Tá todo mundo louco?

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Foto: Emanuela Godoy/ Jornalistas Livres


Sou psicólogo e linguista, com formação em Análise de Discurso. Por essa condição sou constantemente perguntado sobre alguma explicação plausível para o comportamento assustador desses grupos de pessoas que hoje acampam na frente de quartéis, sem aceitar o resultado das eleições, com condutas que, de fora, parecem loucura. Penso que podemos buscar explicações a partir de vários vieses. Mas vamos fazer o recorte a partir desses dois lugares a partir dos quais me sinto confortável para falar: psicologia e linguagem.

Como muita gente já apontou, muitos dos comportamentos de grupo que vemos no pessoal com a camisa do Brasil podem ser explicados a partir do que Freud apresenta em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921. Nele, Freud afirma que na massa, o indivíduo tem sua afetividade intensificada, sua capacidade intelectual diminuída e suas inibições instintivas próprias suprimidas. O indivíduo se acha ligado ao líder – e aqui a eleição de Bolsonaro ajudou a organizar essa trupe – e aos outros indivíduos por uma energia libidinal. Para se ligar a outros, diz Freud, é preciso se desligar de si.

Na formação da massa, os indivíduos agem como se fossem homogêneos, pois na massa aparecem restrições ao amor-próprio narcisista. Daí a primeira leitura é a de que essa gente parece que saiu de si. “Ele não era assim…”, “Parecem robôs”, “Agem todos da mesma forma!” são constatações comuns.

Se o comportamento do grupo é muito igual, a adesão ao grupo se dá de forma diferente para cada indivíduo que participa do grupo. Sim, há várias motivações para a adesão. Aqui o inconsciente se cruza com a ideologia. Grosso modo, ou a pessoa é motivada por uma falta – a vida sem sentido, por n motivos, encontra um sentido em um grupo que acolhe – ou, também, a adesão é motivada por questões de classe, naquilo que o bom e velho Marx descreveu bem. Ódio inconsciente e às vezes consciente em relação aos pobres. Daí a existência de um bando de gente abastada de verdade (e outros que se acham ricos), bem de vida financeira (uns muitos com o carro financiado em 60 vezes), que são paupérrimos em saúde psíquica. Esse pessoal engrossa o caldo do grupo e financia a sobrevivência da trupe. Há ainda a mistura das duas coisas, sendo, na verdade, um contínuo combinatório. Diga-se que a classificação aqui é meramente didática. Dizendo de novo: se o comportamento do grupo é homogêneo e robotizado, as motivações para aderir fazem parte de um espectro amplo. Mas depois que adere, há uma homogeneidade nos comportamentos. Por que essa homogeneidade? Porque o grupo precisa se perpetuar.

Quando a pessoa acha num grupo a razão de ser, há um grande investimento psíquico para se manter nele. Aí é preciso negociar crenças, valores, ideias. É preciso aceitar e repetir as ideias hegemônicas do grupo sob o risco de ser expelido e ver ruir todo o investimento psíquico inconsciente. Isso acontece com determinadas religiões mais fundamentalistas. Freud também fala disso em “O futuro de uma ilusão”, de 1927, um dos livros sociais de pai da Psicanálise. E o que acontece quando a pessoa entra no grupo e não pensa exatamente como ele? Dá um tilt, mas é preciso se adaptar. Acontece o que Leon Festinger, professor da New School for Social Research de Nova York, chamou de dissonância cognitiva.

A teoria da dissonância cognitiva sustenta que um indivíduo passa por um conflito no seu processo de tomada de decisão quando pelo menos dois elementos cognitivos não são coerentes. Em outras palavras, quando uma pessoa possui uma opinião ou um comportamento que não condiz com o que pensa de si, das suas opiniões ou comportamentos, ocorre uma dissonância. Aí ela tem de decidir e decide pelo grupo, renunciando a si e às suas crenças, pagando esse preço para não ser expulsa do grupo e desabar na perda de seu investimento. As pessoas saem de si, repetem roboticamente as ideias do grupo porque, agora, é isso que ancora sua subjetividade. De novo, é um comportamento de seita, robotizado.

Tudo isso gera um grupo ideológico por identificação, caracterizado por crenças sociais e políticas específicas, ligadas às ideias de direita ou extrema-direita. Esses grupos partem de verdades retóricas parafraseadas do pátria, família, religião. Mas não respeitam a democracia e têm repulsa à diversidade, são ancoradas num moralismo retórico: cobram os outros, mas sempre tem lá no meio o pedófilo, o comerciante sonegador, o homofóbico, o empresário pilantra, a família que escraviza pessoas, o violento misógino, a senhora perfumada racista e por aí vai. Quando esses elementos moralistas de enunciação são descobertos em suas práticas ruins, as redes não perdoam e gritam: “Não falha um!”. E aí vêm os inexoráveis vídeos de desculpa que, quase sempre, são ridículos porque não passam de teatrinho para dar conta de evitar um cancelamento.

