezes, talvez, a única em que ele se agarra nessa vida difícil que o joga para baixo.

Mas o mulato é inzoneiro e isso leva a uma segunda reflexão. Como inzoneiro é quem gosta de intriga, essa Copa também trouxe a inzona a seus limites, potencializada pelas redes sociais. Muita gente, num sinal de que o país está adolescendo, se revoltou com a Copa e com o sentimento coletivo de pertencimento ao momento de catarse da identidade de brasileiro via futebol. Como jovens rebeldes negando o pai, chutaram o balde do sentimento coletivo da realização pela bola e invocaram novos sentimentos coletivos, como a indignação pela falta de hospitais, de educação de melhor qualidade, de uma política mais decente. Admiro essas pessoas pela força de romper com um traço tão forte de nossa personalidade identitária, ainda que desconfie que tenham sofrido horrores com a derrota acachapante que levamos da Alemanha. O adolescente, sabe, no fundo, ama o pai mesmo quando diz que odeia.

Mas o adolescente, para se afirmar, quer causar, chocando, provocando, enfrentando, machucando. Foi isso que alguns fizeram com o sentimento de brasilidade que uma Copa traz. Criou-se um confronto inócuo entre os que queriam a Copa e os que não queriam a Copa. Dicotomizaram as opções: ou você torce pelo Brasil na Copa ou não tem sensibilidade social e está desautorizado a lutar por escolas, hospitais e tudo o mais. Mataram a possibilidade de você se indignar com a desigualdade social e, sem ser insensível à qualidade da educação, da saúde e da política, gritar um “Pega, porra!” bem alto, vindo das entranhas no gol do Fred no Neuer, gol que – Porra, Fred! – não veio. Mal perceberam os adolescentes subjetivos, mas eles transferiram sua paixão fundante pelo futebol para outro jogo: vocês, de camisa amarela, e nós, sem camisas. Qual um Zúñiga, entraram para rachar nas costas de gente que estava ali no campo só para se divertir, no lúdico, para gozar. Aliás, o gozo dos sem-copa nessa Copa foi tentar, com o fôlego do Robben, interditar o gozo alheio.

Freud fala em atos falhos: o lapsus linguae, o lapsus calami e o lapsus memoriae. Falamos coisas, escrevemos coisas e esquecemos coisas sem querer querendo. O pai da psicanálise acredita que nenhum “defeito” na língua é na sua totalidade um mero acidente ou acaso. Todo ato falho é um discurso bem-sucedido, do desejo que, licença Valesca, foi recalcado por alguma razão. Eu vi, nessa Copa, os revoltados falharem na sua tentativa de se desvincular de algo que lhes constitui: a brasilidade pelo esporte. Falharam pela jocosidade, pelo humor ácido, pela raiva que punham o tempo todo no centro do palco o amor do Brasil pelo futebol. Tal qual Malafaias e Bolsonaros, elegeram e combateram sua homoafetividade mostrando a importância do tema para si, não o retirando de suas pautas, sintomatizando sua importância. É como aquele católico que vira evangélico e tem de negar Nossa Senhora: deve ter doído para esse pessoal essa troca ilusoriamente necessária. Ilusioriamente porque, sim, dá para torcer pelo Brasil sem abrir mão de sua indignação social, desde que não compreendamos o mundo em preto e branco. Há muitos tons de cinza entre os dois extremos. Pun intended. Há dispersão. Faltou para muita gente a capacidade de compreender que um indivíduo é uma dispersão de sujeitos na ilusão de ser um só. Dá para ser pai, filho, professor, militante, amigo, adversário político e torcedor ao mesmo tempo. Basta saber circular e não abrir mão dos outros lugares para falar monotematicamente de um lugar só. “Alienare”, do latim, significa “abrir mão de”. Abre-se mão das possibilidades de dizeres diferentes para se alienar no sempre mesmo dizer. Aí fica chato.

Perdemos. Estamos fora da possibilidade de ser hexa em casa. Muitos choram. Compreensível: gozo interrompido. Alguns celebram. Gozo atingido. A complexidade do tecido social legitima os vários comportamentos. Concordar ou discordar é meramente um posicionamento em relação a tudo isso, mas não apaga, claro, a diferença, que sempre é melhor do que a singularidade imposta. O que eu ainda não consegui entender, no entanto, é como a tristeza de amigos, familiares, filhos e gente querida pode virar motivo de alegria para alguns. Porque quando a gente gosta, a gente chora junto. No mínimo, a gente respeita a dor. Eu me permiti bloquear pessoas nas redes sociais com esse sentimento daninho de tripúdio gratuito, que foram desrespeitosas com minha tristeza, que usaram suas questões mal resolvidas para machucar. A gente chora porque a gente se importa. Como minha filha, de sete anos, que dormiu soluçando e com febre no meu colo porque o Brasil perdeu. Valeu, Brasil. Vamos rir agora porque outro traço nosso é rir das nossas tristezas. Que entre o time-fora. Até a próxima Copa, claro. SF


João e Maria

15/06/2014

“Leve. A gente sabia ser leve. Criar nosso mundo, nossos enredos malucos. Eu era o rei e você a princesa. De repente você quis fugir da gente. Mas não fuja, não. Faça-me de seu brinquedo, minha criança. A gente tem de ser feliz. É nossa sina. Eu enfrento todos pela gente: batalhões de alemães e seus canhões só com meu bodoque. Sem medo. A gente nem chegou a saber o que é isso. Nossa inocência não teve tempo. Mas o nosso faz-de-conta terminou porque você sumiu no mundo. Sem me dizer nada. De rei virei bobo, de bobo virei arlequim, com um manto feito de retalhos coloridos de nossas histórias. Cada sutura um início, um meio, um fim. E vago por aí, louco das ideias, pés no barro, querendo saber o que vai ser de mim nessa vida velha sem porteira. Sem notícia da princesa…” SF


Deriva

15/06/2014

“Naquele momento eu compreendi. Há coisas que nos apontam caminhos. Coisas que não nos dão escolhas. É quase uma ordem. Sempre vivi na ilusão de ser sujeito, como o da gramática, aquele que decide e faz a ação. Aquele que afirma que sabe o rumo a tomar e vai. Capitão da sua nau. Naquele momento, eu aprendi que, sim, sou sujeito. Mas sou sujeito às vicissitudes dos ventos da vida, que caprichosos sopram pro lado oposto do que singra meu barco, nau sem rumo. Naquele momento, ela me ensinou que para quem está à deriva seguir a corrente do rio é às vezes a única alternativa. Há momentos em que a deriva é o caminho…” SF


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 95 outros seguidores