É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

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Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

Meu pai morreu há três meses. Foi o mais próximo que a morte chegou de mim. Antes disso, ela tinha me visitado quando levou minha vó, há 15 anos. Um hiato que me fez esquecer da morte por um bom tempo, ocupado que estive em viver as coisas da vida.

Procurei entender a morte do meu pai. Eu li tudo que pude sobre perda, separação, angústia, luto. Li sobre a dor do amor. Livros, artigos, assisti a vídeos e filmes. Tentei buscar um sentido para a morte do meu velho, como recomenda o psicólogo judeu Vicktor Frankl. Ele sobreviveu à barbárie de Auschwitz dando sentido à experiência trágica. Frankl dizia a si mesmo que precisava explicar ao mundo a psicologia de um campo de concentração e isso o manteve vivo. Só de Frankl, eu li três livros.

Descobri nas minhas leituras que o luto normal demora pelo menos um ano. Tempo do primeiro tudo sem a pessoa: primeiro dia sem, primeiro mês sem, primeiro dia dos pais sem, primeiro aniversário seu sem, primeiro aniversário dele sem, primeiro Natal sem, primeiro ano sem, primeira falta de colo. A morte do meu pai me trouxe mais pesadamente a consciência da finitude. Mas me trouxe muito mais do que isso: trouxe uma maior clareza sobre minha própria existência.

Ter consciência sobre si mesmo é um dom que desenvolvemos com a idade. Podemos potencializar e acelerar esse dom por meio de eventos pontuais de dor. Aprendemos a ter consciência do que vale e não vale a pena investir, de quem vale e de quem não vale gostar. Fica clara a consciência de que a vida precisa ter qualidade. Abandonamos sem dó aquilo e aqueles que nos fazem mal. No entanto, esse ter consciência sobre si traz no pacote a ferida da mortalidade. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns) e vamos morrer. Simples assim. E complexo assim. Porque precisamos decidir o que é, afinal, a morte para nós e isso vai fazer diferença em como a gente vai viver.

As pessoas lidam com a morte de formas diferentes. Há graus de angústia da morte. Pensar nela geralmente nos paralisa porque é a única certeza que temos sobre o futuro. Como não podemos ficar paralisados, senão vira algo patológico, desenvolvemos formas de elaborar essa angústia do inevitável. Há quem não pense na morte, um grau zero que se toca com o grau cem: o medo é tanto que se evita falar sobre. Há quem desafie o medo da finitude buscando construir uma obra na terra que lhe perpetue, ou por meio dos filhos ou por meio de algo notável. Há quem busque na religião o exílio, a explicação e o conforto contra a ideia de que a morte seja o fim definitivo. Enfim, fato é que a angústia de morrer se faz presente de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, como pensamento casual ou ideia que persegue cotidianamente. A morte é pauta inevitável da vida.

A angústia de morrer vai e vem durante nossa existência. As crianças são introduzidas à morte pelos bichinhos de estimação que se vão, pelas folhas secas caídas que encontram ao pé das árvores, pelos avós que desaparecem de repente. Quando contei às minhas filhas Clara (dez anos) e Marina (nove) sobre a morte do avô, as reações foram diferentes. Marina chorou demais, trocou de mal com Deus por lhe levar o avô. Clara se manteve em silêncio. Marina vez por outra me vem dizer que está com saudade do avô e chora. Clara, não. No entanto, pegando sua agenda escolar para verificar o que tinha de tarefa, vi escrito no calendário, no dia 1o de setembro, com sua letrinha redonda, “Vô, três meses. Saudade. :.(“. Meu pai morreu no dia 1o de julho. As crianças, como todo mundo, também têm formas singulares de elaborar a perda de quem amam.

