O leão que caçamos

30/07/2015

O dentista americano Walter J. Palmer matou um leão na África, mais especificamente no Zimbabwe’s Hwange National Park, no Zimbabwe. Acontece que o leão era Cecil, uma espécie de símbolo nacional do país, e fazia parte de um projeto de pesquisa da Universidade de Oxford. Ele usava um GPS para monitoramento e foi atraído para fora da reserva onde vivia para ser morto com um arco e flecha. Detalhe importante. Depois de morto, teve sua cabeça cortada como um troféu. Essa história está rodando a internet e você deve conhecê-la, a não ser que tenha passado essa última semana em Plutão ou na Terra 2.0.

Fiquei me perguntando o que leva alguém a matar um animal por esporte. Antigamente, o homem matava animais em autodefesa ou por fome. É claro que o compele caçadores esportivos hoje nada tem a ver com o que movia caçadores da era paleolítica. Hoje, caçar por esporte é uma maneira socialmente aceitável – ok, cada vez menos – para justificar o prazer de matar por matar. Isso acontece no mundo o tempo todo e dessa vez só deu treta porque o leão era conhecido. Se fosse um leão da periferia, negro, pobre e do morro, talvez fosse mais um bicho na estatística.

O que o liongate me faz pensar, na verdade, é nos leões que nós caçamos e queremos matar para equilibrar nossas faltas. É uma metáfora, claro. O único bicho que mato é barata porque senão minha mulher não consegue dormir se souber que ela escapou. Mas, sim, os nossos leões.

A vida precisa de equilíbrio psíquico. Se sobra exagero de um lado da balança é porque há uma falta que pesa no outro prato. Muito silêncio ou muito barulho sobre algo, dizia Freud, é sinal de que esse algo precisa ser ouvido. Caçar, matar um animal, sentir o prazer de tirar a vida de um bicho desnecessariamente é claramente uma compensação narcisística por alguma falta. Imagine alguém que deliberadamente mata um cachorro na rua. É lógico que isso tem o peso de algum desequilíbrio que precisa dessa overdose compensatória de gozo. Não. Isso não é normal. Se a gente pensar no processo psicodinâmico de um sujeito em paz consigo definitivamente há alguma coisa aí. Só há causa daquilo que falha.

No caso de Walter Palmer, sua forma de compensar a falta – sabe-se lá qual – é matar por esporte. Há compensações menos nocivas e outras mais, tanto para o sujeito quanto para quem o circunda. No caso de muita gente, a compensação é um cair de cabeça na religiosidade ou espiritualidade. Outros vão para drogas, álcool, sexo compulsivo. Uns compram um carrão. Tem gente que se entope de chocolate ou de sorvete. Tem gente que para de comer ou vomita o que come. Pessoas limpam casas compulsivamente para dar conta de sujeiras psíquicas. Alguns exercitam a pedofilia, o sexismo, a violência física contra si ou contra os outros. Un outros destilam ódio gratuito nas redes sociais contra a Dilma ou o Lula. Tem gente que se mete de corpo e alma em campanhas sociais, ONGs, coletivos. Tem umas pessoas que viram the great outdoors e vão mochilar pelo mundo ad eternum, postando suas fotos de braços abertos na montanha para o mundo dar like. Tem gente que escreve. Há todos os tipos de leões para matar.

Que a gente precisa de equilíbrio psíquico não é lá uma grande novidade. A questão é que o desequilíbrio compensador sempre pega interna e externamente. Porque as compensações, quando não trabalhadas na sua origem, são falsas soluções. É mais ou menos como a febre. O sujeito sente febre e equilibra a temperatura do corpo com um antitérmico. Mas a febre, um desequilíbrio, precisa ser escutada. Ela está dizendo algo. Não basta combatê-la num falso equilíbrio. A febre é um desequilíbrio aliado. Da mesma forma, os excessos ou silenciamento eloquentes precisam ser ouvidos. Não é suficiente dar a dipirona das coisas para equilibrar a falta que faz o desequilíbrio. Tem de saber o que nos causa o mal-estar, pensado aqui como conceito psicanalítico.

