Blackbird: da delicadeza das relações

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Eu sempre amei música. Até hoje a música tem um espaço fundamental no tecido da minha vida afetiva. É uma linha essencial no meu linho. Eu conto minha vida pelas músicas que canto. Ouço uma música e sei exatamente a época em que tocava porque ela me tocou à época em que era tocada. Pequenos filmetes desfilam em minha mente quando são as canções que nos põem para tocar.

Quando eu tinha meus quinze, dezesseis anos, todo sábado à tarde eu transformava o meu quarto em meu templo. Minha oração, ligação com o transcendental, brotava do som que eu ouvia dos discos-bolacha que eu punha para escutar no meu três-em-um Gradiente. Quando a agulha descia sobre a faixa escolhida e começava o seu chiado, eu fechava os olhos e entrava em contato com dimensões cuja existência só viria a descobrir mais de trinta anos depois, lendo os livros de Patrick Drouot.

Queen, The Mammas and the Pappas, Pink Floyd, mas, sobretudo, Beatles. O piano de Let it Be, o crescendo alucinante de A Day in the Life, a declaração de amor crua, direta e visceral em  I Want You (She´s so Heavy) e o desespero de apaixonado e enfeitiçado por algo nela, bailando ao som do solo da guitarra de George Harrison em Something. Cada canção dos Beatles é uma história, um sentimento, uma sensação. É vida. Eu era um menino magrelo, desengonçado, ignorado pelas mulheres,  mais interessadas nos Menudos, nos garotões sarados, tatuados e bonitos da escola, que sabiam dançar. Ou nos caras que dirigiam um Escort XR-3.  O ignorado aqui, let it be, escrevia boa parte de sua existência, recluso no seu universo particular, pelas músicas de Lennon e McCartney. Eu era um estranho no mundo dos afetos. Só tinha a oferecer uns textos mal escritos e nada mais. No entanto, eu era um estranho que, orgulhoso, tinha todos os discos do Fab4. E eu ouvia todos os discos. E eu sabia, como sei até hoje, todas as letras e suas histórias. Eu era o fã que lia os livros biográficos dos caras. Minha parede do quarto tinha um quadro com a foto do John. Eu acordava e dormia olhando aquele sujeito que me ensinou que, puta merda, pelo amor vale tudo. Até deixar os Beatles.

No meu mundinho fechado, mas incrível, eu aprendi a ler as pessoas pelas músicas. Eu compreendi que tudo tem significado; eu entendi que significado é história e, por ser história, todo sentido é dinâmico e pode mudar. Dei-me conta de que são os significados que damos ao mundo que regem nossa existência. Todo esse aprendizado lá de trás, vejam que coisa!, me levou a estudar linguagem, discurso e me trouxe ao encontro da psicologia no ocaso da vida. Estava escrito? Maktub mesmo? Whatever…

Voltando ao meu quarto em 1983, eu me vejo ouvindo a guitarra seca de Blackbird. Paul McCartney fez essa música pensando nos conflitos raciais no Alabama e no Mississipi em 1968, ano em que nasci. “Bird” é uma gíria britânica para “girl”. Blackbird faz referência às mulheres negras que sofriam o que sofriam então. É uma música política. Sempre adorei Blackbird. É o tipo de música que fica excelente em qualquer versão. Mas, como sempre dei meus sentidos às músicas, em um exercício muito particular, com Blackbird não foi diferente.

Blackbird singing in the dead of night/Take these broken wings and learn to fly/All your life you were only waiting for this moment to arise/Blackbird singing in the dead of night/ Take these sunken eyes and learn to see/All your life you were only waiting for this moment to be free/Blackbird fly, blackbird fly/Into the light of the dark black night.

Para mim, essa canção fala de vida afetiva, de história, do que a psicanálise lacaniana chama de Real. Quem de nós nunca foi um pássaro que cantou na solidão da noite? Quem de nós nunca viveu o inferno de uma relação em que se apostou a vida e que falhou? Sim, porque a vida vem e não pede licença. Às vezes atropela. Quebra as asas. Pela vocação da felicidade, as pessoas de repente pegam essas asas quebradas e se lançam, ainda que relutantes, a reaprender a voar. Só esperam, arredias, o momento se oferecer. Há um momento certo para amar? Enfim, aguardam a hora em que a luz reparadora entra pela fresta da ferida, pelo rasgo da existência.

Pássaros cantando na solidão da noite – quem nunca? Quantas vezes nos vimos tomando os olhos encovados pelas olheiras e tivemos de reaprender a olhar o que a vida borrou e transformou em experiência de dor? Rever o borrado pela dor dá um trabalho filho da puta. Corre sangue até. Mas sempre chega o momento de se libertar do que acorrentou, do que passou e fez mal. Que metáfora linda para se falar da necessidade de se continuar vivendo depois que a vida aprontou, bateu, derrubou! É a função da arte, não é? Beatles, não é? Todos, absolutamente, todos somos blackbirds, enfim. Enfim.

