Learning to live again

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Through the kitchen window, to be precise. While I was waiting for the coffee to percolate in the morning. I was thinking about tiny things and looked out the window at the horizon when I was startled by a pair of scarlet macaws flying right in front of me. Macaws flying early in the morning and at sunset are part of Manaus’ aesthetic history, for those who are unaware. It is a lovely sight to behold. The image reminded me that life had poetry, in addition to the bank slips and regular problems that occupied my thoughts.

Vaccination appears to be in full swing. Despite an inefficient government that is more concerned with its tenebrous activities than with assisting in the fight against the pandemic, a pandemic that, according to Boaventura Sousa Santos, marked the start of the twenty-first century. Corona has had a significant impact on our lives during the last fifteen months. Everything now implies that, if one is positive, life will return to being lived in the same manner as before. We, responsible non-denial citizens, already timidly go out to restaurants, shopping malls, restricted cocktail parties. Not without wearing the mask and occasionally sticking your hand in the gel.

It still feels like a misdemeanor, like I am on probation. It is weird for me to be in locations where there are no sofas, such as a bookstore. The message appears to be, “Come in, but don’t make yourself at home.” While waiting for my wife to buy clothes at the department shop next door, I just wanted to sit and casually flick through a book on Celtic history. However, there are no benches, chairs, or armchairs available. They were completely wiped out by the pandemic.

Returning to coexistence with others in the presence is weird, I think. We unlearn the ropes in a way. It is a bittersweet situation. This comeback has an exhilarating and unsettling quality about it. It is like though we have suddenly returned to our homeland after having been absent for a long period. What will people’s reactions be? Has anything changed on that street? Is the mother of your friend still alive? I am not sure what to say or how to welcome folks. Have you already exchanged handshakes? How about a punch with a punch? Isn’t it elbow-to-elbow? Is it just a no-touch greeting? Is hugging already acceptable? In these new times, what politeness standards left by the plague should we learn?

Our social muscles have weakened. Allow for social physiotherapy to rehabilitate them! We must relearn how to socialize. It is a fact. The pandemic has offered some consolation to those who, like me, have always been very homely. My home is one of my favorites. But, once again, I must embrace the discomfort of the unknown, the impending return. After a year of hearing that we should not mingle in groups because of a fatal virus on the loose, it seems difficult to alter it all over again.

The pandemic’s mandatory containment has raised a variety of philosophical issues. Do we really need to get out of the house so often to enjoy our lives? You can’t solve it with a text message or a Meet call? Do we really need to deal with congested roads, destroy the environment, and dress in long pants and shoes? Do women need to go back to wearing tight bras now that they have spent so much time at home with their bodies free? Do we really need to go to bars to socialize? Isn’t it possible to merely listen to the Spotify playlist? What do I want for my life? What kind of world do I want my daughters to grow up in? When will I be able to devote all of my time to my family again? I am not sure what the answers are. Really. Gestalt is open. As a psychologist, I envision a vast grassland stretching as far as the eye can see to be explored.

The truth is that isolation forced us to re-evaluate our priorities in life. We discover inertia and learn how to live in it without doing anything and without the constraints of time. And we enjoy it. Of course, I am referring to the number of people who could work from home. The debate is different for individuals who have fought at hospitals, running public transportation, pharmacies, supermarkets, and so on. My respect.

We must learn to live again. Regain our ability to embrace and laugh in the presence of others. Take better care of the group. Take better care of the environment. Living the life that truly counts since life is a breath that could be taken away at any moment. These are lessons in the virus’s pedagogy. We slow down to take in the scenery of life, focusing more on the journey and our companions than on the destination. You can even see the macaws in the window without rushing. It is now late afternoon. Just as though to illustrate the text, a couple has just come by. Synchronicity. Or is it God, who is a poet in his own right?

Reaprender a viver

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Foi pela janela da cozinha. De manhãzinha, enquanto esperava o café coar. Pensava eu nas pequenas mundanidades, olhando o horizonte, quando fui surpreendido por um casal de araras vermelhas que cruzou o céu bem à minha frente. Para quem não sabe, araras voando de manhã cedo e no crepúsculo são parte do patrimônio estético de Manaus. Uma coisa linda de se ver. A cena me lembrou que, além dos boletos e das broncas cotidianas que habitavam meus pensamentos, a vida tem poesia.

A vacinação parece que está engrenando. A despeito do governo inepto e mais preocupado com suas tenebrosas transações do que com ajudar a combater a pandemia, pandemia que, segundo Boaventura Sousa Santos, marcou de fato o início do século 21. O Corona mudou nossas vidas de muitas maneiras nestes últimos quinze meses. Agora, tudo indica, sendo otimista, a vida tende a voltar a ser vivida de forma parecida com o que era antes. Nós, os responsáveis não-negacionistas, já saímos timidamente para restaurantes, shoppings, convescotes restritos. Não sem usar a máscara e não sem se preocupar, de tempos em tempos, de melar a mão no gel.

