24/10/2009...09:41

Morada do Sol

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Teatro AmazonasManaus faz 340 anos. Nasci aqui. Aqui cresci. Só saí daqui para estudar e morrer de saudades. Da tua gente, do teu calor, dos teus peixes, da tua murupi, do teu caos. Não, Manaus, apesar da boca banguela não te abandono como a Cidade Sorriso. Apesar do trânsito infernal, não me perco nos teus caminhos que, certamente, são os meus.

Não, minha nega, não sou daqueles que abre os olhos para apontar para ti mirando tuas cicatrizes, teu cabelo desgrenhado, tua fome de justiça. Porque esses que o fazem por proselitismo, hobby ou qualquer outra razão apontam o dedo para o lugar errado. A minha cidade tem sido vítima, mais do que algoz. A minha cidade tem sofrido desgovernos, desmandos, desabonos, desabrigo por pessoas que num desagravo desacanhadamente desacampam de suas terras, desadornam teus encantos, desacatam tua vergonha e desacorçoam tua gente. A esses, eu  desembainho despiedoso a minha espada. Que não fresquem contigo, maninha, que eu vou pra cima.

Inocente terra, minha terra. Muitos te inventam modas que não te pertencem. Travestem-ti de penas, luzes, brilho, quando tu querias o sossego da tua rede, dos teus igarapés gelados, da sombra das castanheiras que hoje rareiam em ti. Sei que crescer é inevitável. Sei que querer-te criança para sempre é ilusão. Mas que futuro te demos, moça? Que futuro te demos?…

Quero sempre ir no anseio de voltar. Ser aquecido pelo teu sol que renasce mais quente a cada manhã. Receber teu bafo quente no peito em sinal de carinho. Te reverenciar como fazem os dois gigantes das águas, que vêm se encontrar a teus pés em reverência. Quero tomar café na estrada, comer pupunha, tucumã com queijo coalho, tapioca de coco, tomar Guaraná Baré. Quero olhar sem fala teus monumentos, da época em que tu eras a debutante abastada. Teu teatro, teus palácios, tua memória, senhorinha.

Numa rede, numa quarta-feira, quero ler Aníbal Beça, Luiz Bacellar, Alcides Werk, Thiago de Mello, Milton Hatoum, Ernesto Penafort. Quero num sábado à tarde dançar ouvindo Paulinho Kokay, Raízes Cabocla, Pereira, Candinho e Inês, Eliana Printes. Quero olhar para os lados e perder a respiração vendo a arte de Moacir Andrade, Turenko Beça, Otoni Mesquita, Arnaldo Garcez, Berna Andrade.

Minha caboquinha, te agradeço por acolheres nos teus 340 anos as minhas décadas de memória, de saudade, de indignação, de felicidade, de tristezas, de alegrias, de orgulho, de decepção, de participação, de omissão por ti. E te desejo, do fundo do coração baré, maninha, o melhor dos futuros, porque no teu tempo e no teu espaço coloquei para brincar de manja, de barra-bandeira e queimada os meus bens mais preciosos: as minhas duas caboquiras, minhas filhas caboclas/capiriras, que, como o pai, chiam no “S” e gostam demais daqui. Porque, como diz o Aníbal Beça em sua bela poesia, mais do que morar em ti, tu é que moras na gente.

7 Comentários

  • Perfeito.

    Tenho certeza que é este o sentimento de todos que, assim como você, verdadeiramente amam esta terra…

  • eu tbm brinkei de manja, barra-bandeira e queimada! =)

  • blogdokokay

    Como sempre claro, objetivo e afetivo. Parabéns, mano. Obrigado por me incluir na trilha sonora da cidade. Minha relação de amor e ódio por Manaus fica restrita a minha casa. Ai de quem vem falar mal da minha morena. Beijo.

  • Adoro Manaus, morei aí de maio a setembro de 2000, tive uma namorada farmacêutica por quem me apaixonei perdidamente. Não fiquei só de saudade de meus filhos. Muito boas oportunidades, até acostumei com o calor e fiquei moreno.

    Um abraço do @merson

  • Puxa Velho, traduziste meu amor por essa caboquinha

  • Oi Serginho!
    Teacher, só você mesmo para rabiscar, soletrar e cantar tão lucida e ludicamente esta terra tão doce e tão quente no afeto como é Manaus. Com certeza são rabiscos e partituras feitas com o coração. Parabéns pelo texto. Saudades, profe. Abraços.

  • Minha morena bela, doce e quente. Não consigo me ver longe de ti.


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