Daí o título deste texto. Blackbird sempre me faz pensar na delicadeza das relações, sabe? Entende? Toda relação é especial. Toda relação merece ser tratada como tal. Na minha cabeça, relação afetiva só existe no todo, corpo e alma. Foi essa a dinâmica que me trouxe até aqui nesses 50 anos. É geracional. É claro que, dã, eu não vivo no século 16 para achar que não há pessoas que veem no sexo sem conexão afetiva uma opção legítima. Ok. Mas não eu. Legitimamente também, isso me é pouco. Por isso que sempre fui buscar a alma quando foi necessário, feito Robin Williams, que vai no inferno em “Amor além da vida”.

Agora, ninguém pode esquecer que se somos, o outro também é um blackbird. A ninguém, que diz amar, é dada a opção de ignorar que o outro quebrou suas asas no caminho, que sentiu dores, que tem sua história. A ninguém é garantido o direito do descuido de ignorar que se há olheiras é porque houve noites insones. Se há amor, se há carinho, há de haver cuidado. Querer bem passa pelo momento, inclusive, de se afastar quando o outro precisa respirar. A cena é linda: tomar delicadamente nas mãos o pássaro frágil que é alma alheia e abrir as mãos para deixar o pássaro reaprender a voar depois do cuidado. Ninguém ama o outro a não ser o tendo em liberdade plena. Às vezes, blackbird, é preciso voar para ficar. Às vezes é preciso compreender que ficar vendo as rodas passarem é uma opção legítima.

Toda relação é delicada. Delicada não só no sentido de merecer cuidado, mas também no sentido de ser cuidadosamente bonita. Cuidado. A gente precisa cuidar do outro. A gente precisa entender que todo encontro afetivo é um encontro de histórias. Qual é a sua asa quebrada? Como quebrou? A minha é essa e foi assim, sabe? Por que das suas olheiras profundas? O que as causou? As minhas vêm do meu choro e meu choro vem daqui, ó, deixa eu te contar, eu quero que você saiba. Amar é mais do que saber só as coisas boas. Arriscaria dizer que ama mesmo quem conhece os porquês das cicatrizes do outro e os acolhe no processo de (re)construção afetiva como elemento que dá liga à intimidade. Amar é, sobretudo, saber escutar. É conversar. É deixar claro. É não surpreender negativamente.

É. A terceira faixa do lado A de “A hard day´s night” é If I Fell. Há um pedido tão delicado de cuidado em If I Fell. Enquanto escrevia só me veio à mente sua melodia.

If I fell in love with you/Would you promise to be true/And help me understand/’Cause I’ve been in love before/And I found that love was more/Than just holding hands./If I give my heart to you/I must be sure from the very start that you would love me more than her/ If I trust in you, oh please, don’t run and hide/If I love you too, oh please/Don’t hurt my pride like her/ ‘Cause I couldn’t stand the pain/And I would be sad if our new love was in vain…

Amar é, definitivamente, muito mais do que andar de mãos dadas. Amar é voar em par. Às vezes no escuro. Às vezes à noite. Às vezes com as asas quebradas, blackbird. Com as asas quebradas.

Não tenho mais meu o quarto com o quadro de John. Não tenho mais os LPs. Mas ainda posso ver as rodas passarem. Ainda tenho os Beatles. Vou ouvir Beatles.

Protegido: Quatro tons de Branco

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A escolha de Sofia

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screen-shot-2017-01-29-at-11-04-37-amO filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

Cacos da vida

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Cacos

Final do ano é tempo de balanço. Estamos nós a pesar as coisas para lá e para cá para checar se na balança da vida o ano foi mais para lembrar ou mais para esquecer. O conjunto das boas coisas que vieram é posto lado a lado com o conjunto das coisas que gostaríamos de esquecer. Aí vem o veredito: terminamos o ano felizes, soltando os fogos de artifícios da vida junto com os da virada, ou terminamos o ano tristes, desejando ardentemente que o que chega chegue logo e traga com ele os ventos haraganos.

Se você está feliz, leitor querido, que bom! Que essa felicidade se multiplique no ano vindouro. Mas eu queria falar mesmo com você, que anda triste. Foi para você que eu escrevi este texto.

Você sabe por que a gente fica triste? Porque a gente começa a viver uma vida que, de alguma forma, começa a ficar cheia de coisas que carecem de sentido. A vida tem de ter sentido. As minhas leituras na psicologia têm me ajudado a compreender isso. Deixa eu compartilhar um pouco do que já aprendi.