O fato é que matar leões, até um por dia, pode não ser uma boa metáfora. Em vez de buscar a adrenalina fora talvez seja necessário buscar a endorfina dentro. A ideia não é aniquilar as questões que desequilibram – isso, penso, talvez seja um sonho impossível e algo até ruim porque eles são necessários –, mas aprender a conviver com elas sem tanto sofrimento e sem a necessidade de puxar o pino da bomba atômica para matar o mosquito. Só um detalhe: de dentro, a gente quase nunca enxerga. Daí a necessidade de uma boa terapia (aqui eu já fazendo propaganda para quando eu me formar, claro).

Clemént Rosset tem um livrinho que eu adoro: “o Real e seu duplo”. Ele diz em determina altura do texto: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a impiedosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescindível – o do real a ser percebido –, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sobre certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e se mostra desagradável, a tolerância é suspensa”. A recusa do Real, claro, pode tomar formas muito variadas. O Real, quando teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar, como numa dose a mais de álcool ou numa cabeça de um leão africano morto com um arco-e-flecha.

Admitir que há uma falta que nos constitui sempre e que precisamos conviver com ela é doloroso. Às vezes rola sangue. Preferimos um mundinho arrumado, ainda que falsamente arrumado. Mas admitir nossas faltas constituintes é fundamental para manter a vida acontecendo de forma suportável. Porque senão a gente sai que nem um louco matando leões. E pior, com arco-e-flecha para o sofrimento do bicho ser maior. Metaforize aí.

O sentido da vida deve ser buscado não na harmonia, mas na dissonância. Se há mal-estar, que bom! Hora de buscar compreender. Qual é a cabeça de leão que você anda atrás para pendurar como um troféu na parede de seu quarto da vida, leitor querido? Olhe para dentro. Porque nada jamais é descoberto. Tudo é apenas reencontrado.

O forninho do Walter Palmer caiu. Segura o seu aí.


Amor do avesso

07/06/2015

 

Toda maneira de amor vale a pena. Toda maneira de amor vale amar. Também acho. Mas há maneiras e maneiras de amar.

Há o amor escancarado, declarado, esparramado para o mundo. Rosas e poesia, mel e John Green. Há o amor tímido, que só se mostra de vez em quando, saindo da toca às vezes para mostrar seus afetos mais sinceros. Desconfiado. Há o amor platônico, que habita nossos desejos mentais e não ousa ganhar mundo. É aquele que a gente deixa assim ficar subentendido e que pode até parecer fraqueza. Que seja fraqueza então. E há o amor pelo avesso.

Quando sofremos um trauma muito grande, a gente desmaia. O corpo desliga o disjuntor para a gente aguentar o tranco. O corpo é uma máquina perfeita. Desmaiamos para não ter de encarar uma parada maior do que podemos suportar. O amor pelo avesso é mais ou menos isso: um desmaio nos afetos por amar demais. Explico melhor.

Há pessoas que amamos muito, mas reconhecer e exaltar esse amor é, de alguma forma e por alguma razão, algo absolutamente insuportável para nossa ordem das coisas. Por muitas razões: por vaidade (reconhecer que amo a pessoa é assumir que há coisas nela que admiro e – me poupe! – não posso dar esse cartaz para ela), por impossibilidade social (abrir meu amor me trará cobranças sociais imensas) ou até para não assumir gostar de alguém socialmente ingostável (“Ain, como assim você ama justamente essa pessoa, esse traste, esse lixo?!”). Aí o disjuntor do amor desliga – pela sobrecarga de amor intolerável – e a gente manda o amor achar outra forma de ser. Ele que se vire. É nessa hora que esse danado se vê desafiado e parte para a ignorância, para a força bruta.

Quem ama do avesso generaliza os defeitos e particulariza virtudes do ser amado. Critica quem queria elogiar, rejeita carinhos que amaria receber, empurra para longe quem se oferece para ficar perto e cuja pertidão – à moda de Guimarães Rosa – quer mais que tudo. Procura o ponto que machuca no outro para praticar sua acupuntura hostil.

