20/11/2009

Site de Campanha

Queridos leitores. O domínio http://www.sergiofreire.com.br estará dedicado à Campanha para Diretor do ICHL até o Dia 02 de dezembro. Depois volta blog. O Weblog Sérgio Freire  pode ser acessado em http://blogsergiofreire.wordpress.com  Valeu! Sf

16/11/2009

ICHL – UFAM

Amigos,

Sou candidato a Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras juntamente com a profa. Rosemara Staub, minha vice. Entramos nessa campanha porque acreditamos que muitos de nós já sabemos o que pode ser feito. Falta alguém para fazer. Rose e eu queremos usar nossa experiência administrativa em secretarias do Munícipio de Manaus e o nosso compromisso com a UFAM para, de forma propositiva, alterar qualitativamente o Instituto do qual fazemos parte.

Se você apoia nossa candidatura e é daqueles que gosta de ver a coisa acontecer, se manifeste. Deixe um comentário de apoio aqui, para que outras pessoas saibam quem está com a gente.

Aí em cima, na aba ICHL, você terá acesso a nossa proposta de gestão.

Obrigado e contamos com vocês.

Sérgio Freire e Rosemara Staub

09/11/2009

Um texto antigo para recordar

O Autor e o autordrasto

 

Ser autor envolve expor-se à crítica. Isso dá trabalho. Tem gente que prefere outro caminho: a cópia.

Autoria: um conceito em cheque?“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A chamada Lei de Conservação de Massa de Lavoisier serve de mote para começar a pensar o assunto desse escrito: a questão da autoria.

Na nossa sociedade ocidental, o conceito de autor surgiu junto com o de sociedade jurídica. Até então, no geral, os textos eram legitimados pela tradição e eram coletivizados. Com a sociedade de direito, aparece o conceito de responsabilidade por aquilo que se fala e que se escreve. Assim, autor é aquele que é juridicamente responsável pela circulação do texto.

Na teoria do discurso, ser autor é textualizar de alguma forma. Texto é entendido pelo discurso no seu sentido mais lato, como algo que produz sentido. Para o discurso, pode ser texto um conjunto de letras, um som, uma cor, uma imagem e até o silêncio. Sabemos que às vezes o silêncio grita, como na música de Abel Silva: “só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz”. No entanto, além de textualizar empiricamente (escrever, falar, calar), é preciso ainda por esse texto em circulação, pois circulando ele estará à disposição de outras pessoas para que elas possam lhe atribuir sentidos, fazendo o que chamamos de processo de fechamento. É por isso que não adianta nada escrever e engavetar o que se escreve. Posso até me sentir escritor, mas nunca serei autor.

A autoria é um conceito social. Alunos que fazem uma redação e a entregam para um professor como uma mera formalidade escolar não estão praticando a autoria. A redação escolar é um simulacro de um texto, pois não há fechamento, exposição à crítica. É só o professor que lê. Quando lê. Quando muito, talvez tanta redação ajude a melhorar a letra da criatura. Por outro lado, se os alunos preparam suas histórias como parte de um livreto a ser veiculado ou para uma exposição para o público externo da escola, a coisa vira uma experiência de autoria e de real produção de texto. Quem já fez essa experiência com seus alunos sabe como seu envolvimento e sua dedicação mudam quando sabem que a atividade vai ser socialmente visualizada. Para quem quiser ir mais a fundo nesses conceitos, sugiro a leitura do livrinho da minha querida amiga e professora Solange Gallo, Discurso da escrita & Ensino, da editora da Unicamp.

Sendo um conceito social, a autoria também age e sofre ação da sociedade em movimento. Hoje, há pesquisas buscando entender a redefinição de autoria a partir do advento das tecnologias de informação, como a Internet. Se antes o aluno copiava no muque seu trabalho na folha de papel almaço a partir das informações da Barsa ou Mirador, hoje ele dá uma googlada e um copy-paste no teclado do computador. Ao clique de um mouse, o texto está pronto. Ou o que ele acha que é um texto. Copiar não é textualizar. Copiar faz do copiador apenas um copista, manual ou digital, mas um copista. A facilidade da multiplicação dos bits está mexendo com a questão da autoria de forma inegável. Veja um exemplo: escrevi o texto Amazonês, um dicionário de regionalismos e mandei, como parte de um escrito para meus amigos leitores. O texto fez o maior sucesso. Fiquei todo gabado. Eu mesmo o recebi várias vezes. Ele, no entanto, chegava ou sem o nome do autor (no caso o belo que vos escreve) ou com o nome do remetente da mensagem (no caso o copista digital), como autor. Raras foram os e-mails que trouxeram meu nome e poucos foram os sites que deram os créditos. A apropriação ou o apagamento do autor se dá sem a menor vergonha e culpa. Faz parte da ethos da Internet circular bits.

A autoria também pode partir de um lugar já definido. Basta que eu diga que o texto é do Drummond, Caetano ou Luis Fernando Veríssimo que ele já será lido com olhos diferenciados. É o argumento da autoridade. Em seu site, O Millôr volta e meia desmente textos supostamente seus, como aquele sobre a Kelly Key. Claro que Millôr jamais escreveria algo tão canhestro. Quem conhece seu estilo mata na hora a falsa autoria. Então, podemos dizer que o falso autor não é o pai do texto, mas uma espécie de padrasto. Um “autordrasto”, por assim dizer. Por que alguém apaga a autoria ou apadrinha um texto com outro autor?

