Pai é bem mais que um pau

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Recebi alguns pedidos para me manifestar sobre o lance da Natura ter chamado o Thammy Miranda para fazer o comercial do Dia dos Pais. Vou abordar o assunto sobre o ponto de vista discursivo, que é o meu baratinho.

Nessa discussão toda, há um embate claro sobre o sentido de família. De um lado, há um discurso de cunho religioso fundamentalista, tipo o dos malafaias da vida, que foca em família a partir do ponto de vista da forma, mais especificamente da forma biológica. Esse discurso entende família a partir de uma concepção pênis/vagina. Só há família se houver um homem e uma mulher, biologicamente definidos. Adão e Eva. O que acontece nessa família é menos importante. Pouco importa se não há uma relação saudável do casal, pouco importa que o pênis e a vagina não mais se tocam porque o casal leva a relação com a barriga. Para quem foca na forma, a discussão sobre a qualidade da relação é geralmente secundarizada.

Do outro lado da discussão, há um discurso que compreende família não a partir da forma, mas de seu funcionamento. Para esse outro discurso, família é um lugar feito por gente que se ama, se cuida, se protege, que dá amor e provê o afeto necessário para preparar uma eventual criança para ser um adulto sadio e feliz. Família, então, é algo independente da forma: o casal pode ter uma relação heteroafetiva, homoafetiva ou trans, como o Thammy. Tanto faz a forma desde que a dinâmica do funcionamento da relação seja a fonte de afeto sadio.

Essa dicotomia discursiva explica a grita sobre o comercial da Natura. Quem se identifica com o discurso do comercial, com a presença do Thammy como o pai homenageado, que privilegia o funcionamento e não a forma biológica, acha bacana demais o foco na diversidade. Porque pai é uma função simbólica, mais do que biológica, mais do um fornecedor de esperma. Quem não se identifica ou se ofende com a Natura, por outro lado, esperneia porque acha que chamar Thammy para um comercial do Dia dos Pais é uma afronta ao que é correto, ou, pelo menos, àquilo que seu discurso sustenta como correto, de Deus. Mas qual é sua concepção de Deus? Um outro texto seria necessário só para discutir isso, claro.

Há ainda uma outra discussão atravessada nessa: sobre moral e ética. Ambas dão liga à sociedade. Mas a moral é individual, para mim, para dentro. A ética é social, para o outro, para fora. Sua moral pode dizer para você que uma relação homoafetiva não é aceitável, não é correta, não é de Deus, whatever. É imoral, ou seja, fora da moral. Da sua moral. E por isso você não se envolve numa relação homoafetiva. Até aí é legítimo. Agora, querer impor a sua moral aos outros, a ferro e fogo, na marra, não é ético. Os outros têm direto à sua moral também.

“Ain, mas como se resolve isso?”. Isso é a diversidade social, amigo. Concordamos com certos discursos e de outros discordamos. Não só nessa questão da sexualidade. Mas na questão da educação, da saúde, das questões indígenas, ambientais, político-partidárias. Resolvemos essas questões nos organizando social e politicamente, buscando gestar garantias coletivas. A união civil entre pessoas do mesmo sexo foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2011. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos. Para mim, que penso em casamento como funcionamento e não como forma, isso foi um grande avanço. É desse tipo de organização que estou falando. A luta política na pólis. Ainda mais em tempos de um presidente xexelento, que defende o discurso da forma.

Tenho visto a proposta de Cancelamento, posta por alguns, de ambos os lados. Cancela a Natura. Cancela o Malafaia. O Cancelamento lacra. Mas é uma bobagem em longo prazo e uma porta muito grande para a intolerância e para o linchamento em curto prazo. Para mim, e tenho dito isso sempre que posso, Cancelamento é um atestado de incapacidade de organização social para implementação de mudança efetiva por vias políticas, que dão, essas sim, garantias para além dos holofotes imediatos das redes sociais.

Abordei aqui dois discursos sobre família. Só que, óbvio, a coisa não é tão arrumadinha quanto eu coloquei no texto, não. Atravessados nessa discussão, há outros discursos. Posso concordar com a Natura pela escolha do Thammy para o comercial, que vai ao encontro do que eu penso quanto às relações afetivas, mas discordar da Natura quanto a algumas de suas escolhas de sustentabilidade, por exemplo, entrando em jogo aí outro discurso, o ambiental. Por isso que dizemos: política é conjuntura. Meu aliado agora pode ser meu adversário amanhã. Depende do enfoque. Depende do discurso. É assim que funciona. Movimento. Movência.

Enfim, grosso modo, viver é isso: é fazer escolhas, é se posicionar. Achar que uma família se faz com um pênis e uma vagina é reduzir ao raso a questão da qualidade de uma relação que precisa de afeto, de amor. Como psicólogo que sou, defendo cada vez mais a ideia fundamental de que o afeto da infância é o que dá liga à saúde psíquica na vida adulta.

