Acunpultura inversa

Postado em

A gente se amou muito. Mas um dia eu a machuquei. Ela, para se defender, colocou todos os meus defeitos e mais alguns num saco e jogou com força sobre o meu rosto. No fundo do saco, amassada e rota numa borra de mágoa, a parte bonita da nossa história.

Amar na ausência

Postado em

Há pessoas que amamos e cuja distância física nos machuca. Por isso, penso que momentos com aqueles a quem amamos, que trazemos dentro de nós – ainda que o dia a dia deles nos faça esquecer – precisam ser aproveitados ao máximo. Se você não pode ficar junto de quem você ama durante um ano, fique um mês. Se não der um mês, fique uma semana. Se não der uma semana, fique um dia. Se não der um dia, fique um minuto. Mas fique intenso, olhando nos olhos, ouvindo, segurando a mão. Viva a plenitude da presença. Porque a ausência de quem a gente ama é a regra do mundo. E aprender a amar na ausência leva tempo. E dói muito.

O espelho de Narciso

Postado em Atualizado em

As relações são construções dinâmicas entre duas pessoas. Portanto, ambas levam para a relação sua história de vida, com suas questões e construções simbólicas. Uma relação, seja ela amor eros ou ágape, “vai dar certo” quando houver conciliação nesse encontro de demandas e o prazer gerado pelo encontro for maior do que a dor. Nunca há o encaixe perfeito porque as pessoas têm histórias diferentes. Sempre perdemos no varejo para ganhar no atacado. Relação é ajuste constante do GPS afetivo, é um eterno decidir entre o que deixo ir em nome do que quero que fique.

No entanto, quando um dos polos é narcisista, ele não só não cederá a parte que lhe cabe para suprir o outro na negociação, como também jamais reconhecerá que precisa deixar de olhar o espelho para criar laços reais e não apenas ilusórios, frágeis e passageiros. O outro, que não é o eu Narciso e perfeito, é quem sempre falha, é quem sempre deve, é o que sempre ameaça.

No amor eros, o desbalanço extremo – quando só um entrega – leva a amores pesados, tóxicos, abusivos. Apenas uma parte se alimenta, gafanhotando o parceiro, que fica por alguma razão que precisa ser evidenciada e elaborada. Mas, mesmo difícil, há a sempre a possibilidade do rompimento e do nunca mais. É preciso cortar os tubos que conectam oxigênio e o afeto que corre unilateralmente. Para relações abusivas não há meio-termo.

No amor ágape, o desbalanço também leva a sofrimento. Muitas vezes, é um sofrimento igualmente causado por um narcisismo pesado que coloca a pessoa no polo do egoísmo afetivo, em que não se importa de fato com o outro, somente consigo. Quando o laço é de família, por exemplo, a dor é mais perene porque o rompimento é mais difícil, mas é uma possibilidade real convocada pela saúde psíquica de quem tem sobre si o derramamento de sangue de uma ferida que não é sua. Sangrar nos outros é um recurso do narcisista, preocupado demais em se olhar no espelho para cuidar de coisas que acha que são desimportantes e secundárias.

Enfim, relações só valem a pena se houver ganha-ganha na negociação das diferenças. Se você não está disposto a negociar, se suas relações são frágeis e ilusórias, se seus laços se desfazem com o sopro, pode ser que você precise quebrar o espelho ou atravessá-lo, tal qual Alice, para perceber que de repente as coisas são o contrário do que se pensa, que o vilão não é outro, que há feridas a cuidar.

Pode ser que você esteja também na outra ponta, que busca inconscientemente essas relações frágeis e se apaixone pelos narcisos para purgar algo que rasgou lá atrás. Terapia é uma boa forma de identificar o que rompeu e interromper esse ciclo de dependência. Para o Narciso, terapia é sempre uma boa forma de quebrar o espelho. Embora isso seja de uma dor imensa, pois Narciso acha feio o que não é espelho e acha que, por isso, não precisa de ninguém. Ele se basta. E segue na sua antropofagia afetiva, passando por cima dos afetos das pessoas de quem deveria cuidar.

Espelho, espelho meu.

Postado em

É preciso compreender de onde vêm a raiva e animosidade em relação a certas pessoas. É mais provável que venham de questões nossas não percebidas e mal resolvidas do que da própria pessoa alvo da animosidade. Sentidos. É necessário dar sentidos às coisas e se implicar no sentido desses sentidos para melhorar a vida e ser mais feliz, que é o que interessa.

Arlequim

Postado em

Arlequim carrega um manto. Por onde passa, pega um pedaço de tecido e costura no manto. Cada retalho é a memória do lugar, das pessoas, das vivências. Cada um de nós tem o seu manto de Arlequim. Retalhos coloridos, em preto-e-branco, perfumados, fedorentos, inteiros, rotos, bem costurados, por costurar melhor, mostráveis, escondidos. Manto nas costas, vez por outra olhamos para o pano e lembramos uma a uma as histórias dos retalhos. Enquanto lembramos, assobiamos as músicas que tocavam quando o costurávamos ao mosaico de nossa história. É ele que nos dá identidade, memória, história. É o manto da nossa trajetória que nos faz ser o que somos, com as delícias e dores de ser o que somos. Com as verdades, com os segredos. E o seu manto? Quão belo é?

