A miss e nós

31/01/2015

Saiu o resultado. O cumprimento elegante de praxe à vencedora dado pela segunda colocada. Mas na hora da coroação da miss, a vice-miss perdeu o rebolado, atacou a ganhadora e lhe arrancou a coroa, atirando longe. E saiu triunfante, de punho erguido, sob vaias e aplausos da plateia e das outras candidatas a miss.

Acordei com essa história bombando nas redes. Ao G1, a vice-miss Sheislane Hayalla disse que não aceitou o resultado. Que aquilo era um protesto contra a grana. “Simplesmente, em Manaus, é o dinheiro que manda e eu estou mostrando para o povo amazonense que o dinheiro não manda aqui. Ela não mereceu!”, disse ela, racionalizando seu gesto, um gesto que, como todo gesto, convoca as interpretações. Apesar do caráter inusitado e até pateticamente engraçado do fato, penso que o que Sheislane fez exemplifica e muito o tempo em que vivemos.

Na sociedade da visibilidade, aparecer faz parte da necessidade básica de sobrevivência social. É preciso ocupar espaços. Inconscientemente, brigamos por espaço no trabalho, nas relações grupais, nas relações afetivas. Só que as regras sociais nos impedem de arrancar as coroas alheias quando temos vontade. Pode-se argumentar que sempre foi assim. Sim, sempre foi assim. O que tem mudado radicalmente é o conceito de espaço, que hoje está inegavelmente atrelado à visibilidade mais do que ao espaço físico, como já foi na época das conquistas territoriais. A questão é simbólica. O poder, palavra-chave para compreender meu argumento, passa necessariamente pela construção de um capital imagético que se configura e se sustenta pela circulação nas redes via capital digital. Resumindo: tem de aparecer e tem de circular. Só assim a gente consegue ser hoje na sociedade da informação. Se você digitar seu nome no Google e ele não voltar nada, pode esquecer: você não existe.

Estamos vivendo uma crescente instagramação da vida. No mundo da imagem, da evasão da privacidade, viver o momento vira secundário. O registro do momento é potencialmente mais valioso para a construção do capital imagético e digital. Vide a moça que sofreu o acidente e, em vez de se preocupar em buscar socorro em primeiro lugar, imediatamente postou nas redes a foto de seu rosto todo arrebentado. Fez uma selfie de sua cara estropiada. Há algo mais sintomático do momento em que vivemos?

Mas voltando às misses. O próprio concurso entra em um jogo de imagens arquetípicas. Há a princesa, que ganha a cora, e há a plebeia, seu contrário. A miss, que vai aumentar seu capital imagético, e a vice-miss, que não vai ser nada, num país em que vice e nada são a mesma coisa. As coisas não deram certo para Sheislane. Se tivessem dado certamente a sua crítica ao poder da grana como determinante nessas e em outras questões não teria aparecido. Só veio porque as coisas desandaram. Aí ela, que perdeu o papel de princesa, assumiu o papel de Fora-da-lei, que rompe com as regras que, como sabem os foras-da-lei, foram feita para ser quebradas. O arquétipo do Fora-da-lei é conhecido também como Revolucionário. Esse arquétipo libera as vontades reprimidas da sociedade, daí tanta gente vibrando, gozando com o pau de Sheislane. Quem de nós não queria, como ela, chutar o pau da barraca ou dar com o pau de selfie nas injustiças que conhecemos? A identificação nos faz feliz com seu gesto. Quando a consciência do Fora-da-lei está presente, as pessoas têm uma percepção mais aguda dos limites que a civilização impõe à expressão humana.

Aí a gente se pergunta: será que ela não pensou nas consequências disso? Arrisco a dizer que sim e que não. Que não porque agiu por impulso. Que sim porque, de certa forma, exatamente porque foi por impulso, deu vazão ao inconsciente e à sua avaliação, também determinada pelo discurso da ideologia inconsciente, de que o barraco lhe capitalizaria imageticamente mais do quer ser miss. Não deu outra. Sheislane deve estar adorando os flashes de ser notícia nacional enquanto Carolina Toledo – who? – ficou com essa faixa chinfrim.