O amador do avesso é um autossabotador e um narcisista. Autossabotador porque não se permite usufruir do amor aberto que, convenhamos, é gostoso pra caralho. É um narcisista porque acredita de verdade que todas as 7 bilhões de pessoas do planeta Terra têm a obrigação de entender sua forma de ser e se adaptar ao seu jeito de amar, esse com a costura para fora. Em ambos os casos, uma boa terapia pode ajudar a descobrir por que quem ama pelo avesso acredita que não merece ser amado plenamente – e daí se sabotar – ou pode ajudar a se tocar de que não se é o centro gravitacional do universo. Se achar a bala que matou Kennedy é muito peso para uma cabecinha só. Tem de ver isso aí.

Quem ama pelo avesso pensa que ninguém nota. Ok, uns não notam mesmo e preferem ir embora porque ninguém aguenta a insuportabilidade de quem só chora miséria e não abre a porta dos afetos. Nem se dão ao trabalho. As pessoas vão embora, saiba. Às vezes para sempre. Mas uns notam. Porque também amam, começam a devolver o amor do avesso. Começam a gostar ignorando, provocando, irritando, espezinhando, ironizando, cutucando e – eventualmente – machucando. Além de tudo, ainda tem essa: amar do avesso evoca o masoquismo. Se o amor direito traz prazer no próprio ato de amar, o amor do avesso traz prazer por meio da dor, que é para confirmar a certeza que habita a cabecinha dura de que só se pode amar assim, com o velcro virado para fora.

Qual é a saída desse labirinto? Nenhuma para quem não quer sair e curte ficar dando de cara com os becos sem saída. Mas se reconhecer amando do avesso é o primeiro passo para mudar esse estado de coisas. Identificar quem é o objeto do nosso amor pelo avesso e o porquê da impossibilidade do amor pleno, do lado certo da força, é um outro passo à frente. É preciso se mexer para sair do lugar. Botar a cara no sol, mana. Fazendo lobby para os psicólogos, uma boa ajuda de um bom eletricista pode ajudar a consertar a caixa de força da mente. Tem curto-circuito por aí, parceiro. Não adianta tentar derrubar paredes na marra. E quem está a fim mesmo, sabe, sai do labirinto é por cima. Porque a regra da vida não é força. É jeito. É jeito. SF


Não é só por um pirulito

04/04/2015

Eu tenho procurado reduzir um pouco minha presença nas redes sociais. Por várias questões que não vêm ao caso. Meu jejum, no entanto, foi quebrado motivado pelo vídeo que andou circulando sobre o episódio da agressão de um jovem por outro. A agressão repercutiu porque foi filmada por uma jovem que a registrou, em meio a risadas.

Há um velho conselho prático das redes sociais: não leia os comentários. Pois além de ver o vídeo, eu li os comentários. Todos. O vídeo e os comentários me suscitaram algumas questões.

O que primeiro me chama a atenção é a espetacularização do fato. Em nossa era da digitalização da vida, não é suficiente viver os acontecimentos: é preciso torná-lo imagem e distribui-lo ao mundo. Redefiniu-se o próprio conceito de fato: só é fato aquilo que aparece. Mas não bastam as imagens. Elas precisam gerar interação, ranger os sentidos. Impossível não lembrar de Guy Debord e seu “A sociedade do espetáculo”. Debord diz que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social de pessoas, mediadas pela imagem”. Filmar a agressão é dar vazão a esse desejo de ser protagonista das redes, ser parte dos BBBs dos facebooks ou whatsapps da vida. Para isso, suspende-se sem pensar qualquer valor e capacidade de julgamento sobre as consequências. “Danem-se o que isso significa! Isso vai me dar likes” parece ser o lema do sujeito da sociedade digital. Essa necessidade crescente de apresentar/representar a vida via redes tem modificado as relações pessoais e sociais e é objeto de inquietação de muitos pesquisadores, entre eles o sociólogo Zygmunt Bauman. Bauman constata que tudo se tornou líquido e escorre pelos dedos: trabalho, valores, amores e afetos. Vejo recorrentemente isso acontecer naquilo que tenho chamado de “sequestro da singularidade”. A ninguém mais é dado o direito de viver uma experiência sem que alguém sequestre a singularidade do momento, comentando imediatamente que também já fez isso, já esteve no mesmo lugar ou coisa parecida. É a necessidade do protagonismo, em um narcisismo que Gilles Lipovetsky considera fundador de nosso tempo, chamado por ele convincentemente de a “era do vazio”.