É importante notar também que outros discursos que sustentam as mesmas ideias reforçam a noção de pertencimento. Isso se dá por exemplo, com o grupo de pessoas evangélicas, principalmente neopentecostais. Porque as pessoas fazem parte de vários grupos, que podem relativizar ou recrudescer o discurso do grupo dos amarelinhos.

Muitas razões para entrar, uma forte razão para ficar, pagando o alto preço da alienação de si. O comportamento do grupo vai sendo direcionado para sua sobrevivência, praticando atos, criando e disseminando ideias – e as redes digitais, que não existiam nos tempos de Freud, têm um papel importante nessa disseminação – e criando comportamentos de manada que incluem muita violência, física e simbólica. A gente está vendo isso. Há uma irracionalidade que tem como lastro o bando. Horda primeva.

Esse é o esboço de uma explicação. Como qualquer explicação é bastante generalizante. Mas penso que nos ajuda a tentar compreender o que está acontecendo com gente querida e gente nem tão querida assim.

Qual é a saída? Não sei. Só sei que se Freud estiver certo – e costumo apostar nos palpites dele -, quando esses grupos se dissolverem, a quebra vai ser grande, embora tenham ajudado a adensar um discurso ideológico forte. Mas imagine você apostar todas as suas fichas em algo e esse algo que te sustenta desaparecer? Vai haver uma perda de ancoragem subjetiva imensa para muita gente.

Talvez nós, psicólogos, sejamos bastante demandados por essas pessoas. Ou pelos seus queridos que se importam com elas. Porque acho que elas mesmas vão estar bem mal para ter minimamente força para se erguer sozinhas. A ver. 

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Tá escrito

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Sérgio Freire
31.10.2022

“Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar”

Agora que minha rouquidão passou, já consigo escrever. Como boa parte dos brasileiros que se preocupa com um projeto de país acolhedor dos grupos minorizados e menos privilegiados, fiz campanha, votei, acompanhei a apuração, explodi de alegria e soltei rojões quando virou. Depois dancei leve na sala com minha mulher e minhas filhas. Dormi com uma alegria que há muito não sentia. Ressaca da boa.

Lula ganhou. Ganhamos. Isso significa tanta coisa para tanta gente que passou quatro anos sob as nuvens de um (des)governo mais preocupado com a destruição do meio ambiente e o desmonte de sua fiscalização, com a ampliação das aprovações de agrotóxicos para beneficiar o agronegócio a um custo altíssimo, com o exercício da necropolítica na saúde e na economia sempre com a promessa de melhora pelo rolando-lero do Guedes, com suas damares e a disseminação do preconceito de todo tipo, com a depredação do Brasil sob todos os aspectos em que você pensar. Pense aí. Qualquer um. E vai ver o desastre que foi.

Um presidente et caterva muito mais preocupados com seus projetos pessoais e com os dólares de ministros em paraísos fiscais do que com bem-estar social. O Brasil, que antes era um player de peso, sumiu do mapa mundi da geopolítica mundial com este presidente minúsculo, que vai ser enxotado do Palácio do Planalto em janeiro. Mas Lula mal foi eleito e o mundo já correu para ele.

“Ain, mas o país está dividido”. Sempre esteve. Quem conhece um pouco de história ou estudou sociologia básica sabe que este país sempre esteve dividido. Isso desde a época das capitanias hereditárias, com os projetos de escravidão da população negra e com as recorrentes e históricas investidas contra as populações originárias. Essa divisão está no DNA brasileiro tanto quanto a mais balada mistura de raças. Convoco também o bom e velho Marx para nos lembrar da divisão de classes, que sempre recebeu roupagens diferenciadas, mas que sempre também fez questão de deixar muito claro quem manda nesse país.

Há análises e análises mostrando como chegamos aonde chegamos. O golpe parlamentar em Dilma, fomentado pelas passeatas dos 20 centavos em 2013, foi, a meu ver, a dobra do origami. Depois veio a Lava-Jato e todo o lawfare que tirou Lula da eleição de 2018, lawfare hoje desmontado pelas ilegalidades de um juiz que hoje rasteja nos cantos fedorentos da história. Tudo isso foi amplificado pela grande imprensa, criando um caldo que levou ao desejo da eleição do “novo”. Foi nesse cenário que Bolsonaro se elegeu.

Além do capitão, coronéis, delegados e toda uma reculhamba de parlamentares foi eleita também. Governadores sem passado político entraram nesse vácuo, como Romeu Zema (MG) e Wilson Lima (AM). Esses parlamentares da lei, truculentos e da pancada, e esses governadores “novos” – entre todas as aspas – representavam, na cabeça de muitos brasileiros, quem iria restituir a ordem no país. A psicanálise talvez nos sussurrasse nessa hora que o povo brasileiro, em grande parte, estava em busca de um pai disciplinador da desorganização social. E veio Bolsonaro.

