Apelidos

Trabalhar com a linguagem é algo que me fascina. Não fiz doutorado em Linguística atoamente, como diria Guimarães Rosa. E dentre os aspectos da linguagem que mais me chamam atenção estão os apelidos.

Você já notou as propriedades descritivas do apelido? O apelido não descreve: mostra a foto. É ouvir o apelido e ver a figura apelidada, como se fosse um holograma no mais puro 3D. E a criatividade dos apelidantes é tão espantosa quanto a imaginação de Julio Verne. Há alguns tão engraçados que nos fazem chorar de rir.

Há os apelidos mais simples, fazendo menção às partes do corpo humano. Esses tanto podem ser para mais quanto para menos: O Boquinha pode ter uma boca miúda ou uma bocarra. Cabeça, Mãozinha, Pezão, Orelha (aquele que atrapalha a visão dos outros no cinema), Zoiúdo. Tem aquelas pessoas que possuem apelidos que se referem à cor da pele ou do cabelo: Alemão (ou é louro ou negão), Índio, Japa, Turco. Há aqueles regionais: Baiano, Ceará, Gaúcho. Há outros que descrevem um atributo: há um mecânico lá perto da casa do meu pai cuja alcunha é Bonito. O cara parece o capiroto de feio. Falando em mecânico, em Campinas conheci o Sovaco Queimado. É um metido a mecânico, na verdade. Um carro ferveu e ele disse que ia consertar, abriu o radiador e levou um jato de água fervendo no sovaco.

Há ainda aquele chato que todos chamam de Simpatia e aquele outro, mais chato ainda, a quem chamam de Bombom-de-Alho. Tem um amigo meu que operou a orelha e o apelidaram de Dobermann, pois a orelha ficou igual a do cachorro. E um outro, muito baixinho, chamado de Espirro de Pica? Ao irmão do Espirro, igualmente baixo, chamam de Lenhador de Bonsai. E os dois irmão gêmeos, moreninhos, que estudaram comigo no antigo Colégio Domingos Sávio: Faísca e Fumaça. Teve outro cara, gente muito boa, sensível, mas fechado. Um tipo raro. Apelido? Hímen. E um que trabalha aqui no posto de gasolina perto de casa: Marfins Gump. Marfins por causa dos dentes caninos avantajados; Gump porque conta cada história. Lá no mesmo posto tem ainda o Kiwi. Dizem que é porque ele é peludo por fora e fruta por dentro. E, para coroar a criatividade do pessoal do posto, tem ainda o magrinho que lava os carros: o Schwazzeneger. Schawza, para os íntimos e clientes antigos.

Da minha infância trago ainda os seguintes apodos: o Bife, irmão do Lombrado. E sua irmã, a Bifa. Claro. Hoje a Bifa é professora do Estado. É a Tia Bifa. O Mad (que a gente chamava de Mady), a cara do Newman (o personagem da revista Mad), irmão do Caroço, que, diga-se de passagem, é um apelido muito do sô ordinário. Havia o Juca (um apelido básico, um-ponto-zero), irmão do Conega e do Pinto, que parecia um pinto mesmo (a ave!).  Tinha o Walter Vovô, que jogava bola com a gente no campinho da rua seis. Ele tinha uns doze anos, mas aparentava ter uns cinquenta. Havia o Piaba, um magrelo que jogava futebol de botão nos campeonatos aos domingos na Escola Técnica, e que sempre ganhava do Alberto Gordo, que era muito gordo e depois ficou magro, mas manteve o apelido de Gordo. Vai morrer Alberto Gordo.