É ainda uma sensação de contravenção, de liberdade condicional. Confesso que é estranho estar nos lugares, como uma livraria, e não ter um sofá para se sentar. “Venha, mas não fique à vontade” parece ser o recado. Só queria sentar e folhear sem compromisso um livro sobre história celta enquanto espero minha mulher comprar roupas na loja de departamento ao lado. Mas não há bancos, cadeiras, poltronas. A pandemia comeu todos.

Pensando aqui: voltar à convivência com os outros em presença é algo estranho. Meio que desaprendemos a manha. É um troço agridoce. Há algo de excitante e de desconcertante nesse retorno. É como se, de repente, voltássemos à cidade natal depois de muito tempo vivendo longe dali. Como estarão as pessoas? Aquela rua, mudou? A mãe do amigo ainda vive? O que devo dizer e como devo cumprimentar as pessoas? Aperto de mão já? Soquinho com soquinho? Cotovelo com cotovelo? Só um olá sem toque? Abraçar ainda é over? Quais as regras de etiqueta legadas pela pandemia devemos aprender nesses novos tempos?

Nossos músculos sociais atrofiaram. Haja fisioterapia social para colocá-los de volta no lugar! Desaprendemos a socializar. É a constatação. Para quem, como eu, sempre foi muito caseiro, a pandemia trouxe um certo conforto. Eu adoro minha casa. Mas preciso agora, de novo, abraçar o desconforto do incerto, do iminente retorno. Parece complicado mudar tudo de novo depois de um ano ouvindo que não deveríamos socializar em grupos por causa de um vírus mortal à solta.

O enclausuramento compulsório da pandemia esventrou uma série de questões filosóficas. Precisamos sair tanto de casa para viver a vida? Não dá para resolver com uma mensagem de zap ou uma chamada no Meet? Precisamos mesmo enfrentar trânsito pesado, poluir o meio ambiente, vestir calça comprida e sapato? As mulheres precisam voltar a usar sutiã apertado, tendo passado tanto tempo com o corpo liberto nos domínios do lar? Sério mesmo que temos de ir para barzinhos para socializar? Não dá para ficar só apreciando a playlist do Spotify? O quero para minha vida? Que mundo quero para minhas filhas? Para os meus? Quando eu vou ter de novo todo esse tempo para minha família? Não sei as respostas. De verdade. Gestalt aberta. Para o psicólogo que sou, vejo um pasto imenso a perder de vista.

Fato é que o isolamento fez a gente recalibrar prioridades do que realmente interessa na vida. Descobrimos a inércia e como habitá-la sem fazer nada, sem as injunções das obrigações de horários. E gostamos. É claro que me refiro à parcela das pessoas que pôde ficar em casa, em trabalho remoto. Para quem esteve na batalha dos hospitais, do transporte público, das farmácias, dos supermercados etc., o papo é outro. Meu respeito.

Reaprender a viver. Reaprender a abraçar. A sorrir na presença. Cuidar mais do coletivo. Zelar mais pelo mundo. Viver a vida que de fato interessa porque ela, a vida, é um sopro e pode não mais estar lá ao dobrar a esquina. São lições da pedagogia do vírus. Desaceleramos para perceber a paisagem da vida, para prestar mais atenção no caminho e nas companhias de viagem do que no destino.Dá até para ver, sem pressa, as araras na janela. Fim de tarde agora. Um casal acabou de passar por aqui como que para ilustrar o texto. Sincronicidade. Ou é Deus que é um poeta mesmo.

Mundo lânguido

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Entre os extremos do estado mental da depressão – total falta de vontade de viver – e o florescimento – alegria plena de uma vida virtualmente feliz -, há a languidez.

Na languidez, a pessoa não está com o tanque cheio de energia, como no florescimento, nem está com o tanque vazio da depressão. É um entremeio. É um estado de indiferença com sua própria indiferença em relação às coisas. O dicionário a define como a diminuição do ânimo, do vigor, uma frouxidão, uma moleza, uma fraqueza. É um tanto faz contínuo. É aquele sentimento depreendido da resposta de nossos filhos quando perguntamos “Como foi a aula online hoje, filho?” Resposta: “É…”

A vontade é de procrastinar, potencializada pela falta de perspectivas concretas. No começo da pandemia, ano passado, as palavras-chaves eram perda e medo. Mas fomos relaxando, desenvolvendo estratégias para lidar com o alongamento do tempo da pandemia. Já não temos mais aquela ansiedade da luta ou fuga, do ano passado. A sensação hoje é a de que não adianta nem lutar nem fugir, mas só deixar rolar.

O amazonense tem um termo para esse calundu, esse desânimo: mofineza. É isso: não estamos felizes – como estar?! -, mas não estamos deprimidos também. Estamos mofinos. Vivemos numa condição de limbo psíquico: lânguidos.

Precisamos cuidar dessa languidez. Não, ela não é uma doença. Mas está na antessala. Passará a ser no momento em que nos tornar disfuncionais para a vida. E como cuidar disso? Há saída?