Pandemia. O mundo sem saber direito o que fazer. Alguns poucos governantes, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ouviram a ciência, fizeram barreira sanitária, fechando seus países e foram bem-sucedidos no combate ao inimigo desconhecido. Os países da Europa ficaram no meio-termo entre a proteção da vida com lockdowns e a manutenção da economia. As mortes só aumentaram e tiveram de voltar atrás. O presidente do Brasil, na má companhia de Trump nos EUA, Lukashenko na Bielorus – aquele que queria curar a COVID com vodka – e Obrador no México, escolheram uma política negacionista, ignorando a OMS e atrasando as medidas necessárias. No Brasil, a compra de vacinas se adquiridas na temporalidade certa poderia ter salvado, segundo especialistas, mais de 300 mil pessoas da morte. Além disso, os mercadores da morte ainda negociavam propinas dentro do Ministério da Saúde em cima de doses que faltavam à população. Experimentavam ao modo nazista a imunidade de rebanho em Manaus, o que causou um dos momentos mais dolorosos na história da minha cidade. Dor e caos amplificados pela falta de oxigênio nos hospitais, causada pela negligência do governo federal e do Estado do Amazonas. É pouco um parágrafo para falar da pandemia e suas consequências no Brasil, com as hoje quase 700 mil mortes. E esse cenário de negacionismo mundial ainda foi piorado no Brasil pelo papel das igrejas neopentecostais e seus pastores, que arregaçaram as portas dos templos para a política partidária, deixando um tal de Jesus em segundo plano.

Com todo o cenário acima, com o histórico de Bolsonaro e a sua personalidade conhecidamente escrota no Congresso, as rachadinhas da família, o desgoverno total em quatro anos, vem a pergunta: como explicar então os 58 milhões de votos que ele ainda teve? Recorro de novo à psicanálise e ao psicanalista Christian Dunker. Para Dunker, uma parcela significativa dos bolsonaristas se sente traída pelo PT. Embora tenha conseguido ascensão social, a classe trabalhadora esperava viver em melhores condições. Sem associar os problemas atuais à figura do atual presidente, “que age como se não fosse propriamente um governo”, resta a decepção com quem representa o estado para essas pessoas – Lula e Dilma. “Elas se voltam com uma certa agressividade, com um certo ódio, para aqueles em quem localizam a falsa promessa”, diz o psicanalista. Sobre o perfil psicológico de Bolsonaro, Dunker diz que suas atitudes se explicam pela patologia dos tiranos: “Para ser um tirano eficaz, o sujeito tem que ser meio débil, meio incapaz de separar o público do privado”. Bolsonaro pode ser visto, assim, entre outras coisas ruins, também como um sintoma de um Brasil neurótico.

Além dos ressentidos – daí a agressividade, a receptividade ao discurso armamentista e golpista com pedido de AI-5 – , há a ponta de cima da pirâmide social, a “elite do atraso”, como nomeou Jessé de Souza. Dona dos meios de produção, essa elite apoia e aplaude o governo de Bolsonaro com suas políticas de arroxo a direitos trabalhistas, o que, claro, aumenta os seus lucros. Luciano Hang, o Véio sonegador da Havan, é um exemplo dessa gente. Mas o seu Zé, da taberna, também veste essa camisa, no entremeio entre o grupo um e dois. Boa parte da classe média, com suas bolsas de grife e seus perfumes doces, também veste a canarinho e esteve aí pendurando a bandeira nas sacadas e nos carros. Se a escolha dos ressentidos é uma inconsciente vendeta do desejo não realizado, a elite rica desse país fez e faz uma escolha pragmática pelo viés do capitalismo mais selvagem mesmo. E a classe média que embarcou nessa se mira numa riqueza que de fato não tem, mas pensa que tem, coitada. Um terceiro grupo nessa equação de sustentação de Bolsonaro é o das igrejas evangélicas. Em última instância, elas também se movem pelo dinheiro, mas com um discurso transverso da pauta de costumes para caber melhor. São as máquinas de dinheiro dos malafaias, macedos e os valadões da vida. Essas igrejas estão hoje corroídas por dentro na sua prática do exercício religioso e são, mais do que já foram, currais político-eleitorais, na cara dura. Usam Jesus como fiador com uma procuração falsa.

Com tudo isso, Lula ganhou. Por isso foi tão apertado. Lula segurou no voto os bilhões do orçamento secreto, a enxurrada do dinheiro dos empresários jogada na campanha de Bolsonaro, a sabotagem do governo nas ações da PRF no dia das eleições, o ódio ressentido dos mais humildes e a máquina religiosa do evangelismo capitalista. Além, claro, de boa parte da imprensa que prefere um projeto mais liberal em relação ao que Lula oferece. Um feito e tanto. Mas e agora?

Diferente do que se acostumou a chamar de bolsonarismo – e eu sugiro que a gente abandone o uso desse termo para não sedimentá-lo –, que tem como prática lidar com o contrário pela supressão, silenciamento e violência – às vezes aniquilamento físico mesmo – temos com a eleição de Lula de buscar um outro caminho. É preciso sair desse Fascismo e reestabelecer os processos democráticos de respeito à alteridade.