Um lugar para colocar as coisas

Postado em

Resolvi reativar meu site. Atualizei umas coisas, acrescentei uma páginas. A ideia é ter aqui as coisas que faço. Sinta-se em casa. Seja bem-vindo, seja bem-vinda!

Blackbird: da delicadeza das relações

Postado em Atualizado em

bb

Eu sempre amei música. Até hoje a música tem um espaço fundamental no tecido da minha vida afetiva. É uma linha essencial no meu linho. Eu conto minha vida pelas músicas que canto. Ouço uma música e sei exatamente a época em que tocava porque ela me tocou à época em que era tocada. Pequenos filmetes desfilam em minha mente quando são as canções que nos põem para tocar.

Quando eu tinha meus quinze, dezesseis anos, todo sábado à tarde eu transformava o meu quarto em meu templo. Minha oração, ligação com o transcendental, brotava do som que eu ouvia dos discos-bolacha que eu punha para escutar no meu três-em-um Gradiente. Quando a agulha descia sobre a faixa escolhida e começava o seu chiado, eu fechava os olhos e entrava em contato com dimensões cuja existência só viria a descobrir mais de trinta anos depois, lendo os livros de Patrick Drouot.

Queen, The Mammas and the Pappas, Pink Floyd, mas, sobretudo, Beatles. O piano de Let it Be, o crescendo alucinante de A Day in the Life, a declaração de amor crua, direta e visceral em  I Want You (She´s so Heavy) e o desespero de apaixonado e enfeitiçado por algo nela, bailando ao som do solo da guitarra de George Harrison em Something. Cada canção dos Beatles é uma história, um sentimento, uma sensação. É vida. Eu era um menino magrelo, desengonçado, ignorado pelas mulheres,  mais interessadas nos Menudos, nos garotões sarados, tatuados e bonitos da escola, que sabiam dançar. Ou nos caras que dirigiam um Escort XR-3.  O ignorado aqui, let it be, escrevia boa parte de sua existência, recluso no seu universo particular, pelas músicas de Lennon e McCartney. Eu era um estranho no mundo dos afetos. Só tinha a oferecer uns textos mal escritos e nada mais. No entanto, eu era um estranho que, orgulhoso, tinha todos os discos do Fab4. E eu ouvia todos os discos. E eu sabia, como sei até hoje, todas as letras e suas histórias. Eu era o fã que lia os livros biográficos dos caras. Minha parede do quarto tinha um quadro com a foto do John. Eu acordava e dormia olhando aquele sujeito que me ensinou que, puta merda, pelo amor vale tudo. Até deixar os Beatles.

No meu mundinho fechado, mas incrível, eu aprendi a ler as pessoas pelas músicas. Eu compreendi que tudo tem significado; eu entendi que significado é história e, por ser história, todo sentido é dinâmico e pode mudar. Dei-me conta de que são os significados que damos ao mundo que regem nossa existência. Todo esse aprendizado lá de trás, vejam que coisa!, me levou a estudar linguagem, discurso e me trouxe ao encontro da psicologia no ocaso da vida. Estava escrito? Maktub mesmo? Whatever…

Voltando ao meu quarto em 1983, eu me vejo ouvindo a guitarra seca de Blackbird. Paul McCartney fez essa música pensando nos conflitos raciais no Alabama e no Mississipi em 1968, ano em que nasci. “Bird” é uma gíria britânica para “girl”. Blackbird faz referência às mulheres negras que sofriam o que sofriam então. É uma música política. Sempre adorei Blackbird. É o tipo de música que fica excelente em qualquer versão. Mas, como sempre dei meus sentidos às músicas, em um exercício muito particular, com Blackbird não foi diferente.

Blackbird singing in the dead of night/Take these broken wings and learn to fly/All your life you were only waiting for this moment to arise/Blackbird singing in the dead of night/ Take these sunken eyes and learn to see/All your life you were only waiting for this moment to be free/Blackbird fly, blackbird fly/Into the light of the dark black night.

Para mim, essa canção fala de vida afetiva, de história, do que a psicanálise lacaniana chama de Real. Quem de nós nunca foi um pássaro que cantou na solidão da noite? Quem de nós nunca viveu o inferno de uma relação em que se apostou a vida e que falhou? Sim, porque a vida vem e não pede licença. Às vezes atropela. Quebra as asas. Pela vocação da felicidade, as pessoas de repente pegam essas asas quebradas e se lançam, ainda que relutantes, a reaprender a voar. Só esperam, arredias, o momento se oferecer. Há um momento certo para amar? Enfim, aguardam a hora em que a luz reparadora entra pela fresta da ferida, pelo rasgo da existência.