No caso da atribuição de autoria, a resposta até que é fácil: dar legitimidade através de quem é autor de fato, como no caso do Millôr e companhia. No caso do apagamento, há algumas outras razões. O primeiro motivo do apagamento da autoria é a inocência imagética. E o que é isso? É partir da imagem de que se um texto já está no mundo, ele é do mundo. Se o texto está aí, posso muito bem passar errorex ou deletar o autor,  assinar meu nome e mandar adiante. Só que um dia a ficha vai cair por bem ou por mal. O autordrasto vai ver que não é bem assim e essa imagem de que tudo se pode fazer com um texto alheio vai por água abaixo.

O segundo motivo é a incompetência de autoria. No plágio, na cópia, o autordrasto reconhece e passa recibo de sua incompetência em autorar, em criar um elemento gerador de sentidos. Essa incompetência se estende à incapacidade de entender que do mesmo modo que a informação circula para ser disseminada, ela circula para entregar o crime do copista ao mundo. Vejamos outro exemplo: depois de trabalhar trocentas vezes com Metodologia da Pesquisa nos cursos de pós, colecionei as dúvidas e problemas que geralmente surgem na elaboração de projetos. Criei um CD-ROM com todo o material necessário para alguém que vai elaborar um projeto. Plim-Plim: no cd tem um pouco de epistemologia, as normas da ABNT, um projeto pronto para servir de modelo, um esquema de escrita de texto, etc. Mais informações? Peça-me . Plim-plim. Qual não é a minha surpresa ao ver esse cd nas mãos de uma aluna de um curso de pós-graduação na área da saúde da minha Universidade. O encontro foi casual numa casa de fotocópias. Sugestivo. O detalhe: meu nome foi deletado e o cd foi assumido por um autordrasto. E pasmem: um professor doutor, colega da Universidade. Nesse caso, quero até acreditar que foi mais preguiça do que incompetência. Vamos dar um crédito aos doutores para não ficar muito feio. Não me incomodo que use, mas crédito intelectual é bom e a gente gosta. Afinal de contas, dá trabalho produzir textos e informações significativas.

A informação existe para ser divulgada e gerar nova informação. Mas informação vem de algum lugar. A esse lugar chamamos fonte. O que um autordrasto não percebe é que se ele se quer fazer reconhecido tem de entender as regras discursivas de onde atua. Quem está no métier escolar em qualquer nível, adquire reconhecimento por meio de conhecimento construído e não do conhecimento apropriado das fontes consultadas, o que aliás pega mal pacas. Simbolicamente, o aluno respeita mais um professor que cita suas fontes do que o que fica no blá-blá-blá conteudista anônimo ou quer fazer um texto passar como seu. O professor que sonega fontes deve ser processado pelo Imposto de Renda Ético. Depois fica por aí reclamando que o aluno copiou da Internet. Há aqui no mínimo uma incoerência entre retórica e discurso. “Faça o que o digo, mas não faça o que eu faço”, disparou a Dona Maria, que arruma aqui em casa e sempre tem um ditado para tudo.

O que estou querendo dizer com tudo isso é que acho que o comportamento do autordrasto é sintomático. É sintoma do desconhecimento do que pode e o que não pode legalmente (ignorância jurídica), sintoma de que não é capaz de se envolver em um verdadeiro processo de autoração do mundo (incompetência semântica), ou sintoma de sua incapacidade de se estabelecer profissionalmente se expondo à crítica (esvaziamento teórico). Em se tratando de um aluno de sexta série, em formação, até se admite que alguns desses sintomas apareçam. Em se tratando de um professor, aí não dá. Muito menos se for um professor universitário. Como diria aquela moça da novela: “‘É treva!”

Um autordrasto acadêmico quase sempre tem um problema freudiano com a autoria. Ele ama o autor e deseja sê-lo, mas não pode ou não consegue. E aí o rejeita, o nega, o recalca. Assim, no que depender dele, ele não deixará ninguém ser autor. Encastela-se em cargos administrativos e bloqueia a autoria de quem quer e pode ser autor, usando para isso trâmites burocráticos e institucionais que pode manipular. Claro que estou generalizando, resguardando as honrosas exceções de sempre. Mas há um grande número de autordrastos exilados em cargos administrativos.

Enquanto não desconstruirmos essa idéia de autordrastia que está se  tornando constitutiva do processo da escrita e enquanto não partirmos para um tratamento da prática textual como autoria real, vamos continuar reclamando que nossos alunos não sabem escrever. Como lugar privilegiado para a construção do autor, a Escola tem de perceber que o aluno que está aí é um aluno com um perfil diferenciado. É um aluno da imagem, que pensa de forma não-linear, um ser dos bits. Isso altera significativamente o papel e as expectativas desse aluno em relação à Escola e da Escola em relação a esse aluno, bem como requer a urgente redefinição do papel de professor. Professor autordrasto não pode fazer parte do processo de eliminação da autordrastia. Mutatis mutandi, é como colocar um policial viciado para tomar conta do depósito de drogas aprendidas. Professor autordrasto só serve de modelo para sedimentar a autordrastia do aluno.

Está na hora de uma mudança de atitude quanto a isso também. Digo também porque tenho escrito esses últimos textos sobre o professor. Pergunta para refletir: somos ou não somos autores? Textualizamos ou copiamos? Se não somos autores e somos autordrastos, por que os somos? Começar a se perguntar isso faz parte do início da escrita real de um texto: o texto de nossa identidade profissional. Se não fizermos isso, estaremos confinados a repetir o que textos alheios falam sobre nossa identidade. Pior: achando que o texto é nosso. Ser autordrasto de nossa identidade é cruel. Como diria de novo a D. Maria: “Assim, seu Sérgio, a coisa vai pra casa de Nola”. E vai mesmo, Dona Maria. Vai mesmo.