Em vez de suprimir o outro, precisamos superar esse cenário e minar o protagonismo dessa gente pela organização social. Sim, mas como fazer isso? Por meio da ampliação das práticas democráticas e da reconquista de espaços sociais perdidos. Por meio do exercício real da redistribuição de renda que devolva à população a sensação de bem-estar que um dia já teve, inclusive num próprio governo Lula passado. Por meio do aumento do Estado de bem-estar social, com acesso à saúde, educação e cultura. Por meio de uma política agressiva de desarmamento que mude a cultura do aniquilamento que se estabeleceu com a multiplicação de clube de tiros e acesso a armas patrocinado por Bolsonaro. Por meio da regulação do agronegócio na sua parte nefasta e irresponsável, dos agrotóxicos, que aumentam os lucros, lucros hoje que não voltam para políticas públicas, mas são canalizados para o fomento do desmatamento e do financiamento da agropolítica vendendo a imagem de que o agro é pop, quando só a parte responsável dele merece ser. Pelo cuidado draconiano com a proteção do meio ambiente. Por meio do retorno da demarcação de terras indígenas. Por meio da taxação e de maior controle social sobre igrejas, para que voltem a ser um lugar de relação do sujeito com a espiritualidade e não esses cassinos que hoje são, resguardadas as exceções de sempre na minha crítica, claro. Por meio da criação e ampliação de políticas públicas para as populações minorizadas – negros, índios, mulheres, LGBTQIA+, PCDs. Confesso que retomada das conferências nacionais anunciada por Lula em seu discurso em São Paulo deu um alento nessa direção.

O caminho é longo. Vai dar muito trabalho. Lula foi eleito para isso. Lula foi eleito por isso. Porque acreditamos num país que considere essas coisas. Ele não vai conseguir fazer tudo isso e mais outras coisas igualmente necessárias, claro. Mas a trilha em que o país volta a pisar em primeiro de janeiro do ano que vem certamente vai nessa direção. Vamos deixar para trás essa página infeliz da nossa história, responsabilizando quem deve ser responsabilizado. Sem revanchismo, mas sem leniência também. Deixamos frouxa a cobrança dos responsáveis pelos crimes da ditadura militar e isso nos fez muito mal como país. Não podemos repetir o erro e devemos responsabilizar, “dentro das quatro linhas da constituição”, quem deve ser responsabilizado. Derrotar o pensamento de extrema-direita no país deve ser a obsessão política dos próximos anos, comum a todos os democratas – de direita, centro ou esquerda.

Porque quem cultiva a semente do amor segue em frente e não se apavora. Se na vida encontrar dissabor vai saber esperar a sua hora. Cuspamos então o dissabor. Chega. Então, meu amigo e minha amiga, erga essa cabeça, meta o pé e vai na fé. Manda essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar. O sambinha diz, com propriedade, que na vida é preciso aprender que se colhe o bem que plantar. É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar. E Ele apontou na eleição de domingo. Vamos lá, Brasil.

Palavra de bêbado

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Em “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, escrita na pauleira da censura do início dos anos 70, é conhecida a homofonia que faz deslizar a letra da música do religioso para o político. “Afasta de mim este cálice/cale-se.”

Há, no entanto, uma passagem pela qual sempre tive uma predileção especial: “Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa”.

Leio sobre Psicanálise desde 1994. Penso a Psicanálise como um dispositivo de interpretação da cultura. Não à toa meu baratinho é Análise de Discurso. Agora ando estudando o trabalho dos sonhos.

Freud diz que os sonhos montam suas histórias, aparentemente sem sentido, com três coisas: restos da véspera, sensações fisiológicas sentidas durante o sono e desejos recalcados na vigília. É por isso que, por exemplo, ter encontrado um coleguinha de infância que não se via há anos, dormir descoberto no frio e ter sofrido bullying dolorido na tenra idade podem aparecer no sonho como, digamos, uma cena no topo do gélido Himalaia. De repente, subindo a montanha, você escorrega e cai, mas se segura em algo. O amigo recém-visto, que no sonho aparece de repente como um companheiro de escalada, surge gargalhando e pisa com força em sua mão para você despencar. Você, no fim, se salva, atualizando o desejo de se ver livre das cicatrizes psíquicas do bullying. Mesmo não tendo sido o tal colega um dos que fizeram bullying com você lá atrás, em sua figura emprestada da experiência do dia estão condensados todos os bullies atormentadores. Esqueminhas do sonho para contar as histórias. Freud, seu bruto.

A arte faz isso também. Gil conta que “Cálice” foi composta no apartamento de cobertura de Chico na Lagoa Rodrigo de Freitas. Ambos bebendo Fernet, uma bebida amarga. Tanto a bebida amarga quanto a lagoa da realidade entraram na música como deslizamentos metafóricos. Restos da realidade trazidos para significar no tecido da letra. A letra, by the way, é cheia de deslizamentos e intertextos. Uma riqueza, obra-prima, de chorar. Juntando os dois assuntos, a passagem da música que destaquei acima como predileta é muito psicanalítica. O silenciamento é imposto ao Ego pela censura do Superego, recalcando o desejo do Id.

