Um texto antigo para recordar

SAUDADE

Hoje acordei com saudades. Saudades da minha infância e da casa da minha infância: sua goiabeira, seu banheiro quente, o beliche no quarto dos homens. Saudades de ajudar meu pai a desentupir o ralo com um arame na chuva, de comprar bombinhas na taberna, de lavar o fusca na garagem com a mangueira esticada que fugia do bico da torneira.

Saudade dos meus cães Laika, Pongo, Saussure. Do futebol na rua e dos dedos esfolados no asfalto, a grama dos campos da infância nos anos 70. Saudade das brincadeiras de rua: garrafão, barra-bandeira, cemitério, coquinho-cocão, cangapé, das manjas. Saudade de entrar em casa, já escurecendo, imundo, com cordões de ceroto no pescoço. Saudade d’Os Trapalhões.

Tive saudades bem-comportadas dos amores de minha vida. Ana Maria, o primeiro beijo. A Margareth, que nunca me deu bola, a quem dei o disco do melô do piano em forma de coração no dia dos namorados de 82, em plena Copa da Espanha. Ela, insensível, não amoleceu o coração. Chorei copiosamente. Por ela e pelo estrago que o Paulo Rossi fez em cima do Brasil.

Sinto saudades dos brinquedos: Falcon, Forte Apache, Genius, Professor Corujinha, Espelho Mágico, Ludo. Nós e minha mãe, deitados no chão da sala, jogando dados, criando laços, mexendo os peões da vida. Saudades do jogo de botão aos domingos na Escola Técnica. Pai, como era bom!

E os amigos? Abraão e Moisés no velho grupo Leonilla Marinho. Dia desses falei com o Hiparco, de quem morri de inveja quando pronunciou “siderúrgica”. Não era todo menino que sabia o que era uma “siderúrgica”. E o Aílton, que colocava saúvas para brigar? Com o Aílton cedo tive a dimensão das minhas limitações. Jamais faria certas coisas. Lembro-me com carinho da Carla, a mais bonita da turma. Outros de fé: Ivanzinho Puguinha, Fred Quibe, Mario Blau-Blau e Lindemberg, o eterno representante de classe. No segundo grau: eu, Pedro Paulo e 43 mulheres. Delícia. Na faculdade: Sabá, grande amigo e um dos caras mais criativos que conheci.

Saudade do Globinho com a Paula Saldanha, do Sítio do Pica-Pau, da Família Barbapapa, Tom & Jerry, Pernalonga. Adorava a música de fundo do Pernalonga, que soube mais tarde que era Tchaikovsky. As músicas trazem de volta uma nostalgia gostosa. Jane & Herondi (“Não se vá!”), Vanusa (“Hoje vou mudar, vasculhar minhas gavetas”), Gilson de Souza (“Poxa, como foi bacana de encontrar de novo”). O sax de “Your latest trick” ainda me faz tremer as carnes. Esse povo compõe a trilha sonora da minha vida.

Estou com saudade da minha vó, com seu sorriso adornado pelo seu batom vermelho. Queria seus olhos azuis iluminando o espaço escuro de minhas angústias. Queria sua benção firme fortalecendo minha fé fraca. A saudade é a certeza da presença do ausente. Ter saudade é ter tido vida.

Falei de mim, mas substitua minha casa da infância pela sua, a manja pela brincadeira que lhe fazia suar, a Ana Maria pelo seu primeiro amor, o Hiparco pelo seu amigo que ficou no tempo, Jane & Herondi pelo cantor que aviva a memória, a Laika pelo seu cachorro. Substitua a minha vó pela pessoa de quem à simples lembrança os olhos encharquem. Estique sua mangueira da saudade bem esticada, mas amarre bem o bico para não soltar. Nunca.

SF, 29/09/2002

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4 respostas para Um texto antigo para recordar

  1. Que lindo esse texto!
    Vc tinha um cachorrinho de nome saussure? OMG! :-)

    Engraçado…no meu blog, no mesmo dia, sem ter visto isso aqui, eu postei algo sobre saudade tb.
    Vai ver que esse foi o dia da saudade. ;-)
    :***

  2. Fernando Filho disse:

    Oi, Sérgio!
    Que texto delicioso. Obrigado por traduzir tão bem os sentimentos de uma geração. É maravilhoso saber que outras pessoas também curtiram brincadeiras simples como jogo de botão, manjas, o futebo na rua e, é claro, os amigos inesquecíveis de escola, da faculdade, e isso inclui também professores inesquecíveis, como você.
    Um forte abraço.

  3. Luciana disse:

    Essa definição foi perfeita: “A saudade é a certeza da presença do ausente.”

    Estou procurando um texto que li há alguns anos que falava sobre Anjos (os anjos que encontramos na nossa vida)… estou agora tentando achá-lo, mas não encontro.

    Sou muita amiga do Mauro, na verdade pedi pra ele falar com vc, mas como a resposta tá demorando, resolvi te pedir por aqui mesmo.

    Se vc puder, pode enviar pro e-mail mencionado acima.

    Desde já muito obrigada!

  4. Renan Kogu's disse:

    Amei me fez lembrar de tanto coisa boa que já me aconteceu na vida dos amigos das bagunças de tudo memso dos bons tempos que já não voltam mais …lindo texto se tiver outros adoraria ler ….beijão….

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