Para além da espetacularização, há o fato da agressão em si. O bullying é um problema crônico nas escolas, com consequências sérias tanto para vítimas quanto para agressores. As formas de agressão entre alunos são as mais diversas: empurrões, pontapés, insultos, histórias humilhantes, mentiras para implicar a vítima em situações vexatórias, invenção de apelidos que ferem a dignidade, captação e distribuição de imagens, ameaças e exclusão. No entanto, o universo escolar é reflexo da sociedade mais ampla de que faz parte. O crescente assédio violento tem se dado em todos os setores da vida: no trabalho (assédio moral), nas questões de sexualidade (assédio sexual, homofobia), na família (alienação parental, agressão à mulher), na política (intransigência e ódio político), na relações com as minorias (preconceito) etc. O que temos de fato é a mesma prática. Ela só é renomeada dependendo do cenário. E muitos dos que condenam o bullying escolar praticam abertamente outros tipos de violência simbólica. O mais grave: sequer se dão conta disso. Nos comentários sobre o vídeo, não foram poucos o que juraram o garoto agressor de uma boa surra. A diferença constitui nossa sociedade e nosso maior desafio neste início de século é encontrar um modo de viver com a diferença que amplie a qualidade de vida de todos. Penso que a cada um de nós cabe combater a assimetria de poderes mal distribuídos, assimetria essa que leva às práticas abusivas. E a responsabilidade não é só do Estado – também é em parte, com as políticas regulatórias e aqui vai uma vaia imensa à redução da maioridade penal. Mas o Estado também somos nós nas nossas práticas cotidianas. É como diz o filósofo José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.

Um terceiro ponto que me tocou nesse episódio é a atribuição de responsabilidade pelo fato da agressão ter acontecido. Uns dizem que a culpa é da escola. Por ser de uma escola particular entre as mais caras de Manaus, o menino seria mimado e dono do mundo, sem disciplina. Há de se ter cuidado. É uma generalização apressada. Li em algumas opiniões um indisfarçável ranço de classe, a despeito do fato de que a disparidade econômica, muitas vezes, coloca alguns sujeitos em uma cega posição que transforma sua superioridade econômica em pretensa superioridade social de fato. Mas de novo, isso é reflexo do tecido social. Quantos juízes, médicos e outras profissões mais valorizadas na sociedade não mimetizam esse comportamento de casta superior? E novamente essa é uma generalização apressada que faço e que precisa de todos os aviso da existência de exceções. Penso que a questão não está na escola em si, a despeito da crítica que possamos ter à sua linha pedagógica. O buraco é mais embaixo: a questão é a divisão social do trabalho valorada pela performatividade, um problema do próprio sistema capitalista. Jean-François Lyotard, em “A condição pós-moderna”, já falava sobre isso. Em 1977. Leiam. Não cabe aqui. Culpar a escola é cair num reducionismo pueril, a meu ver.

Muita gente atribuiu a responsabilidade à escola pelo fato de os jovens estarem uniformizados. Quanto a isso, à escola cabe lidar com a questão em função de suas regras, afinal, uniformizados, os alunos são a escola. Assim como é necessário posicionamento da escola de língua em cujas dependências aconteceu a agressão. Silenciar é a pior das opções. Chamem os RPs para lidar com a crise de imagem que esses alunos geraram. E que eles sejam responsabilizados por seus atos, sim. Atos têm consequências. Qualquer um. Até a omissão.

Um parêntese. Uma nota sobre a escola e seu papel. Com a própria dinâmica social, a escola recebeu papéis que não eram seus. A função fundamental da escola é a escolarização. Escolarização é apenas um dos componentes da educação, que é bem mais ampla e complexa, composta por várias variáveis. Ao se equalizar escolarização com educação atribui-se um papel messiânico e salvador que a escola não tem e se atribui aos professores tarefas que não lhes cabem, entre elas a de preencher as demandas afetivas e valorativas que deveriam ser responsabilidades da família imediata. Essa dinâmica social a que me referi é perversa porque, entre outras coisas, empurra para a escola o papel até de provedora de sobrevivência. Quem vive escola pública sabe o caos que é quando falta merenda. Fecha parêntese.