Os adolescentes, em geral, desafiam a morte. Nesse período a angústia explode com força. Arriscam-se em atividades radicais, saltam de paraquedas, fazem rachas. Adoram ícones da morte, como Hitler. Lançam a catexia fortemente em jogos como Grand Theft Auto, em que a morte é banalizada. Alguns chegam mesmo a considerar o suicídio. Este é o recado: “Dona morte, não tenho medo de você. Não me venha com close errado”. Assim se cruza o tempo da juventude. A vida segue e viramos adultos.

Como adultos, as preocupações mudam. Vem a carreira profissional para cuidar. Vem a família para zelar. Deixamos a morte de lado porque a roda-vida exige demais e quase não deixa tempo para pensar nisso. Só que, de repente, duas coisas acontecem: a meia-idade e sua crise e a morte recorrente de pessoas da geração anterior. Parentes, tios, pais de amigos, os próprios amigos mais velhos, nossos pais. Eles começam a ir. À medida que eles vão, a meia-idade vem. Esse encontro inevitavelmente faz da morte uma presença constante nessa parte da vida que é, fato, a parte descendente da existência. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns). O próximo passo é morrermos. Como lidar com essa certeza, que é a certeza derradeira da vida?

As pessoas lidam com a morte à espreita de várias formas. Por causa de sua história pessoal, de sua singularidade, umas buscam auxílio na família e nos amigos. Outras se aproximam da espiritualidade como forma inconsciente de buscar um seguro para o depois da morte. Alguns, mais cientes de sua fragilidade humana, vão à terapia. Outros, ainda, escrevem textos sobre a morte para lidar com a morte que se apresenta.

Meu pai morreu há três meses. Meu velho me deu um grande presente no fim da vida. Ele me fez redefinir minha relação com a morte. Eu tinha medo da morte. Hoje não tenho medo. Meu medo foi ressignificado. Hoje eu vejo a morte como algo que faz parte da vida, algo sobre o que você pode partilhar com outras pessoas, sem razão para ter medo ou vergonha de fazê-lo. Hoje eu converso sobre a morte, coisa que evitava fazer. Redimensionei a importância do velório como prática social. A presença em velórios tem uma função afetiva fundamental. São partículas de afeto que se juntam numa constelação de carinho e que ajudam a sustentar o corte abrupto do afeto roubado pela morte. Estar lá é dizer: eu me importo. E isso faz uma diferença imensa para quem está machucado.

Hoje a morte tem uma forma bem diferente para mim. Ela não é mais aquela morte de roupa preta com a foice na mão. Ela é bem distinta daquela morte dos nossos encontros cotidianos, em que a vemos como algo violento, assustador e tabu. Há outras mortes além daquela que a mídia nos entrega diariamente. Descobrir isso é libertador.

A lição que resume tudo isso é que o confronto com a morte não precisa ser um desespero. A morte sempre convoca um renascimento obrigatório de nós mesmos. Renascer é um sentido bom que podemos dar à morte porque pensar na morte requer pensar na vida. No fundo, eu acho que não seja da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca ter vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos porque nunca conseguimos descobrir o que é a vida de fato. Mas sempre é tempo. Cuide de seus canteiros, “antes que chegue a morte ou coisa parecida e nos arraste moço sem ter visto a vida”. Cecília.

Em “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens nos fala da morte. “Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho. Meu coração é tocado por lembranças que estavam há muito tempo adormecidas”. É isso. A morte é o nosso reencontro com um começo de que já não nos lembramos mais. Afinal, existirmos: a que será que se destina?

A morte é a noite da vida. É um laço que caça a infinitude. É o anzol que volta, sem falha, para fisgar a existência que se pensava eterna. É pau. É a pedra de Drummond. Mas definitivamente não é o fim do caminho.