Hoje, faço questão de comer no Dedé, do meu amigo de infância André Conde, que tinha um biloto na orelha. O Conde é sobrinho da Dona Tetê Cabecinha. Estudei ainda com figuras como o Quibe (filho do Carrapeta), o Mamão,  o Cara-de-Égua, o Blau-Blau e seu irmão mais novo, o Blau-Blau Jr. Tinha ainda o Galocha (branco e orelhudo), o Zé Colméia (a cara do urso) e a Jorgete (um Jorge com opções sexuais diferentes). Todos nós, moleques da rua três (o endereço da minha infância), admirávamos as pernas grossas da Sandra, filha do Paulinho Super-Homem, da rua quatro. O Paulinho Super-Homem era magro, magro, um filé de borboleta. Aliás, Filé de Borboleta é também o apelido do filho do meu amigo Eliezer Peito-de-Pombo. Na mesma rua quatro das pernas da Sandra moravam os Smurfs, uma família de um sem-número de meninos, todos iguais. Tinham uma irmã: a Smurfete. Os Smurfs eram amigos do Mauro, meu irmão, que teve vários apelidos. Na época de porcão, seu apelido era Drida, aférese de podridão. O Mauro teve ainda sua fase de Toco, porque era baixinho. Bem, ainda é… Mas o Toco ficou mais velho e já é pai. O filho, Miguel, escapou de ser Toquinho.

Mas eu nunca vi apelidos tão criativos como os mencionados pela minha mãe e meu pai. Na época em que namoravam e viviam no bairro de Aparecida, havia tanta gente com apelidos tão fantásticos: Come-Cabelo, Leguelé, Tchosi-Tchosi e seu irmão Lhalhulha (que sonoridade!), as irmãs Fifica-Fogaça e as irmãs Paraibanas. Outros que povoavam o bairro: Zé Cavalo, Gaguinho, Nonato Cegueta, Urubu, Nilton Bocão (namorou minha tia Dile), o delgado Zé Vitamina, o Joreca, o Sindoca e aquele com problema na mão, o Jaime Esconde-Faca. Havia um gay que perambulava pelas ruas chamado Guilherme Porca-Vadia. As Três Virgens eram três irmãs que nunca casaram. Se eram virgens mesmo, nunca se soube. Tinha ainda o Melado, irmão do Codó e o Pirento, que quase vira meu tio, pois namorou minha tia Celeste. Eu seria sobrinho do Pirento… Poderia ter sido também sobrinho do Moska, que namorou a minha tia Céu. Não sei o que seria pior… Vagavam por lá ainda o Bate-Papo, o Rubem Rola (namorado firme da minha tia Teca), o Panelão e os irmãos Fátima Buchinho e Antônio Buchinho. O Antônio Buchinho não tinha nada a ver com o Antônio Titia, que recebeu o apelido por ser criado pelas tias. Tinha o Felinto, que sempre usava blusa e calça iguais. Hoje virou locução adjetiva familiar para descrever alguém que se veste assim: “O Paulo está de felinto hoje”. Esse é demais e autoexplicativo: Ingrid do Periquito Gordo. Genial. Ela criava pássaros obesos, acho eu.

Meu pai até hoje é conhecido por Bibi pela velha guarda do Bairro. Jefferson é coisa de cartório. O Bibi, na verdade, roubou a Lenoca, minha mãe, do Bacurau. Ainda bem, porque essa união deu na família Freire de Souza: o Biafra (Paulo), Eu, a Papau (Paula), o Drida (o já referido Toco) e a Djubi (Luciana), minha irmã caçula. E as filhas do Biafra: Érika Bodão, Mariah Noiada, Eliza Bladder (“bladder” é “bexiga” em inglês, porque a mãe é nefrologista. Se fosse menino ia ser Kidney, “rim”) e Pedro Conca, a cara do artilheiro do Fluminense.

Aliás, na família só tem apelidado: meus tios Babá, Tuta, Cado e as tias Gina, Preta, Dile, Bambi e Teca. Seus filhos (e meus primos): Rafa, Nirou, Nana, Piriri, Mana, Títi, Fabico, Rodi, Negão, Duda, Dani, Bagal, Bochecha, Baldaracci, Pupu, Zezé…

Até aqui falei de apelidos sociais. Há também os domésticos e amorosos. Marido e mulher (recém-casados, geralmente), namorado e namorado, amante e amante, todos têm um nomezinho carinhoso: Tchutchuca e Tigrão, Bê e Lá, Bimbo e Bimba, Sussu e Sassá. Você está rindo porque lembrou o seu, não é? Qual é o seu? Fofucha? Pikurrucha? Pikachu? Amore? Brankinha? Bebê? Fifinho? Ou seria Paizinho, Pitchula, Quindim, Patroa? Tem um casal que conheço que ele a chama de Cabeça-de-milho-verde e ela o chama de Cabeça-de-doritos-de-cebola. E outro que se chama de G-macho e G-fêmea. Esses apelidos são tão secretos e não têm nada demais quanto o segredo do Gerson: ninguém podia saber e foi um fiasco. Quanto a mim, não há problema, eu digo: a Bia me chama de Bliblows. Não é delicado da parte dela?

