03/10/2009...12:04

Cinco lições para torcer pelo Tarzan

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Tarzan e jacaré: torce por qual?Sou professor desde 1985. E lá se vão quase duas décadas e meia vivendo o dia a dia da educação. Em 2005, fui convidado a fazer parte de uma Secretaria Municipal de Educação que então cuidava de 410 escolas, 250 mil alunos, 14 mil professores. Aceitei o convite e por lá fiquei por três anos. Não me parecia coerente passar uma vida formando professores e lhes falando dos problemas da educação e diante da primeira oportunidade furtar-me a poder alterar, ainda que minimamente, o estado de coisas que criticava em sala de aula. Foi um grande aprendizado em vários sentidos. Aprendi várias lições, que sintetizo em cinco.

A primeira delas é a de que é muito mais fácil administrar quando não se ocupa a cadeira do administrador. Na maioria das vezes, essa crítica vem fácil porque a não realização de demandas que gostaríamos de ver atendidas é simploriamente reduzida à falta de vontade política. “Não se faz porque não se quer” é a frase de base. Quando se ocupa a cadeira do administrador público, no entanto, percebe-se que a decisão de não se fazer porque não se quer é precedida por uma série de condicionantes. Não se faz às vezes porque não há amparo legal. Às vezes porque não há dinheiro para aquilo, porque recursos na coisa pública têm destinação específica. Não se faz às vezes  porque mesmo com recursos e amparo legal não há sustentação política para se fazer. Assim, com as leis do seu lado, com os recursos disponíveis e com decisão política, o administrador, aí sim, decide se faz ou não. É onde a boa política faz diferença.

Aprendi também que há dois tipos de administração: a positiva e a normativa. A positiva: há um problema. Que soluções temos para ele? Solução a, solução b e solução c; a normativa é a escolha de qual dessas soluções possíveis vai se implementar. Aí a escolha é política. A título de exemplo: positivamente podemos dizer que a gestão escolar pode ser preenchida: a) por indicação política b) por eleição ou c) por processo seletivo interno de mérito. Se a nomeação de diretores de escolas vai ser feita por indicação política, por escolha no voto de deus e o mundo ou por avaliação da formação técnica do postulante ao cargo com impessoalidade na escolha já é uma decisão de administração normativa do prefeito e de seu secretário de educação. Com isso aprendi que muitas das críticas por opções tomadas são críticas que vêm da discordância em relação à administração normativa, sendo, portanto, legítimas e necessitando, assim, de que sejam levadas a cabo com argumentos convincentes de que são de fato as melhores opções dentre um leque de. E quem não for convencido vai espernear até que ganhe o poder político e faça do seu jeito. É assim. O coro dos descontentes sempre há de existir.

Um terceiro aprendizado: na administração pública ainda há resquícios do marxismo romântico, charmoso e sedutor. É um marxismo que desconsidera, o que surpreenderia o velho Karl, a dialética marxista e dicotomiza o mundo em nós e eles. Nós, claro, certos. Eles, lógico, errados. “Hay gobierno, muchaco? Soy contra!”  É o contrismo a priori. Pessoas que por ser oposição à administração, qualquer uma, pois sempre representam “o poder repressor estabelecido”, se enraízam nesse lugar. Para elas pensar fora desse discurso é absolutamente nonsense, um sentido impossível. Evocam a revolução, buscam o poder, mas quase nunca se envolvem, limitando-se a dar as coordenadas. Se eventualmente chegam ao poder, seguem um dos dois caminhos lógicos ao perceberem que a revolução é contingenciada por  normas e regras: se acomodam a elas para poder transformar com suas decisões normativas aquilo de que discordam ou piram o cabeção e saem fora correndo para voltar ao confortável lugar de oposição crítica. Olhe para o lado esquerdo e veja exemplos.

Um quarto aprendizado: dá para fazer. A tendência administrativa é a histórica manutenção da zona de conforto. Todo mundo reclama de tudo, mas a ordem oculta é não mexer em nada nem em ninguém porque está bom demais. Quando alguém resolve alterar processos, questionar procedimentos ou executar o previsto que não é cumprido, o mundo cai. Pois se você não está disposto a mudar ou de enfrentar os descontentes e desconfortados, nem se meta a administrar a coisa pública. Mas, como disse e repito, dá para fazer. Dentro das contingências legais, orçamentárias e políticas e sabendo que alguns lhe odiarão de graça ou talvez porque você tenha mexido no seu queijo. Fazer requer propositividade crítica. Explico: conhecer o cenário, seus limites e desafios, mas não se deixar ser imobilizado por eles. Há muitas pessoas que vêm com argumentos como: “Olimpíadas no Rio? Melhor não… olha a corrupção”.  Não percebem os que assim argumentam que naturalizam a corrupção, a dando mesmo como fatal, e imobilizam tudo: além dos avanços advindos de uma escolha dessa natureza, imobilizam também o próprio combate à corrupção, vista como constitutiva do caráter brasileiro. É muito conformismo embrulhado numa retórica de papel de presente brilhante para meu gosto.

Quinta e última lição: há sempre grupos, há sempre lados. Impossível administrar contemplando todos. Se a administração é pública, republicanas têm de ser as decisões, beneficiando a maioria. Saber lidar com a pluralidade é um dos exercícios mais pedagógicos que alguém com a caneta de administrador público na mão tem de fazer. Ouvir, explicar e superar as diferenças. Nunca suprimi-las. Quem administra a coisa pública pode até errar, pois isso é da falibilidade humana, mas não pode mentir, enganar. Há uma ética entre adversários. Tem de haver.

É isso. Preciso dizer que hoje vou para minha sala de aula de formação de professores com um princípio no bolso do jaleco para lhes oferecer: conheça o cenário, saiba de suas limitações, não apague suas potencialidades, respeite quem discorde de você com argumentos e, na hora agá, torça pelo Tarzan. Porque já tem gente demais apostolando pela política da terra arrasada e torcendo pelo jacaré.

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