Mãe, matéria e memória

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Em 1896, o filósofo Henri Bergson publicou um livro chamado “Matéria e Memória”. No ensaio, Bergson discute a relação corpo-espírito. Ele diz que essa relação é mediada pela memória, que considera algo profundamente espiritual.
Afirma o filósofo francês que existem dois tipos de memória a nos constituir: a memória-hábito e memória-lembrança. A memória-hábito replica o passado e o repete. Não é reconhecida como passado. É automática. Está inscrita no corpo por práticas cotidianas e tem fim utilitário. Como se portar à mesa, por exemplo, é uma memória-hábito. A memória-lembrança ou memória pura, por outro lado, regista o passado sob a forma “lembrança-imagem”. Representa o passado e o passado é reconhecido como passado. É da ordem contemplativa e teórica, gratuita e profundamente espiritual. É a verdadeira memória.
Trago a obra de Bergson para falar das mães. Mães são memórias puras. Mães são memórias-lembranças. Mães são pontes entre os nossos corpos – desde o empréstimo do seu – e os nossos espíritos. É lembrando das mães que o passado se presentifica e o presente se passadifica. Porque as mães estão atravessadas na nossa existência, no nosso corpo e na nossa alma.
Por ser o liame, a ligação entre o corpo e a alma, a mãe tem um lugar fundamental na constituição daquilo que somos. Não é à toa que a teoria da Psicanálise guarda um lugar crucial para a figura materna na construção do eu. A importância da mãe – por sua presença ou sua falta – na elaboração de nossa estrutura egóica é quase um dogma nas diversas teorias do desenvolvimento. Por isso que quando há excesso de mãe ou vazio de mãe a gente desequilibra e corre para a terapia. Ou deveria. Reflexões teóricas.
Filosofias e teorias à parte, mãe é mãe. Há mãe que é mãe. Há pai que é mãe. Há vó que é mãe. Há vô que é mãe. Porque mãe não é gênero, mas um lugar simbólico. Uma identidade pressuposta que primeiro acolhe, depois cuida, depois aninha, depois pede cuidado e, por fim, cumprindo o ciclo da vida, se vai.
A memória-lembrança da mãe começa no acolhimento. Não há lugar melhor no mundo do que aquelas quarenta semanas na barriga da mãe. Assim como mãe é um lugar simbólico que pode ser ocupado por pais, tios, avós etc, a barriga da mãe não precisa necessariamente ser a barriga da mãe biológica. A barriga da mãe às vezes está fora do corpo físico. O acolhimento começa na tomada nos braços de um filho concebido por outras pessoas como se seu biologicamente o fosse. “Adotar” vem do latim “adoptare”, ad+optare, ou seja, optar por ficar junto. É uma escolha consciente de querer ficar junto daquele bebê que, em princípio, não era parte sua. Adotar é encarnar nas suas uma carne externa. A mãe se faz encarnada e, ao se fazer, pare o filho que não gerou. Por pura opção. Isso é tão forte e tão lindo. Digno de mães.
Se pouco nos fica de memória-lembrança do acolhimento, seja biológico ou encarnado, muito nos toca as memórias o tempo do cuidado. É aqui que o espírito dança terno ao lembrar da mãe acarinhando nosso rosto, cantando para a gente dormir. É esse o tempo de construir nosso playlist particular da novela de nossa vida. A minha mãe nos fazia dormir no embalo da rede da casa sem forro cantando “Pica-pau atrevido que do pau fez um tambor” ou “Alecrim dourado”. Talvez essas escolhas tenham a ver com o atrevimento da minha irmã mais velha ou com a certeza que nós lá de casa temos de que sempre, em qualquer lugar, pode ser tempo de alecrim com seu cheiro bom, com sua doçura levadas pelas abelhas para fazer o doce mel dourado. Sem dúvida que nessas escolhas, nesses cuidados, as marcas da memória-lembrança são cravadas no corpo.
O tempo vai passando. A gente vai crescendo. Vem o tempo de ir cuidar da vida. Mães e filhos vivem um luto duplo, o luto necessário para que nos façamos gente. A mãe deixa de tomar conta e de decidir pelos filhos. Saímos de casa e passamos a ser responsáveis por nós e logo por outros. Tempos agridoces, de fato. Amargos porque saímos de perto daquela que nos cuidava – e é preciso dizer aqui que as mães têm formas diferentes de cuidar, umas muito estranhas até. E doces porque, afinal, a vida para a qual ela nos preparou com mantos de carinho e proteção precisa ser vivida. Hora do vamos ver, da real. Vamos para nosso canto. Compramos nossa lata de leite condensado para chupar livres. Mas sempre “lá em casa” vai ser a casa da mãe. Sempre o bife de fígado – coloque aqui a comida que ela fazia porque você gostava – vai ter um sabor único. O feijão da minha vó põe na boca da minha mãe até hoje um gosto de amor inigualável. O feijão da minha vó é o meu bife de fígado ou o seu não-sei-o-quê delicioso. Comida de mãe é memória viva. De lembrar enquanto escrevo eu salivo. Ao salivar, eu me vejo moleque comendo meu bife de fígado, sentado na mesa grande da cozinha da casa 20, uma mesa coberta com uma toalha de plástico branca com desenhos de legumes. E vejo minha mãe sentada na cadeira de macarrão, se embalando. Meu corpo respondendo ao meu espírito. Bergson estava certo.