As tristezas são tributárias ao tempo. Na época de Freud, as neuroses eram causadas por questões de sexualidade, bastante reprimida na Europa pós-vitoriana. Um outro psicanalista, Alfred Adler, que trabalhou com Freud, achava que o pai da psicanálise superestimava a questão sexual. Aí ele propôs uma teoria dizendo que o meio social e a preocupação contínua do indivíduo em alcançar objetivos preestabelecidos eram os determinantes do comportamento humano. Isso incluía a sede de poder e a notoriedade. Quando essa busca falhava, eram gerados complexos de inferioridade, transformando a incapacidade numa dinâmica patológica, numa tristeza. A neurose não era mais por causa do sexo reprimido, mas por causa da inferioridade de uma expectativa social frustrada.

O tempo foi passando, o mundo foi mudando. Para enfrentar as demandas do mundo contemporâneo, a pessoa precisa se ancorar em algo. Até um tempo atrás, esse algo costumava ser a tradição. Se não soubéssemos o que fazer, bastava olhar para o que a tradição determinava para nós, nos encaixarmos nesse sistema como uma engrenagem e seguir a vida até morrer. A vida normalizada também gerava neuroses, mas o encaixe social e o conforto sobre o que fazer aliviavam os conflitos. E o mundo mudou de novo.

Vivemos em uma época pós-moderna em que as tradições têm se esfarelado. Antes os homens trabalhavam fora, as mulheres cuidavam da cria e tudo que fugia ao script não podia vir à luz. Hoje todas as possibilidades caminham na praça em plena luz do sol. Tudo saiu do armário e as possibilidades ganharam vida plena. Mulheres conquistaram seu espaço, a sexualidade explodiu para todos os lados, aquela tradição confortadora virou apenas uma dentre centenas de outras possibilidades vivas. O que nos resta fazer, então, sem a tradição para nos agasalhar e nos dar conforto?

Logicamente, nos restam alguns caminhos. Ou fazemos o que os outros querem que nós façamos – e aí eu caímos num conformismo – ou fazemos o que os outros nos mandam fazer – aí caímos num totalitarismo. Seja um ou outro, vamos acabar fazendo aquilo que não nos interessa, vivendo uma vida que não é nossa, e isso vai esvair o sentido do que fazemos, levando à tristeza e ao adoecimento psíquico. Resta, no entanto, um terceiro caminho, que me parece o mais interessante: fazermos o que queremos e, ao fazer o que queremos, preencher a vida de sentido.

“Ain, mas nem sempre dá para fazer o que a gente quer!” Verdade, nem sempre. Mas o “nem sempre” tem de virar um “quase sempre”. Quase sempre temos de fazer o que nos causa alegria, prazer, paz. O resto inevitável deve ser preenchido com a chatice inerente à vida, com os sapos engolidos no trabalho, com a aula porre daquele professor medíocre na faculdade que somos obrigado a assistir, com uma ou outra situação que temos de encarar e que, de fato, foge da nossa escolha. Resumindo: se não houver mais alegria e prazer do que tristeza e desprazer, a vida está errada, parceiro. Aí é preciso reagir e sair do conformismo ou do totalitarismo. Senão nós vamos adoecer, vamos ficar tristes, infelizes, deprimidos. vamos viver sem sentido.

Qual é o sentido? É essa a pergunta que temos de nos fazer todos os dias. Qual é o sentido de continuar em uma relação afetiva que nos machuca, que nos oprime, que não nos dá alegria? Qual é o sentido de continuar trabalhando em um lugar que nos adoece só de pensar, quando acordamos, que temos de ir para lá? Qual é o sentido de insistir em coisas que acabaram e que, mesmo que voltassem, não seriam a mesma coisa? Qual é o sentido de preencher nosso tempo atrapalhando a vida dos outros em vez de cuidar com carinho da nossa própria, rota e maltrapilha psiquicamente? Qual é o sentido de movermos mundo e fundos para ter o melhor carro, o iPhone mais fuderoso, a festa mais cara de aniversário para o nosso filho só para ganhar o like da sociedade que valoriza a aparência? Black Mirror, temporada 3, episódio 1: “Queda Livre”. Vá lá assistir e depois a gente conversa.

Vida sem sentido bom é vida triste, mambembe. Você que está terminado o ano triste e que me leu até aqui: qual é o sentido de continuar alimentando essa tristeza ou essa situação que lhe causa a dor? Mova-se, mexa-se, não dê moral para a melancolia. Feche ciclos que se arrastam. Corte relações com quem faz mal. Se não der conta sozinho, procure um psicólogo para ajudar a virar a mesa, a virar o jogo, a virar do avesso. Porque a vocação do ser humano é a felicidade. De cada um. Porque cada um é único, com sua história, suas glórias, seus segredos, suas batalhas perdidas. Com a dor e com a delícia de ser quem se é. Faça a sua história valer a pena. É preciso se mexer e se movimentar. A vida se ajeita quando a poeira do movimento baixa. E segue porque tem de seguir. Se uma parte de nós caiu e quebrou, é preciso juntar os cacos para ir adiante.