Pássaros cantando na solidão da noite – quem nunca? Quantas vezes nos vimos tomando os olhos encovados pelas olheiras e tivemos de reaprender a olhar o que a vida borrou e transformou em experiência de dor? Rever o borrado pela dor dá um trabalho filho da puta. Corre sangue até. Mas sempre chega o momento de se libertar do que acorrentou, do que passou e fez mal. Que metáfora linda para se falar da necessidade de se continuar vivendo depois que a vida aprontou, bateu, derrubou! É a função da arte, não é? Beatles, não é? Todos, absolutamente, todos somos blackbirds, enfim. Enfim.

Daí o título deste texto. Blackbird sempre me faz pensar na delicadeza das relações, sabe? Entende? Toda relação é especial. Toda relação merece ser tratada como tal. Na minha cabeça, relação afetiva só existe no todo, corpo e alma. Foi essa a dinâmica que me trouxe até aqui nesses 50 anos. É geracional. É claro que, dã, eu não vivo no século 16 para achar que não há pessoas que veem no sexo sem conexão afetiva uma opção legítima. Ok. Mas não eu. Legitimamente também, isso me é pouco. Por isso que sempre fui buscar a alma quando foi necessário, feito Robin Williams, que vai no inferno em “Amor além da vida”.

Agora, ninguém pode esquecer que se somos, o outro também é um blackbird. A ninguém, que diz amar, é dada a opção de ignorar que o outro quebrou suas asas no caminho, que sentiu dores, que tem sua história. A ninguém é garantido o direito do descuido de ignorar que se há olheiras é porque houve noites insones. Se há amor, se há carinho, há de haver cuidado. Querer bem passa pelo momento, inclusive, de se afastar quando o outro precisa respirar. A cena é linda: tomar delicadamente nas mãos o pássaro frágil que é alma alheia e abrir as mãos para deixar o pássaro reaprender a voar depois do cuidado. Ninguém ama o outro a não ser o tendo em liberdade plena. Às vezes, blackbird, é preciso voar para ficar. Às vezes é preciso compreender que ficar vendo as rodas passarem é uma opção legítima.

Toda relação é delicada. Delicada não só no sentido de merecer cuidado, mas também no sentido de ser cuidadosamente bonita. Cuidado. A gente precisa cuidar do outro. A gente precisa entender que todo encontro afetivo é um encontro de histórias. Qual é a sua asa quebrada? Como quebrou? A minha é essa e foi assim, sabe? Por que das suas olheiras profundas? O que as causou? As minhas vêm do meu choro e meu choro vem daqui, ó, deixa eu te contar, eu quero que você saiba. Amar é mais do que saber só as coisas boas. Arriscaria dizer que ama mesmo quem conhece os porquês das cicatrizes do outro e os acolhe no processo de (re)construção afetiva como elemento que dá liga à intimidade. Amar é, sobretudo, saber escutar. É conversar. É deixar claro. É não surpreender negativamente.

É. A terceira faixa do lado A de “A hard day´s night” é If I Fell. Há um pedido tão delicado de cuidado em If I Fell. Enquanto escrevia só me veio à mente sua melodia.

If I fell in love with you/Would you promise to be true/And help me understand/’Cause I’ve been in love before/And I found that love was more/Than just holding hands./If I give my heart to you/I must be sure from the very start that you would love me more than her/ If I trust in you, oh please, don’t run and hide/If I love you too, oh please/Don’t hurt my pride like her/ ‘Cause I couldn’t stand the pain/And I would be sad if our new love was in vain…

Amar é, definitivamente, muito mais do que andar de mãos dadas. Amar é voar em par. Às vezes no escuro. Às vezes à noite. Às vezes com as asas quebradas, blackbird. Com as asas quebradas.

Não tenho mais meu o quarto com o quadro de John. Não tenho mais os LPs. Mas ainda posso ver as rodas passarem. Ainda tenho os Beatles. Vou ouvir Beatles.

Quatro tons de Branco

Postado em Atualizado em

Eu acreditava que nunca mais iria gostar de alguém. Todo mundo quando está arrebentado de amor sempre acha que o coração não tem a capacidade de se regenerar e remendar os tecidos necrosados. Aí ou a gente vai para um ostrismo, toda fechada para o mundo, ou parte para explorar as possibilidades. Eu tinha entrado naquela fase de curtição, em que o limite é o prazer e não o afeto. Nessa fase, a regra é escolher alguém que mexe com você, no bom e no mal sentido.

A pauta era uma entrevista com um secretário de Estado. Dividir minha vida amorosa de franco-atiradora com a loucura da profissão de jornalista passou a ser a receita para manter a sanidade depois que ele se foi daquela forma abrupta naquele acidente.

– Toca pra Ilha da Fantasia, Cabeça.

Ilha da Fantasia é como, nós, jornalistas, chamamos o condomínio mais chic da cidade, onde moram vários políticos, empresários e mais uma dezena de pessoas que dividem o glamour das páginas sociais com o segredo de justiça dos inquéritos da Polícia Federal.