Enfim, na guerra da vida, estamos lutando a Batalha da Imagem. Eu tenho de ter mais experiências bacanas, em lugares bacanas, com os melhores vinhos, nas melhores praias, comendo as melhores comidas. Meus filhos têm de ter as melhores festas, o melhor celular, as melhores colocações no ranking escolar. Se alguém posta uma foto de um hotel em Katmandu, tenho de sequestrar a singularidade de sua experiência e postar nos comentários uma minha lá também. Não nos enganemos. Praticamente nada vale se não se tiver um câmera por perto para mostrar para outros, para postar no Instagram, compartilhando ao mesmo tempo no Twitter, Face, Tumblr, Pinterest, Vine, Flickr…

Como toda ação traz uma reação, já vivemos a contracultura da imagem. Gente que resiste ao discurso da visibilidade não tendo perfis em redes, andando com celular peba que nem foto tira, se desligando, no que pode, da ditadura da imagem. Quem não consegue se desligar, evita pôr sua foto no perfil. Usa cachorro, borboleta ou qualquer outra coisa no lugar de sua foto como forma de resistência. Estou nas redes, sim, pero no mucho. Há gente, no entanto, que vira a miss e parte para a briga contra a sociedade da informação, arrancando-lhe a coroa, valorizando o encontro olho no olho e a conversa sem registro a não ser na memória dos interlocutores. E que sai triunfante com seu ato político. No entanto, sem saber – e sem querer – essas pessoas entram de novo no jogo arquetípico: para a sociedade da imagem não passam de meros bobos-da-corte. “Se eu não puder dançar, não quero tomar parte da sua revolução”, diz o bobo. Pergunta dos integrados: “como pode, gente, alguém resistir às redes sociais? Durma segurando um forninho desses”.

Jung à parte, onde é que você se localiza nesse jogo todo, leitor? Faz uma selfie com a coroa, arranca a coroa e joga longe ou nem sabe o que aconteceu porque evita as redes? Ou tudo junto e misturado?

Fato é que é assim. Nem ruim nem bom. É, ponto. Ruim ou bom já é dar valor a partir de onde nos localizamos. É isso que eu tinha para dizer. Deixa agora eu postar logo esse texto no meu blog do WordPress e na minha página no Face para aumentar meu capital digital. Beijo, Leila Lopes!


Melhor lugar

14/12/2014

Melhor lugar

Se fosse por mim/Eu ficava/Mas vê como tudo lá fora mudou/O tempo passou/Feito um louco/Quebrando as vidraças/E a gente ficou/Aqui, sem ter nem pra onde ir/por medo ou preguiça/Aqui, ilhados por nós/Sequer rastreados por nenhum radar/Aqui parecia ser o melhor lugar/Quem disse que a gente precisa/Perder um ao outro pra se encontrar/Se nada nos prende ao passado/Não é o futuro que vai separar/Enfim, encosta seu barco em mim/Que o sol já se pôs/A sós/O mundo termina/Na fina fronteira dos nossos lençóis/Em nós /Espalham-se os laços/Desfazem-se os nós/Sonhamos paisagens/ compramos passagem/E nunca voamos pra lá/Enfim, passeia tua boca em mim/ Até me calar/Aqui ainda parece o melhor lugar.

“O futuro não é mais como era antigamente”. A frase é do filósofo Paul Valéry, mas roda o Brasil na boca de Renato Russo. Dita ou cantada, o que essa frase desperta em nós é a constatação de que as coisas mudam, as mudas viram árvores, os ventos pegam outros caminhos e a vida vem e não pede licença.

Em meio a um turbilhão de acontecimentos dinâmicos, o que buscamos é simplesmente o conforto. Por mais que hoje a vida seja pá, pim, pum, num videogame psicodélico, por mais que mudemos nosso status do WhatsApp todos os dias para dar conta dessa movência e se manter antenados com o espírito desse tempo fugaz, o que queremos mesmo é um lugar para descansar do peso do dia e um bom prato de bons acontecimentos para nos alimentar a fome do cotidiano. No fundo, no fundo, o que se quer de fato é uma pessoa que seja tudo isso: que seja o conforto, que seja o alimento, que seja o amor, que seja o lugar.