Sim. Uma saída é exercitar as atividades de fluxo. E o que são atividades de fluxo? São atividades de imersão de atenção e foco: maratonar séries na Netflix pode resolver. Ler um livro, imerso na história, também. Ouvir música por puro prazer deitado no chão da sala é uma outra opção. Focar em um projeto há tempos esquecido talvez seja uma alternativa. Para os jovens, jogar videogame é a típica atividade de fluxo. Assistir a vídeos no YouTube por horas é outra. A lista é quase infinita e depende daquilo que faz com você esqueça do tempo, do lugar e de si para, paradoxalmente, passar a cuidar de si por meio desse exílio profilático nas atividades que absorvem. Ser multitarefa nesses tempos não é lá muito recomendado. Daí o cuidado para home office não virar office home.

Ninguém quer sofrer de transtorno de mofineza. Estamos todos buscando ampliar o repertório para lidar com todas as rupturas que a pandemia nos trouxe. Cada um sofrendo e desenvolvendo suas estratégias, com ou sem ajuda de uma escuta qualificada – mas sabemos que uma boa terapia faz uma grande diferença. Nós, psicólogos, estamos aqui. Fato é que é necessário sair dessa condição de letargia e retomar os sentidos da vida.

Viktor Frankl, médico judeu que viveu os horrores de Auschwitz, sobreviveu àquilo porque deu sentido ao que vivia ali. Frankl disse a si mesmo que sua estada em Auschwitz tinha de servir para algo, ser contada ao mundo porque as pessoas precisavam saber o que é estar num campo de concentração nazista. Esse sentido dado à sua dor o salvou. Ele conta essa história em “Em Busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”. Retomando essa ideia, o mesmo Frankl diz, em “O sofrimento de uma vida sem sentido”, outro livro que recomendo vivamente para esses tempos, que a angústia é um sofrimento que não foi significado ainda. Quando damos sentidos às nossas dores, nós as esvaziamos de angústia e começamos a lidar com ela para viver melhor.

Penso que identificar a angústia sem nome e difusa que vivemos na pandemia começará a pesar menos se a nomearmos. Precisamos dar sentido a ela. Essa angústia vem da languidez, desse estado de desmotivação, dessa falta de vontade e de energia. É preciso recuperar o sentido do amor, da convivência, das relações e do prazer em relação aos outros e, mais importante, em relação a nós mesmos.Viver é preciso. Sair da mofineza é fundamental.

Sigamos, pois.

Covid, negacionismo, discurso e psicanálise: flores no concreto

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Sérgio Freire
Doutor em Linguística (UNICAMP), Psicólogo
Professor da Universidade Federal do Amazonas

Com tantas informações disponíveis sobre a gravidade da situação e a necessidade de seguir orientações básicas da OMS, muitas pessoas ainda se recusam a aceitar a realidade dos fatos. Por quê? Afinal, que diabos acontece que faz com essas pessoas não aceitem algo que nos parece tão claro? É de deixar perplexo mesmo. Como a gente explica isso?

Motivado por vários comentários nas minhas postagens nas redes sobre a gravidade da situação da COVID-19 em Manaus, andei pensando na questão. Refleti e trago essa reflexão a partir da Psicologia e da Teoria do Discurso, que é por onde transito teoricamente.

Em “O ego e os mecanismos de defesa”, de 1946, Anna Freud nos apresenta as técnicas de defesa a que o ego recorre para não sofrer tanto com a realidade. No caso dos “teimosos” da Covid, trata-se claramente do acionamento de um desses mecanismos apresentados pela autora: a negação. Está na literatura psicológica que as pessoas desenvolvem estratégias para se proteger. Uma dessas estratégias é simplesmente negar a existência de qualquer fonte ameaçadora, seja ela um fato ou uma dor. A negação é uma forma que as pessoas encontram para se defender da ansiedade intrusiva, para fugir de algo que, inconscientemente, sabem que não podem enfrentar. Por exemplo: quando alguém da família morre e uma pessoa não chora, não sofre, mantém a vida como se nada tivesse acontecido, diz-se que está em negação. Situações que causam muita ansiedade, como a perda de alguém ou uma pandemia que mata muita gente, são percebidas como ameaças e podem, por isso, disparar o mecanismo de defesa da negação.

No caso da pandemia, a negação se manifesta de várias maneiras. Pode ser se recusando a usar máscara em público ou participando de grandes aglomerações. Pode ser, ainda, refutando a ciência porque ela contradiz sua crença de que a ameaça não é nada e por não ser nada pode ser controlada com medicamentos ou produtos sem comprovação científica de eficácia. Há ainda os que esvaziam a realidade, negando-a, criando teorias conspiratórias como a de que o vírus foi uma criação chinesa, ou a de que a vacina vai alterar seu DNA ou, ainda, de que o número de mortes reportados são alterados para algum fim maquiavelicamente planejado. O limite é a criatividade.