Sérgio Augusto Freire de Souza

20 de maio de 2004

07/11/2009

Muito autoritarismo e pouca autoridade

Discursos...A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no ‘You Tube’.

Fiquei pensando sobre o caso desde quando aconteceu. Li opiniões e comentários, tanto os que criticavam a ação dos alunos assediadores quanto os que parafraseavam em suas críticas o ato dos alunos agressores e, com isso, justificavam tal ato como resultado da provocação da moça. Dá para tentar compreender o fato de vários ângulos. Entro nele pela linguagem.

Parece que as opiniões se filiam, grosso modo, a dois discursos. O primeiro seria o discurso da “moralidade sexual” e dos “bons costumes”. Geisy foi “imoral” ao usar um vestido curto, provocando os assediadores que a perseguiram, “desrespeitando os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”, como diz a nota da Uniban que comunica sua expulsão.

O que seria o segundo discurso se caracterizaria, em tese, pelo respeito à “liberdade de se vestir e de se portar”, do “reconhecimento ao direito das mulheres”, da revolta contra o “preconceito”, do direito à  “democracia”. Segundo ele, todos têm o direito de, não vivendo na ditadura da burca, circular com bem entender. É a ideia de base.

Retirei palavras e sintagmas entre aspas dos comentários em blogs e no Twitter. Há variações, mas sempre são variações sobre esses dois temas: o da condenação da licensiosidade (a vadia mereceu!) e o da condenação do autoritarismo (alunos bárbaros!). Mudam-se as palavras, frases, comentários, piadas, mas ou se está em uma enunciação ou na outra. Qual é a sua?

Condenar a aluna pela saia curta ou condenar o ato dos alunos e agora a posição da universidade, filia o sujeito que condena a um discurso. Em sua nota, A Uniban diz que “a educação se faz com atitude e não com complacência”. Com isso, ela própria, como instituição, assina embaixo que concordou com o ato dos alunos, parafraseando de novo seu ato (dos alunos) com sua atitude (da universidade).

O que a primeira enunciação conceitua como abuso, a segunda chama de direito. O que a primeira chama de exagero, a segunda conceitua como liberalismo. O que a primeira conceitua como provocação, a segunda chama de preconceito. E vão-se infinitamente as falas diametralmente opostas porque vêm de discursos pretensamente diferentes e excludentes. Mas seriam mesmo dois discursos? Um da moralidade e um da democracia?

Todo discurso é funcionamento, prática. Discurso não é o quê se diz, mas como se diz e de onde se fala. Assim, na condenação moral à moça – leia-se moral cristã fundamentalista –, a imoralidade também se faz presente na total ignorância das regras de convivência social. E estou falando agora do comportamento instintivo dos alunos. Pensa-se assim: quando alguém passa dos limites que julgo razoável, tenho que suprimir esse alguém para resolver a desfeita. Superar a diferença é uma opção impensável. Para ficar na mesma linha de raciocínio, a título de exemplo: e se Jesus estivesse na Uniban naquela hora? Gritaria ele, como fizeram os alunos, “Pega a vadia! Liberta essa puta do cativeiro!” ou a cobriria com seu manto? Sentiu o drama?

Da mesma forma, na condenação ao ato dos alunos e da Universidade, podemos ver palavras cheias da intolerância e desrespeito à diferença. Alguns, se pudessem, pegariam os alunos e o reitor e os queimariam ou os empalariam em praça pública. Lei de talião pura. Olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazem na prática discursiva o mesmo que condenam na retórica linguística. Não, não adianta dizer que eu sou um reacionário defendo quem quer que seja. Se você está pensando assim, lembro que é de novo seu discurso dando os sentidos para os fatos. Só estou explicitando como os sentidos se fazem pela linguagem que, como disse, é minha praia e aonde vou de sunga, gostem ou não.

O que estou dizendo é que o que parecem dois discursos, por suas expressões linguísticas e enunciações diferenciadas, são de fato o mesmo discurso: o da intolerância, da irracionalidade motivada pela condenação do pensamento diverso, o discurso do pega pra capar. Há, no entanto, um outro discurso: esse sim é diferente porque condena a intolerância em todos os níveis e preza pela superação das diferenças dentro das regras jurídicas e sociais coletivas. Ainda bem que vi isso rolando também nas opiniões. O pensamento de base é: “Se há algo nas regras da Uniban proibindo saia curta, a moça errou e deve receber a punição prevista para a regra que quebrou. Se não há, morreu a história para ela. Se os alunos agressores igualmente quebraram alguma regra social, e devem tê-lo feito pela coisa cabeluda que foi, devem ser punidos também por quem de dever, no caso a Universidade”. Tolerância com o diferente, sem esquecer o respeito às regras. Ponto.

Agora sim, minha opinião. E, claro, ela se filia a esse último discurso. Acredito na democracia, no direito de ir e vir. Acredito também que isso só se conquista no exercício da tolerância e do regramento social. Sem isso, a sociedade vira anomia, vira barbárie. O fato da agressão à moça é lamentável sob todos os aspectos, só servindo para nós pensarmos em que raio de sociedade estamos vivendo. A posição da Universidade foi infeliz. Ficou numa saia mais justa do que a da aluna, legitimando o desrespeito à diferença e sendo injusta porque justiça é tratar desigualmente os desiguais.