É Dia dos Pais. E pai é lugar simbólico, não é só biológico. É um lugar de quem tem pênis ou não, pouco importa, em uma relação homoafetiva ou heteroafetiva. Podem ocupar esse lugar o avô, a avó, o tio, a tia, o padrasto, a madrasta, o padrinho, a madrinha, um amigo da família.

Porque, convenhamos, tem pai que tudo o que fez na geração de um filho foi entrar com o pau para fecundar. E às vezes numa transa xoxa, sem graça. Que esses pais que são só biológicos e que se abstêm de ocupar seu lugar imprescindível de provedor de afeto fiquem bem longe do comercial da Natura ou de qualquer outro comercial do Dia dos Pais. Parabéns, Thammy. Parabéns, a todos os pais que não são só paus.

Faltas e presenças

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Ditos a uma paciente que ainda não tive.
– Sabe, doutor… hoje estava olhando meu guarda-roupas. Tem roupas que comprei e nunca usei. É comum eu até dar roupas que nunca tenha usado. E continuo comprando. Minha mãe me chamou atenção pra isso. Aí eu dei uma googlada e descobri que posso sofrer de TCC, Transtorno do Comprar Compulsivo.
– Ah, o doutor Google tem todos os diagnósticos, né?
– Eu não devia, né? Mas sabe como é…
– Veja, nem toda mania de comprar é Transtorno do Comprar Compulsivo. O TCC geralmente tem efeitos desastrosos sobre as finanças. É o seu caso?
– Não. De jeito nenhum. Tenho bom controle sobre minha vida financeira. Mas reconheço que gosto de comprar, escondido de todos às vezes, rs…
– Sei… Seu prazer não está em comprar. Comprar é só uma parte do processo para o gozo, que está em outro lugar. Seu prazer está em dar e, com isso, mostrar aos outros e a si mesma que você pode tanto comprar quanto se dar ao luxo de se desfazer sem sequer ter usado. Os outros precisam saber de suas conquistas financeiras. Vamos falar da sua infância?
– Quer saber se me faltou algo, né, doutor?
– Fico feliz com pacientes que com o tempo vão entendendo a dinâmica do processo terapêutico. Mas, sim, voltemos à sua infância…

Acunpultura inversa

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A gente se amou muito. Mas um dia eu a machuquei. Ela, para se defender, colocou todos os meus defeitos e mais alguns num saco e jogou com força sobre o meu rosto. No fundo do saco, amassada e rota numa borra de mágoa, a parte bonita da nossa história.

Amar na ausência

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Há pessoas que amamos e cuja distância física nos machuca. Por isso, penso que momentos com aqueles a quem amamos, que trazemos dentro de nós – ainda que o dia a dia deles nos faça esquecer – precisam ser aproveitados ao máximo. Se você não pode ficar junto de quem você ama durante um ano, fique um mês. Se não der um mês, fique uma semana. Se não der uma semana, fique um dia. Se não der um dia, fique um minuto. Mas fique intenso, olhando nos olhos, ouvindo, segurando a mão. Viva a plenitude da presença. Porque a ausência de quem a gente ama é a regra do mundo. E aprender a amar na ausência leva tempo. E dói muito.

O espelho de Narciso

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As relações são construções dinâmicas entre duas pessoas. Portanto, ambas levam para a relação sua história de vida, com suas questões e construções simbólicas. Uma relação, seja ela amor eros ou ágape, “vai dar certo” quando houver conciliação nesse encontro de demandas e o prazer gerado pelo encontro for maior do que a dor. Nunca há o encaixe perfeito porque as pessoas têm histórias diferentes. Sempre perdemos no varejo para ganhar no atacado. Relação é ajuste constante do GPS afetivo, é um eterno decidir entre o que deixo ir em nome do que quero que fique.

No entanto, quando um dos polos é narcisista, ele não só não cederá a parte que lhe cabe para suprir o outro na negociação, como também jamais reconhecerá que precisa deixar de olhar o espelho para criar laços reais e não apenas ilusórios, frágeis e passageiros. O outro, que não é o eu Narciso e perfeito, é quem sempre falha, é quem sempre deve, é o que sempre ameaça.

No amor eros, o desbalanço extremo – quando só um entrega – leva a amores pesados, tóxicos, abusivos. Apenas uma parte se alimenta, gafanhotando o parceiro, que fica por alguma razão que precisa ser evidenciada e elaborada. Mas, mesmo difícil, há a sempre a possibilidade do rompimento e do nunca mais. É preciso cortar os tubos que conectam oxigênio e o afeto que corre unilateralmente. Para relações abusivas não há meio-termo.

No amor ágape, o desbalanço também leva a sofrimento. Muitas vezes, é um sofrimento igualmente causado por um narcisismo pesado que coloca a pessoa no polo do egoísmo afetivo, em que não se importa de fato com o outro, somente consigo. Quando o laço é de família, por exemplo, a dor é mais perene porque o rompimento é mais difícil, mas é uma possibilidade real convocada pela saúde psíquica de quem tem sobre si o derramamento de sangue de uma ferida que não é sua. Sangrar nos outros é um recurso do narcisista, preocupado demais em se olhar no espelho para cuidar de coisas que acha que são desimportantes e secundárias.