Passamos a vida tentando e temos de tentar porque a nossa vocação é ser feliz. Damos cabeçadas e dão cabeçadas na gente. Mas o ser humano, como as araras, são seres de pares. Podem até voar em bandos eventualmente, mas, mesmo em bandos, voam uma do lado da outra, de seu par, de seu duplo. Aí, quando a gente acha… véi, na boa… a vida não tem pra ninguém…

É tão bom ter alguém. É tão bom dividir e, na divisão, multiplicar. Sim, porque a pessoa que a gente acha, nosso melhor lugar, subverte a matemática, inverte a lógica, rasga a sisudez da gramática com sua poesia particular. Entrelaçar dedos e vidas e segurar as mãos literal e metaforicamente potencializam as forças para encarar de frente, com pleonasmo enfático, as chuvas e tempestades da vida. E às vezes o tempo passa, feito um louco, quebrando as vidraças. Depois que passa, a gente constata que a gente ficou aqui, no nosso canto. Molhados talvez. Por causa das turbulências, telhados voam, paredes descascam, portas empenam. Mas a gente vai levando.

Ficamos atônitos com as pancadas vez por outra. Mas ficamos. Segunda pessoa do plural que somos. Depois de nossas tempestades, dá medo, sim. Sim, dá medo. Às vezes, olhando no chão da vida os cacos das coisas que se quebram, dá preguiça de juntar, sim. Sim, dá preguiça. Nesse espaço de tempo em hiato, ficamos ilhados por nós mesmos. Mas seguimos. Seguimos porque só gosta da gente quem insiste em ficar em nossas vidas.

Quem não é nós não entende muita coisa. Não entende o nosso tempo, não entende as nossas manias, não entende os nossos olhares, não compreende os nossos sentidos, tão nossos. Códigos tecidos pela vida construída a cada segundo, desde aquela primeira palavra trocada que nos conectou com a magia que a linguagem asperge sobre os enamorados. Voamos em nossa frequência particular longe dos radares curiosos do mundo. Ah, o mundo que gosta de interferir em tudo, ligando seu celular em pleno voo.

Sem radares, a gente se acha, a gente se encontra sempre. E se acha porque nunca se perdeu um do outro. Brigas, tristezas eventuais, decepções por pisadas de bola? Quem nunca? São essas tempestades que nos fazem reforçar as paredes do afeto. Para quem ama, reconstruir é sempre a primeira opção. O passado é algo abstrato demais já, perdido lá atrás. Não temos como mexer nele. São registros de um tempo bom ou ruim que, como se estivem num museu, servem apenas para ser observados, mas nunca tocados. O futuro é algo abstrato demais, que não existe ainda. Como o passado, o futuro não pode ser mais importante do que o presente. É no presente que se vive. É no minuto que a vida acontece. E precisa acontecer de forma potente. Porque chega o fim da tarde, chega o pôr do sol e se ouve o Bolero de Ravel.

Enfim, é preciso encostar o nosso barco no píer do amor que se tem. O sol já se pôs. Voltar para a casa, esquecer do mundo porque o mundo termina na fina fronteira dos lençóis da nossa cama, do nosso espaço tão nosso. Em nós, espalham-se os laços, desfazem-se os nós. É a dois que sonhamos paisagens. É a dois, na cumplicidade, que compramos passagens para lugares que nem existem, a não ser aqui, pra gente. O melhor passeio é o da boca da pessoa em nós, essa pessoa que se encaixa em nossa vida e em nosso corpo, passeio da boca que nos faz calar e do corpo que nos fazer gemer. É olhando para essa pessoa, em silêncio, sorrindo, que a gente pode dizer com a certeza mais que absoluta, como diz a juventude para avaliar: melhor lugar. E é.


Carta a uma menina de 18 anos

20/11/2014

Carta a uma menina de 18 anos

Menina de 18 anos,

Antes de tudo, parabéns pelos 18 anos. Eu sei que é uma data importante porque nossa sociedade simboliza tudo. Um dia alguém decidiu: é 18. Não é 17 nem 20. É 18. Que 18 seja, então.

Sabe, menina de 18 anos, eu um dia já fiz 18. E me lembro de como eu esperava acordar nesse dia e ver todas as portas e janelas do mundo abertas, com seus segredos desvendados. Viviam me dizendo que quando eu fizesse 18, eu começaria a entender. Eu esperei. Acordei naquele dia e descobri que ele era diferente dos outros só porque aqueles que gostam de mim fizeram questão de me dizer isso naquele dia. Mas nada de chaves de portas, nada de janelas escancaradas e nada de segredos do mundo. Então, não fique triste se você não viver um pentecostes particular. É assim com todo mundo. ‪#‎tamojunto‬.