Por fim, penso que muitos dos comentários que li são tão sintomáticos do estado assustador em que nos encontramos quanto a própria agressão em si. A agressão é triste, sim. E precisa ser comentada e debatida. Precisa gerar deslocamentos. Ela mostra o quanto estamos doentes e temos urgência em repensar as desigualdades em todos os níveis, dando mais atenção às relações humanas. Sem ter a pretensão de negar a sociedade digital – uma impossibilidade, de fato –, urge de vez em quando desconectar o smartphone e olhar as pessoas nos olhos para relativizar a digitalização da vida, com tudo que ela traz de bom e ruim, por meio do exercício da condição humana. Os comentários ao vídeo definitivamente nos escancaram para a constatação de que esse tipo de agressão não se dá só por um pirulito. Há uma tábua cheia de furos sustentando esses e outros pirulitos pelos quais brigamos diariamente. Essa tábua com furos é o tecido de nossa subjetividade, incompleta por constituição. Olhar para a tábua mais do que para o pirulito talvez nos esclareça melhor os cenários, as diferenças, os problemas, as inquietações e, com isso, nossas próprias questões para que possamos encontrar uma existência menos angustiante, depressiva e opressora, com um pouco mais de paz, serenidade e poesia. Estamos precisando. Feliz Páscoa.


A miss e nós

31/01/2015

Saiu o resultado. O cumprimento elegante de praxe à vencedora dado pela segunda colocada. Mas na hora da coroação da miss, a vice-miss perdeu o rebolado, atacou a ganhadora e lhe arrancou a coroa, atirando longe. E saiu triunfante, de punho erguido, sob vaias e aplausos da plateia e das outras candidatas a miss.

Acordei com essa história bombando nas redes. Ao G1, a vice-miss Sheislane Hayalla disse que não aceitou o resultado. Que aquilo era um protesto contra a grana. “Simplesmente, em Manaus, é o dinheiro que manda e eu estou mostrando para o povo amazonense que o dinheiro não manda aqui. Ela não mereceu!”, disse ela, racionalizando seu gesto, um gesto que, como todo gesto, convoca as interpretações. Apesar do caráter inusitado e até pateticamente engraçado do fato, penso que o que Sheislane fez exemplifica e muito o tempo em que vivemos.

Na sociedade da visibilidade, aparecer faz parte da necessidade básica de sobrevivência social. É preciso ocupar espaços. Inconscientemente, brigamos por espaço no trabalho, nas relações grupais, nas relações afetivas. Só que as regras sociais nos impedem de arrancar as coroas alheias quando temos vontade. Pode-se argumentar que sempre foi assim. Sim, sempre foi assim. O que tem mudado radicalmente é o conceito de espaço, que hoje está inegavelmente atrelado à visibilidade mais do que ao espaço físico, como já foi na época das conquistas territoriais. A questão é simbólica. O poder, palavra-chave para compreender meu argumento, passa necessariamente pela construção de um capital imagético que se configura e se sustenta pela circulação nas redes via capital digital. Resumindo: tem de aparecer e tem de circular. Só assim a gente consegue ser hoje na sociedade da informação. Se você digitar seu nome no Google e ele não voltar nada, pode esquecer: você não existe.

Estamos vivendo uma crescente instagramação da vida. No mundo da imagem, da evasão da privacidade, viver o momento vira secundário. O registro do momento é potencialmente mais valioso para a construção do capital imagético e digital. Vide a moça que sofreu o acidente e, em vez de se preocupar em buscar socorro em primeiro lugar, imediatamente postou nas redes a foto de seu rosto todo arrebentado. Fez uma selfie de sua cara estropiada. Há algo mais sintomático do momento em que vivemos?