Se Geysi feriu alguma norma da Uniban com seus trajes, que os incomodados fossem buscar no regramento suas razões e suas consequências. Se ela fosse minha aluna, como alguém me perguntou no Twitter, daria a ela minha opinião de que assim como ninguém controla os efeitos das palavras ditas, ninguém controla reações exageradas. Há a lei da física da ação e reação, que não pode ser ignorada. Mas diria também que há a lei da sociedade democrática que diz que ações e reações devem respeitar o estado de direito.

Não limitar o comportamento antissocial da turba com a autoridade institucional é criar no juridismo (as leis práticas não escritas, mas exercitadas) um jurisprudência para que outras intolerâncias se repitam. Errou a Universidade. E feio, em minha opinião. O papel de quem regula é regular. Para lá e para cá. E deixar as regras claras, punindo quem as extrapola. Sem isso, cairemos facilmente no reino da impunidade, do moralismo fácil, da hipocrisia e da democracia retórica.

Está na hora do MEC, que é quem regula a Uniban, que não regulou direito a questão, perdendo as rédeas da situação, se posicionar. Porque autoridade não pode ser confundida com autoritarismo, que é exatamente querer mostrar autoridade sem legitimidade. E liberdade não pode ser confundida com licenciosidade, com um laissez-fair, com um tudo-pode. Ou voltaremos todos a usar tacapes e pintar gravuras rupestres nas paredes.

E sabe o que mais? Eu acho muito bonita uma mulher de saia. Por mim, está liberado.

24/10/2009

Morada do Sol

Teatro AmazonasManaus faz 340 anos. Nasci aqui. Aqui cresci. Só saí daqui para estudar e morrer de saudades. Da tua gente, do teu calor, dos teus peixes, da tua murupi, do teu caos. Não, Manaus, apesar da boca banguela não te abandono como a Cidade Sorriso. Apesar do trânsito infernal, não me perco nos teus caminhos que, certamente, são os meus.

Não, minha nega, não sou daqueles que abre os olhos para apontar para ti mirando tuas cicatrizes, teu cabelo desgrenhado, tua fome de justiça. Porque esses que o fazem por proselitismo, hobby ou qualquer outra razão apontam o dedo para o lugar errado. A minha cidade tem sido vítima, mais do que algoz. A minha cidade tem sofrido desgovernos, desmandos, desabonos, desabrigo por pessoas que num desagravo desacanhadamente desacampam de suas terras, desadornam teus encantos, desacatam tua vergonha e desacorçoam tua gente. A esses, eu  desembainho despiedoso a minha espada. Que não fresquem contigo, maninha, que eu vou pra cima.

Inocente terra, minha terra. Muitos te inventam modas que não te pertencem. Travestem-ti de penas, luzes, brilho, quando tu querias o sossego da tua rede, dos teus igarapés gelados, da sombra das castanheiras que hoje rareiam em ti. Sei que crescer é inevitável. Sei que querer-te criança para sempre é ilusão. Mas que futuro te demos, moça? Que futuro te demos?…

Quero sempre ir no anseio de voltar. Ser aquecido pelo teu sol que renasce mais quente a cada manhã. Receber teu bafo quente no peito em sinal de carinho. Te reverenciar como fazem os dois gigantes das águas, que vêm se encontrar a teus pés em reverência. Quero tomar café na estrada, comer pupunha, tucumã com queijo coalho, tapioca de coco, tomar Guaraná Baré. Quero olhar sem fala teus monumentos, da época em que tu eras a debutante abastada. Teu teatro, teus palácios, tua memória, senhorinha.

Numa rede, numa quarta-feira, quero ler Aníbal Beça, Luiz Bacellar, Alcides Werk, Thiago de Mello, Milton Hatoum, Ernesto Penafort. Quero num sábado à tarde dançar ouvindo Paulinho Kokay, Raízes Cabocla, Pereira, Candinho e Inês, Eliana Printes. Quero olhar para os lados e perder a respiração vendo a arte de Moacir Andrade, Turenko Beça, Otoni Mesquita, Arnaldo Garcez, Berna Andrade.

Minha caboquinha, te agradeço por acolheres nos teus 340 anos as minhas décadas de memória, de saudade, de indignação, de felicidade, de tristezas, de alegrias, de orgulho, de decepção, de participação, de omissão por ti. E te desejo, do fundo do coração baré, maninha, o melhor dos futuros, porque no teu tempo e no teu espaço coloquei para brincar de manja, de barra-bandeira e queimada os meus bens mais preciosos: as minhas duas caboquiras, minhas filhas caboclas/capiriras, que, como o pai, chiam no “S” e gostam demais daqui. Porque, como diz o Aníbal Beça em sua bela poesia, mais do que morar em ti, tu é que moras na gente.

19/10/2009

Os Dez Mandamentos do Twitter

Twitter? @sergiofreire1 – Preferirás o Twitter sobre todas as outras redes.

2 – Não usarás seus 140 caracteres em vão.

3 – Guardarás o #FF e MusicMonday para esses dias.

4 – Respeitarás os old hands que chegaram antes.

5 – Não darás block ou unfollow, mesmo quando queres matar.

6 – Só adulterarás para o RT caber.

7 – Não furtarás tweets alheios.

8 – Não farás RT criticando @teuproximo com @.

9 – Não protegerás seus Tweets.

10 -Não cobiçarás os followers do @teuproximo.