Casa de mãe, melhor ninho. Colo de mãe, melhor lugar. Quarenta e sete anos no lombo e ainda corro vez por outra para deitar no colo da minha mãe. Meu conforto, minha paz. Ouvi-la dizer “Meu filho, vai dar tudo certo” na hora em que nada parece dar certo tem um poder pentecostal. Fecho os olhos, sinto o seu coração bater, volto ao seu ventre. Aconchego. É difícil quem está longe da mãe, geográfica ou afetivamente, e não tem esse lugar de reparação da alma. É complicado quem mora longe da mãe, às vezes habitando na quadra ao lado, e perde a chance de se reabastecer de gás carinhoso maternal para a vida. É doloroso quem já não a tem mais por perto. Porque mães envelhecem. E um dia se vão.
Ando lendo muito sobre a velhice. Talvez por estar me encaminhando para seu edifício. Mas muito por causa de meu pais. Eles envelheceram. E a velhice é um tempo de perda. Perda de trabalho, perda das capacidades, perda de saúde, perda de memória. Para Bergson, a perda da memória é somente desgaste do cérebro. Claro, se o cérebro não funciona a contento, isso acaba atingindo a memória-lembrança, que é o que mantém viva as pessoas. Parêntese: estou terminando de ler “Memória e sociedade: lembrança dos velhos”, da Ecléa Bosi. Que livro lindo! Reconstruir a memória social pela memória pessoal, de velhos que um dia foram jovens e construíram suas histórias. Fecha parêntese. Então, a mãe envelhece. E as coisas mudam de lugar.
É fundamental perceber quando a mãe pede cuidado. Como filhos, ocupamos nós agora o lugar simbólico de acolher, cuidar e aninhar. Somos nós que precisamos fazê-los sentir pertencer a nossas vidas para além da retórica. Somos nós que precisamos cuidar, levar no médico, sair juntos para tomar um café da tarde, fazer supermercado. Tem uma idade em que a mãe precisa de cuidado. Mesmo a contragosto – ninguém gosta de ver seus heróis falhando – as mães começam a falhar. E aí temos de segurar sua mão para atravessar a rua, temos de dar banho, temos de pentear seus cabelos, acarinhar seu rosto, cantar “Alecrim dourado” para ela dormir. É esse o tempo de cantar todo o nosso playlist particular da novela de nossa vida. É esse o tempo de acolher.
Elas se vão. Os corpos delas se vão. Não mais a colher de pau da parede. “Onde os doces da mãe?”, pergunta do poeta Aníbal Beça, chorando a ausência eterna da sua. Onde o cheiro único? Onde o abraço quente? Onde o beijo primeiro? Precisamos – porque é o que temos – aprender a amar nossa mãe de um jeito novo quando ela se vai. Carecemos de aprender a amá-la sem o estímulo de sua presença física. Desamar para reamar. Um reamor. É isso. Mas construir o reamor por perdas não é tarefa fácil. Desamar amor puro dói. Às vezes escorre sangue de tão doloroso. Meu carinho mais sincero para você que está em processo de reamor, que vai para o seu primeiro Dia das Mães sem a sua, com cada propaganda, postagem em rede social, cartaz, tudo, lembrando que ela não está mais ao alcance de um abraço. Pode chorar. Chore em homenagem à sua mãe. Deixa ela saber que ela faz falta.
Matéria, memória, lembranças, mãe. Tanta coisa junta. Se você chegou até aqui e leu o textão – um escândalo em tempos de posts curtos –, eu desejo a você e à sua mãe um Feliz Dia das Mães. Para ti também, mãe Helena. E para a mãe perfeita das minhas filhas, Fabiana. Ah, e aproveitem para resgatar as memórias-lembranças. Aproveitem para dar um abraço e um beijo se ainda a benção divina lhes permite tais coisas. Aproveitem para acolher, cuidar, aninhar. Porque um dia, queridos amigos, isso não vai ser mais possível. Aliás, será sim. De outra forma, talvez.
Dona Alice, uma das velhinhas entrevistadas por Ecléa Bosi para seu livro, diz que uma das coisas de que lembra com afeto é da época de sua primeira comunhão aos treze anos na Igreja de Santo Antonio, na Barra Funda, em São Paulo. Lá ela cantava:
Como minha mãe estarei na santa glória um dia.
Junto à Virgem Maria. No céu triunfarei.
No céu, no céu. Com minha mãe estarei…