Enfim, relações só valem a pena se houver ganha-ganha na negociação das diferenças. Se você não está disposto a negociar, se suas relações são frágeis e ilusórias, se seus laços se desfazem com o sopro, pode ser que você precise quebrar o espelho ou atravessá-lo, tal qual Alice, para perceber que de repente as coisas são o contrário do que se pensa, que o vilão não é outro, que há feridas a cuidar.

Pode ser que você esteja também na outra ponta, que busca inconscientemente essas relações frágeis e se apaixone pelos narcisos para purgar algo que rasgou lá atrás. Terapia é uma boa forma de identificar o que rompeu e interromper esse ciclo de dependência. Para o Narciso, terapia é sempre uma boa forma de quebrar o espelho. Embora isso seja de uma dor imensa, pois Narciso acha feio o que não é espelho e acha que, por isso, não precisa de ninguém. Ele se basta. E segue na sua antropofagia afetiva, passando por cima dos afetos das pessoas de quem deveria cuidar.

Espelho, espelho meu.

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É preciso compreender de onde vêm a raiva e animosidade em relação a certas pessoas. É mais provável que venham de questões nossas não percebidas e mal resolvidas do que da própria pessoa alvo da animosidade. Sentidos. É necessário dar sentidos às coisas e se implicar no sentido desses sentidos para melhorar a vida e ser mais feliz, que é o que interessa.

Arlequim

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Arlequim carrega um manto. Por onde passa, pega um pedaço de tecido e costura no manto. Cada retalho é a memória do lugar, das pessoas, das vivências. Cada um de nós tem o seu manto de Arlequim. Retalhos coloridos, em preto-e-branco, perfumados, fedorentos, inteiros, rotos, bem costurados, por costurar melhor, mostráveis, escondidos. Manto nas costas, vez por outra olhamos para o pano e lembramos uma a uma as histórias dos retalhos. Enquanto lembramos, assobiamos as músicas que tocavam quando o costurávamos ao mosaico de nossa história. É ele que nos dá identidade, memória, história. É o manto da nossa trajetória que nos faz ser o que somos, com as delícias e dores de ser o que somos. Com as verdades, com os segredos. E o seu manto? Quão belo é?

Um lugar para colocar as coisas

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Resolvi reativar meu site. Atualizei umas coisas, acrescentei uma páginas. A ideia é ter aqui as coisas que faço. Sinta-se em casa. Seja bem-vindo, seja bem-vinda!

Blackbird: da delicadeza das relações

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Eu sempre amei música. Até hoje a música tem um espaço fundamental no tecido da minha vida afetiva. É uma linha essencial no meu linho. Eu conto minha vida pelas músicas que canto. Ouço uma música e sei exatamente a época em que tocava porque ela me tocou à época em que era tocada. Pequenos filmetes desfilam em minha mente quando são as canções que nos põem para tocar.

Quando eu tinha meus quinze, dezesseis anos, todo sábado à tarde eu transformava o meu quarto em meu templo. Minha oração, ligação com o transcendental, brotava do som que eu ouvia dos discos-bolacha que eu punha para escutar no meu três-em-um Gradiente. Quando a agulha descia sobre a faixa escolhida e começava o seu chiado, eu fechava os olhos e entrava em contato com dimensões cuja existência só viria a descobrir mais de trinta anos depois, lendo os livros de Patrick Drouot.

Queen, The Mammas and the Pappas, Pink Floyd, mas, sobretudo, Beatles. O piano de Let it Be, o crescendo alucinante de A Day in the Life, a declaração de amor crua, direta e visceral em  I Want You (She´s so Heavy) e o desespero de apaixonado e enfeitiçado por algo nela, bailando ao som do solo da guitarra de George Harrison em Something. Cada canção dos Beatles é uma história, um sentimento, uma sensação. É vida. Eu era um menino magrelo, desengonçado, ignorado pelas mulheres,  mais interessadas nos Menudos, nos garotões sarados, tatuados e bonitos da escola, que sabiam dançar. Ou nos caras que dirigiam um Escort XR-3.  O ignorado aqui, let it be, escrevia boa parte de sua existência, recluso no seu universo particular, pelas músicas de Lennon e McCartney. Eu era um estranho no mundo dos afetos. Só tinha a oferecer uns textos mal escritos e nada mais. No entanto, eu era um estranho que, orgulhoso, tinha todos os discos do Fab4. E eu ouvia todos os discos. E eu sabia, como sei até hoje, todas as letras e suas histórias. Eu era o fã que lia os livros biográficos dos caras. Minha parede do quarto tinha um quadro com a foto do John. Eu acordava e dormia olhando aquele sujeito que me ensinou que, puta merda, pelo amor vale tudo. Até deixar os Beatles.