Basicamente, as formas de negar são variações daquilo que no discurso chamamos de frase de base. A frase de base é “Bem, como eu não quero ou não posso lidar com ela, a pandemia é uma farsa. Ela realmente não existe. É uma invenção com algum propósito escuso.”  É claro que essa fase de base que sustenta o discurso negacionista é um pilar inconsciente e, por isso, escapa à razão do indivíduo. O sujeito negacionista nunca admitirá isso – porque ideologia e inconsciente são transparentes ao sujeito – e ele continuará racionalizando, ou seja, achando razões que sustentem a sua negação.

Usar a negação como mecanismo de enfrentamento nem sempre é uma escolha ruim. Ela faz parte do repertório do sujeito para lidar com a vida. No curto prazo, a negação dá à pessoa tempo para se ajustar a uma situação. Quando se torna uma muleta de longo prazo, no entanto, ela coloca outras pessoas em perigo e passa a ser perigosa. É o caso da pandemia. Daí as pessoas continuarem a fazer festas clandestinas, a ir às praias lotadas, a minimizar o risco, sempre apoiados num discurso racionalizante de que a economia e convivência social não podem parar “por causa da gripezinha.” Mistura-se a isso o que o pai de Anna, Sigmund Freud, chamou de “pulsão de morte”, no livro “Além do princípio do prazer”, de 1920.

Falamos de racionalizar. A negação às vezes se confunde com a racionalização, que é outro mecanismo de defesa. A racionalização se dá quando as pessoas tentam explicar ou diminuir a ameaça da fonte de ansiedade. Por exemplo: quando as pessoas dizem que “a Covid-19 é apenas uma gripezinha”, elas estão admitindo que ela existe, mas estão minimizando a coisa e dizendo que não é tão grave quanto todo mundo – “os conspiracionistas ou mal informados” – está dizendo. Quando citam uma médica ginecologista negacionista para legitimar práticas clínicas que desautorizam a ciência verdadeira – aquelas das pesquisas comprovadas –  e a refutam com crendices ou achismos, é a racionalização que está trabalhando. Acha-se sempre uma razão para o que se acredita. No fim, o argumento acaba sendo: “é a minha opinião e pronto!”. Como se ciência se reduzisse a opiniões. Portanto, há graus e graus de negação e racionalização.


Tanto a negação quanto a racionalização que se perpetuam são consideradas inadequadas. Isso significa que elas não ajudam o indivíduo a se adaptar à fonte da ameaça. Na verdade, podem expô-los a uma chance ainda maior de qualquer coisa que seja ameaçadora, como a vulnerabilização de pessoas que se automedicam, prejudicando seu fígado ao ingerir doses descontroladas de medicamentos prescritos por médicos negacionistas ou ao tratar baixos níveis de oxigenação no corpo com mastruz ou jambu.

Ok. Negacionistas são pessoas que se protegem da realidade negando que ela existe e agindo a partir dessa crença. Mas o que leva uma pessoa a ser negacionistas e outra não? Aqui entram de novo psicologia, psicanálise e discurso.

Segundo a psicologia do desenvolvimento, é por volta dos 6 ou 7 anos que uma criança é capaz de entender o que é fato e o que é ficção. Em nossa cultura, a ficção é reforçada. Há Papai Noel, há Fada do Dente, há Coelhinho da Páscoa. Essas construções fazem parte do desenvolvimento e ajudam as crianças com a fantasia e a fantasia é necessária para o desenvolvimento do simbólico e do imaginário. No entanto, a fantasia precisa ser balanceada como o aprendizado de como tomar decisões com base em informações factuais. E a escolarização tem, junto com os pais, um papel fundamental nisso. Quando os adultos foram criados em um ambiente onde crenças infundadas fizeram parte do discurso, é muito mais provável que acreditem em teorias da conspiração e boatos. Eles também tendem a tomar decisões com base em palpites e ideias preconcebidas e preconceitos, em vez de usar informações factuais e baseadas na ciência. Assim se constroem discursos: crenças são baseadas em ideologias e as ideologias sustentam as verdades em que acreditamos. Quando o sujeito se desenvolve dentro de discursos não acostumados a enfrentar diversidades, tem-se o cenário propício para o protonegacionista. A criança que aprendeu essa prática de pensamento sempre fugirá do enfrentamento como prática de comportamento na vida adulta. Sim, estou dizendo que há uma grande correlação entre negacionistas e sujeitos que tiveram escolarização falha e uma falta para a prática do enfrentamento a situações ansiogênicas na infância. É a hipótese.

John Cook, professor da George Mason University, nos EUA, passou a última década estudando a psicologia dos negadores do clima e os últimos meses tentando entender seus primos ideológicos: pessoas que zombam do coronavírus. Em uma entrevista para o The New York Times, ele diz: “A ideologia é um grande indicador das atitudes das pessoas em relação às mudanças climáticas, mas o tribalismo é ainda mais”, disse ele. “Em última análise, os humanos são animais sociais. Se minha tribo acredita que a mudança climática é uma farsa, é muito mais provável que eu acredite nisso também. E isso definitivamente também está em jogo com a Covid.” É o tal do comportamento de rebanho, de gado. Faz sentido o apelido da turma?  O pesquisador ainda é mais incisivo: “Em ambas as questões, [porque a questão é tribal], a liderança é crucial para mudar atitudes e conquistar a negação.” Mas não é isso que acontece no Brasil, com o presidente que temos, um negacionista também. Vamos é na direção contrária com Bolsonaro.