Aos 18 a gente tem uma grande vantagem e nisso eu invejo você com aquela invejinha branca de quem se gosta: gás. Nossa! Como agente tem gás aos 18. Gás para experimentar, gás para tentar, gás para transcender. Eu, que já estou aqui nos 40, te digo: o gás diminui. É igual a um balão de gás no dia seguinte: vai perdendo fôlego, vai perdendo altura, vai murchando. Mas não perdemos a vontade de voar. Apenas o corpo não acompanha a cabeça, essa, sim, cada vez mais acelerada. Aproveite o seu gás, menina de dezoito anos.

Deixa eu fazer a coisa ficar mais bonita e tascar um latim: tempus fugit, carpe diem. O tempo foge, aproveite o dia. O tempo passa rapidola. Quando se vê já é meio-dia. Aí se pisca e já é meia-noite. Saiba aproveitar o tempo entre piscadas. Aproveite tudo, com fome, com vontade, com tudo. Não. Com tudo, não. Com 99% de ganas. Guarde 1% como garantia de sanidade, como escape. Porque tem gente boa nesse mundo. Mas tem gente má. Gente que vai te machucar de graça e aí você vai precisar desse um por cento reparador.

Menina de 18 anos, este texto já está ficando grande. Meninas de 18 não curtem textos longos. Então eu vou parar. Uma nota final: o melhor tempo é o que a gente está vivendo. Cada idade tem os seus humores, os seus gostos e os seus prazeres. Tempo: nele a gente sempre acha as razões do que veio antes e a gente não soube explicar então. Há sempre um tempo de explicações. Não apresse o rio porque ele corre sozinho. Meu recado para você daqui da frente na linha do tempo: tenha sonhos e serenidade. Porque é como diz o poeta: cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz. Ninguém, menina de 18 anos, tem o direito de ser infeliz. Seja feliz. Carinho e uma boa vida. SF


A falta que nos faz

12/10/2014

O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?


Sniper

13/09/2014

Às vezes a melhor forma de companheirismo é manter o silêncio. É, na hora do desequilíbrio da relação, resistir à tentação de usar a informação privilegiada – que o amor dá no pacote – para fazer arder feridas abertas, que pedem para ser cuidadas pelo outro e não cutucadas pelo outro. Quando começa a se perder a certeza de que o silêncio também cura, se começa também a desnecessária sessão de agulhadas cirúrgicas, precisas, de quem conhece os pontos e sabe exatamente onde enfiá-las. É uma acupuntura às avessas: em vez de sarar, a agulhada queima, machuca, arde. É a informação privilegiada – feita para ajudar na partilha da vida a dois – sendo usada para fazer doer com precisão. É cruel isso. Porque não tem se tem defesa contra o franco-atirador que lhe tem na mira e conhece seus movimentos como ninguém…


Aviso

02/09/2014

Quando eu for velho eu vou usar laranja
Com bermuda florida que não combina e que vai ficar papagaiado em mim.
Vou gastar minha aposentadoria em minha coleção de corujas
Que vai se espalhar pela casa causando constrangimento às minhas filhas e dó às minhas visitas.
Vou a todo canto de chinelo e sempre vou dizer que não tenho dinheiro pra conta.
Quando eu for velho, vou sentar no chão quando estiver cansado, como fazia quando era criança, o que desde sempre me valeu o apelido de Velhinho.
Vou comer as amostras grátis no supermercado e pegar tudo que for brinde. “Para minhas netinhas”, direi eu à moça sem graça, que não me negará.
Quando eu for velho, vou roubar livros em livrarias e se o alarme tocar vou dizer que são meus pinos, meu filho.
Vou usar minha bengala para apertar válvulas de pneus de maus motoristas, desses que estacionam em vagas de velho. E vou sentar no meio-fio para ver a cara do imbecil.
Quando for velho, vou roubar flores dos jardins dos outros. Se for pego, vou dizer que é pra minha velha. Rirei um riso banguela e ganharei olhares ternos do dono do jardim.
Quando for velho, fingirei surdez precoce e profunda para ouvir as pessoas fofocando.
Vou escrever cartas à mão para um monte de gente, dizendo tudo que penso delas.
Vou furar as caixinhas de leite condensado e detoná-las inteiras, mesmo sendo jurado de asilo pelas minhas meninas, preocupadas com meu açúcar.
Quando eu for velho, darei a mim álibis para justificar desatinos que compensem a sobriedade de minha juventude. Fui muito certinho.
Quando for velho, e enquanto a mão obedecer, vou escrever poemas em folhas soltas e guardar dentro dos livros da estantes para que sejam descobertos por leitores anônimos quando eu me for.
Quando eu for velho, ninguém mais vai mandar eu fazer as coisas. Só farei o que quiser.
Ah, e quando eu for velho, eu vou dobrar a bainha da minha calça pra cima, com dobras bem largas.