No meu mundinho fechado, mas incrível, eu aprendi a ler as pessoas pelas músicas. Eu compreendi que tudo tem significado; eu entendi que significado é história e, por ser história, todo sentido é dinâmico e pode mudar. Dei-me conta de que são os significados que damos ao mundo que regem nossa existência. Todo esse aprendizado lá de trás, vejam que coisa!, me levou a estudar linguagem, discurso e me trouxe ao encontro da psicologia no ocaso da vida. Estava escrito? Maktub mesmo? Whatever…

Voltando ao meu quarto em 1983, eu me vejo ouvindo a guitarra seca de Blackbird. Paul McCartney fez essa música pensando nos conflitos raciais no Alabama e no Mississipi em 1968, ano em que nasci. “Bird” é uma gíria britânica para “girl”. Blackbird faz referência às mulheres negras que sofriam o que sofriam então. É uma música política. Sempre adorei Blackbird. É o tipo de música que fica excelente em qualquer versão. Mas, como sempre dei meus sentidos às músicas, em um exercício muito particular, com Blackbird não foi diferente.

Blackbird singing in the dead of night/Take these broken wings and learn to fly/All your life you were only waiting for this moment to arise/Blackbird singing in the dead of night/ Take these sunken eyes and learn to see/All your life you were only waiting for this moment to be free/Blackbird fly, blackbird fly/Into the light of the dark black night.

Para mim, essa canção fala de vida afetiva, de história, do que a psicanálise lacaniana chama de Real. Quem de nós nunca foi um pássaro que cantou na solidão da noite? Quem de nós nunca viveu o inferno de uma relação em que se apostou a vida e que falhou? Sim, porque a vida vem e não pede licença. Às vezes atropela. Quebra as asas. Pela vocação da felicidade, as pessoas de repente pegam essas asas quebradas e se lançam, ainda que relutantes, a reaprender a voar. Só esperam, arredias, o momento se oferecer. Há um momento certo para amar? Enfim, aguardam a hora em que a luz reparadora entra pela fresta da ferida, pelo rasgo da existência.

Pássaros cantando na solidão da noite – quem nunca? Quantas vezes nos vimos tomando os olhos encovados pelas olheiras e tivemos de reaprender a olhar o que a vida borrou e transformou em experiência de dor? Rever o borrado pela dor dá um trabalho filho da puta. Corre sangue até. Mas sempre chega o momento de se libertar do que acorrentou, do que passou e fez mal. Que metáfora linda para se falar da necessidade de se continuar vivendo depois que a vida aprontou, bateu, derrubou! É a função da arte, não é? Beatles, não é? Todos, absolutamente, todos somos blackbirds, enfim. Enfim.

Daí o título deste texto. Blackbird sempre me faz pensar na delicadeza das relações, sabe? Entende? Toda relação é especial. Toda relação merece ser tratada como tal. Na minha cabeça, relação afetiva só existe no todo, corpo e alma. Foi essa a dinâmica que me trouxe até aqui nesses 50 anos. É geracional. É claro que, dã, eu não vivo no século 16 para achar que não há pessoas que veem no sexo sem conexão afetiva uma opção legítima. Ok. Mas não eu. Legitimamente também, isso me é pouco. Por isso que sempre fui buscar a alma quando foi necessário, feito Robin Williams, que vai no inferno em “Amor além da vida”.

Agora, ninguém pode esquecer que se somos, o outro também é um blackbird. A ninguém, que diz amar, é dada a opção de ignorar que o outro quebrou suas asas no caminho, que sentiu dores, que tem sua história. A ninguém é garantido o direito do descuido de ignorar que se há olheiras é porque houve noites insones. Se há amor, se há carinho, há de haver cuidado. Querer bem passa pelo momento, inclusive, de se afastar quando o outro precisa respirar. A cena é linda: tomar delicadamente nas mãos o pássaro frágil que é alma alheia e abrir as mãos para deixar o pássaro reaprender a voar depois do cuidado. Ninguém ama o outro a não ser o tendo em liberdade plena. Às vezes, blackbird, é preciso voar para ficar. Às vezes é preciso compreender que ficar vendo as rodas passarem é uma opção legítima.

Toda relação é delicada. Delicada não só no sentido de merecer cuidado, mas também no sentido de ser cuidadosamente bonita. Cuidado. A gente precisa cuidar do outro. A gente precisa entender que todo encontro afetivo é um encontro de histórias. Qual é a sua asa quebrada? Como quebrou? A minha é essa e foi assim, sabe? Por que das suas olheiras profundas? O que as causou? As minhas vêm do meu choro e meu choro vem daqui, ó, deixa eu te contar, eu quero que você saiba. Amar é mais do que saber só as coisas boas. Arriscaria dizer que ama mesmo quem conhece os porquês das cicatrizes do outro e os acolhe no processo de (re)construção afetiva como elemento que dá liga à intimidade. Amar é, sobretudo, saber escutar. É conversar. É deixar claro. É não surpreender negativamente.