Até aqui explicamos por que as pessoas negam a realidade da COVID, de onde vem essa prática negacionista e qual é a importância de um líder para modificar comportamentos de grupos. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud apresenta suas considerações sobre o fenômeno psicológico que mantém coesa uma massa de pessoas. Vale a leitura, de tão atual que é.

Ok. Sabemos por que negacionistas se comportam assim, o que provavelmente faz as pessoas serem negacionistas e a necessidade de um líder para fazer esse grupo mudar de rumo ou ampliar seu comportamento negacionista, que é o caso do Brasil. Aqui, no Patropi, há saída para esse atoleiro?

Em um artigo de novembro de 2020, chamado “Psychoanalysis in combatting mass non-adherence to medical advice”, o pesquisador Austin Ratner diz: “Como os psicanalistas podem ajudar a tratar a negação em massa e a não adesão em massa? Tanto epidemiologistas quanto psicanalistas resolvem problemas aumentando a conscientização; epidemiologistas conscientizam sobre os perigos para a saúde pública, enquanto psicanalistas conscientizam as pessoas sobre suas próprias defesas psicológicas, que trabalham para tirar o perigo e a ansiedade da consciência, precisamente porque são difíceis de enfrentar. Embora os psicanalistas não possam tratar cada caso de negação individualmente, eles podem educar os profissionais de saúde e líderes governamentais sobre a negação e trabalhar com eles em mensagens eficazes que ajudem a dissipar e delimitar essa força psicológica serpentina.” Claro. Isso quando líderes estão dispostos a tal. Dançamos de novo no Brasil.

Ratner talvez aponte um caminho. Se as pessoas são negacionistas e não se cuidam, parece que o amor pelas pessoas de sua família seja a única coisa mais forte que pode fazer o negacionista cair na real. E o discurso deve ser esse: se não for por você, que seja pelo seu pai, sua mãe, seus filhos. Campanhas de saúde e prevenção devem sustentar essa linha discursiva, ao mesmo tempo que o governo deve agir com poder de polícia para decretar recolhimentos e lockdowns para os mais resistentes. Força e jeito.

Querer convencer individualmente a pessoa, em comentários infinitos nas redes sociais, tem se mostrado improdutivo, ineficaz e cansativo. Porque a barreira do negacionismo inconsciente é feita de concreto semântico. Mas resta a poesia: flores nascem nas fissuras do concreto. Parece piegas terminar o texto assim: mas só amor salva.

BIDEN, TRUMP, BOLSONARO E DISCURSO

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As reações à eleição de Biden e à derrota de Trump podem dizer, sob alguma perspectiva, como nós, brasileiros, entendemos a política. Foram basicamente quatro reações ao processo deles lá. Essas quatro reações sinalizam para o funcionamento de quatro discursos.A primeira reação é a do grupo de pessoas que dicotomizam tudo. É oito ou oitenta, ou é amigo ou é inimigo. É a turma tipicamente do Bolsonaro e daquilo que se tem chamado bolsonarismo. “Nós somos Trump? Então quem é Biden é inimigo”. Pouco interessa o mérito da discussão. O pacote é recebido fechado. Aí dentro rola tudo aquilo que a gente já sabe: delírio, fake news, acusação de fraude, China, teorias da conspiração. Tudo para dar conta do comportamento narciso-paranoico. É uma reação de manada automatizada e blocada, que recebe uma voz de comando, a ordem do dia, e a replica ad nauseam. Freud, em “Psicologia das Massas e a Análise do Eu” descreve bem esse grupo. Política aqui é guerra, confronto. “Ou nós ou eles.” E “eles” devem ser suprimidos, inclusive fisicamente, no limite, com todas as armas possíveis.

O segundo grupo é o grupo que surge da reação indiferente. “Não quero nem saber dessa eleição americana. Não tem nada a ver comigo”. Aqui, entram as pessoas que pensam a política como algo miudinho, paroquial e umbilical. “O que que eu ganho com isso? Nada? Então não me interessa.” É a turma que vota porque o irmão vai manter o cargo comissionado, porque o cara que ganhar vai continuar fazendo negócio com minha empresa e coisas assim. A política não tem a ver com a “pólis”, a cidade, o coletivo. Política aqui tem a ver com o “pragmaticus”, do latim, que significa “aquilo que é próprio dos negócios”. Os meus negócios, claro.