Esse desejo, claro, fica atento e vivo na pulsão inquieta, batendo tambor no inconsciente. A pulsão vai uma hora ou outra emergir da lagoa de alguma forma, pois vocação de pulsão é ser. Vira neurose ou dor no corpo ou sublimação ou gozo. Foi isso tudo que fez o monstro da lagoa de Gil e Chico emergir nas Diretas Já, depois de anos daquele terror da ditadura militar. Fazendo um intertexto com o Gonzaguinha, dá para dizer que o copo estava cheio e já não dava mais pra engolir. Foi tudo isso que fez o monstro da lagoa, sem um rosto definido, emergir em junho de 13. Insatisfações de toda ordem. Monstro sem coleira, sem dono, comendo tudo e, principalmente, nossa capacidade de viver no contraditório. Foi tudo isso que fez o monstro da lagoa emergir na eleição de Bolsonaro. As pulsões machistas, preconceitos de todas as formas e tipos, mal-resolvidos de toda ordem, vontade de apagamento do outro…

Tudo o que vinha sendo engolido porque os avanços nas pautas sociais não permitiam mais esses desejos perversos ganhar pastos e sair serelepes por aí. A eleição de Bolsonaro foi a abertura da caixa de Pandora, foi a porteira da boiada do Salles. Fez emergir esse terrível monstro da lagoa que hoje engole nosso sentido de país, que, puf!, vaporizou. A eleição do xexelento só foi possível, esse monstro nojento só emergiu, porque essa turma ficou calada por muito tempo porque a gente tinha tomado esses espaços deles. Mas deu uma grande merda geral. Triste conjunção de cenários que tornou o Brasil um país marginal no mundo, um Tuvalu na geopolítica mundial. Enfim, o que quero dizer é que mesmo calada a boca resta a cuca dos bêbados do centro da cidade.

Muitos de nós estamos embriagados por goles diários de uma dura realidade. Realidade feita de um negacionismo que denegou um inimigo real que tirou vidas porque só sabe existir para combater seus inimigos imaginários, de um (des)governo que faz tudo ao contrário. De uma polícia que castiga corpos pretos todo dia com a naturalidade de quem toma um café. De patroas que apertam o botão do andar da morte social e fazem espatifar junto com os corpos de miguéis os cristais de esperança que teimamos carregar na malinha de mão do nosso coração.

Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano! Danei-me tanto essa noite que decidi escrever porque, Pai, caramba, afasta de mim esse cale-se, essa bebida amarga. Ando cansado de tragar a dor. Mas, sabe, #soubêbadodocentrodacidade. Resta a cuca. Fecho com Ivan Lins na pandemia: no literal, eu lavo as mãos com álcool gel. Mas na metáfora, eu não lavo as mãos e não me calo. Quem é isento nesses tempos é cúmplice. Eu não lavo as mãos e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo.

Atento na arquibancada pra, a qualquer momento, ver emergir um monstro na lagoa. Um monstro que engula esses canalhas todos. Na forma da lei. A eleição está aí.

A camisa toda suja de batom

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Já há algum tempo, eu tenho visto aqui e ali, todos os dias, pessoas reclamando ou comentando que estão hipersensíveis a tudo ou estão meio que sem lugar no mundo. Um tiktok de um doguinho caramelo pedindo carinho comove a ponto de olhos encherem d´água. Uma surpresa carinhosa de uma filha a um pai, vista quando zapeamos pelos reels do Instagram, faz subir no peito uma vontade de chorar que vem das entranhas. Qualquer paisagem postada ao som de Suite for Violoncelo No 1 em G Maior inunda a gente com uma tristeza sem razão aparente. Às vezes olhamos uma coisa que antes era dona de nossa atenção sempre e a vontade é deixar pra lá. Sabemos mais ou menos o que sentimos – algo entre uma melancolia, uma mofineza e uma languidez –, mas não conseguimos identificar de onde vem essa coisa estranha. Quase certeza de que você também que me lê já se sentiu assim nesses tempos recentes.

Nas minhas hipóteses, essa angústia sem remetente direcionada à posta-restante de nossa alma é um subproduto da pandemia. Estamos muito cansados do peso de nossa cabeça, desses dois anos passados, presentes, vividos entre o sonho de existir plenamente – ou de sua ilusão, pelo menos – como era antes do vírus, e o som dessa interminável chuva de lutos e reacomodações que hoje se impõem. Estamos muito cansados. Fatigados a ponto de não poder falar palavra sobre essas coisas sem jeito que trazemos no peito e que, não, definitivamente não achamos tão bom.