É. A terceira faixa do lado A de “A hard day´s night” é If I Fell. Há um pedido tão delicado de cuidado em If I Fell. Enquanto escrevia só me veio à mente sua melodia.

If I fell in love with you/Would you promise to be true/And help me understand/’Cause I’ve been in love before/And I found that love was more/Than just holding hands./If I give my heart to you/I must be sure from the very start that you would love me more than her/ If I trust in you, oh please, don’t run and hide/If I love you too, oh please/Don’t hurt my pride like her/ ‘Cause I couldn’t stand the pain/And I would be sad if our new love was in vain…

Amar é, definitivamente, muito mais do que andar de mãos dadas. Amar é voar em par. Às vezes no escuro. Às vezes à noite. Às vezes com as asas quebradas, blackbird. Com as asas quebradas.

Não tenho mais meu o quarto com o quadro de John. Não tenho mais os LPs. Mas ainda posso ver as rodas passarem. Ainda tenho os Beatles. Vou ouvir Beatles.

Quatro tons de Branco

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Eu acreditava que nunca mais iria gostar de alguém. Todo mundo quando está arrebentado de amor sempre acha que o coração não tem a capacidade de se regenerar e remendar os tecidos necrosados. Aí ou a gente vai para um ostrismo, toda fechada para o mundo, ou parte para explorar as possibilidades. Eu tinha entrado naquela fase de curtição, em que o limite é o prazer e não o afeto. Nessa fase, a regra é escolher alguém que mexe com você, no bom e no mal sentido.

A pauta era uma entrevista com um secretário de Estado. Dividir minha vida amorosa de franco-atiradora com a loucura da profissão de jornalista passou a ser a receita para manter a sanidade depois que ele se foi daquela forma abrupta naquele acidente.

– Toca pra Ilha da Fantasia, Cabeça.

Ilha da Fantasia é como, nós, jornalistas, chamamos o condomínio mais chic da cidade, onde moram vários políticos, empresários e mais uma dezena de pessoas que dividem o glamour das páginas sociais com o segredo de justiça dos inquéritos da Polícia Federal.

– Por que na Ilha, Fernandinha?, perguntou o Cabeça.
– Vai ser na casa dele. No escritório da casa dele. Foi a condição para ele dar a entrevista. O Kraken disse pra gente ir lá, a gente vai lá, Cabeça. Um dia quando tu fores editor, tu mandas. Por enquanto tu és o motorista. Obedece e pisa aí.
– “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
– Tu e tuas frases originais… Registrou essa? Alguém pode roubar…
– A sabedoria popular sabe das coisas, bebê…

Ele me esperava no escritório da casa. A casa tinha uma garagem com quatro carros estacionados. Uma SUV BMW branca chamava atenção. Ao entrar ali, caí na real quanto à desigualdade de distribuição de renda no país. Tem gente que é muito rica. São muitos mundos muito diferentes em um mesmo país. Confesso que tenho uma raiva ressentida dos muitos ricos. Sempre trago na cabeça o que meu pai me disse um dia: há um teto salarial para gente honesta. Mais do que aquilo, só pisando nas pessoas ou jogando valores no lixo. Parece que é assim mesmo.

– Bom dia!, eu disse ao entrar no escritório. Havia um quadro de Frida Kahlo e um de Picasso. Imitações, claro. Aquelas sobrancelhas de Frida sempre me deram arrepios, preciso confessar.
– Olá, entre. Estava lhe esperando.

André Branco, uns 40 e poucos anos, meio grisalho, vestindo uma camisa polo preta. Era o secretário da minha pauta. Ele me cumprimentou com dois beijinhos. Foi estranho. Sempre olhei para aquele cara com a ojeriza de militante de esquerda. Mas a iniciativa foi dele e não tive muito como evitar.

– Posso fotografar o lugar?
– Claro. À vontade. Vocês não andam mais com fotógrafos?
– Redução de custos. A gente joga em todas. Depois que inventaram o videorreporter…

Enquanto fotografava, o perfume dele, que ficou colado em mim, me desconcentrava. Era francês, eu tinha certeza. Fiquei com vontade de perguntar o nome, mas não combinava nem com o momento e nem com a tarefa para qual eu havia sido designada. Era do tipo de perfume que a gente sente e tem vontade de comer a pessoa que está usando. O perfume certo na vulnerabilidade adequada pode render bons caldos.

– Quantos anos você tem?
– Isso não se pergunta a uma mulher, secretário.
– Kouros. Yves Saint Laurent.
– O quê?
– Meu perfume. Você não consegue disfarçar que gostou dele. Quantos anos? É justo. Uma informação para cada.
– Vinte e dois. Bom, tenho umas perguntas a lhe fazer. Podemos? Posso gravar?
– Claro.
– O senhor está sendo acusado de fraudar uma licitação na sua secretaria. O que o senhor tem a dizer sobre isso.
– Não há fraude. Tudo foi feito dentro da lei. O que houve foi uma dispensa de licitação porque a empresa que ganhou o serviço era a única com capacidade técnica atestada. O problema é que as pessoas não entendem e quando se fala em ‘dispensa de licitação’ acham que isso é ilegal. Lei 8.666. É só ler.
– Mas na denúncia apresentada pelo Ministério Público…
– O Ministério Público quer ser mais real do que o rei. São administradores frustrados que querem administrar pelo executivo. Até hoje eles não entenderam direito qual é a função deles. Você é uma jovem repórter. Sabe qual é a sua função no jornal. Se quiser fazer a função de outro, cujo conhecimento técnico não possui, não vai dar certo, entende?

