12/10/2009...10:52

Máquina do Tempo

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Eu sou esse, de botinhas, olhando para a câmera.Quando era criança de idade, eu era muito danado, dizem meus pais. Há registros nas delegacias da memória de que eu rasguei um sofá a faca para ver o que tinha dentro, de que com a mesma curiosidade, espatifei uma televisão máscara-negra no chão, de que recortei os elefantinhos que estampavam uma toalha de mesa de plástico de uma das minhas tias. Entre os crimes mais leves, conta minha mãe que tirei todas as etiquetas que identificavam os tecidos nas lojas Pernambucanas para fazer um baralhinho. Aprontava tanto que uma vez no catecismo a professora perguntou: “Quem jogou a pedra no Golias?” e eu fiquei quietinho com medo de pensarem que tinha sido eu.

A infância é um momento mágico. O mundo é sempre uma novidade. Conceitualmente, como não temos nada, teoricamente podemos tudo. Da mesma forma que experimentamos com o mundo que se descortina, experimentamos com a linguagem que o desenha para nós. Vejam se não é poesia pura: “Pai, bati meu cotovelo do pé”, “o sanduíche deu um hambúrguer para o sonho do sorvete que o picolé sonhou”, “se minha mãe é mamma mia, papai é pappa pia”, “noite é dia com luz apagada”, “você mentirou pra mim”, “Não fiz nada! É mentira do barulho!”, “hoje não é amanhã”, “eu também quero fazer xixi de canudinho”, “brinca eu, mãe? Tá aqui os brincos”, “pai, você não é criança porque você pessoa”.

Assim como a liberdade linguística vai se esvaindo com o tempo, perdendo a poesia da linguagem infantil, o mundo vai se adultizando, se pasqualezando com a idade. E cá entre nós: quantos de nós, adultos, lembramos de nossa infância com uma ternura perfumada? Porque, de fato, crescer é muito chato. Para suportar crescer é preciso deixar que a criança que mora na gente não se vá. Muitos enterram a criança quando encontram seu primeiro emprego, quando compram seu primeiro carro ou têm seu primeiro filho. Outros lhe tiram o oxigênio quando arrumam um namorado ou porque alguém disse que se fica feio quando se faz caretas. Ou porque não se sabe dançar.

Claro que precisamos das responsabilidades, mas esquecê-las de vez em quando faz parte de uma irresponsabilidade infantil necessária. É tão necessário para a sanidade lamber a tampa de iogurte, chupar a lata de leite condensado e raspar a forma do bolo de chocolate quanto o é deixar o jantar pronto na hora certa, pagar as contas em dia e se sentir socialmente útil.  Ser uma boa mãe não é incompatível com pedir colo para a sua tantas vezes quanto achar que precisa. Não há nada melhor do que estar exposto a alguém em quem você confia. Minhas filhas se jogam com borra e tudo na piscina quando sabem que os meus braços estão lá dentro a lhes esperar.

Admitamos: ser adulto é muito chato. A gente só vai aguentar até o fim se deixar a criança gritar na igreja, pular cambalhota no rio, riscar a parede da sala da vida. Agradeça por ser adulto e poder dirigir, fazer sexo, comprar coisas. Agradeça por poder escolher com quem vai se relacionar, mas não esqueça de se relacionar com muitas crianças ou com aqueles adultos “idiotas”, aqueles que fazem piadas de tragédias, que não perdem a chance de rir, inclusive de si mesmo. Tire sua criança do armário, sempre que quiser, para fazer coisas bobas e ser mais feliz. Seja, desavergonhadamente, uma criança grande, e deixem que lhe chamem assim. Seja bobo, otário, esquisito, rótulos que adultos que não conseguem se criancizar usam com muita frequência.

Meu número especial, sempre que estou muito adulto, é puxar a bermuda até o peito e sair correndo onde quer que esteja feito um maluco com as pernas abertas. Nada paga o sorriso aberto que minhas filhas dão diante da cena grotesca e divertida. Eu me vejo com 70 anos, vovô, velhinho, divertindo os meus netos com isso, sob a reprovação resignada da minha velha.

Olhos para as minhas filhas e já sinto saudade da época em que as ninava no colo. O tempo passa. É assim. Choro um choro saudável ouvindo “Máquina do Tempo”, do Flávio Venturini. Só rezo ao bom Deus, enquanto tento fazer minha parte, para que elas nunca deixem de ser criança, apesar do tempo que foge. Para mim, como são sempre os filhos para seus pais, elas serão sempre “as meninas”. E eu, bom… eu vou sempre tentar não ser sempre “pessoa”, para ser criança quando der. Feliz dia das crianças para vocês, para os meus irmãos Biafra, Papau, Drida e Djub. E para as crianças. Livres ou reclusas. Novas ou velhas. Como eu.

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