Na década de 40, a cidade de São Paulo tinha duas indústrias de cerâmicas. As peças que quebravam eram jogadas fora. Um operário de uma delas, sem dinheiro para construir sua casa, pediu para ficar com os pedaços das cerâmicas quebradas. A fábrica consentiu. Ele então fez o pátio da sua casa com os cacos. Mas como não tinha sempre cacos da mesma cor, misturava uns amarelos e pretos aos mais comuns, vermelhos. Logo, a moda se espalhou e pátios feitos de cacos de cerâmica viraram a coqueluche da classe média paulistana, em uma época em que a coqueluche ainda era uma doença endêmica e a expressão faz mais sentido. Muitas casas em Sampa até hoje possuem pátios lindos feitos de cacos coloridos.

A vida feliz é um pátio bonito feito com nossos cacos quebrados. De todas as cores. Na sua maioria composto dos vermelhos felizes, mesmo que pontuado aqui e ali de alguns cacos de outras cores e outros tons. A vida é feita múltiplas cores. O importante é a arte que se tece e o resultado final dos cacos juntados: a felicidade. Que seu balanço lhe traga os ventos haraganos ao rosto. Seja feliz, leitor. Seja feliz, leitora. É o desejo sincero de alguém que juntou muitos cacos nesse 2016 e que tem fé na vida, fé no homem e fé no que virá em 2017. Faz sentido?

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

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Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

Meu pai morreu há três meses. Foi o mais próximo que a morte chegou de mim. Antes disso, ela tinha me visitado quando levou minha vó, há 15 anos. Um hiato que me fez esquecer da morte por um bom tempo, ocupado que estive em viver as coisas da vida.

Procurei entender a morte do meu pai. Eu li tudo que pude sobre perda, separação, angústia, luto. Li sobre a dor do amor. Livros, artigos, assisti a vídeos e filmes. Tentei buscar um sentido para a morte do meu velho, como recomenda o psicólogo judeu Vicktor Frankl. Ele sobreviveu à barbárie de Auschwitz dando sentido à experiência trágica. Frankl dizia a si mesmo que precisava explicar ao mundo a psicologia de um campo de concentração e isso o manteve vivo. Só de Frankl, eu li três livros.

Descobri nas minhas leituras que o luto normal demora pelo menos um ano. Tempo do primeiro tudo sem a pessoa: primeiro dia sem, primeiro mês sem, primeiro dia dos pais sem, primeiro aniversário seu sem, primeiro aniversário dele sem, primeiro Natal sem, primeiro ano sem, primeira falta de colo. A morte do meu pai me trouxe mais pesadamente a consciência da finitude. Mas me trouxe muito mais do que isso: trouxe uma maior clareza sobre minha própria existência.

Ter consciência sobre si mesmo é um dom que desenvolvemos com a idade. Podemos potencializar e acelerar esse dom por meio de eventos pontuais de dor. Aprendemos a ter consciência do que vale e não vale a pena investir, de quem vale e de quem não vale gostar. Fica clara a consciência de que a vida precisa ter qualidade. Abandonamos sem dó aquilo e aqueles que nos fazem mal. No entanto, esse ter consciência sobre si traz no pacote a ferida da mortalidade. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns) e vamos morrer. Simples assim. E complexo assim. Porque precisamos decidir o que é, afinal, a morte para nós e isso vai fazer diferença em como a gente vai viver.

As pessoas lidam com a morte de formas diferentes. Há graus de angústia da morte. Pensar nela geralmente nos paralisa porque é a única certeza que temos sobre o futuro. Como não podemos ficar paralisados, senão vira algo patológico, desenvolvemos formas de elaborar essa angústia do inevitável. Há quem não pense na morte, um grau zero que se toca com o grau cem: o medo é tanto que se evita falar sobre. Há quem desafie o medo da finitude buscando construir uma obra na terra que lhe perpetue, ou por meio dos filhos ou por meio de algo notável. Há quem busque na religião o exílio, a explicação e o conforto contra a ideia de que a morte seja o fim definitivo. Enfim, fato é que a angústia de morrer se faz presente de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, como pensamento casual ou ideia que persegue cotidianamente. A morte é pauta inevitável da vida.