Um terceiro discurso é o que vem nas reações do tipo “o que vocês estão comemorando? Não tem nada pra celebrar!” É um discurso que às vezes defende uma retórica mais à esquerda, mas nega Marx – peguemos o Karl como referência, vá lá… – na sua premissa básica: o materialismo dialético como concepção filosófica, que, por sua vez, permite o exercício do materialismo histórico para o estudo da vida social, dos fenômenos da vida coletiva. Apesar da retórica, essa turma nega uma política entendida como dialética, como processo, como negociações. Esse discurso formulaicamente progressista (pero no mucho se pensarmos sua constituição) apareceu nas reações críticas e ácidas a quem celebrou a queda de Trump e de tudo o que ele representa. “Não há o que comemorar, gente!” Para esse discurso, o foco não foi posto na queda de Trump como um passo para mitigar os efeitos do fascismo na política mundial, mas foi colocado na eleição de Biden, “um imperialista porco”, “acusado de práticas pedófilas”, na base do “é tudo a mesma coisa.” É um discurso que não compreende que, em não havendo as condições ideais que gostaríamos que houvesse, às vezes é necessário ajudar, com o nariz tapado, a construir uma parede de madeira para derrubar depois em vez de se omitir e deixar que subam um muro de concreto, cujo trabalho para derrubar será muito maior. Para esse discurso, política aqui é a MINHA política. Tudo aquilo que não parta de mim ou não case exatamente com o que eu acredito não pode ser legitimado e é invalidado. “Não existe política possível sem mim.” É a política feita em caixinhas fechadas com um verniz de preocupação coletiva. É como se houvesse para esse sujeito e esse grupo uma reserva de legitimidade política. Só eles sabem, iluminados que são. E o que torna pior é que a formulação desse discurso é sempre bastante condescendente com quem não faz parte dele. Boa parte da esquerda brasileira mora aqui.

Por fim, há um quarto discurso. Ele vem numa quarta reação à eleição de Biden: a celebração de sua vitória porque essa vitória é a paráfrase de uma quebra de uma importante coluna do muro da política fascista na geopolítica mundial. Quem celebra a vitória de Biden comemora a derrota de Trump. Comemora o enfraquecimento e a perda de lastro do fantoche brasileiro. Comemora o papel decisivo da comunidade afro-americana nessa eleição e o que isso representa na reacomodação do poder político dessa comunidade, como um grande reflexo do Black Lives Matter. Comemora a ascensão de Kamala Harris, uma mulher, a um cargo historicamente de homens e isso não é pouca coisa para quem luta por um mundo menos machista e racista (“Ain, mas ela…” já dispara o cara do discurso acima!). Política aqui é entendida como uma construção permanente, feita de pequenas e grandes vitórias que merecem ser gozadas plenamente para, no momento seguinte, suspender a festa e retomar a luta, que não cessa. Política aqui é compreendida como um processo de negociação contínuo com o adversário – e não inimigo – conjuntural, negociação em que se perde no varejo para ganhar no atacado, naquilo que importa mais naquela dada conjuntura. Política aqui vai buscar o conceito de pólis, como cidadania, como inclusão de quem está fora porque não tem poder político, como negros, mulheres, índios e todo tipo de excluídos econômica e socialmente. Política aqui é superação da diferença – não supressão – por meio do diálogo, dos embates intelectualmente honestos e sem o ressentimento que mina a interlocução. É do jogo.

Política como guerra, como pragmática, como reserva de legitimidade ou como processo de negociação inclusivo e permanente. São quatro sentidos de política que circunscrevo a partir da nossa reação – nós, brasileiros – à eleição de Biden e Harris e à consequente derrota de Trump. Há outros sentidos de política? Sem dúvida. Essa é a beleza da polissemia da língua. Mas trago esses quatro para pensar como esses discursos definem nossas práticas no dia a dia em relação à política, não só stricto sensu, não só em relação à eleição americana, mas também na política da vida do homem banal, como diria Foucault.

Descrever o funcionamento do discurso é o baratinho da Análise de Discurso. Perceber-se como encaixado em um ou outro discurso já é trabalho do dispositivo ideológico de interpretação. Porque todos nós, inescapavelmente, significamos de algum lugar. Não sem resistência, não sem deslocamentos, não sem dores e angústias. E você, leitor ou leitora? Qual é o seu lugar na política?

Pai é bem mais que um pau

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Recebi alguns pedidos para me manifestar sobre o lance da Natura ter chamado o Thammy Miranda para fazer o comercial do Dia dos Pais. Vou abordar o assunto sobre o ponto de vista discursivo, que é o meu baratinho.

Nessa discussão toda, há um embate claro sobre o sentido de família. De um lado, há um discurso de cunho religioso fundamentalista, tipo o dos malafaias da vida, que foca em família a partir do ponto de vista da forma, mais especificamente da forma biológica. Esse discurso entende família a partir de uma concepção pênis/vagina. Só há família se houver um homem e uma mulher, biologicamente definidos. Adão e Eva. O que acontece nessa família é menos importante. Pouco importa se não há uma relação saudável do casal, pouco importa que o pênis e a vagina não mais se tocam porque o casal leva a relação com a barriga. Para quem foca na forma, a discussão sobre a qualidade da relação é geralmente secundarizada.