Achei que foi uma indireta para a função de fotógrafa.

– Segundo a denúncia do MP, a empresa é de um primo seu.
– E qual é o problema? Era a única empresa com capacidade técnica para fazer o que tinha de ser feito. Eu vou prejudicar a população porque a empresa é de um primo? Besteira. Seu nome é Fernanda, não é?
– Sim.
– Então, Fernanda. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto.

Ele falou aquilo olhando nos meus olhos. Aquele homem não chegara aonde chegara à toa. Ele sabia o que dizia. Ele sabia convencer. Ele era um homem bonito. Já não me parecia um monstro abominável do capitalismo selvagem.

A entrevista continuou. Ele respondeu tudo com segurança. Saí meio que convencida.

No carro, Cabeça perguntou se tinha ido tudo bem. Eu disse que sim e fomos adiante. Tinha outra pauta. Era sobre o aniversário da cidade. Um historiador da universidade. Gente chata. O cara já tinha desmarcado duas vezes.

– Vamos para a Universidade, Cabeção. Ver se dessa vez rola.

– “Água mole em pedra dura…”

Não sei dizer a razão, mas aquele cara não me saía da cabeça. Fui fuçar para ver se ele tinha Facebook. Tinha. Era casado. Mulher bonita. Dois filhos. Um casal. Fotos em Chicago, em Veneza, Paris. Torcedor do Botafogo. Acho que um dos cinco da cidade, que vão pro estádio numa kombi, pensei comigo, o sacaneando mentalmente. Ri sozinha. Alice perguntou quem era.

– Quem é o quê?
– Me poupe, Fernanda. Eu te conheço. De quem é esse perfil do Facebook aberto aí.
– Virou advinha agora?

Fato é que Alice me conhecia como ninguém. Minha amiga, confidente, cúmplice. Contei a história para ela.

– Furada. Tu sabes. Casado é rolo.
– Ele nem sabe de mim… quer dizer, nem sabe que estou stalkeando ele.
– Cara, eu te apoio em tudo. Mas se tu se meter nessa, tu tá sozinha…
Depois que voltei da casa da Alice, fiquei pensando. Fiquei tentada a ligar para ele. Ele me deu o cartão com o número do celular anotado à mão. Resolvi mandar uma mensagem.

– “Olá. Aqui é Fernanda, do jornal. Preciso de informações para fechar a matéria. Aguardo retorno.”
– “Olá. Aqui é Branco. Quando quiser. E onde quiser…”

Caraca. Por essa eu não esperava. “Onde quiser…”! Reticências. Reticências são malvadas. Reticências contêm o mundo. Comecei a gostar do joguinho.

– “Eu escolho o lugar? Perigoso isso…”
– “O perigo dá o tom da vida… Me ligue amanhã à tarde e combinamos.”

Passei a noite olhando para o teto do meu quarto e pensando em algumas coisas. Pensei sobre a regra de ouro de nunca ir para a cama no primeiro encontro. Pensei em todos os conselhos para nunca se meter com homem casado. Pensei na ameaça explícita da Alice. Pensei no desejo que aquele homem me desperta. Pensei na tensão. Pensei no tesão. Pensei na transa. Pensei muito na transa. Minha imaginação dirigia o movimento dos meus dedos por baixo do edredom. Olhos fechados, viajei na sua presença dentro da minha imaginação, dentro de mim. Definitivamente eu o queria. Se ele fazia isso comigo só no desejo, imagina no jogo de corpos. Dormi leve como uma nuvem.

“Oi, quero você.”

Send. Dane-se. Vamos ver o que rola. Nem esperei amanhã à tarde,

“Onde te encontro, menina?”, veio a resposta.

“Queria tomar água de coco, mas não rola. Estou sozinha com minha vó.”

“Mande seu endereço”. Eu mandei. Tem uma hora na vida da gente que a gente vai dando enter, enter, enter na vida, sem ler. Seja o que Deus quiser…

Quarenta minutos depois, um SMS avisando que chegou. Um carro preto parado em frente de casa, sob a mangueira do terreno do outro lado da rua. Eu decidi ir lá. Confesso que estava suando frio. Minhas mãos molhadas. Meu coração saindo pela boca. Era muita porra-louquice. Mas o desejo de ver aonde isso ia dar era maior que o medo.

– Oi…
– Quer entrar? A porta de lá está aberta.
– Tá.