A angústia de morrer vai e vem durante nossa existência. As crianças são introduzidas à morte pelos bichinhos de estimação que se vão, pelas folhas secas caídas que encontram ao pé das árvores, pelos avós que desaparecem de repente. Quando contei às minhas filhas Clara (dez anos) e Marina (nove) sobre a morte do avô, as reações foram diferentes. Marina chorou demais, trocou de mal com Deus por lhe levar o avô. Clara se manteve em silêncio. Marina vez por outra me vem dizer que está com saudade do avô e chora. Clara, não. No entanto, pegando sua agenda escolar para verificar o que tinha de tarefa, vi escrito no calendário, no dia 1o de setembro, com sua letrinha redonda, “Vô, três meses. Saudade. :.(“. Meu pai morreu no dia 1o de julho. As crianças, como todo mundo, também têm formas singulares de elaborar a perda de quem amam.

Os adolescentes, em geral, desafiam a morte. Nesse período a angústia explode com força. Arriscam-se em atividades radicais, saltam de paraquedas, fazem rachas. Adoram ícones da morte, como Hitler. Lançam a catexia fortemente em jogos como Grand Theft Auto, em que a morte é banalizada. Alguns chegam mesmo a considerar o suicídio. Este é o recado: “Dona morte, não tenho medo de você. Não me venha com close errado”. Assim se cruza o tempo da juventude. A vida segue e viramos adultos.

Como adultos, as preocupações mudam. Vem a carreira profissional para cuidar. Vem a família para zelar. Deixamos a morte de lado porque a roda-vida exige demais e quase não deixa tempo para pensar nisso. Só que, de repente, duas coisas acontecem: a meia-idade e sua crise e a morte recorrente de pessoas da geração anterior. Parentes, tios, pais de amigos, os próprios amigos mais velhos, nossos pais. Eles começam a ir. À medida que eles vão, a meia-idade vem. Esse encontro inevitavelmente faz da morte uma presença constante nessa parte da vida que é, fato, a parte descendente da existência. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns). O próximo passo é morrermos. Como lidar com essa certeza, que é a certeza derradeira da vida?

As pessoas lidam com a morte à espreita de várias formas. Por causa de sua história pessoal, de sua singularidade, umas buscam auxílio na família e nos amigos. Outras se aproximam da espiritualidade como forma inconsciente de buscar um seguro para o depois da morte. Alguns, mais cientes de sua fragilidade humana, vão à terapia. Outros, ainda, escrevem textos sobre a morte para lidar com a morte que se apresenta.

Meu pai morreu há três meses. Meu velho me deu um grande presente no fim da vida. Ele me fez redefinir minha relação com a morte. Eu tinha medo da morte. Hoje não tenho medo. Meu medo foi ressignificado. Hoje eu vejo a morte como algo que faz parte da vida, algo sobre o que você pode partilhar com outras pessoas, sem razão para ter medo ou vergonha de fazê-lo. Hoje eu converso sobre a morte, coisa que evitava fazer. Redimensionei a importância do velório como prática social. A presença em velórios tem uma função afetiva fundamental. São partículas de afeto que se juntam numa constelação de carinho e que ajudam a sustentar o corte abrupto do afeto roubado pela morte. Estar lá é dizer: eu me importo. E isso faz uma diferença imensa para quem está machucado.

Hoje a morte tem uma forma bem diferente para mim. Ela não é mais aquela morte de roupa preta com a foice na mão. Ela é bem distinta daquela morte dos nossos encontros cotidianos, em que a vemos como algo violento, assustador e tabu. Há outras mortes além daquela que a mídia nos entrega diariamente. Descobrir isso é libertador.

A lição que resume tudo isso é que o confronto com a morte não precisa ser um desespero. A morte sempre convoca um renascimento obrigatório de nós mesmos. Renascer é um sentido bom que podemos dar à morte porque pensar na morte requer pensar na vida. No fundo, eu acho que não seja da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca ter vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos porque nunca conseguimos descobrir o que é a vida de fato. Mas sempre é tempo. Cuide de seus canteiros, “antes que chegue a morte ou coisa parecida e nos arraste moço sem ter visto a vida”. Cecília.

Em “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens nos fala da morte. “Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho. Meu coração é tocado por lembranças que estavam há muito tempo adormecidas”. É isso. A morte é o nosso reencontro com um começo de que já não nos lembramos mais. Afinal, existirmos: a que será que se destina?

A morte é a noite da vida. É um laço que caça a infinitude. É o anzol que volta, sem falha, para fisgar a existência que se pensava eterna. É pau. É a pedra de Drummond. Mas definitivamente não é o fim do caminho.