Amém.

15/10/2009

Um texto antigo pra recordar

ETERNOS ALUNOS

Alunos, todos iguais... :)Adoro dar aulas: pessoas reunidas em volta do fogo da curiosidade, como faziam na pré-história os homens em torno do fogo para se aquecer. Um das belezas em ser professor é a possibilidade de conhecer muita gente. São 23 anos de magistério. Tenho colegas de trabalho que foram meus alunos. Tenho alunos que foram meus colegas de trabalho. São muitos os que me deram o prazer da convivência. Esse percurso fez-me pensar nos tipos de alunos que temos. Se você é professor vai saber do quer estou falando.

O primeiro tipo de aluno é o sabe-tudo. A cada frase do professor, o sabe-tudo levanta a mão. Se deixar, ele fala a aula inteira. Adora testar o professor. Por isso faz par com o desconfiado. O desconfiado assiste à aula com uma sobrancelha alta e outra baixa, como quem diz: “será que o que esse cara sabe do que está falando?” Esparrama-se na cadeira e põe a mão no queixo, como O Pensador de Rodin.

Há também o aluno concordante. É terminar uma frase e ver o concordante concordando, com sua cabeça de mola para cima e para baixo. Mas diferente do sabe-tudo, ele é humilde. Sabe que a educação pode lhe acrescentar algo. Ele concorda convencido. O que concorda para agradar é o puxa. Tive uma aluna que dizia: “Bom dia, professor. Sua aula é a razão de eu estar aqui hoje”. Descobri que ela dizia isso a todos os professores. E eu me achando.

Outro tipo é o reverente. Para ele, o professor é mestre, digníssimo ou, em caso de reverência suprema, digníssimo mestre. Sempre comenta as “sábias palavras muito bem colocadas pelo mestre”. Outra figura é o dialogador pós-aula. A aula termina e o dialogador se aproxima, devagarzinho, e começa a comentar a aula, acompanhando o professor até a sala dos professores. É um momento de individualização do ensino. O paciente é mais um tipo presente. Ele é paciente no sentido médico. O professor é Dr. Freud e dele o paciente espera conselhos sobre sua vida, trabalho, planos ou qualquer encruzilhada existencial.

Há o spammer, que lota o e-mail do professor com mensagens imensas. Os spammer são inofensivos quando se tem um bom antivírus. Há o citador, que a cada aula manda: “Como dizia Paulo Freire, ‘não há docência sem discência’”. O citador trabalha com palavras-chaves: é ouvir uma que está indexada e disparar de pronto. Se você for professor homem, um tipo típico é a apaixonada. Ela joga charme e o chama de fofo. As paixões no contexto educacional existem, mas são despertadas mais pelo lugar simbólico ocupado pelo professor do que por suas qualidades pessoais intrínsecas.

Poderia elencar mil tipos, mas é dispensável. Cada professor que faça sua lista. Como entendo deste assunto, só usei o espaço para fazer uma breve colocação, ainda que desconfie que você possa não gostar do texto. Se você discordar, tudo bem: o leitor é quem manda. Só saber que você está me lendo torna meu dia melhor. Qualquer dia desses, digníssimo leitor, a gente conversa e conto minha vida. Tenho certeza que sua opinião vai me ajudar. Por enquanto, a gente se comunica por e-mail. Vou enviar uma linda mensagem de apenas oito megas para você refletir. Porque é como dizia Barthes: “o autor está morto. É o leitor que constrói o sentido de um texto”.  A propósito, sou apaixonado por nossa relação. Não tem jeito: somos eternos alunos.

12/10/2009

Máquina do Tempo

Eu sou esse, de botinhas, olhando para a câmera.Quando era criança de idade, eu era muito danado, dizem meus pais. Há registros nas delegacias da memória de que eu rasguei um sofá a faca para ver o que tinha dentro, de que com a mesma curiosidade, espatifei uma televisão máscara-negra no chão, de que recortei os elefantinhos que estampavam uma toalha de mesa de plástico de uma das minhas tias. Entre os crimes mais leves, conta minha mãe que tirei todas as etiquetas que identificavam os tecidos nas lojas Pernambucanas para fazer um baralhinho. Aprontava tanto que uma vez no catecismo a professora perguntou: “Quem jogou a pedra no Golias?” e eu fiquei quietinho com medo de pensarem que tinha sido eu.

A infância é um momento mágico. O mundo é sempre uma novidade. Conceitualmente, como não temos nada, teoricamente podemos tudo. Da mesma forma que experimentamos com o mundo que se descortina, experimentamos com a linguagem que o desenha para nós. Vejam se não é poesia pura: “Pai, bati meu cotovelo do pé”, “o sanduíche deu um hambúrguer para o sonho do sorvete que o picolé sonhou”, “se minha mãe é mamma mia, papai é pappa pia”, “noite é dia com luz apagada”, “você mentirou pra mim”, “Não fiz nada! É mentira do barulho!”, “hoje não é amanhã”, “eu também quero fazer xixi de canudinho”, “brinca eu, mãe? Tá aqui os brincos”, “pai, você não é criança porque você pessoa”.

Assim como a liberdade linguística vai se esvaindo com o tempo, perdendo a poesia da linguagem infantil, o mundo vai se adultizando, se pasqualezando com a idade. E cá entre nós: quantos de nós, adultos, lembramos de nossa infância com uma ternura perfumada? Porque, de fato, crescer é muito chato. Para suportar crescer é preciso deixar que a criança que mora na gente não se vá. Muitos enterram a criança quando encontram seu primeiro emprego, quando compram seu primeiro carro ou têm seu primeiro filho. Outros lhe tiram o oxigênio quando arrumam um namorado ou porque alguém disse que se fica feio quando se faz caretas. Ou porque não se sabe dançar.

