04/07/2009...17:00

Cantando a pedra

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Passei batido na diagonal

 

A vida da gente é feita de momentos simbólicos. São pontos, dobras, que servem de localização no itinerário de nossa história. A turma de alunos do mestrado em que sou professor resolveu comemorar o fim de período letivo e os aniversários com uma festa junina. Eu fui, como sempre vou quando sou convidado. Acredito que essas atividades de socialização dão liga àquilo que tem se perdido e vem sendo esmaecido pelo corre-corre contemporâneo: a relação boa, desinteressada e sincera entre pessoas que dividem um mesmo espaço de convivência. Gosto de gente. Também por isso escolhi ser professor. Otimizo minhas relações sociais e ando fugindo de quem azeda balde da sal de frutas e azinhavra maçaneta de porta quando pega. Não. Gosto mesmo é de alto astral, como tem o povo dessa turma.

Lá chegando, comi umas bananas fritas deliciosas,me diverti  um bocado e fui jogar bingo. Havia vários prêmios, cuja singeleza trazia a amizade em forma de pacotinhos com lacinhos amarelos e vermelhos. Aceitei jogar, mesmo sabendo que nunca na história da minha existência ganhei em sorteios, rifas ou quejandos. Vertical, horizontal ou diagonal. Valia bater de qualquer jeito. Quando alguém batesse, o bingo seguiria até que os prêmios se acabassem. Começaram a cantar as pedra e eu marcava um número aqui outro ali, como o esperado. Todo mundo batendo e eu me debatendo no meu azar nos jogos que, com o nome apropriado, se chamam de jogos de azar.

Passei rodadas esperando o 5 para bater. 16, 52, 64. E nada do 5. 22, 1, 75. Deu a hora de ir embora e decidi deixar minha cartela com a Mayara, uma sortuda, que certamente ganharia. Fiquei ali me despedindo e nada do 5. O bingo correndo. Os prêmios acabando. Até que acabaram. A Mayara então veio me devolver a cartela. Eu já na porta, finalizando um copo de coca-cola para ir embora. Disse ela: “É, professor, não deu”. Ao dizer isso, percebeu um detalhe. Eu havia passado batido na diagonal. Eu havia batido e não tinha visto, tão concentrado que estava na espera do 5.

Fui para casa. Pensei em como às vezes a gente passa batido na vida também. Concentramo-nos demais na espera dos cincos e deixamos de ver a fileira de coisas boas que se nos apresentam, quase gritando conosco. Desatentos, ignoramos felicidades ofertadas e só as percebemos quando já é tarde demais, na devolução da cartela usada. Não nos damos conta de que para ganhar é preciso se dar conta de que estamos no jogo da vida, com as perdas e ganhos que ele envolve. Prestemos atenção, pois, porque às vezes é cartela cheia, às vezes é linha. Às vezes pensamos em longo prazo e a acontecência pede o curto. Às vezes queremos o já e a vida nos alonga a querência. Às vezes o prêmio parece grande e não nos diz nada. Às vezes é singelo e nos plenifica de afeto, nos oxigena de paz.

Pensando no bingo da vida, não posso então dizer que nunca ganhei. Seria uma injustiça com Deus. Talvez eu nunca tenha me dado conta dos meus prêmios, o que é outra coisa. Até porque estou cada vez mais convicto de que, como dizia Einstein, “nada é por acaso. Deus não joga dados com o mundo. Deus é sutil, mas não é maldoso”. Resta-nos perceber sua sutileza. Resta-nos pensar fora da caixa e nos permitir ansiar por mais do que somente o cinco. Quase sempre, em quase tudo, a gente já ganhou e não sabe. Porque não consegue ver. Porque não se permite viver seus prêmios. Porque se ignora que já ganhou, passando batido. Mas o jogo segue. E na próxima rodada, meu jogo vai ser diferente. Ah, vai.

5 Comentários

  • Muitas vezes passamos batido porque sempre queremos cartela cheia…
    Excelente texto! Parabéns!

  • Brilhante, professor. Seu texto fez-me descobrir porque pago certos micos: não por passar batida em bingos, mas em não ouvir a voz da razão e me tacar feito doida para aeroportos e esperar por alguém que não vem.

  • Muito bom o texto, professor. Essa Lou aí em cima n tem jeito mesmo, né?? Onde será que ela esqueceu o juízo? Gostei de “Mayara, uma sortuda…”
    Tudo de bom sempre =)

  • Tava pensando pq há gentes bonitas e gentes BONITAS. Há aquelas bonitas por fora e tão profundas quanto um pires; há aquelas que são “aparentemente” bonitas. Há as outras que não o sendo por fora tentam se passar por bonitas por dentro; há as que nem por dentro nem por fora. E existem as que (desculpa, mas poootaqueaspariu!!!) são por fora, pelo avesso, de cabeça pra baixo…será se nem chulé tem???????
    Nada a ver com o post, essa talzinha dessa Mayara aí em cima deve ter razão: tou doida.

  • Jonária França

    Oi professor…muito bom esse texto e que viagem ele me proporcionou!!!
    Viagem pelas tardes prazerosas de conhecimento e de convivência com o grupo do mestrado.
    Viagem por alguns momentos de minha vida, onde relembrei as oportunidades que costumo ou costumava aproveitar sempre nos momentos de atenção…
    De repente me dei conta de que tenho deixado algumas oportunidades escaparem por não consegui entender a mensagem, talvez por estar com meu histórico muito fechado…ai..ai..melh0r parar de escrever porque ao invés de comentário, terei um depoimento, quem sabe uma análise…heheheheh
    Abçs e parabéns pelo texto.


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