Daí vem uma procrastinação como a dizer para não nos preocuparmos com os compromissos nesse mundo agora marcado pela incerteza. O que esperar ao dobrar a próxima esquina? Esbarrar com uma guerra estúpida? Ter de lidar com um presidente imbecil e asqueroso? Ficar no prego de gasolina a quase oito reais o litro? Perder um amigo querido para o suicídio? Quando bate essa desalegria, a reação do eu parece que é rasgar no grito as amarras e se jogar, gritando Esparta!, no hedonismo, nos prazeres, grandes e pequenos, permitidos ou proibidos. É ir para o carnaval purgar a prisão involuntária imposta pelo Corona. É tacar um foda-se no autocuidado, levados por uma pulsão de morte que blefa com a Magra da foice, pagando para ver. Vem, safada! Põe pra cima! É deixar a pulsão dos desejos do Id assumir a porra das rédeas, mandando o superego às favas. Vai controlar a puta que te pariu, bedel dos infernos! É botar o bloco na rua, seja lá o que isso metaforize na sua vida sem carnaval, suspenso em sua folia por essa merda toda que esse vírus trouxe.

O desejo recalcado passa a ser visto com bons olhos. Por que não desejar? Por que não esticar a corda se eu nem sei se haverá corda ao acordar no dia seguinte? À gente só resta ousar quando a única alternativa sobre o gelo fino é a velocidade.

Fato é queremos uma balada nova, falando de brotos, de coisas assim. Falando de money, de banho de lua, de ti e de mim. Ficamos tão mais sentimentais. Tão à flor da pele que o beijo da Marieta Severo com o Reginaldo Farias na novela nos faz chorar. Tão à flor da pele que nosso desejo se confunde com a vontade de não ser, que a nossa pele traz o fogo do juízo final. Nesses dias de desalegria, singramos um rio desconhecido num barco sem porto, sem rumo, sem vela. Cavalgamos um cavalo sem sela; bicho solto, cães sem dono, crianças e bandidos viramos. Vamos de extremo a extremo: às vezes nos preservamos, por outra suicidamos.

Não engula o choro da pandemia. Sim, essa agonia, esses gatilhos invisíveis fazendo sintoma, é tudo causa do choro da pandemia. Choro pelos que perdemos e cujas ausências nos dilaceram as lembranças quando os recordamos. Porque “recordar” vem de re-cardio, passar de novo pelo coração. Aí dói demais. Arde qual álcool em ferida exposta. Como psicólogo, sou obrigado a dizer para você buscar um equilíbrio restaurador e isso passa por se permitir o inédito para dar conta desse lamaçal em que nos metemos. Sem culpas. Habeas corpus. Habeas anima. Está pesado demais para ficarmos catando culpas. Vaze pelos seus poros.

No fundo, penso que todos nós estamos precisando mesmo é daquela sessão de cinema das cinco, para beijar a menina ou o menino, o que faça seu gosto, e levar a saudade na camisa toda suja de batom ou de outras substâncias que do desejo decorrem.

Indo para o supermercado, ouvindo Belchior de manhã cedo no rádio do carro, chorei feito um condenado. Condenado à incompletude, à finitude, ao descontrole sobre o mundo. A moça do caixa, eu acho, nem notou que chorei muito. Se notou, ela foi discreta. Só perguntou se a tristeza era no crédito ou no débito, se meu sentimento torto era por aproximação ou penetrativo.

Ouçam Belchior bem alto aí. E na semana que começa, leitor e leitora queridos, sujem a camisa de batom, if you know what I mean.

Learning to live again

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Through the kitchen window, to be precise. While I was waiting for the coffee to percolate in the morning. I was thinking about tiny things and looked out the window at the horizon when I was startled by a pair of scarlet macaws flying right in front of me. Macaws flying early in the morning and at sunset are part of Manaus’ aesthetic history, for those who are unaware. It is a lovely sight to behold. The image reminded me that life had poetry, in addition to the bank slips and regular problems that occupied my thoughts.

Vaccination appears to be in full swing. Despite an inefficient government that is more concerned with its tenebrous activities than with assisting in the fight against the pandemic, a pandemic that, according to Boaventura Sousa Santos, marked the start of the twenty-first century. Corona has had a significant impact on our lives during the last fifteen months. Everything now implies that, if one is positive, life will return to being lived in the same manner as before. We, responsible non-denial citizens, already timidly go out to restaurants, shopping malls, restricted cocktail parties. Not without wearing the mask and occasionally sticking your hand in the gel.

It still feels like a misdemeanor, like I am on probation. It is weird for me to be in locations where there are no sofas, such as a bookstore. The message appears to be, “Come in, but don’t make yourself at home.” While waiting for my wife to buy clothes at the department shop next door, I just wanted to sit and casually flick through a book on Celtic history. However, there are no benches, chairs, or armchairs available. They were completely wiped out by the pandemic.

Returning to coexistence with others in the presence is weird, I think. We unlearn the ropes in a way. It is a bittersweet situation. This comeback has an exhilarating and unsettling quality about it. It is like though we have suddenly returned to our homeland after having been absent for a long period. What will people’s reactions be? Has anything changed on that street? Is the mother of your friend still alive? I am not sure what to say or how to welcome folks. Have you already exchanged handshakes? How about a punch with a punch? Isn’t it elbow-to-elbow? Is it just a no-touch greeting? Is hugging already acceptable? In these new times, what politeness standards left by the plague should we learn?