Claro que precisamos das responsabilidades, mas esquecê-las de vez em quando faz parte de uma irresponsabilidade infantil necessária. É tão necessário para a sanidade lamber a tampa de iogurte, chupar a lata de leite condensado e raspar a forma do bolo de chocolate quanto o é deixar o jantar pronto na hora certa, pagar as contas em dia e se sentir socialmente útil.  Ser uma boa mãe não é incompatível com pedir colo para a sua tantas vezes quanto achar que precisa. Não há nada melhor do que estar exposto a alguém em quem você confia. Minhas filhas se jogam com borra e tudo na piscina quando sabem que os meus braços estão lá dentro a lhes esperar.

Admitamos: ser adulto é muito chato. A gente só vai aguentar até o fim se deixar a criança gritar na igreja, pular cambalhota no rio, riscar a parede da sala da vida. Agradeça por ser adulto e poder dirigir, fazer sexo, comprar coisas. Agradeça por poder escolher com quem vai se relacionar, mas não esqueça de se relacionar com muitas crianças ou com aqueles adultos “idiotas”, aqueles que fazem piadas de tragédias, que não perdem a chance de rir, inclusive de si mesmo. Tire sua criança do armário, sempre que quiser, para fazer coisas bobas e ser mais feliz. Seja, desavergonhadamente, uma criança grande, e deixem que lhe chamem assim. Seja bobo, otário, esquisito, rótulos que adultos que não conseguem se criancizar usam com muita frequência.

Meu número especial, sempre que estou muito adulto, é puxar a bermuda até o peito e sair correndo onde quer que esteja feito um maluco com as pernas abertas. Nada paga o sorriso aberto que minhas filhas dão diante da cena grotesca e divertida. Eu me vejo com 70 anos, vovô, velhinho, divertindo os meus netos com isso, sob a reprovação resignada da minha velha.

Olhos para as minhas filhas e já sinto saudade da época em que as ninava no colo. O tempo passa. É assim. Choro um choro saudável ouvindo “Máquina do Tempo”, do Flávio Venturini. Só rezo ao bom Deus, enquanto tento fazer minha parte, para que elas nunca deixem de ser criança, apesar do tempo que foge. Para mim, como são sempre os filhos para seus pais, elas serão sempre “as meninas”. E eu, bom… eu vou sempre tentar não ser sempre “pessoa”, para ser criança quando der. Feliz dia das crianças para vocês, para os meus irmãos Biafra, Papau, Drida e Djub. E para as crianças. Livres ou reclusas. Novas ou velhas. Como eu.

11/10/2009

Um dia de domingo

Pig, o peixeMeu domingo é meio padrão: acordo cedo para fazer os tetês das meninas. Lá pelas seis e meia, sete horas. E não durmo mais. Faço um café para Bia – pois eu mesmo não gosto de café de manhã – , vejo e-mails, dou umas tuitadas, leio as notícias do dia, compro pão, lavo a louça e arrumo a casa. Fico no computador até as minhas mulheres acordarem, lá pelas onze. Comemos algo e nos preparamos para sair. Hoje decidimos almoçar no Manauara para levar as meninas para curtir aquela brinquedolândia que inaugurou lá. E depois dar um pulo no Amazonas para comprar comida para o Pig, o peixinho que elas ganharam com um aquário como lembrança do aniversário da Maria Fernanda.

Todo mundo pronto. Cadê a chave do carro? Disse para Bia descer com as meninas e me esperar lá embaixo enquanto procurava. Virei tudo e não achei. Os gnomos da chave do carro fizeram um bom serviço dessa vez. Desci e confessei: não achei. Pedi para Bia subir e para ela procurar porque eu, como quase 100% dos maridos, nunca acho nada a um palmo do nariz. Ela subiu e demorou. Até que ligou para o celular pedindo ajuda. Também não estava achando. Sobe todo mundo. Procura todo mundo. Depois de algum tempo, achamos. Vamos! No caminho, no rádio, “Um dia de domingo”, Tim Maia e Gal Costa.

O shopping estava lotado. Véspera do dia das crianças. Resolvemos almoçar primeiro, pois  já eram quase duas horas. A Bia vira e diz: “vai lá no Bob’s, compra uns nuggets. Depois vai no Giraffa’s e compra qualquer coisa”. Aí eu comecei a ficar perturbado. Marido odeia vagueza. Como “compra qualquer coisa”?!  Eu prefiro assim: “vai lá e compra dois Girapratos, um com hambúrguer e outro com carne, um com batata girafinha bem fritinha e outro com batata comum, mais dois refrigerantes, sendo um grande, Coca comum, e um médio, Coca-zero. Um com gelo e um sem, e traz um brinquedo rosa e outro amarelo, se não tiver mais pode ser o roxo”. Dá mais trabalho pra memória, mas a chance de errar e levar um xingo é bem menor. E disse, para completar: “Vê isso aí que eu vou mostrar o parque para elas”. Eu odeio ficar sozinho nessas. Síndrome de caixa de supermercado. Na hora de pagar: “ah, peraí que esqueci a carne. Vou buscar”. Pet Peeve. Realmente me tira do sério.

