Primeiro dia de aula

[Hoje foi o primeiro dia da aula da Marina, minha caçula. Para descrever um pouco a sensação, reproduzo o texto que escrevi por ocasião do primeiro dia da Ana Clara, ano passado].

MarinaO antropólogo alemão Arnold van Gennep fez um estudo sistemático dos cerimoniais que em diversas sociedades marcam a transição dos indivíduos de um status para outro. A esses momentos chamou de “ritos de passagem”. Gennep concluiu que a maioria dos ritos analisados observava uma seqüência que incluía “separação”, “transição” e “incorporação”. Mais do que uma transição particular para o indivíduo, esses momentos representam a sua progressiva aceitação e participação na sociedade na qual está inserido, tendo, portanto, tanto o cunho individual quanto o coletivo.

Segunda-feira foi o primeiro dia de aula da Ana Clara. A teoria de Gennep se atualizou naquele serzinho de um ano e sete meses. Uniforme, merendeira, mochila, além de dois lindos pitozinhos, faziam parte de sua apresentação para a cerimônia de sua iniciação no universo da escolarização. Como prevê o processo, houve a necessária separação. O corte afetivo gradual da presença dos pais fomenta na sua pequena subjetividade a inevitável individualização. Da separação, a pequena Clara partirá para a transição entre um mundo egocêntrico e um mundo ecológico, no sentido amplo do termo, de convivência entre os iguais, no caso seus coleguinhas do pré-infantil, incluindo aí um japinha chorão. Sua inserção nessa nova ordem simbólica é um inevitável passo para a incorporação do discurso pedagógico e de seu lugar na sociedade.

Parece pouco, mas não é. A escolarização e a conseqüente individualização do sujeito e sua acomodação ao lugar escolar a ele destinado têm conseqüências perenes na vida das pessoas. O rito de passagem para a educação sistemática escolar em nossa sociedade requer um cuidado e uma responsabilidade imensa dos agentes que a executam. Seus papéis, se não desempenhados de forma a proporcionar a inserção tranqüila dos sujeitos da educação, podem bloquear seu desenvolvimento na ordem do discurso educacional, limitando também, assim, sua inserção no mundo da cidadania protagonista, que vai além da cidadania presumida de ter um documento de identidade. Na verdade, a entrada na escola é um importante momento na formatação da identidade psíquica da criança, que é o que vai balizar seus comportamentos pelo resto de sua vida.

Como pais, nossos corações ficam miudinhos. Porque para nós também se trata de um rito de passagem, com as mesmas etapas de “separação”,” transição” e “incorporação”. A necessária separação de minha filha durante o período escolar serve para me lembrar que a vida é feita de desencontros, de acomodações ao inevitável e de incorporações de novas realidades ao cotidiano. É assim o tempo todo com tudo.

Eu estudo, trabalho com e pesquiso sobre educação. Faz parte da minha profissão. Mas nenhum livro me fez ver tanto a delicadeza e a fragilidade do momento educacional quanto o dia em que soltei a mão de minha filha e a entreguei às mãos de sua professora naquela tarde de segunda-feira. Com a humildade de um doutor acadêmico, tenho que admitir que aprendi uma lição sobre educação que não sabia. Tivemos, eu e ela, nosso primeiro dia de aula. E compreendi que os ritos de passagem não são iguais. Para uns são mais tranqüilos, como para a Clara. Para outros, mais dolorosos. Como para mim e para o japinha.

Sérgio Augusto Freire de Souza
Jornal Em Tempo, 13 de fevereiro de 2008

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3 respostas para Primeiro dia de aula

  1. Larissa disse:

    Suas meninas indo cedo assim pra escola vão ser muito prendadas! Tá certo!

  2. Daisy disse:

    Os textos em que cita suas filhas são lindos. Elas têm sorte de ter um pai tão amoroso!

  3. Vanessa Marruche disse:

    É engraçado ler seus textos quando você fala da sua família. Com eles, você nos aproxima dela. Eu geralmente vejo todas as fotos no Twitpic de vocês. Principalmente das suas pequeninas. São LINDAS! Vi os vídeos no Youtube e não há como não se encantar. Gostaria de agradecer por dividir conosco um pouquinho do que é a sua família. Faz a gente experimentar sensações sem vivê-las. Sabe como é?! Parabéns por mais um texto, melhor dizendo, por mais uma dose encantadora do que é ser pai dessas fofuras a partir do seu ponto de vista.

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