Mas enquanto é apelido, tudo bem. E quando o apelido é nome mesmo? Ou o nome é um apelido por natureza?

Em Crateús, Ceará, um casal depois de longos anos de casamento conseguiu ter uma filha. Registrou a menina no cartório com o nome de Formosura Perfeita Ideal do Nascimento. A menina cresceu, mirrada e triste, e era justamente o contrário, de uma formosura verdadeiramente imperfeita. Na cidade, todos a conheciam por “Feia Perfeita”.

Em Alagoas, José Sousa Alencar, jornalista no Recife, conta ter conhecido gêmeas com os nomes de Difuntina e Finadina. E eram primas de uma certa Filosofia.

Em Pernambuco, há um cidadão chamado Gueyglysayd Brasdileiro Neto – três gerações, portanto – irmão de Gylglaskony, Greydary; Grayny, Guueythchyly e Gylrryhar, esta a irmã.

O casal pernambucano Nivaldo e Hilman Naldim deu às filhas os seguintes nomes: Hydia, Hevylda, Henylda, Hexylda. Já o filho era apenas um sem graça Nivaldo Júnior.

É isso. Dia treze agora é o aniversário do Drida, meu irmão. Vou querer estar lá em casa, largado na cama dos meus pais, junto com meus irmãos, na conferência coletiva e digestiva de depois do almoço, de depois do peixe com murupi e farinha do Uarini. Com certeza lembraremos outros apelidos que constituíram nossa teia de relações sociais. Inclusive o daquele namorado da Paula, minha irmã Papau, que gostava de ser chamado pelo sobrenome porque o nome dele era ridículo. Eu não consigo lembrar mesmo. Mas ela lembra… Para quem quiser brincar mais com apelidos, vá nesse link.

E você? Qual é o seu apelido? Diz aí…

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27 respostas para Apelidos

  1. luadosolzinho disse:

    Isso me fez lembrar os amigos do meu pai, lá da Santa Luzia, bairro onde ele morou muitos anos. Até hoje quando visito meu avô, vejo meu pai chamar os amigos só pelo apelido e eles o tratarem da mesma forma. Minha mãe acha ridículo, até porque tem caaaaaada apelido… Mas é no mínimo engraçado. Ali a criativade foi grande, viu?! =)

  2. Cristiano disse:

    Quando vc diz: “Em Alagoas, José Sousa Alencar, jornalista no Recife…” não seria “em Maceió”?

  3. Zallas disse:

    Muito interessante. Pessoalmente procuro fazer atenção a estas coisas da vida prática, até porque depois que se passa pela universidade, a tendencia é viajar nas nuvens e buscar o inusitado em campos outros. Claro, é assim mesmo, tem de ser assim. Olhar para o chão, tocar os pés na terra faz bem. É divertido.
    Recentemente, no meu trabalho, orientando uma nova funcionária, falava disto. Dizia eu, para ela: preste atenção nos apelidos. Eles nos dizem muita coisa. Sou professor/diretor e o entorno da escola é fraquentado por indivíduos dos quais nem sempre sabemos os nomes, mas os conhecemos por: orelhudo, nego bala, escadinha, bufunfa, zóião, barriga, beiçola, chapinha entre outros. Para nós, o nome de “guerra” adotado dentre eles nos diz muito de suas atividades, “nas correrias” que fazem para os comandos porque afinal o mercado é dinâmico e não pode parar. Ao me aposentar, meu projeto de pesquisa será inicialmente este, ir para os grotões, escarafunchar as relações comuns entre homens comuns em busca destes significados de “pseudônimos” adotados ou imposto pelas circunstancias da vida. Parabéns

  4. erika dicerto disse:

    muito bom sua historia

  5. lhaa disse:

    o meu e kacuui e da minha amiga e mobilon e macaca babuina

  6. lais disse:

    o meu é nariz de coxinha e do meu amigo é pundim de banha

  7. lais disse:

    eu vou mandar todos os apelidos que eu conheço como,pudim de banha,bola de cebo,pneu de trator,barriu destampado,seu barriga,bolo fofo,bujão.