Comprei os nuggets e sentei, esperando que voltassem. Finalmente voltaram e a primeira coisa que a patroa pergunta: “e as outras coisas?”. Respirei fundo, com as forças que ainda restavam no meu corpo dada a fome que faziam uma parede do meu estomago comer a outra. “Vou comprar, amor. O que você quer?”.  Todo mundo acomodado, recebi as instruções, dessa vez detalhadas, e fui repetindo na cabeça pra não esquecer. Nisso, uns alunos queridos, subindo a escada rolante, gritam: “professor!!!” Só percebi quando eles se esgoelaram. Quando olhei pra cima, dei um tchau xoxo para não desconcentrar e o esquecer o cardápio. Não adiantou. A Adrienne ainda disse no Twitter que eu caí no conceito dela por causa do meu tchau blasé. Voltei com as coisas. Batata errada, claro. A Adrienne e a Lívia me desconcentraram.  Tudo bem. Sexta tem o seminário da equipe delas e eu desconto. Bem blasé para não dar na cara.

As meninas começaram a comer. E a nossa comida? “Ah, quero picanha do Picanhamania”, disse a Bia.  É claro que a Picanhamania ficava do outro lado da praça de alimentação. Translado de bandejas. No caminho, a lata de Coca-cola ainda foi para o chão. Depois de muito desfilar com as bandejas na mão, achamos um lugar. Bia ficou alimentando as ferinhas e eu fui para a fila comprar nossa picanha.

Um capítulo à parte. Fila imensa. Atrás de mim um casal, Jovaldo e Cinira, e Pai e Mãe, cujos nomes não fiquei sabendo, mas que pelo vocativo saquei que eram o pai e a mãe dela. Aí começou a tormenta. Cinira pegou o cardápio e foi explicá-lo: “se você quiser, pai, picanha, arroz com brócolis e batata frita é o 1. Se trocar o arroz com brócolis pelo arroz branco é o 5. Mas se quiser o arroz com brócolis e, em vez da batata, purê é o 13. Com arroz branco e batata é o 19” (que, a propósito, era a nossa escolha).  Imaginem as combinações exponenciais e a Cinira, tal qual um Galvão Bueno da Picanha, narrando uma a uma. A Mãe ainda perguntou para o Pai se ele ia tomar Coca Zero. Ele disse que não porque não queria ficar reprovado. Todos riram sinceramente dessa grande piada. Dose. Isso tudo entremeado por pedidos de licença das pessoas que precisavam passar, cortando a fila. Ou eu tenho cara de boa gente ou de leso porque tudo mundo só ia quebrar a fila no meu lugar.

Quase chegando lá, vejo a Bia acenando como quem diz: “Tá demorando… muda de restaurante”.  Balancei com a cabeça e fiz que não entendi. Chegando ao caixa, pedido na ponta da língua: Dois 19, duas Cocas-zero – reprovados -, Visa Electron, débito. A família Bueno ao meu lado, no outro caixa. Escolhendo, acreditem, ali, naquela hora, os seus pratos. “Não dá para tirar a farofa do  17 e colocar purê além das batatas fritas?”. Odeio quem quer mudar cardápio pronto.  E odeio gente do pescoço vermelho, como o do Pai. E gente com pulseira de prata grossa, como o Jovaldo. E gente com dente da frente separado, como os da Cinira. E gente cadeiruda, como a Mãe da Cinira. Juntou tudo ali. A caixa devolveu meu cartão, bem blasé, Adrienne, como só caixas de praça de alimentação do shopping e professores universitários sabem ser. Sexta tem seminário. Fui esperar a ser chamado. Meu número era 57. Estava no 50.

Na mesa, tentava entender a lógica das senhas. Para que senha se ela não segue a ordem? Do 50 foi para o 53, voltou para o 48, pulou para o 56, voltou para o 51, me irritou com o 58 e, so aí, derradeiro golpe, o 57. Fui buscar as bandejas. Cortei a fila onde havia um cara com cara de leso. Ou de gente boa. Fui e voltei pelo mesmo lugar. E comi a picanha, tentando descobrir que combinação, afinal, os Bueno tinham escolhido. Sim, amigos da Rede Globo, eles estavam na mesa ao lado.

Fui desintoxicar na Saraiva. Comprei um livro, como de praxe, e um DVD do Pokoyo para as meninas. Cansado, eu não via a hora de ir para casa. Mas a Clara, memória de mamute,  apesar dos seus três anos, lembrou: “Pai, a comida do Pig, no Amazonas!” Fomos lá. Mas não saí do carro. Estacionei perto da porta do petshop e a Bia desceu. Quando ia saindo, eu disse, blasé (Ah, sexta-feira…): “Vai lá e compra qualquer coisa”. Comprou o Básica Ball, alimento para peixes ornamentais. Chegamos em casa. O Pig se esbaldou na fécula de mandioca. Por coincidência e para acabar essa narrativa com chave de ouro, a vizinha do 604 colocou Fagner para tocar bem alto. Quem dera ser um peixe. Quem dera. Pig folgado.

03/10/2009

Cinco lições para torcer pelo Tarzan

Tarzan e jacaré: torce por qual?Sou professor desde 1985. E lá se vão quase duas décadas e meia vivendo o dia a dia da educação. Em 2005, fui convidado a fazer parte de uma Secretaria Municipal de Educação que então cuidava de 410 escolas, 250 mil alunos, 14 mil professores. Aceitei o convite e por lá fiquei por três anos. Não me parecia coerente passar uma vida formando professores e lhes falando dos problemas da educação e diante da primeira oportunidade furtar-me a poder alterar, ainda que minimamente, o estado de coisas que criticava em sala de aula. Foi um grande aprendizado em vários sentidos. Aprendi várias lições, que sintetizo em cinco.