Our social muscles have weakened. Allow for social physiotherapy to rehabilitate them! We must relearn how to socialize. It is a fact. The pandemic has offered some consolation to those who, like me, have always been very homely. My home is one of my favorites. But, once again, I must embrace the discomfort of the unknown, the impending return. After a year of hearing that we should not mingle in groups because of a fatal virus on the loose, it seems difficult to alter it all over again.

The pandemic’s mandatory containment has raised a variety of philosophical issues. Do we really need to get out of the house so often to enjoy our lives? You can’t solve it with a text message or a Meet call? Do we really need to deal with congested roads, destroy the environment, and dress in long pants and shoes? Do women need to go back to wearing tight bras now that they have spent so much time at home with their bodies free? Do we really need to go to bars to socialize? Isn’t it possible to merely listen to the Spotify playlist? What do I want for my life? What kind of world do I want my daughters to grow up in? When will I be able to devote all of my time to my family again? I am not sure what the answers are. Really. Gestalt is open. As a psychologist, I envision a vast grassland stretching as far as the eye can see to be explored.

The truth is that isolation forced us to re-evaluate our priorities in life. We discover inertia and learn how to live in it without doing anything and without the constraints of time. And we enjoy it. Of course, I am referring to the number of people who could work from home. The debate is different for individuals who have fought at hospitals, running public transportation, pharmacies, supermarkets, and so on. My respect.

We must learn to live again. Regain our ability to embrace and laugh in the presence of others. Take better care of the group. Take better care of the environment. Living the life that truly counts since life is a breath that could be taken away at any moment. These are lessons in the virus’s pedagogy. We slow down to take in the scenery of life, focusing more on the journey and our companions than on the destination. You can even see the macaws in the window without rushing. It is now late afternoon. Just as though to illustrate the text, a couple has just come by. Synchronicity. Or is it God, who is a poet in his own right?

Reaprender a viver

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Foi pela janela da cozinha. De manhãzinha, enquanto esperava o café coar. Pensava eu nas pequenas mundanidades, olhando o horizonte, quando fui surpreendido por um casal de araras vermelhas que cruzou o céu bem à minha frente. Para quem não sabe, araras voando de manhã cedo e no crepúsculo são parte do patrimônio estético de Manaus. Uma coisa linda de se ver. A cena me lembrou que, além dos boletos e das broncas cotidianas que habitavam meus pensamentos, a vida tem poesia.

A vacinação parece que está engrenando. A despeito do governo inepto e mais preocupado com suas tenebrosas transações do que com ajudar a combater a pandemia, pandemia que, segundo Boaventura Sousa Santos, marcou de fato o início do século 21. O Corona mudou nossas vidas de muitas maneiras nestes últimos quinze meses. Agora, tudo indica, sendo otimista, a vida tende a voltar a ser vivida de forma parecida com o que era antes. Nós, os responsáveis não-negacionistas, já saímos timidamente para restaurantes, shoppings, convescotes restritos. Não sem usar a máscara e não sem se preocupar, de tempos em tempos, de melar a mão no gel.

É ainda uma sensação de contravenção, de liberdade condicional. Confesso que é estranho estar nos lugares, como uma livraria, e não ter um sofá para se sentar. “Venha, mas não fique à vontade” parece ser o recado. Só queria sentar e folhear sem compromisso um livro sobre história celta enquanto espero minha mulher comprar roupas na loja de departamento ao lado. Mas não há bancos, cadeiras, poltronas. A pandemia comeu todos.

Pensando aqui: voltar à convivência com os outros em presença é algo estranho. Meio que desaprendemos a manha. É um troço agridoce. Há algo de excitante e de desconcertante nesse retorno. É como se, de repente, voltássemos à cidade natal depois de muito tempo vivendo longe dali. Como estarão as pessoas? Aquela rua, mudou? A mãe do amigo ainda vive? O que devo dizer e como devo cumprimentar as pessoas? Aperto de mão já? Soquinho com soquinho? Cotovelo com cotovelo? Só um olá sem toque? Abraçar ainda é over? Quais as regras de etiqueta legadas pela pandemia devemos aprender nesses novos tempos?

Nossos músculos sociais atrofiaram. Haja fisioterapia social para colocá-los de volta no lugar! Desaprendemos a socializar. É a constatação. Para quem, como eu, sempre foi muito caseiro, a pandemia trouxe um certo conforto. Eu adoro minha casa. Mas preciso agora, de novo, abraçar o desconforto do incerto, do iminente retorno. Parece complicado mudar tudo de novo depois de um ano ouvindo que não deveríamos socializar em grupos por causa de um vírus mortal à solta.

O enclausuramento compulsório da pandemia esventrou uma série de questões filosóficas. Precisamos sair tanto de casa para viver a vida? Não dá para resolver com uma mensagem de zap ou uma chamada no Meet? Precisamos mesmo enfrentar trânsito pesado, poluir o meio ambiente, vestir calça comprida e sapato? As mulheres precisam voltar a usar sutiã apertado, tendo passado tanto tempo com o corpo liberto nos domínios do lar? Sério mesmo que temos de ir para barzinhos para socializar? Não dá para ficar só apreciando a playlist do Spotify? O quero para minha vida? Que mundo quero para minhas filhas? Para os meus? Quando eu vou ter de novo todo esse tempo para minha família? Não sei as respostas. De verdade. Gestalt aberta. Para o psicólogo que sou, vejo um pasto imenso a perder de vista.