Do outro lado da discussão, há um discurso que compreende família não a partir da forma, mas de seu funcionamento. Para esse outro discurso, família é um lugar feito por gente que se ama, se cuida, se protege, que dá amor e provê o afeto necessário para preparar uma eventual criança para ser um adulto sadio e feliz. Família, então, é algo independente da forma: o casal pode ter uma relação heteroafetiva, homoafetiva ou trans, como o Thammy. Tanto faz a forma desde que a dinâmica do funcionamento da relação seja a fonte de afeto sadio.

Essa dicotomia discursiva explica a grita sobre o comercial da Natura. Quem se identifica com o discurso do comercial, com a presença do Thammy como o pai homenageado, que privilegia o funcionamento e não a forma biológica, acha bacana demais o foco na diversidade. Porque pai é uma função simbólica, mais do que biológica, mais do um fornecedor de esperma. Quem não se identifica ou se ofende com a Natura, por outro lado, esperneia porque acha que chamar Thammy para um comercial do Dia dos Pais é uma afronta ao que é correto, ou, pelo menos, àquilo que seu discurso sustenta como correto, de Deus. Mas qual é sua concepção de Deus? Um outro texto seria necessário só para discutir isso, claro.

Há ainda uma outra discussão atravessada nessa: sobre moral e ética. Ambas dão liga à sociedade. Mas a moral é individual, para mim, para dentro. A ética é social, para o outro, para fora. Sua moral pode dizer para você que uma relação homoafetiva não é aceitável, não é correta, não é de Deus, whatever. É imoral, ou seja, fora da moral. Da sua moral. E por isso você não se envolve numa relação homoafetiva. Até aí é legítimo. Agora, querer impor a sua moral aos outros, a ferro e fogo, na marra, não é ético. Os outros têm direto à sua moral também.

“Ain, mas como se resolve isso?”. Isso é a diversidade social, amigo. Concordamos com certos discursos e de outros discordamos. Não só nessa questão da sexualidade. Mas na questão da educação, da saúde, das questões indígenas, ambientais, político-partidárias. Resolvemos essas questões nos organizando social e politicamente, buscando gestar garantias coletivas. A união civil entre pessoas do mesmo sexo foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2011. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos. Para mim, que penso em casamento como funcionamento e não como forma, isso foi um grande avanço. É desse tipo de organização que estou falando. A luta política na pólis. Ainda mais em tempos de um presidente xexelento, que defende o discurso da forma.

Tenho visto a proposta de Cancelamento, posta por alguns, de ambos os lados. Cancela a Natura. Cancela o Malafaia. O Cancelamento lacra. Mas é uma bobagem em longo prazo e uma porta muito grande para a intolerância e para o linchamento em curto prazo. Para mim, e tenho dito isso sempre que posso, Cancelamento é um atestado de incapacidade de organização social para implementação de mudança efetiva por vias políticas, que dão, essas sim, garantias para além dos holofotes imediatos das redes sociais.

Abordei aqui dois discursos sobre família. Só que, óbvio, a coisa não é tão arrumadinha quanto eu coloquei no texto, não. Atravessados nessa discussão, há outros discursos. Posso concordar com a Natura pela escolha do Thammy para o comercial, que vai ao encontro do que eu penso quanto às relações afetivas, mas discordar da Natura quanto a algumas de suas escolhas de sustentabilidade, por exemplo, entrando em jogo aí outro discurso, o ambiental. Por isso que dizemos: política é conjuntura. Meu aliado agora pode ser meu adversário amanhã. Depende do enfoque. Depende do discurso. É assim que funciona. Movimento. Movência.

Enfim, grosso modo, viver é isso: é fazer escolhas, é se posicionar. Achar que uma família se faz com um pênis e uma vagina é reduzir ao raso a questão da qualidade de uma relação que precisa de afeto, de amor. Como psicólogo que sou, defendo cada vez mais a ideia fundamental de que o afeto da infância é o que dá liga à saúde psíquica na vida adulta.

É Dia dos Pais. E pai é lugar simbólico, não é só biológico. É um lugar de quem tem pênis ou não, pouco importa, em uma relação homoafetiva ou heteroafetiva. Podem ocupar esse lugar o avô, a avó, o tio, a tia, o padrasto, a madrasta, o padrinho, a madrinha, um amigo da família.

Porque, convenhamos, tem pai que tudo o que fez na geração de um filho foi entrar com o pau para fecundar. E às vezes numa transa xoxa, sem graça. Que esses pais que são só biológicos e que se abstêm de ocupar seu lugar imprescindível de provedor de afeto fiquem bem longe do comercial da Natura ou de qualquer outro comercial do Dia dos Pais. Parabéns, Thammy. Parabéns, a todos os pais que não são só paus.