– Por que na Ilha, Fernandinha?, perguntou o Cabeça.
– Vai ser na casa dele. No escritório da casa dele. Foi a condição para ele dar a entrevista. O Kraken disse pra gente ir lá, a gente vai lá, Cabeça. Um dia quando tu fores editor, tu mandas. Por enquanto tu és o motorista. Obedece e pisa aí.
– “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
– Tu e tuas frases originais… Registrou essa? Alguém pode roubar…
– A sabedoria popular sabe das coisas, bebê…

Ele me esperava no escritório da casa. A casa tinha uma garagem com quatro carros estacionados. Uma SUV BMW branca chamava atenção. Ao entrar ali, caí na real quanto à desigualdade de distribuição de renda no país. Tem gente que é muito rica. São muitos mundos muito diferentes em um mesmo país. Confesso que tenho uma raiva ressentida dos muitos ricos. Sempre trago na cabeça o que meu pai me disse um dia: há um teto salarial para gente honesta. Mais do que aquilo, só pisando nas pessoas ou jogando valores no lixo. Parece que é assim mesmo.

– Bom dia!, eu disse ao entrar no escritório. Havia um quadro de Frida Kahlo e um de Picasso. Imitações, claro. Aquelas sobrancelhas de Frida sempre me deram arrepios, preciso confessar.
– Olá, entre. Estava lhe esperando.

André Branco, uns 40 e poucos anos, meio grisalho, vestindo uma camisa polo preta. Era o secretário da minha pauta. Ele me cumprimentou com dois beijinhos. Foi estranho. Sempre olhei para aquele cara com a ojeriza de militante de esquerda. Mas a iniciativa foi dele e não tive muito como evitar.

– Posso fotografar o lugar?
– Claro. À vontade. Vocês não andam mais com fotógrafos?
– Redução de custos. A gente joga em todas. Depois que inventaram o videorreporter…

Enquanto fotografava, o perfume dele, que ficou colado em mim, me desconcentrava. Era francês, eu tinha certeza. Fiquei com vontade de perguntar o nome, mas não combinava nem com o momento e nem com a tarefa para qual eu havia sido designada. Era do tipo de perfume que a gente sente e tem vontade de comer a pessoa que está usando. O perfume certo na vulnerabilidade adequada pode render bons caldos.

– Quantos anos você tem?
– Isso não se pergunta a uma mulher, secretário.
– Kouros. Yves Saint Laurent.
– O quê?
– Meu perfume. Você não consegue disfarçar que gostou dele. Quantos anos? É justo. Uma informação para cada.
– Vinte e dois. Bom, tenho umas perguntas a lhe fazer. Podemos? Posso gravar?
– Claro.
– O senhor está sendo acusado de fraudar uma licitação na sua secretaria. O que o senhor tem a dizer sobre isso.
– Não há fraude. Tudo foi feito dentro da lei. O que houve foi uma dispensa de licitação porque a empresa que ganhou o serviço era a única com capacidade técnica atestada. O problema é que as pessoas não entendem e quando se fala em ‘dispensa de licitação’ acham que isso é ilegal. Lei 8.666. É só ler.
– Mas na denúncia apresentada pelo Ministério Público…
– O Ministério Público quer ser mais real do que o rei. São administradores frustrados que querem administrar pelo executivo. Até hoje eles não entenderam direito qual é a função deles. Você é uma jovem repórter. Sabe qual é a sua função no jornal. Se quiser fazer a função de outro, cujo conhecimento técnico não possui, não vai dar certo, entende?

Achei que foi uma indireta para a função de fotógrafa.

– Segundo a denúncia do MP, a empresa é de um primo seu.
– E qual é o problema? Era a única empresa com capacidade técnica para fazer o que tinha de ser feito. Eu vou prejudicar a população porque a empresa é de um primo? Besteira. Seu nome é Fernanda, não é?
– Sim.
– Então, Fernanda. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto.

Ele falou aquilo olhando nos meus olhos. Aquele homem não chegara aonde chegara à toa. Ele sabia o que dizia. Ele sabia convencer. Ele era um homem bonito. Já não me parecia um monstro abominável do capitalismo selvagem.

A entrevista continuou. Ele respondeu tudo com segurança. Saí meio que convencida.

No carro, Cabeça perguntou se tinha ido tudo bem. Eu disse que sim e fomos adiante. Tinha outra pauta. Era sobre o aniversário da cidade. Um historiador da universidade. Gente chata. O cara já tinha desmarcado duas vezes.

– Vamos para a Universidade, Cabeção. Ver se dessa vez rola.

– “Água mole em pedra dura…”

Não sei dizer a razão, mas aquele cara não me saía da cabeça. Fui fuçar para ver se ele tinha Facebook. Tinha. Era casado. Mulher bonita. Dois filhos. Um casal. Fotos em Chicago, em Veneza, Paris. Torcedor do Botafogo. Acho que um dos cinco da cidade, que vão pro estádio numa kombi, pensei comigo, o sacaneando mentalmente. Ri sozinha. Alice perguntou quem era.

– Quem é o quê?
– Me poupe, Fernanda. Eu te conheço. De quem é esse perfil do Facebook aberto aí.
– Virou advinha agora?

Fato é que Alice me conhecia como ninguém. Minha amiga, confidente, cúmplice. Contei a história para ela.