O corpo é feito de memória. Bergson estava certo. Mães – de todo tipo – sempre vão para o céu.

 

Feliz Dia das Mães.

Ouro de memória

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Nessa semana eu participei na universidade em que trabalho da cerimônia do chá, promovida pelos professores do curso de Japonês. Como a curiosidade me habita desde que me entendo por gente, fui pesquisar mais para aprender melhor o significado de tudo aquilo. Comecei a ler sobre cultura japonesa. E eis que me deparo com o Kintsugi.
Kintsugi (金継ぎ) significa algo como “junção com ouro”. É um estilo de arte japonês em que peças de cerâmica quebradas são consertadas, mas com todas as suas rachaduras aparentes sendo destacadas e preenchidas com uma liga que envolve pó de ouro. Por trás de uma aparentemente simples técnica de reparo, há uma bonita filosofia de vida, diferente daquela com que estamos acostumados por essas bandas do mundo.
Nessa banda ocidental capitalista, o novo, o inteiro, o perfeito é o parâmetro do bom, o que é valorizado. Buscamos consertar as coisas para que aparentem ser de novo como novas. Ou mesmo substitui-las, se ficar muito complicado resgatar a semelhança. As velhas coisas, consertadas, quanto mais parecidas com o que eram antes de dar defeito, mais perfeitas as consideramos. Essa busca fixada pela perfeição nos leva às ditaduras da beleza, do corpo, das aparências irretocáveis perante os outros. Vivemos a necessidade de instagramizar a vida, mostrando aos outros nossas perfeições de várias formas.
Acontece que a vida vem e não pede licença. Ela é real e de viés. A vida real, em outras palavras, é muito mais foda do que a das redes sociais. A vida acontece e nos transforma e nunca mais somos os mesmos. Daí, temos duas possibilidades lógicas de encarar essa vinda da vida: ou gastamos esforços hercúleos para tentar deixar como novo o que a vida estilhaça ou aprendemos a consertar essas rachaduras na cerâmica de nossa vida com ligas de ouro, preenchendo as rachaduras com o ouro da memória, como sugere o Kintsugi.
Acostumar-se a dar sentidos às rachaduras da vida pode ser uma forma de aprender a sofrer menos. Se deixarmos de vê-las como algo ruim, deixamos também de considerá-las indesejáveis e passamos a entendê-las como partes, pedaços, estilhaços de nós mesmos. Cacos de nossa história. Ao contrário de querer que as coisas voltem a ser como novas, é preciso compreender que parte do nosso legado é aquilo que somos tentados a esconder com mais determinação: as nossas falhas e defeitos. As falhas e defeitos, mais do que problemas, são partes constitutivas de nosso eu, daquilo que resulta da minha interação com o mundo. Estamos em movimento e o movimento deixa marcas. A estética Kintsugi foca exatamente nas questões como a transitoriedade e a impermanência do que na beleza propriamente dita. Aliás, redefine o conceito de beleza como sendo exatamente aquilo que temos de igual, mas também, e principalmente, aquilo que nos faz diferentes dos outros do mundo. Nossa cicatrizes são as lembranças de nossa caminhada e essa caminhada é só nossa e de mais ninguém. Sua unicidade é que nos faz indivíduos no meio de um mundo social porque refletem nossa história.