Faltas e presenças

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Ditos a uma paciente que ainda não tive.
– Sabe, doutor… hoje estava olhando meu guarda-roupas. Tem roupas que comprei e nunca usei. É comum eu até dar roupas que nunca tenha usado. E continuo comprando. Minha mãe me chamou atenção pra isso. Aí eu dei uma googlada e descobri que posso sofrer de TCC, Transtorno do Comprar Compulsivo.
– Ah, o doutor Google tem todos os diagnósticos, né?
– Eu não devia, né? Mas sabe como é…
– Veja, nem toda mania de comprar é Transtorno do Comprar Compulsivo. O TCC geralmente tem efeitos desastrosos sobre as finanças. É o seu caso?
– Não. De jeito nenhum. Tenho bom controle sobre minha vida financeira. Mas reconheço que gosto de comprar, escondido de todos às vezes, rs…
– Sei… Seu prazer não está em comprar. Comprar é só uma parte do processo para o gozo, que está em outro lugar. Seu prazer está em dar e, com isso, mostrar aos outros e a si mesma que você pode tanto comprar quanto se dar ao luxo de se desfazer sem sequer ter usado. Os outros precisam saber de suas conquistas financeiras. Vamos falar da sua infância?
– Quer saber se me faltou algo, né, doutor?
– Fico feliz com pacientes que com o tempo vão entendendo a dinâmica do processo terapêutico. Mas, sim, voltemos à sua infância…

Acunpultura inversa

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A gente se amou muito. Mas um dia eu a machuquei. Ela, para se defender, colocou todos os meus defeitos e mais alguns num saco e jogou com força sobre o meu rosto. No fundo do saco, amassada e rota numa borra de mágoa, a parte bonita da nossa história.

Amar na ausência

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Há pessoas que amamos e cuja distância física nos machuca. Por isso, penso que momentos com aqueles a quem amamos, que trazemos dentro de nós – ainda que o dia a dia deles nos faça esquecer – precisam ser aproveitados ao máximo. Se você não pode ficar junto de quem você ama durante um ano, fique um mês. Se não der um mês, fique uma semana. Se não der uma semana, fique um dia. Se não der um dia, fique um minuto. Mas fique intenso, olhando nos olhos, ouvindo, segurando a mão. Viva a plenitude da presença. Porque a ausência de quem a gente ama é a regra do mundo. E aprender a amar na ausência leva tempo. E dói muito.

O espelho de Narciso

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As relações são construções dinâmicas entre duas pessoas. Portanto, ambas levam para a relação sua história de vida, com suas questões e construções simbólicas. Uma relação, seja ela amor eros ou ágape, “vai dar certo” quando houver conciliação nesse encontro de demandas e o prazer gerado pelo encontro for maior do que a dor. Nunca há o encaixe perfeito porque as pessoas têm histórias diferentes. Sempre perdemos no varejo para ganhar no atacado. Relação é ajuste constante do GPS afetivo, é um eterno decidir entre o que deixo ir em nome do que quero que fique.

No entanto, quando um dos polos é narcisista, ele não só não cederá a parte que lhe cabe para suprir o outro na negociação, como também jamais reconhecerá que precisa deixar de olhar o espelho para criar laços reais e não apenas ilusórios, frágeis e passageiros. O outro, que não é o eu Narciso e perfeito, é quem sempre falha, é quem sempre deve, é o que sempre ameaça.

No amor eros, o desbalanço extremo – quando só um entrega – leva a amores pesados, tóxicos, abusivos. Apenas uma parte se alimenta, gafanhotando o parceiro, que fica por alguma razão que precisa ser evidenciada e elaborada. Mas, mesmo difícil, há a sempre a possibilidade do rompimento e do nunca mais. É preciso cortar os tubos que conectam oxigênio e o afeto que corre unilateralmente. Para relações abusivas não há meio-termo.

No amor ágape, o desbalanço também leva a sofrimento. Muitas vezes, é um sofrimento igualmente causado por um narcisismo pesado que coloca a pessoa no polo do egoísmo afetivo, em que não se importa de fato com o outro, somente consigo. Quando o laço é de família, por exemplo, a dor é mais perene porque o rompimento é mais difícil, mas é uma possibilidade real convocada pela saúde psíquica de quem tem sobre si o derramamento de sangue de uma ferida que não é sua. Sangrar nos outros é um recurso do narcisista, preocupado demais em se olhar no espelho para cuidar de coisas que acha que são desimportantes e secundárias.

Enfim, relações só valem a pena se houver ganha-ganha na negociação das diferenças. Se você não está disposto a negociar, se suas relações são frágeis e ilusórias, se seus laços se desfazem com o sopro, pode ser que você precise quebrar o espelho ou atravessá-lo, tal qual Alice, para perceber que de repente as coisas são o contrário do que se pensa, que o vilão não é outro, que há feridas a cuidar.

Pode ser que você esteja também na outra ponta, que busca inconscientemente essas relações frágeis e se apaixone pelos narcisos para purgar algo que rasgou lá atrás. Terapia é uma boa forma de identificar o que rompeu e interromper esse ciclo de dependência. Para o Narciso, terapia é sempre uma boa forma de quebrar o espelho. Embora isso seja de uma dor imensa, pois Narciso acha feio o que não é espelho e acha que, por isso, não precisa de ninguém. Ele se basta. E segue na sua antropofagia afetiva, passando por cima dos afetos das pessoas de quem deveria cuidar.