Mas voltando às misses. O próprio concurso entra em um jogo de imagens arquetípicas. Há a princesa, que ganha a cora, e há a plebeia, seu contrário. A miss, que vai aumentar seu capital imagético, e a vice-miss, que não vai ser nada, num país em que vice e nada são a mesma coisa. As coisas não deram certo para Sheislane. Se tivessem dado certamente a sua crítica ao poder da grana como determinante nessas e em outras questões não teria aparecido. Só veio porque as coisas desandaram. Aí ela, que perdeu o papel de princesa, assumiu o papel de Fora-da-lei, que rompe com as regras que, como sabem os foras-da-lei, foram feita para ser quebradas. O arquétipo do Fora-da-lei é conhecido também como Revolucionário. Esse arquétipo libera as vontades reprimidas da sociedade, daí tanta gente vibrando, gozando com o pau de Sheislane. Quem de nós não queria, como ela, chutar o pau da barraca ou dar com o pau de selfie nas injustiças que conhecemos? A identificação nos faz feliz com seu gesto. Quando a consciência do Fora-da-lei está presente, as pessoas têm uma percepção mais aguda dos limites que a civilização impõe à expressão humana.

Aí a gente se pergunta: será que ela não pensou nas consequências disso? Arrisco a dizer que sim e que não. Que não porque agiu por impulso. Que sim porque, de certa forma, exatamente porque foi por impulso, deu vazão ao inconsciente e à sua avaliação, também determinada pelo discurso da ideologia inconsciente, de que o barraco lhe capitalizaria imageticamente mais do quer ser miss. Não deu outra. Sheislane deve estar adorando os flashes de ser notícia nacional enquanto Carolina Toledo – who? – ficou com essa faixa chinfrim.

Enfim, na guerra da vida, estamos lutando a Batalha da Imagem. Eu tenho de ter mais experiências bacanas, em lugares bacanas, com os melhores vinhos, nas melhores praias, comendo as melhores comidas. Meus filhos têm de ter as melhores festas, o melhor celular, as melhores colocações no ranking escolar. Se alguém posta uma foto de um hotel em Katmandu, tenho de sequestrar a singularidade de sua experiência e postar nos comentários uma minha lá também. Não nos enganemos. Praticamente nada vale se não se tiver um câmera por perto para mostrar para outros, para postar no Instagram, compartilhando ao mesmo tempo no Twitter, Face, Tumblr, Pinterest, Vine, Flickr…

Como toda ação traz uma reação, já vivemos a contracultura da imagem. Gente que resiste ao discurso da visibilidade não tendo perfis em redes, andando com celular peba que nem foto tira, se desligando, no que pode, da ditadura da imagem. Quem não consegue se desligar, evita pôr sua foto no perfil. Usa cachorro, borboleta ou qualquer outra coisa no lugar de sua foto como forma de resistência. Estou nas redes, sim, pero no mucho. Há gente, no entanto, que vira a miss e parte para a briga contra a sociedade da informação, arrancando-lhe a coroa, valorizando o encontro olho no olho e a conversa sem registro a não ser na memória dos interlocutores. E que sai triunfante com seu ato político. No entanto, sem saber – e sem querer – essas pessoas entram de novo no jogo arquetípico: para a sociedade da imagem não passam de meros bobos-da-corte. “Se eu não puder dançar, não quero tomar parte da sua revolução”, diz o bobo. Pergunta dos integrados: “como pode, gente, alguém resistir às redes sociais? Durma segurando um forninho desses”.

Jung à parte, onde é que você se localiza nesse jogo todo, leitor? Faz uma selfie com a coroa, arranca a coroa e joga longe ou nem sabe o que aconteceu porque evita as redes? Ou tudo junto e misturado?

Fato é que é assim. Nem ruim nem bom. É, ponto. Ruim ou bom já é dar valor a partir de onde nos localizamos. É isso que eu tinha para dizer. Deixa agora eu postar logo esse texto no meu blog do WordPress e na minha página no Face para aumentar meu capital digital. Beijo, Leila Lopes!