– Furada. Tu sabes. Casado é rolo.
– Ele nem sabe de mim… quer dizer, nem sabe que estou stalkeando ele.
– Cara, eu te apoio em tudo. Mas se tu se meter nessa, tu tá sozinha…
Depois que voltei da casa da Alice, fiquei pensando. Fiquei tentada a ligar para ele. Ele me deu o cartão com o número do celular anotado à mão. Resolvi mandar uma mensagem.

– “Olá. Aqui é Fernanda, do jornal. Preciso de informações para fechar a matéria. Aguardo retorno.”
– “Olá. Aqui é Branco. Quando quiser. E onde quiser…”

Caraca. Por essa eu não esperava. “Onde quiser…”! Reticências. Reticências são malvadas. Reticências contêm o mundo. Comecei a gostar do joguinho.

– “Eu escolho o lugar? Perigoso isso…”
– “O perigo dá o tom da vida… Me ligue amanhã à tarde e combinamos.”

Passei a noite olhando para o teto do meu quarto e pensando em algumas coisas. Pensei sobre a regra de ouro de nunca ir para a cama no primeiro encontro. Pensei em todos os conselhos para nunca se meter com homem casado. Pensei na ameaça explícita da Alice. Pensei no desejo que aquele homem me desperta. Pensei na tensão. Pensei no tesão. Pensei na transa. Pensei muito na transa. Minha imaginação dirigia o movimento dos meus dedos por baixo do edredom. Olhos fechados, viajei na sua presença dentro da minha imaginação, dentro de mim. Definitivamente eu o queria. Se ele fazia isso comigo só no desejo, imagina no jogo de corpos. Dormi leve como uma nuvem.

“Oi, quero você.”

Send. Dane-se. Vamos ver o que rola. Nem esperei amanhã à tarde,

“Onde te encontro, menina?”, veio a resposta.

“Queria tomar água de coco, mas não rola. Estou sozinha com minha vó.”

“Mande seu endereço”. Eu mandei. Tem uma hora na vida da gente que a gente vai dando enter, enter, enter na vida, sem ler. Seja o que Deus quiser…

Quarenta minutos depois, um SMS avisando que chegou. Um carro preto parado em frente de casa, sob a mangueira do terreno do outro lado da rua. Eu decidi ir lá. Confesso que estava suando frio. Minhas mãos molhadas. Meu coração saindo pela boca. Era muita porra-louquice. Mas o desejo de ver aonde isso ia dar era maior que o medo.

– Oi…
– Quer entrar? A porta de lá está aberta.
– Tá.

Ao entrar no carro, senti o perfume no ar. Desconfio que o filho da mãe borrifou para me inebriar. Sem falar nada, ele alcançou um saco plástico no banco de trás e aumentou um pouco o som – rolava Tarde em Itapoã. Ele estendeu o saco plástico e disse:

– Pra você, menina.
– O que é isso?, disse, abrindo a sacolinha.
– Água de coco. Faz bem para o colesterol e evita câimbras. É em caixinha, mas dadas as circunstâncias…

Tive que rir. Além de bonito, cheiroso, o cara ainda era espirituoso. Gosto de homens que me fazem sorrir. Não gosto dos que me fazem gargalhar, no entanto. Quer dizer, não para ter algo. Tem de ser aquele sorriso roubado, que não dá para conter. Ponto para ele. Charme é aquilo que desequilibra os olhos e baculeja os pensamentos. Ele era muito charmoso, vamos combinar.

– Obrigada. Não precisava. Quer uma?
– Quero. Obrigado.

Ele colocou o canudinho na caixinha dele e me deu, antes de enfiar na minha e ficar para ele.

– O que você quer de mim?, ele perguntou enigmático.
– Quero testar o meu poder de sedução. Provar que não existe homem fiel. Mostrar que o homem age por instinto e não pela razão.
– Eu estava me referindo à informação para a sua matéria. Mas já que você falou isso, quem é que traumatizou você assim?

Oops! Sorri para disfarçar que acusei o golpe. Ele falou “você”… Quando um homem muda do “tu” para “você” é porque ele está a fim. Ele estava a fim. Mas não era efusivo, nem afoito. Mais um ponto para ele. Não gosto de efusividades.

– Ninguém me traumatizou. Você é casado. O que você está fazendo aqui?
– O que uma coisa tem a ver com a outra?
– Vocês homens são todos iguais.
– Frase original…

Eu me senti o Cabeça.

– Você quer casar comigo? Acabar com meu casamento?
– Claro que não!
– Então não vejo problema. Há diferentes tipos de afetos. Uma coisa é você ter sua família, gostar dela, protegê-la. Outra é você dar vazão para as paixões que se apresentam na vida.
– Quer saber? Esse seu papo é muito canalha, cara!
– Quer que eu vá embora? Sem problema.
– Não, não quero. Eu quero você. Quis no dia que vi você.

Lá estava eu falando “você”.