Linha 352

31/07/2014

Aí eu perguntei: – Vai pra Zona Leste? O motora do 352 fez que sim com a cabeça e eu entrei. Dei dez reais pro cobrador que me olhou com uma cara feia. Mas tinha acabado de ter aula de anatomia e de ter visto cadáveres. A cara dele, então, era fichinha. Ele me deu o troco em moedas de 5 centavos. Passei e consegui sentar lá na frente. Logo o ônibus lotou. Quando chegou no ICHL, umas três pessoas, quase que simultaneamente, jogaram as bolsas no meu colo e disseram: – Segura pra gente aí, tio! Teve um calouro sem noção que percorreu o corredor todo com a mochila maceta nas costas fazendo strike na cabeça das pessoas sentadas nas cadeiras do corredor. É. aquilo ali era uma aventura darwnista. A sobrevivência dos mais fortes. Uma bunduda começou a esfregar a bunda dela no meu ombro. Mais do que ônibus lotado, acho que ela tava folgando mesmo. Do meu lado, um cara que fazia história – presumi pelo livro do Hobsbawm no colo – começou a colocar umas músicas cabeças no celular de dois chips dele. Alto pra cacete. Uma galera reclamou, mas ele nem aí. Olhei e o pessoal que estava de pé, exceto a gorda da bundona que continuava se esfregando na cabeça do meu úmero, estava todo em 45 graus para evitar o esfrega dos pervertidos, como manda o manual. Uma menina pegou o celular pra falar. Uma senhora mais idosa foi chegando perto do Hobsbawm para pedir lugar. Ele, num reflexo impressionante, desligou o celular e caiu num sono fingido para garantir o assento. De repente, um ladrãozinho puxou da mão dela e saiu correndo pela porta quando o busão parou perto do Coroado. Tudo muito rápido. Um herói, um aluno de língua portuguesa, ameaçou correr atrás, mas a moça disse que tudo bem, que aquele celular peba era o do assalto mesmo. Ela explicou: ela sempre andava com dois: o celular dela de uso mesmo, entocado e desligado, e um pebinha, pro ladrão. Numa faixa de pedestre na Cosme Ferreira, o motora deu uma freada que foi um freio de arrumação só: galera deu uma compactada. A gorda bunduda simulou desequilíbrio e caiu sentada no meu colo. Alguém estava com problemas nas glândulas sudoríparas e sebáceas, que estavam juntas numa revolta só no odor que aquele sujeito exalava. Com a freada, o cheiro da criatura deu um 360 no ônibus todo, vindo da hipoderme. Sim, minha aula de anatomia tinha sido sobre o sistema tegumentar. O cebolal estava cruel, de fazer chorar. Pior que o formol do laboratório. Fui chegando perto da minha parada. Devolvi a bolsa aos donos, disse que ia sair. Pedi licença à gorda, que saiu do meu colo. Desci na parada em frente de casa. Quando olhei, vi que a gorda desceu atrás de mim. Apressei o passo. Ela também. Entrei no condomínio quase correndo e gritei pro porteiro: – Braga, fecha o portão! Nem olhei pra trás com medo de virar estátua de sal. Cheguei em casa. Antes de subir, tive a leve impressão de que meu carro, na garagem, deu uma risada sacana pra mim e piscou um pisca só. Foi só impressão, claro.

PS: Nem voltei de ônibus. Minha mulher foi me buscar. A historinha aí foi criada a partir de relatos dos colegas, que me dissuadiram da aventura. Ainda invejo aqueles que vivem com adrenalina no toco por ter de pegar o 352 todos os dias. Quantas histórias eles devem ter…


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