  8. Vick disse:

    meu vizinho o apelido dele é “CABANHAS”porque ele deixa as vezes o cabelo dele grande e é gordinho ai colocaram o apelido dele de “cabanhas”!!!!

  9. Vick disse:

    Eu tenho uma amiga que colocaram o nome dela de “BABUINA” porque as vezes ela faz uma cara de macaca sabe e mt engraçado!!!!!!!Bem foi eu e outra pessoa que colocamos esse apelido nela!!!

  10. Nicole disse:

    Minhas amigas sembre me chamam de Nini

  11. kaique disse:

    meu vizinho e minicrack show cabeça verde kkkkkkkkkk

  12. kaique disse:

    tabem tem o meu colega o apelido dele e EU SOU A LENDA

  13. Jeniffer disse:

    Eu sempre tive muitos apelidos… tanto os mais comuns como Jhefi, Jeh, Jhe, Jeni, Jé,Teen, Piketucha, Pequenina, Pequena, Buh, Batata, Baixinha, Pizzaiola,Treze, Ka, Cdf, Nega… Como também Thirteen, Niff, Tampinha, Eternidade, Sub Zero, Pikachu, Peach, Pacotinho de gordura trans, Vampirinha, Cantora, Mini Ruffles, Doritos, Kanojo, Xoxo, Isa, Sméagol, entre outros… kkkkkk (:

  14. Camila disse:

    o meu é PM pq eu quero ser policial…rsrsrs

  15. caroline angioletti disse:

    e muito engraçado

  16. Lauanny disse:

    Legal :)

  17. Blade disse:

    Meu colega eu inventei uma musica pra ele no dia em que eu sai de ksa minha mae me disse orelha vem k passou a mao na minha orelha e comeucou falar ela me disse assim meu filho voooua com deus quee essa sua orelha e grande eu sei que ela nunca compreendeu os meu mutico de sair de la masi ela que depois que aorelha crece o filho vira passarinho e quer vooar. Chamo ele de capeuzinho vermelho pq ele monta na biscicleta e voooa commm as orelhas.

  18. Kamila disse:

    já tive muitos apelidos, vou citar alguns:
    Kaka. milla, fandangos (por causa da minha cor), cara de trakinas, cara de biscoito, girafa, gumball (por causa do desenho ‘o incrivel mundo de gumball’), olho de jacaré (por causa da cor do meu olho), bambu, miludi, cinquenta e um, cabo de vassoura, cabelo de pico, churupita, leite capel, abusadinha, olho de águia, flesh, tati quebra barraco, onça maligna, senhora dos absurdos, caneluda, magrela… entre outros.

  19. Kamila disse:

    aaaaah’ lembrei de mais alguns apelidos:
    baía, mimía, taía, matadora de aula, testuda, sumida, peido engarrafado, cabelo de palha, bruxinha, pastel de vento, beicinho, dentinho, troublemaker girl, menininha má, piradinha, mimi, imprestável, valéria (aquela do zorra total), hora da aventura, aventureira, sonsinha, bela adormecida, pantera cor de rosa, ksb, mia, dona chica, dona silva, serpente do bem, alinhada, suspiro, piolho de bicicleta, maria gasolina, da roça, marmota, bicho do mato, estranha, dorminhoca, lombriga, minhoca, tripinha, sem bunda, sem olho, japonesa, boca grande, faladeira… The end. kkk’

  20. matheus disse:

    qual o melhor apelido para meninas que tem o cabelo verde ???

  21. JOYCE disse:

    qua e o melhor apidor para que e bunitinho

  22. samella disse:

    qual o melhor apelido para meninas que tem o cabelo verde ???

  23. raine disse:

    o meu e cachinho dourado

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