Reunião de Condomínio

Reunião de condomínio  tem algumas peculiaridades que se repetem independente do local.

Ontem teve reunião aqui no meu condomínio, que começou depois da primeira convocação, claro, quando o quorum chegou. A Bia, que nunca morou em apartamento, decidiu ir comigo para conhecer a coisa por dentro. Depois que casei pela primeira vez, sempre morei em apartamento. Portanto, decidi que poderia muito bem servir de guia traquejado para explicar para a debutante do momento as coisas que aconteceriam. Além de tudo, eu sou presidente do Conselho Fiscal, eleito democraticamente durante minha ida ao banheiro na primeira assembléia. Sou autoridade, respeito é bom e eu gosto.

Didaticamente, como compete a um professor, comecei explicando que a primeira coisa a ser feita pelo recém-chegado numa reunião de condomínio é tentar identificar os mocinhos e os bandidos. Tem sempre dois grupos antagônicos que se enfrentam. Dependendo do nível de sofisticação do condomínio, esse número pode ser até maior. Quanto mais sofisticado, mais barraqueiros. São eles que animam a festa.

Uma vez mapeado os grandes grupos e decidido em qual ficar, é preciso passar a uma segunda etapa e mapear as figuras individualmente. Tem sempre o chato, o Maria-vai-com-as-outras e a antipática que acha que sabe tudo e se acha a última jujuba do saquinho. Tem sempre o japonês que fala pouco mas presta uma atenção danada. Tem também o dirigente, que gosta de estar ali naquela posição que controla as falas, exercendo o poder moderador. Tem o sujeito que sempre levanta a interminável questão dos inadimplentes. Tem os inadimplentes abusados, que não pagam, mas vão à assembléia e querem votar. Eles inexoravelmente fazem parte do grupo em que não está o levantador de questões sobre inadimplência, lógico. Tem aquele que reclama que a taxa do condomínio está alta, que é geralmente um pré-inadimplente. Tem a gostosona, que recebe olhares, fulminantes e indisfarçáveis se  vindos das esposas feias, e gulosos, se vindos da macharada. Ah, tem também sempre aquele exemplar que diz: “lá onde eu morava, era assim, ó: blá-blá-blá”. Tem aquele outro, baixinho e gordo, com uma pochete ridícula, que sempre insinua que o síndico está metendo a mão. Tem o síndico, que se injuria com as insinuações e coloca o cargo à disposição. Tem aquele casal de namorados, que não desgruda e que está junto há doze anos, um ano a menos do que o enrolão do Amaro, meu primo que é webdesigner da Suframa, noivo há treze. E tem nós, claro, que estamos fora de qualquer classificação por motivos óbvios.

Além dessa fauna, há também o comportamento do ecossistema para ser analisado. A Bia ficou intrigada com o fato das discussões se concentrarem em pontos quase sempre secundários e serem completamente repetitivas. Pacientemente, eu disse a ela que reunião de condomínio com objetividade e sem repetição não é reunião de condomínio. Faz parte do caráter da instituição ser assim. Senão esculhamba. Minha explicação sobre o assunto equivale, assim, a dizer para o neófito do buraco que o dois é curinga. Coisa básica, sabe? Isso depois de eu ter de convencê-la que ela não podia votar também.

Depois de muitos repetitiones e do saco cheio, finalmente chega-se às votações. Vota-se tudo, pois, claro, o condomínio é um espaço democrático. Mas primeiro vota-se sempre pelo adiamento de uma parte da pauta que ninguém terá paciência de discutir. Cada votação é sistematicamente seguida de uma recontagem porque parece que o japonês do 401 não levantou a mão direito – ou seu braço curto deu ilusão de ótica. Conta de novo. Mantém o braço até o gerente da mesa contar. Estica, japa! Vota-se para ver se já está na hora de votar. A sabe-tudo, tendo seu voto vencido, reclama da votação perdida e sai resmungando. O chato levanta a mão e sempre declara voto, desfiando um rosário de razões pelas quais votou na proposta do Humberto do 202 da torre 1. Nem o Humberto do 202 da torre 1 aguenta esse chacrilongo.

Quando acaba a assembleia, geralmente perto de meia-noite, tem a parte dos comentários outdoors. Cada grupo se reúne informalmente no caminho para seus apartamentos e comenta os absurdos das propostas sugeridas pelo pessoal da outro facção. Lamenta-se, claro, a ausência do Roberto do 403, que se tivesse comparecido teria feito a diferença para nosso lado na votação. O desconfiado da pochete sempre acha um momento para dizer: “sei não, mas acho que se apertar esse síndico, ele peida. Acho que aí tem!”

Para fechar o esquema, depois dos boas-noites no elevador, ao entrar no apartamento, o casal – eu e a Bia, no caso em tela  – comenta entre si o que percebeu mas não pode ter sido dito na hora. Isso porque a fofoqueira do 601, aquela do cabelo roxo, da calça de lycra colada e parecendo o bonequinho da Michelin de tanta dobrinha, estava bem atrás de nós, de trela com o louro do bloco 3, ambos prestando uma atenção danada: ela na minha conversa e ele na bunda da gostosona, encostada na porta de pé de propósito.

Depois dessa, parece que minha patroa decidiu que acha melhor morar em casa mesmo. Não gostou muito da experiência, pelo jeito. Numa casa, o sistema é outro. Nada de democracia fajuta cheia de verborragia. Em uma casa, nós somos déspotas, soberanos – “nós” modifalar: elas são. A mulher decide e está acabado. O marido, os filhos e o cachorro é que se atrevam a discordar. Paredon

Hora de dormir. Quando supero o aumento da taxa de condomínio – maldito Roberto do 403! –  e caio no sono, sou acordado pela digníssima consorte. Ela pergunta ansiosa: “Amor, amor! Pra quando mesmo foi marcada a próxima reunião, hein?”. Me abstenho de continuar escrevendo. Eu, Sérgio Augusto Freire de Souza, apartamento 603, bloco 1, lavro essa ata que, depois de lida e aprovada, deverá ser assinada por todos os presentes.

29 de janeiro de 2004

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Uma resposta para Reunião de Condomínio

  1. Marcia FAscina disse:

    Ri muitooooooooo, é bem assim mesmo. Trabalho numa administradora e conheço bem cada um. Hoje só de olhar pra pessoa já sei como ela vai se comportar numa assembleia. Como diz o novo ditado: todas as assembleia condominiais são iguais, só mudam as classes sociais, mas o barraco é o mesmo, que seja num CDHU ou quer seja num condomínio de luxo.

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