Mãe, matéria e memória

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Em 1896, o filósofo Henri Bergson publicou um livro chamado “Matéria e Memória”. No ensaio, Bergson discute a relação corpo-espírito. Ele diz que essa relação é mediada pela memória, que considera algo profundamente espiritual.
Afirma o filósofo francês que existem dois tipos de memória a nos constituir: a memória-hábito e memória-lembrança. A memória-hábito replica o passado e o repete. Não é reconhecida como passado. É automática. Está inscrita no corpo por práticas cotidianas e tem fim utilitário. Como se portar à mesa, por exemplo, é uma memória-hábito. A memória-lembrança ou memória pura, por outro lado, regista o passado sob a forma “lembrança-imagem”. Representa o passado e o passado é reconhecido como passado. É da ordem contemplativa e teórica, gratuita e profundamente espiritual. É a verdadeira memória.
Trago a obra de Bergson para falar das mães. Mães são memórias puras. Mães são memórias-lembranças. Mães são pontes entre os nossos corpos – desde o empréstimo do seu – e os nossos espíritos. É lembrando das mães que o passado se presentifica e o presente se passadifica. Porque as mães estão atravessadas na nossa existência, no nosso corpo e na nossa alma.
Por ser o liame, a ligação entre o corpo e a alma, a mãe tem um lugar fundamental na constituição daquilo que somos. Não é à toa que a teoria da Psicanálise guarda um lugar crucial para a figura materna na construção do eu. A importância da mãe – por sua presença ou sua falta – na elaboração de nossa estrutura egóica é quase um dogma nas diversas teorias do desenvolvimento. Por isso que quando há excesso de mãe ou vazio de mãe a gente desequilibra e corre para a terapia. Ou deveria. Reflexões teóricas.
Filosofias e teorias à parte, mãe é mãe. Há mãe que é mãe. Há pai que é mãe. Há vó que é mãe. Há vô que é mãe. Porque mãe não é gênero, mas um lugar simbólico. Uma identidade pressuposta que primeiro acolhe, depois cuida, depois aninha, depois pede cuidado e, por fim, cumprindo o ciclo da vida, se vai.
A memória-lembrança da mãe começa no acolhimento. Não há lugar melhor no mundo do que aquelas quarenta semanas na barriga da mãe. Assim como mãe é um lugar simbólico que pode ser ocupado por pais, tios, avós etc, a barriga da mãe não precisa necessariamente ser a barriga da mãe biológica. A barriga da mãe às vezes está fora do corpo físico. O acolhimento começa na tomada nos braços de um filho concebido por outras pessoas como se seu biologicamente o fosse. “Adotar” vem do latim “adoptare”, ad+optare, ou seja, optar por ficar junto. É uma escolha consciente de querer ficar junto daquele bebê que, em princípio, não era parte sua. Adotar é encarnar nas suas uma carne externa. A mãe se faz encarnada e, ao se fazer, pare o filho que não gerou. Por pura opção. Isso é tão forte e tão lindo. Digno de mães.
Se pouco nos fica de memória-lembrança do acolhimento, seja biológico ou encarnado, muito nos toca as memórias o tempo do cuidado. É aqui que o espírito dança terno ao lembrar da mãe acarinhando nosso rosto, cantando para a gente dormir. É esse o tempo de construir nosso playlist particular da novela de nossa vida. A minha mãe nos fazia dormir no embalo da rede da casa sem forro cantando “Pica-pau atrevido que do pau fez um tambor” ou “Alecrim dourado”. Talvez essas escolhas tenham a ver com o atrevimento da minha irmã mais velha ou com a certeza que nós lá de casa temos de que sempre, em qualquer lugar, pode ser tempo de alecrim com seu cheiro bom, com sua doçura levadas pelas abelhas para fazer o doce mel dourado. Sem dúvida que nessas escolhas, nesses cuidados, as marcas da memória-lembrança são cravadas no corpo.
O tempo vai passando. A gente vai crescendo. Vem o tempo de ir cuidar da vida. Mães e filhos vivem um luto duplo, o luto necessário para que nos façamos gente. A mãe deixa de tomar conta e de decidir pelos filhos. Saímos de casa e passamos a ser responsáveis por nós e logo por outros. Tempos agridoces, de fato. Amargos porque saímos de perto daquela que nos cuidava – e é preciso dizer aqui que as mães têm formas diferentes de cuidar, umas muito estranhas até. E doces porque, afinal, a vida para a qual ela nos preparou com mantos de carinho e proteção precisa ser vivida. Hora do vamos ver, da real. Vamos para nosso canto. Compramos nossa lata de leite condensado para chupar livres. Mas sempre “lá em casa” vai ser a casa da mãe. Sempre o bife de fígado – coloque aqui a comida que ela fazia porque você gostava – vai ter um sabor único. O feijão da minha vó põe na boca da minha mãe até hoje um gosto de amor inigualável. O feijão da minha vó é o meu bife de fígado ou o seu não-sei-o-quê delicioso. Comida de mãe é memória viva. De lembrar enquanto escrevo eu salivo. Ao salivar, eu me vejo moleque comendo meu bife de fígado, sentado na mesa grande da cozinha da casa 20, uma mesa coberta com uma toalha de plástico branca com desenhos de legumes. E vejo minha mãe sentada na cadeira de macarrão, se embalando. Meu corpo respondendo ao meu espírito. Bergson estava certo.