A primeira delas é a de que é muito mais fácil administrar quando não se ocupa a cadeira do administrador. Na maioria das vezes, essa crítica vem fácil porque a não realização de demandas que gostaríamos de ver atendidas é simploriamente reduzida à falta de vontade política. “Não se faz porque não se quer” é a frase de base. Quando se ocupa a cadeira do administrador público, no entanto, percebe-se que a decisão de não se fazer porque não se quer é precedida por uma série de condicionantes. Não se faz às vezes porque não há amparo legal. Às vezes porque não há dinheiro para aquilo, porque recursos na coisa pública têm destinação específica. Não se faz às vezes  porque mesmo com recursos e amparo legal não há sustentação política para se fazer. Assim, com as leis do seu lado, com os recursos disponíveis e com decisão política, o administrador, aí sim, decide se faz ou não. É onde a boa política faz diferença.

Aprendi também que há dois tipos de administração: a positiva e a normativa. A positiva: há um problema. Que soluções temos para ele? Solução a, solução b e solução c; a normativa é a escolha de qual dessas soluções possíveis vai se implementar. Aí a escolha é política. A título de exemplo: positivamente podemos dizer que a gestão escolar pode ser preenchida: a) por indicação política b) por eleição ou c) por processo seletivo interno de mérito. Se a nomeação de diretores de escolas vai ser feita por indicação política, por escolha no voto de deus e o mundo ou por avaliação da formação técnica do postulante ao cargo com impessoalidade na escolha já é uma decisão de administração normativa do prefeito e de seu secretário de educação. Com isso aprendi que muitas das críticas por opções tomadas são críticas que vêm da discordância em relação à administração normativa, sendo, portanto, legítimas e necessitando, assim, de que sejam levadas a cabo com argumentos convincentes de que são de fato as melhores opções dentre um leque de. E quem não for convencido vai espernear até que ganhe o poder político e faça do seu jeito. É assim. O coro dos descontentes sempre há de existir.

Um terceiro aprendizado: na administração pública ainda há resquícios do marxismo romântico, charmoso e sedutor. É um marxismo que desconsidera, o que surpreenderia o velho Karl, a dialética marxista e dicotomiza o mundo em nós e eles. Nós, claro, certos. Eles, lógico, errados. “Hay gobierno, muchaco? Soy contra!”  É o contrismo a priori. Pessoas que por ser oposição à administração, qualquer uma, pois sempre representam “o poder repressor estabelecido”, se enraízam nesse lugar. Para elas pensar fora desse discurso é absolutamente nonsense, um sentido impossível. Evocam a revolução, buscam o poder, mas quase nunca se envolvem, limitando-se a dar as coordenadas. Se eventualmente chegam ao poder, seguem um dos dois caminhos lógicos ao perceberem que a revolução é contingenciada por  normas e regras: se acomodam a elas para poder transformar com suas decisões normativas aquilo de que discordam ou piram o cabeção e saem fora correndo para voltar ao confortável lugar de oposição crítica. Olhe para o lado esquerdo e veja exemplos.

Um quarto aprendizado: dá para fazer. A tendência administrativa é a histórica manutenção da zona de conforto. Todo mundo reclama de tudo, mas a ordem oculta é não mexer em nada nem em ninguém porque está bom demais. Quando alguém resolve alterar processos, questionar procedimentos ou executar o previsto que não é cumprido, o mundo cai. Pois se você não está disposto a mudar ou de enfrentar os descontentes e desconfortados, nem se meta a administrar a coisa pública. Mas, como disse e repito, dá para fazer. Dentro das contingências legais, orçamentárias e políticas e sabendo que alguns lhe odiarão de graça ou talvez porque você tenha mexido no seu queijo. Fazer requer propositividade crítica. Explico: conhecer o cenário, seus limites e desafios, mas não se deixar ser imobilizado por eles. Há muitas pessoas que vêm com argumentos como: “Olimpíadas no Rio? Melhor não… olha a corrupção”.  Não percebem os que assim argumentam que naturalizam a corrupção, a dando mesmo como fatal, e imobilizam tudo: além dos avanços advindos de uma escolha dessa natureza, imobilizam também o próprio combate à corrupção, vista como constitutiva do caráter brasileiro. É muito conformismo embrulhado numa retórica de papel de presente brilhante para meu gosto.

Quinta e última lição: há sempre grupos, há sempre lados. Impossível administrar contemplando todos. Se a administração é pública, republicanas têm de ser as decisões, beneficiando a maioria. Saber lidar com a pluralidade é um dos exercícios mais pedagógicos que alguém com a caneta de administrador público na mão tem de fazer. Ouvir, explicar e superar as diferenças. Nunca suprimi-las. Quem administra a coisa pública pode até errar, pois isso é da falibilidade humana, mas não pode mentir, enganar. Há uma ética entre adversários. Tem de haver.

É isso. Preciso dizer que hoje vou para minha sala de aula de formação de professores com um princípio no bolso do jaleco para lhes oferecer: conheça o cenário, saiba de suas limitações, não apague suas potencialidades, respeite quem discorde de você com argumentos e, na hora agá, torça pelo Tarzan. Porque já tem gente demais apostolando pela política da terra arrasada e torcendo pelo jacaré.