Ele olhou para mim. Sorriu. Ouviu o que queria. Conversamos amenidades por meia hora. Ele trocou a música. Colocou Marisa Monte, “Beija eu”.. Ele foi se aproximando de mim. O perfume foi ficando mais forte e quanto mais forte ficava, mais eu sentia que ia me entregar àquele homem. Ele chegou com o rosto perto de minha boca. Dava para sentir o seu hálito de menta. Ele veio em minha direção e parou. Olhou-me bem dentro dos olhos. Disse, num sussurro:

– Eu sou um obediente musical.

Chegou mais perto. Senti que estava prestes a me beijar. Antes de colar seus lábios nos meus, no entanto, passou a ponta da língua no canto da minha boca. Depois passeou com ela pelos meus lábios. Explorava meu rosto como se desbravasse uma selva que lhe era virgem. Mordeu de leve. Eu já estava maluca e ele sabia disso. Sentia e ouvia a sua respiração quente. Ele enfiou a língua em minha boca e encontrou a minha língua, molhada e receptiva. Foi a primeira vez que ele entrou em mim. Chupava minha língua sem força, quase flutuando sobre ela, como quem sorve um sorvete de casquinha no início, num beijo leve e bom. O beijo é o que muda o desejo de lugar.

Seu corpo se envergou sobre o meu. Ele me abraçou enquanto me beijava. Estava completamente entregue àquilo. De repente, ele puxou a gola de minha blusa e começou a morder meu ombro, meu pescoço, minha nuca. Eu queria explodir. Estava completamente encharcada de desejo. Ele, atraído por isso, eu desconfio, pousou a mão sobre a minha coxa. Foi deslizando a mão para a parte interna da minha perna. Devagar. Segurei sua mão. Ele recolheu. Segurei sua mão. Ele entendeu. Seu dedo achou o caminho até mim. Deixei que ele entrasse em mim pela segunda vez. Gozei a primeira de incontáveis vezes.

Sua mão era macia. Senti a maciez também quando a colocou em minha barriga, levantando a minha blusa. Sabia que aquilo era um caminho sem volta. A gente sabe quando chega ao ponto do não retorno nas querências, cujo o único destino possível é o sexo. O sexo bom. Como aquele que se anunciava com seu polegar a explorar caminhos por debaixo do elástico meu soutien… Sua mão não tinha pressa. Já tinha mostrado que sabia aonde ia. Levantou meu soutien, libertando o que era seu objetivo. A rigidez do mamilo denunciava o quanto eu queria e sinalizava para ele para que continuasse. Senti seu polegar apertar de leve. Depois foi o indicador a circular a auréola como um cego lendo desejos em braile. Eu respirava forte e cada vez mais rápido. Sua mão envolvia meu seio e com a palma ele fazia leves pressões. Soltei um “ai” involuntário. Tesão dói.

Minha blusa já estava no meio da barriga quando ele olhou para mim e, com o olhar, anunciou que iria levantá-la mais. Pegou delicadamente a blusa com as duas mãos em sua extremidade inferior e foi levantando. Ali estava eu, com praticamente um estranho, de peito nu. Ele olhou. Ficou um tempo admirando como se estivesse me fotografando mentalmente. Passou a mão numa pinta que tenho acima do seio direito. Mordeu o lábio. Sem dizer nada, foi chegando de novo junto a mim. Mergulhou nos meus peitos e cheirou meu corpo. Eu apertava seu rosto contra o meu corpo e passava a mão por entre seus cabelos. Ele se deliciou comigo. Sua língua me fazia sentir raios no corpo. Mordiscava e lambia. De mim, ele sentia o gosto. Por ele, eu me senti desejada.

Decidi devolver o carinho. Minha mão correu por sobre sua perna. Pude sentir o tamanho do seu desejo por mim. Roupas prendem desejos. Roupas impedem o toque. Delicadamente abri o botão de sua calça e abri seu zíper. Não tinha mais volta. Ele seria meu. Ele puxou o banco do carro para trás, reclinou, deitou e passou a mão nos meus cabelos. Foi a senha. Beijei sua barriga. Senti mais de perto aquele perfume que me deixava zonza. Eu também tinha meus segredos com a língua. Eu também sabia mordiscar. Eu também gosto de sorvete. Foi a terceira vez que ele entrou em mim. Eu não sei que música tocava, mas tinha um solo de guitarra delicioso que cadenciava os meus movimentos. Eu adoro isso.

Ele, que não dissera uma palavra até então, disse:

– Sabe onde eu queria estar agora, menina?

Me chamar de menina tornava a coisa mais proibida. O cara era bom.

– Onde?, respondi fazendo minha parte no joguinho.

– Dentro de você…

Fui pra cima dele. Enquanto nos beijávamos, ele levantou minha saia, acariciou minhas coxas e abaixou até onde pôde a minha calcinha, um estrago a essa altura do campeonato brasileiro série A real oficial. O resto ficou comigo. Na dança de corpos, nos procuramos. E nos achamos. Quando nos achamos, paramos, ambos. Ao mesmo tempo. Ele pegou meu rosto com as duas mãos e disse:

– Eu te quis na hora que eu te vi.