Casa de mãe, melhor ninho. Colo de mãe, melhor lugar. Quarenta e sete anos no lombo e ainda corro vez por outra para deitar no colo da minha mãe. Meu conforto, minha paz. Ouvi-la dizer “Meu filho, vai dar tudo certo” na hora em que nada parece dar certo tem um poder pentecostal. Fecho os olhos, sinto o seu coração bater, volto ao seu ventre. Aconchego. É difícil quem está longe da mãe, geográfica ou afetivamente, e não tem esse lugar de reparação da alma. É complicado quem mora longe da mãe, às vezes habitando na quadra ao lado, e perde a chance de se reabastecer de gás carinhoso maternal para a vida. É doloroso quem já não a tem mais por perto. Porque mães envelhecem. E um dia se vão.
Ando lendo muito sobre a velhice. Talvez por estar me encaminhando para seu edifício. Mas muito por causa de meu pais. Eles envelheceram. E a velhice é um tempo de perda. Perda de trabalho, perda das capacidades, perda de saúde, perda de memória. Para Bergson, a perda da memória é somente desgaste do cérebro. Claro, se o cérebro não funciona a contento, isso acaba atingindo a memória-lembrança, que é o que mantém viva as pessoas. Parêntese: estou terminando de ler “Memória e sociedade: lembrança dos velhos”, da Ecléa Bosi. Que livro lindo! Reconstruir a memória social pela memória pessoal, de velhos que um dia foram jovens e construíram suas histórias. Fecha parêntese. Então, a mãe envelhece. E as coisas mudam de lugar.
É fundamental perceber quando a mãe pede cuidado. Como filhos, ocupamos nós agora o lugar simbólico de acolher, cuidar e aninhar. Somos nós que precisamos fazê-los sentir pertencer a nossas vidas para além da retórica. Somos nós que precisamos cuidar, levar no médico, sair juntos para tomar um café da tarde, fazer supermercado. Tem uma idade em que a mãe precisa de cuidado. Mesmo a contragosto – ninguém gosta de ver seus heróis falhando – as mães começam a falhar. E aí temos de segurar sua mão para atravessar a rua, temos de dar banho, temos de pentear seus cabelos, acarinhar seu rosto, cantar “Alecrim dourado” para ela dormir. É esse o tempo de cantar todo o nosso playlist particular da novela de nossa vida. É esse o tempo de acolher.
Elas se vão. Os corpos delas se vão. Não mais a colher de pau da parede. “Onde os doces da mãe?”, pergunta do poeta Aníbal Beça, chorando a ausência eterna da sua. Onde o cheiro único? Onde o abraço quente? Onde o beijo primeiro? Precisamos – porque é o que temos – aprender a amar nossa mãe de um jeito novo quando ela se vai. Carecemos de aprender a amá-la sem o estímulo de sua presença física. Desamar para reamar. Um reamor. É isso. Mas construir o reamor por perdas não é tarefa fácil. Desamar amor puro dói. Às vezes escorre sangue de tão doloroso. Meu carinho mais sincero para você que está em processo de reamor, que vai para o seu primeiro Dia das Mães sem a sua, com cada propaganda, postagem em rede social, cartaz, tudo, lembrando que ela não está mais ao alcance de um abraço. Pode chorar. Chore em homenagem à sua mãe. Deixa ela saber que ela faz falta.
Matéria, memória, lembranças, mãe. Tanta coisa junta. Se você chegou até aqui e leu o textão – um escândalo em tempos de posts curtos –, eu desejo a você e à sua mãe um Feliz Dia das Mães. Para ti também, mãe Helena. E para a mãe perfeita das minhas filhas, Fabiana. Ah, e aproveitem para resgatar as memórias-lembranças. Aproveitem para dar um abraço e um beijo se ainda a benção divina lhes permite tais coisas. Aproveitem para acolher, cuidar, aninhar. Porque um dia, queridos amigos, isso não vai ser mais possível. Aliás, será sim. De outra forma, talvez.
Dona Alice, uma das velhinhas entrevistadas por Ecléa Bosi para seu livro, diz que uma das coisas de que lembra com afeto é da época de sua primeira comunhão aos treze anos na Igreja de Santo Antonio, na Barra Funda, em São Paulo. Lá ela cantava:
Como minha mãe estarei na santa glória um dia.
Junto à Virgem Maria. No céu triunfarei.
No céu, no céu. Com minha mãe estarei…