Cicatrizes são história. As menores, memórias de alguma arte a infância. Eu tenho uma no queixo e outra no pé. As maiores, uma prova de que se é um sobrevivente. Tenho várias no coração. A idade e minhas leituras em discurso e em psicologia têm me feito preencher esses espaços craquelados com o ouro da memória, dando a tudo isso significados que hoje me fazem ser quem eu sou. Eu sou esse inteiro, boca linda, dedos feios, mãos macias, barriguinha de chope, sinalzinho único perto da boca. E tenho uma autoestima de periguete como resultado de me gostar com meus ranços e avanços cada vez mais. Eu me gosto pacas.
Screen Shot 2016-02-06 at 2.02.53 PM.pngNão estou dizendo para fazer o jogo do contente, ignorar desequilíbrios e ir no fluxo da vida sem agência alguma. Longe de mim achar que não se deva buscar equilibrar o que está desequilibrado. O que estou dizendo é que é possível reequilibrar os desbalanços simplesmente mudando os critérios da balança. Não dá para eu ficar lamentando as vezes em que me perdi no caminho. Foi sair da estrada que me fez chegar, de outra forma, até aqui. Tudo isso deve ser visto como meu pote. A parte inteira e a parte rachada. O que pegou, o que pesou, hoje é ouro para mim, remendando meu eu, me dando unidade para ir adiante e me consertando. Mais: me concertando na sinfonia do mundo. Porque a vocação do ser humano é ser feliz, é cantar, é dançar, mesmo que desengonçado como eu. É meu charme. Quais são as suas rachaduras que ainda precisam do seu ouro de memória, querido leitor?
Que tal mexer nisso nesse carnaval, hein? Porque, como diz Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Somos dores e delícias. Nem mais, nem menos. Mas tudo isso. A cultura japonesa é muito bonita.

O selo de Tutankamon

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The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

Memórias de um riacho

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“Estava correndo tranquilo, quando senti uma vontade danada, daquelas que coçam na gente, de molhar os pés de alguém. Atraí os pés de uma moça bonita e os envolvi por um longo tempo em minhas águas geladas e aconchegantes”.

WhatsApp

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Ela era uma mulher linda, decidida, resolvida, profissionalmente reconhecida. Aí, um dia, do nada, recebeu uma mensagem de WhatsApp: – “Não quero mais ficar com você. Tenho outra”. Era o marido, acabando tudo, em uma mensagem de WhatsApp. Ficou sem chão, chorou rios, sentiu a dor que sentem os desprezados. Ela merecia bem mais do que tudo isso. Mas ela era uma mulher linda, decidida, resolvida. Colocou seu melhor sorriso, decidiu ser feliz. Resolveu seguir a vida. Soube logo que sem se amar sem limites ser amada seria tarefa complicada. Nossa felicidade não depende de uma pessoa específica. A vida seguiu. E tanta gente esperando só um sorriso dela para chegar perto e ela nem desconfia…

Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.