Melhor lugar

14/12/2014

Melhor lugar

Se fosse por mim/Eu ficava/Mas vê como tudo lá fora mudou/O tempo passou/Feito um louco/Quebrando as vidraças/E a gente ficou/Aqui, sem ter nem pra onde ir/por medo ou preguiça/Aqui, ilhados por nós/Sequer rastreados por nenhum radar/Aqui parecia ser o melhor lugar/Quem disse que a gente precisa/Perder um ao outro pra se encontrar/Se nada nos prende ao passado/Não é o futuro que vai separar/Enfim, encosta seu barco em mim/Que o sol já se pôs/A sós/O mundo termina/Na fina fronteira dos nossos lençóis/Em nós /Espalham-se os laços/Desfazem-se os nós/Sonhamos paisagens/ compramos passagem/E nunca voamos pra lá/Enfim, passeia tua boca em mim/ Até me calar/Aqui ainda parece o melhor lugar.

“O futuro não é mais como era antigamente”. A frase é do filósofo Paul Valéry, mas roda o Brasil na boca de Renato Russo. Dita ou cantada, o que essa frase desperta em nós é a constatação de que as coisas mudam, as mudas viram árvores, os ventos pegam outros caminhos e a vida vem e não pede licença.

Em meio a um turbilhão de acontecimentos dinâmicos, o que buscamos é simplesmente o conforto. Por mais que hoje a vida seja pá, pim, pum, num videogame psicodélico, por mais que mudemos nosso status do WhatsApp todos os dias para dar conta dessa movência e se manter antenados com o espírito desse tempo fugaz, o que queremos mesmo é um lugar para descansar do peso do dia e um bom prato de bons acontecimentos para nos alimentar a fome do cotidiano. No fundo, no fundo, o que se quer de fato é uma pessoa que seja tudo isso: que seja o conforto, que seja o alimento, que seja o amor, que seja o lugar.

Passamos a vida tentando e temos de tentar porque a nossa vocação é ser feliz. Damos cabeçadas e dão cabeçadas na gente. Mas o ser humano, como as araras, são seres de pares. Podem até voar em bandos eventualmente, mas, mesmo em bandos, voam uma do lado da outra, de seu par, de seu duplo. Aí, quando a gente acha… véi, na boa… a vida não tem pra ninguém…

É tão bom ter alguém. É tão bom dividir e, na divisão, multiplicar. Sim, porque a pessoa que a gente acha, nosso melhor lugar, subverte a matemática, inverte a lógica, rasga a sisudez da gramática com sua poesia particular. Entrelaçar dedos e vidas e segurar as mãos literal e metaforicamente potencializam as forças para encarar de frente, com pleonasmo enfático, as chuvas e tempestades da vida. E às vezes o tempo passa, feito um louco, quebrando as vidraças. Depois que passa, a gente constata que a gente ficou aqui, no nosso canto. Molhados talvez. Por causa das turbulências, telhados voam, paredes descascam, portas empenam. Mas a gente vai levando.

Ficamos atônitos com as pancadas vez por outra. Mas ficamos. Segunda pessoa do plural que somos. Depois de nossas tempestades, dá medo, sim. Sim, dá medo. Às vezes, olhando no chão da vida os cacos das coisas que se quebram, dá preguiça de juntar, sim. Sim, dá preguiça. Nesse espaço de tempo em hiato, ficamos ilhados por nós mesmos. Mas seguimos. Seguimos porque só gosta da gente quem insiste em ficar em nossas vidas.

Quem não é nós não entende muita coisa. Não entende o nosso tempo, não entende as nossas manias, não entende os nossos olhares, não compreende os nossos sentidos, tão nossos. Códigos tecidos pela vida construída a cada segundo, desde aquela primeira palavra trocada que nos conectou com a magia que a linguagem asperge sobre os enamorados. Voamos em nossa frequência particular longe dos radares curiosos do mundo. Ah, o mundo que gosta de interferir em tudo, ligando seu celular em pleno voo.

Sem radares, a gente se acha, a gente se encontra sempre. E se acha porque nunca se perdeu um do outro. Brigas, tristezas eventuais, decepções por pisadas de bola? Quem nunca? São essas tempestades que nos fazem reforçar as paredes do afeto. Para quem ama, reconstruir é sempre a primeira opção. O passado é algo abstrato demais já, perdido lá atrás. Não temos como mexer nele. São registros de um tempo bom ou ruim que, como se estivem num museu, servem apenas para ser observados, mas nunca tocados. O futuro é algo abstrato demais, que não existe ainda. Como o passado, o futuro não pode ser mais importante do que o presente. É no presente que se vive. É no minuto que a vida acontece. E precisa acontecer de forma potente. Porque chega o fim da tarde, chega o pôr do sol e se ouve o Bolero de Ravel.