O corpo é feito de memória. Bergson estava certo. Mães – de todo tipo – sempre vão para o céu.

 

Feliz Dia das Mães.

Ouro de memória

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Nessa semana eu participei na universidade em que trabalho da cerimônia do chá, promovida pelos professores do curso de Japonês. Como a curiosidade me habita desde que me entendo por gente, fui pesquisar mais para aprender melhor o significado de tudo aquilo. Comecei a ler sobre cultura japonesa. E eis que me deparo com o Kintsugi.
Kintsugi (金継ぎ) significa algo como “junção com ouro”. É um estilo de arte japonês em que peças de cerâmica quebradas são consertadas, mas com todas as suas rachaduras aparentes sendo destacadas e preenchidas com uma liga que envolve pó de ouro. Por trás de uma aparentemente simples técnica de reparo, há uma bonita filosofia de vida, diferente daquela com que estamos acostumados por essas bandas do mundo.
Nessa banda ocidental capitalista, o novo, o inteiro, o perfeito é o parâmetro do bom, o que é valorizado. Buscamos consertar as coisas para que aparentem ser de novo como novas. Ou mesmo substitui-las, se ficar muito complicado resgatar a semelhança. As velhas coisas, consertadas, quanto mais parecidas com o que eram antes de dar defeito, mais perfeitas as consideramos. Essa busca fixada pela perfeição nos leva às ditaduras da beleza, do corpo, das aparências irretocáveis perante os outros. Vivemos a necessidade de instagramizar a vida, mostrando aos outros nossas perfeições de várias formas.
Acontece que a vida vem e não pede licença. Ela é real e de viés. A vida real, em outras palavras, é muito mais foda do que a das redes sociais. A vida acontece e nos transforma e nunca mais somos os mesmos. Daí, temos duas possibilidades lógicas de encarar essa vinda da vida: ou gastamos esforços hercúleos para tentar deixar como novo o que a vida estilhaça ou aprendemos a consertar essas rachaduras na cerâmica de nossa vida com ligas de ouro, preenchendo as rachaduras com o ouro da memória, como sugere o Kintsugi.
Acostumar-se a dar sentidos às rachaduras da vida pode ser uma forma de aprender a sofrer menos. Se deixarmos de vê-las como algo ruim, deixamos também de considerá-las indesejáveis e passamos a entendê-las como partes, pedaços, estilhaços de nós mesmos. Cacos de nossa história. Ao contrário de querer que as coisas voltem a ser como novas, é preciso compreender que parte do nosso legado é aquilo que somos tentados a esconder com mais determinação: as nossas falhas e defeitos. As falhas e defeitos, mais do que problemas, são partes constitutivas de nosso eu, daquilo que resulta da minha interação com o mundo. Estamos em movimento e o movimento deixa marcas. A estética Kintsugi foca exatamente nas questões como a transitoriedade e a impermanência do que na beleza propriamente dita. Aliás, redefine o conceito de beleza como sendo exatamente aquilo que temos de igual, mas também, e principalmente, aquilo que nos faz diferentes dos outros do mundo. Nossa cicatrizes são as lembranças de nossa caminhada e essa caminhada é só nossa e de mais ninguém. Sua unicidade é que nos faz indivíduos no meio de um mundo social porque refletem nossa história.
Cicatrizes são história. As menores, memórias de alguma arte a infância. Eu tenho uma no queixo e outra no pé. As maiores, uma prova de que se é um sobrevivente. Tenho várias no coração. A idade e minhas leituras em discurso e em psicologia têm me feito preencher esses espaços craquelados com o ouro da memória, dando a tudo isso significados que hoje me fazem ser quem eu sou. Eu sou esse inteiro, boca linda, dedos feios, mãos macias, barriguinha de chope, sinalzinho único perto da boca. E tenho uma autoestima de periguete como resultado de me gostar com meus ranços e avanços cada vez mais. Eu me gosto pacas.
Screen Shot 2016-02-06 at 2.02.53 PM.pngNão estou dizendo para fazer o jogo do contente, ignorar desequilíbrios e ir no fluxo da vida sem agência alguma. Longe de mim achar que não se deva buscar equilibrar o que está desequilibrado. O que estou dizendo é que é possível reequilibrar os desbalanços simplesmente mudando os critérios da balança. Não dá para eu ficar lamentando as vezes em que me perdi no caminho. Foi sair da estrada que me fez chegar, de outra forma, até aqui. Tudo isso deve ser visto como meu pote. A parte inteira e a parte rachada. O que pegou, o que pesou, hoje é ouro para mim, remendando meu eu, me dando unidade para ir adiante e me consertando. Mais: me concertando na sinfonia do mundo. Porque a vocação do ser humano é ser feliz, é cantar, é dançar, mesmo que desengonçado como eu. É meu charme. Quais são as suas rachaduras que ainda precisam do seu ouro de memória, querido leitor?
Que tal mexer nisso nesse carnaval, hein? Porque, como diz Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Somos dores e delícias. Nem mais, nem menos. Mas tudo isso. A cultura japonesa é muito bonita.