Ele deslizou para dentro de mim sem esperar mais, me preenchendo as vontades. Estava suada. Ele também. Mesmo com o ar-condicionado do carro ligado. Minha barriga molhada esfregava na dele. Minhas mãos entrelaçavam e apertavam as mãos dele. Eu cavalgava em cima daquele homem. Surfava nele. Ele me puxava os cabelos e alternava seus beijos em minha boca e em meus peitos. Seus beijos eram meu açoite. Sentei olhando para ele. Sentei olhando para as estrelas pelo para-brisa. Era a quarta vez que ele entrava em mim. Não estava claro quem dominava quem. Também pouco me interessava. A última coisa que eu queria naquela hora era pensar em masturbação sociológica de gênero. Sociológica de gênero, que fique claro.

Eu gozei muito. Longamente. Minhas pernas perderam as forças. Senti choques pelo corpo. Tremi. Arrepiei. Tive câimbras que a água de coco não conteve. Ele esperou muito por mim. Mas por fim gozou também. E eu com ele, de novo. Ele me apertou com tanta força quando explodiu que me deixou a cintura roxa. Foi a melhor transa da minha vida. Eu pensei que não diria essa frase de novo. Comecei a desconfiar de que só o sexo com amor vale a pena. Ali era puro sexo, puro tesão, carnaval, festa da carne. Mal conhecia o cara. Ele mal me conhecia. Mas a gente se encaixou maravilhosamente bem. A vida tem dessas. Não é porque é sexo casual que a pessoa tem de tratar você mal.

Dane-se o moralismo! Até esqueci que ele era casado. “Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa”, diria Cabeça se estivesse de voyeur da cena.

Ele passou a mão nos meus cabelos, tirando do meu rosto. Eles estavam desgrenhados. Ele sorriu e disse:

– Você tem uma boca linda. Mas a pintinha é a cereja do bolo.

Ele tinha gostado da pintinha. Eu sorri. Eu disse que precisava voltar. Procurei minhas roupas largadas do avesso pelo assoalho do carro. Vesti e falei:

– Eu ia te fazer a pergunta para a matéria agora. Mas acho que vou deixar pra outro dia.

Ele entendeu. Saí sem dar tchau. Esperou eu entrar e foi. Aquilo ainda me renderia um baita sermão da Alícia no dia seguinte. Mas eu não conseguia tirar da cabeça e do corpo as nuances do Dr. Branco. As quatro vezes que ele entrou em mim. Definitivamente eu queria mais. Mais tons de Branco.

É. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto. Tive a nítida impressão de que essa história iria continuar…

A escolha de Sofia

Postado em Atualizado em

screen-shot-2017-01-29-at-11-04-37-am

O filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

Cacos da vida

Postado em Atualizado em

Cacos

Final do ano é tempo de balanço. Estamos nós a pesar as coisas para lá e para cá para checar se na balança da vida o ano foi mais para lembrar ou mais para esquecer. O conjunto das boas coisas que vieram é posto lado a lado com o conjunto das coisas que gostaríamos de esquecer. Aí vem o veredito: terminamos o ano felizes, soltando os fogos de artifícios da vida junto com os da virada, ou terminamos o ano tristes, desejando ardentemente que o que chega chegue logo e traga com ele os ventos haraganos.

Se você está feliz, leitor querido, que bom! Que essa felicidade se multiplique no ano vindouro. Mas eu queria falar mesmo com você, que anda triste. Foi para você que eu escrevi este texto.

Você sabe por que a gente fica triste? Porque a gente começa a viver uma vida que, de alguma forma, começa a ficar cheia de coisas que carecem de sentido. A vida tem de ter sentido. As minhas leituras na psicologia têm me ajudado a compreender isso. Deixa eu compartilhar um pouco do que já aprendi.

As tristezas são tributárias ao tempo. Na época de Freud, as neuroses eram causadas por questões de sexualidade, bastante reprimida na Europa pós-vitoriana. Um outro psicanalista, Alfred Adler, que trabalhou com Freud, achava que o pai da psicanálise superestimava a questão sexual. Aí ele propôs uma teoria dizendo que o meio social e a preocupação contínua do indivíduo em alcançar objetivos preestabelecidos eram os determinantes do comportamento humano. Isso incluía a sede de poder e a notoriedade. Quando essa busca falhava, eram gerados complexos de inferioridade, transformando a incapacidade numa dinâmica patológica, numa tristeza. A neurose não era mais por causa do sexo reprimido, mas por causa da inferioridade de uma expectativa social frustrada.

O tempo foi passando, o mundo foi mudando. Para enfrentar as demandas do mundo contemporâneo, a pessoa precisa se ancorar em algo. Até um tempo atrás, esse algo costumava ser a tradição. Se não soubéssemos o que fazer, bastava olhar para o que a tradição determinava para nós, nos encaixarmos nesse sistema como uma engrenagem e seguir a vida até morrer. A vida normalizada também gerava neuroses, mas o encaixe social e o conforto sobre o que fazer aliviavam os conflitos. E o mundo mudou de novo.