Enfim, é preciso encostar o nosso barco no píer do amor que se tem. O sol já se pôs. Voltar para a casa, esquecer do mundo porque o mundo termina na fina fronteira dos lençóis da nossa cama, do nosso espaço tão nosso. Em nós, espalham-se os laços, desfazem-se os nós. É a dois que sonhamos paisagens. É a dois, na cumplicidade, que compramos passagens para lugares que nem existem, a não ser aqui, pra gente. O melhor passeio é o da boca da pessoa em nós, essa pessoa que se encaixa em nossa vida e em nosso corpo, passeio da boca que nos faz calar e do corpo que nos fazer gemer. É olhando para essa pessoa, em silêncio, sorrindo, que a gente pode dizer com a certeza mais que absoluta, como diz a juventude para avaliar: melhor lugar. E é.


Carta a uma menina de 18 anos

20/11/2014

Carta a uma menina de 18 anos

Menina de 18 anos,

Antes de tudo, parabéns pelos 18 anos. Eu sei que é uma data importante porque nossa sociedade simboliza tudo. Um dia alguém decidiu: é 18. Não é 17 nem 20. É 18. Que 18 seja, então.

Sabe, menina de 18 anos, eu um dia já fiz 18. E me lembro de como eu esperava acordar nesse dia e ver todas as portas e janelas do mundo abertas, com seus segredos desvendados. Viviam me dizendo que quando eu fizesse 18, eu começaria a entender. Eu esperei. Acordei naquele dia e descobri que ele era diferente dos outros só porque aqueles que gostam de mim fizeram questão de me dizer isso naquele dia. Mas nada de chaves de portas, nada de janelas escancaradas e nada de segredos do mundo. Então, não fique triste se você não viver um pentecostes particular. É assim com todo mundo. ‪#‎tamojunto‬.

Aos 18 a gente tem uma grande vantagem e nisso eu invejo você com aquela invejinha branca de quem se gosta: gás. Nossa! Como agente tem gás aos 18. Gás para experimentar, gás para tentar, gás para transcender. Eu, que já estou aqui nos 40, te digo: o gás diminui. É igual a um balão de gás no dia seguinte: vai perdendo fôlego, vai perdendo altura, vai murchando. Mas não perdemos a vontade de voar. Apenas o corpo não acompanha a cabeça, essa, sim, cada vez mais acelerada. Aproveite o seu gás, menina de dezoito anos.

Deixa eu fazer a coisa ficar mais bonita e tascar um latim: tempus fugit, carpe diem. O tempo foge, aproveite o dia. O tempo passa rapidola. Quando se vê já é meio-dia. Aí se pisca e já é meia-noite. Saiba aproveitar o tempo entre piscadas. Aproveite tudo, com fome, com vontade, com tudo. Não. Com tudo, não. Com 99% de ganas. Guarde 1% como garantia de sanidade, como escape. Porque tem gente boa nesse mundo. Mas tem gente má. Gente que vai te machucar de graça e aí você vai precisar desse um por cento reparador.

Menina de 18 anos, este texto já está ficando grande. Meninas de 18 não curtem textos longos. Então eu vou parar. Uma nota final: o melhor tempo é o que a gente está vivendo. Cada idade tem os seus humores, os seus gostos e os seus prazeres. Tempo: nele a gente sempre acha as razões do que veio antes e a gente não soube explicar então. Há sempre um tempo de explicações. Não apresse o rio porque ele corre sozinho. Meu recado para você daqui da frente na linha do tempo: tenha sonhos e serenidade. Porque é como diz o poeta: cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz. Ninguém, menina de 18 anos, tem o direito de ser infeliz. Seja feliz. Carinho e uma boa vida. SF


A falta que nos faz

12/10/2014

O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?


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