Ao entrar no carro, senti o perfume no ar. Desconfio que o filho da mãe borrifou para me inebriar. Sem falar nada, ele alcançou um saco plástico no banco de trás e aumentou um pouco o som – rolava Tarde em Itapoã. Ele estendeu o saco plástico e disse:

– Pra você, menina.
– O que é isso?, disse, abrindo a sacolinha.
– Água de coco. Faz bem para o colesterol e evita câimbras. É em caixinha, mas dadas as circunstâncias…

Tive que rir. Além de bonito, cheiroso, o cara ainda era espirituoso. Gosto de homens que me fazem sorrir. Não gosto dos que me fazem gargalhar, no entanto. Quer dizer, não para ter algo. Tem de ser aquele sorriso roubado, que não dá para conter. Ponto para ele. Charme é aquilo que desequilibra os olhos e baculeja os pensamentos. Ele era muito charmoso, vamos combinar.

– Obrigada. Não precisava. Quer uma?
– Quero. Obrigado.

Ele colocou o canudinho na caixinha dele e me deu, antes de enfiar na minha e ficar para ele.

– O que você quer de mim?, ele perguntou enigmático.
– Quero testar o meu poder de sedução. Provar que não existe homem fiel. Mostrar que o homem age por instinto e não pela razão.
– Eu estava me referindo à informação para a sua matéria. Mas já que você falou isso, quem é que traumatizou você assim?

Oops! Sorri para disfarçar que acusei o golpe. Ele falou “você”… Quando um homem muda do “tu” para “você” é porque ele está a fim. Ele estava a fim. Mas não era efusivo, nem afoito. Mais um ponto para ele. Não gosto de efusividades.

– Ninguém me traumatizou. Você é casado. O que você está fazendo aqui?
– O que uma coisa tem a ver com a outra?
– Vocês homens são todos iguais.
– Frase original…

Eu me senti o Cabeça.

– Você quer casar comigo? Acabar com meu casamento?
– Claro que não!
– Então não vejo problema. Há diferentes tipos de afetos. Uma coisa é você ter sua família, gostar dela, protegê-la. Outra é você dar vazão para as paixões que se apresentam na vida.
– Quer saber? Esse seu papo é muito canalha, cara!
– Quer que eu vá embora? Sem problema.
– Não, não quero. Eu quero você. Quis no dia que vi você.

Lá estava eu falando “você”.

Ele olhou para mim. Sorriu. Ouviu o que queria. Conversamos amenidades por meia hora. Ele trocou a música. Colocou Marisa Monte, “Beija eu”.. Ele foi se aproximando de mim. O perfume foi ficando mais forte e quanto mais forte ficava, mais eu sentia que ia me entregar àquele homem. Ele chegou com o rosto perto de minha boca. Dava para sentir o seu hálito de menta. Ele veio em minha direção e parou. Olhou-me bem dentro dos olhos. Disse, num sussurro:

– Eu sou um obediente musical.

Chegou mais perto. Senti que estava prestes a me beijar. Antes de colar seus lábios nos meus, no entanto, passou a ponta da língua no canto da minha boca. Depois passeou com ela pelos meus lábios. Explorava meu rosto como se desbravasse uma selva que lhe era virgem. Mordeu de leve. Eu já estava maluca e ele sabia disso. Sentia e ouvia a sua respiração quente. Ele enfiou a língua em minha boca e encontrou a minha língua, molhada e receptiva. Foi a primeira vez que ele entrou em mim. Chupava minha língua sem força, quase flutuando sobre ela, como quem sorve um sorvete de casquinha no início, num beijo leve e bom. O beijo é o que muda o desejo de lugar.

Seu corpo se envergou sobre o meu. Ele me abraçou enquanto me beijava. Estava completamente entregue àquilo. De repente, ele puxou a gola de minha blusa e começou a morder meu ombro, meu pescoço, minha nuca. Eu queria explodir. Estava completamente encharcada de desejo. Ele, atraído por isso, eu desconfio, pousou a mão sobre a minha coxa. Foi deslizando a mão para a parte interna da minha perna. Devagar. Segurei sua mão. Ele recolheu. Segurei sua mão. Ele entendeu. Seu dedo achou o caminho até mim. Deixei que ele entrasse em mim pela segunda vez. Gozei a primeira de incontáveis vezes.

Sua mão era macia. Senti a maciez também quando a colocou em minha barriga, levantando a minha blusa. Sabia que aquilo era um caminho sem volta. A gente sabe quando chega ao ponto do não retorno nas querências, cujo o único destino possível é o sexo. O sexo bom. Como aquele que se anunciava com seu polegar a explorar caminhos por debaixo do elástico meu soutien… Sua mão não tinha pressa. Já tinha mostrado que sabia aonde ia. Levantou meu soutien, libertando o que era seu objetivo. A rigidez do mamilo denunciava o quanto eu queria e sinalizava para ele para que continuasse. Senti seu polegar apertar de leve. Depois foi o indicador a circular a auréola como um cego lendo desejos em braile. Eu respirava forte e cada vez mais rápido. Sua mão envolvia meu seio e com a palma ele fazia leves pressões. Soltei um “ai” involuntário. Tesão dói.