Vivemos em uma época pós-moderna em que as tradições têm se esfarelado. Antes os homens trabalhavam fora, as mulheres cuidavam da cria e tudo que fugia ao script não podia vir à luz. Hoje todas as possibilidades caminham na praça em plena luz do sol. Tudo saiu do armário e as possibilidades ganharam vida plena. Mulheres conquistaram seu espaço, a sexualidade explodiu para todos os lados, aquela tradição confortadora virou apenas uma dentre centenas de outras possibilidades vivas. O que nos resta fazer, então, sem a tradição para nos agasalhar e nos dar conforto?

Logicamente, nos restam alguns caminhos. Ou fazemos o que os outros querem que nós façamos – e aí eu caímos num conformismo – ou fazemos o que os outros nos mandam fazer – aí caímos num totalitarismo. Seja um ou outro, vamos acabar fazendo aquilo que não nos interessa, vivendo uma vida que não é nossa, e isso vai esvair o sentido do que fazemos, levando à tristeza e ao adoecimento psíquico. Resta, no entanto, um terceiro caminho, que me parece o mais interessante: fazermos o que queremos e, ao fazer o que queremos, preencher a vida de sentido.

“Ain, mas nem sempre dá para fazer o que a gente quer!” Verdade, nem sempre. Mas o “nem sempre” tem de virar um “quase sempre”. Quase sempre temos de fazer o que nos causa alegria, prazer, paz. O resto inevitável deve ser preenchido com a chatice inerente à vida, com os sapos engolidos no trabalho, com a aula porre daquele professor medíocre na faculdade que somos obrigado a assistir, com uma ou outra situação que temos de encarar e que, de fato, foge da nossa escolha. Resumindo: se não houver mais alegria e prazer do que tristeza e desprazer, a vida está errada, parceiro. Aí é preciso reagir e sair do conformismo ou do totalitarismo. Senão nós vamos adoecer, vamos ficar tristes, infelizes, deprimidos. vamos viver sem sentido.

Qual é o sentido? É essa a pergunta que temos de nos fazer todos os dias. Qual é o sentido de continuar em uma relação afetiva que nos machuca, que nos oprime, que não nos dá alegria? Qual é o sentido de continuar trabalhando em um lugar que nos adoece só de pensar, quando acordamos, que temos de ir para lá? Qual é o sentido de insistir em coisas que acabaram e que, mesmo que voltassem, não seriam a mesma coisa? Qual é o sentido de preencher nosso tempo atrapalhando a vida dos outros em vez de cuidar com carinho da nossa própria, rota e maltrapilha psiquicamente? Qual é o sentido de movermos mundo e fundos para ter o melhor carro, o iPhone mais fuderoso, a festa mais cara de aniversário para o nosso filho só para ganhar o like da sociedade que valoriza a aparência? Black Mirror, temporada 3, episódio 1: “Queda Livre”. Vá lá assistir e depois a gente conversa.

Vida sem sentido bom é vida triste, mambembe. Você que está terminado o ano triste e que me leu até aqui: qual é o sentido de continuar alimentando essa tristeza ou essa situação que lhe causa a dor? Mova-se, mexa-se, não dê moral para a melancolia. Feche ciclos que se arrastam. Corte relações com quem faz mal. Se não der conta sozinho, procure um psicólogo para ajudar a virar a mesa, a virar o jogo, a virar do avesso. Porque a vocação do ser humano é a felicidade. De cada um. Porque cada um é único, com sua história, suas glórias, seus segredos, suas batalhas perdidas. Com a dor e com a delícia de ser quem se é. Faça a sua história valer a pena. É preciso se mexer e se movimentar. A vida se ajeita quando a poeira do movimento baixa. E segue porque tem de seguir. Se uma parte de nós caiu e quebrou, é preciso juntar os cacos para ir adiante.

Na década de 40, a cidade de São Paulo tinha duas indústrias de cerâmicas. As peças que quebravam eram jogadas fora. Um operário de uma delas, sem dinheiro para construir sua casa, pediu para ficar com os pedaços das cerâmicas quebradas. A fábrica consentiu. Ele então fez o pátio da sua casa com os cacos. Mas como não tinha sempre cacos da mesma cor, misturava uns amarelos e pretos aos mais comuns, vermelhos. Logo, a moda se espalhou e pátios feitos de cacos de cerâmica viraram a coqueluche da classe média paulistana, em uma época em que a coqueluche ainda era uma doença endêmica e a expressão faz mais sentido. Muitas casas em Sampa até hoje possuem pátios lindos feitos de cacos coloridos.

A vida feliz é um pátio bonito feito com nossos cacos quebrados. De todas as cores. Na sua maioria composto dos vermelhos felizes, mesmo que pontuado aqui e ali de alguns cacos de outras cores e outros tons. A vida é feita múltiplas cores. O importante é a arte que se tece e o resultado final dos cacos juntados: a felicidade. Que seu balanço lhe traga os ventos haraganos ao rosto. Seja feliz, leitor. Seja feliz, leitora. É o desejo sincero de alguém que juntou muitos cacos nesse 2016 e que tem fé na vida, fé no homem e fé no que virá em 2017. Faz sentido?