Minha blusa já estava no meio da barriga quando ele olhou para mim e, com o olhar, anunciou que iria levantá-la mais. Pegou delicadamente a blusa com as duas mãos em sua extremidade inferior e foi levantando. Ali estava eu, com praticamente um estranho, de peito nu. Ele olhou. Ficou um tempo admirando como se estivesse me fotografando mentalmente. Passou a mão numa pinta que tenho acima do seio direito. Mordeu o lábio. Sem dizer nada, foi chegando de novo junto a mim. Mergulhou nos meus peitos e cheirou meu corpo. Eu apertava seu rosto contra o meu corpo e passava a mão por entre seus cabelos. Ele se deliciou comigo. Sua língua me fazia sentir raios no corpo. Mordiscava e lambia. De mim, ele sentia o gosto. Por ele, eu me senti desejada.

Decidi devolver o carinho. Minha mão correu por sobre sua perna. Pude sentir o tamanho do seu desejo por mim. Roupas prendem desejos. Roupas impedem o toque. Delicadamente abri o botão de sua calça e abri seu zíper. Não tinha mais volta. Ele seria meu. Ele puxou o banco do carro para trás, reclinou, deitou e passou a mão nos meus cabelos. Foi a senha. Beijei sua barriga. Senti mais de perto aquele perfume que me deixava zonza. Eu também tinha meus segredos com a língua. Eu também sabia mordiscar. Eu também gosto de sorvete. Foi a terceira vez que ele entrou em mim. Eu não sei que música tocava, mas tinha um solo de guitarra delicioso que cadenciava os meus movimentos. Eu adoro isso.

Ele, que não dissera uma palavra até então, disse:

– Sabe onde eu queria estar agora, menina?

Me chamar de menina tornava a coisa mais proibida. O cara era bom.

– Onde?, respondi fazendo minha parte no joguinho.

– Dentro de você…

Fui pra cima dele. Enquanto nos beijávamos, ele levantou minha saia, acariciou minhas coxas e abaixou até onde pôde a minha calcinha, um estrago a essa altura do campeonato brasileiro série A real oficial. O resto ficou comigo. Na dança de corpos, nos procuramos. E nos achamos. Quando nos achamos, paramos, ambos. Ao mesmo tempo. Ele pegou meu rosto com as duas mãos e disse:

– Eu te quis na hora que eu te vi.

Ele deslizou para dentro de mim sem esperar mais, me preenchendo as vontades. Estava suada. Ele também. Mesmo com o ar-condicionado do carro ligado. Minha barriga molhada esfregava na dele. Minhas mãos entrelaçavam e apertavam as mãos dele. Eu cavalgava em cima daquele homem. Surfava nele. Ele me puxava os cabelos e alternava seus beijos em minha boca e em meus peitos. Seus beijos eram meu açoite. Sentei olhando para ele. Sentei olhando para as estrelas pelo para-brisa. Era a quarta vez que ele entrava em mim. Não estava claro quem dominava quem. Também pouco me interessava. A última coisa que eu queria naquela hora era pensar em masturbação sociológica de gênero. Sociológica de gênero, que fique claro.

Eu gozei muito. Longamente. Minhas pernas perderam as forças. Senti choques pelo corpo. Tremi. Arrepiei. Tive câimbras que a água de coco não conteve. Ele esperou muito por mim. Mas por fim gozou também. E eu com ele, de novo. Ele me apertou com tanta força quando explodiu que me deixou a cintura roxa. Foi a melhor transa da minha vida. Eu pensei que não diria essa frase de novo. Comecei a desconfiar de que só o sexo com amor vale a pena. Ali era puro sexo, puro tesão, carnaval, festa da carne. Mal conhecia o cara. Ele mal me conhecia. Mas a gente se encaixou maravilhosamente bem. A vida tem dessas. Não é porque é sexo casual que a pessoa tem de tratar você mal.

Dane-se o moralismo! Até esqueci que ele era casado. “Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa”, diria Cabeça se estivesse de voyeur da cena.

Ele passou a mão nos meus cabelos, tirando do meu rosto. Eles estavam desgrenhados. Ele sorriu e disse:

– Você tem uma boca linda. Mas a pintinha é a cereja do bolo.

Ele tinha gostado da pintinha. Eu sorri. Eu disse que precisava voltar. Procurei minhas roupas largadas do avesso pelo assoalho do carro. Vesti e falei:

– Eu ia te fazer a pergunta para a matéria agora. Mas acho que vou deixar pra outro dia.

Ele entendeu. Saí sem dar tchau. Esperou eu entrar e foi. Aquilo ainda me renderia um baita sermão da Alícia no dia seguinte. Mas eu não conseguia tirar da cabeça e do corpo as nuances do Dr. Branco. As quatro vezes que ele entrou em mim. Definitivamente eu queria mais. Mais tons de Branco.

É. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto. Tive a nítida impressão de que essa história iria continuar…