Fato é que o isolamento fez a gente recalibrar prioridades do que realmente interessa na vida. Descobrimos a inércia e como habitá-la sem fazer nada, sem as injunções das obrigações de horários. E gostamos. É claro que me refiro à parcela das pessoas que pôde ficar em casa, em trabalho remoto. Para quem esteve na batalha dos hospitais, do transporte público, das farmácias, dos supermercados etc., o papo é outro. Meu respeito.

Reaprender a viver. Reaprender a abraçar. A sorrir na presença. Cuidar mais do coletivo. Zelar mais pelo mundo. Viver a vida que de fato interessa porque ela, a vida, é um sopro e pode não mais estar lá ao dobrar a esquina. São lições da pedagogia do vírus. Desaceleramos para perceber a paisagem da vida, para prestar mais atenção no caminho e nas companhias de viagem do que no destino.Dá até para ver, sem pressa, as araras na janela. Fim de tarde agora. Um casal acabou de passar por aqui como que para ilustrar o texto. Sincronicidade. Ou é Deus que é um poeta mesmo.

Mundo lânguido

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Entre os extremos do estado mental da depressão – total falta de vontade de viver – e o florescimento – alegria plena de uma vida virtualmente feliz -, há a languidez.

Na languidez, a pessoa não está com o tanque cheio de energia, como no florescimento, nem está com o tanque vazio da depressão. É um entremeio. É um estado de indiferença com sua própria indiferença em relação às coisas. O dicionário a define como a diminuição do ânimo, do vigor, uma frouxidão, uma moleza, uma fraqueza. É um tanto faz contínuo. É aquele sentimento depreendido da resposta de nossos filhos quando perguntamos “Como foi a aula online hoje, filho?” Resposta: “É…”

A vontade é de procrastinar, potencializada pela falta de perspectivas concretas. No começo da pandemia, ano passado, as palavras-chaves eram perda e medo. Mas fomos relaxando, desenvolvendo estratégias para lidar com o alongamento do tempo da pandemia. Já não temos mais aquela ansiedade da luta ou fuga, do ano passado. A sensação hoje é a de que não adianta nem lutar nem fugir, mas só deixar rolar.

O amazonense tem um termo para esse calundu, esse desânimo: mofineza. É isso: não estamos felizes – como estar?! -, mas não estamos deprimidos também. Estamos mofinos. Vivemos numa condição de limbo psíquico: lânguidos.

Precisamos cuidar dessa languidez. Não, ela não é uma doença. Mas está na antessala. Passará a ser no momento em que nos tornar disfuncionais para a vida. E como cuidar disso? Há saída?

Sim. Uma saída é exercitar as atividades de fluxo. E o que são atividades de fluxo? São atividades de imersão de atenção e foco: maratonar séries na Netflix pode resolver. Ler um livro, imerso na história, também. Ouvir música por puro prazer deitado no chão da sala é uma outra opção. Focar em um projeto há tempos esquecido talvez seja uma alternativa. Para os jovens, jogar videogame é a típica atividade de fluxo. Assistir a vídeos no YouTube por horas é outra. A lista é quase infinita e depende daquilo que faz com você esqueça do tempo, do lugar e de si para, paradoxalmente, passar a cuidar de si por meio desse exílio profilático nas atividades que absorvem. Ser multitarefa nesses tempos não é lá muito recomendado. Daí o cuidado para home office não virar office home.

Ninguém quer sofrer de transtorno de mofineza. Estamos todos buscando ampliar o repertório para lidar com todas as rupturas que a pandemia nos trouxe. Cada um sofrendo e desenvolvendo suas estratégias, com ou sem ajuda de uma escuta qualificada – mas sabemos que uma boa terapia faz uma grande diferença. Nós, psicólogos, estamos aqui. Fato é que é necessário sair dessa condição de letargia e retomar os sentidos da vida.

Viktor Frankl, médico judeu que viveu os horrores de Auschwitz, sobreviveu àquilo porque deu sentido ao que vivia ali. Frankl disse a si mesmo que sua estada em Auschwitz tinha de servir para algo, ser contada ao mundo porque as pessoas precisavam saber o que é estar num campo de concentração nazista. Esse sentido dado à sua dor o salvou. Ele conta essa história em “Em Busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”. Retomando essa ideia, o mesmo Frankl diz, em “O sofrimento de uma vida sem sentido”, outro livro que recomendo vivamente para esses tempos, que a angústia é um sofrimento que não foi significado ainda. Quando damos sentidos às nossas dores, nós as esvaziamos de angústia e começamos a lidar com ela para viver melhor.

Penso que identificar a angústia sem nome e difusa que vivemos na pandemia começará a pesar menos se a nomearmos. Precisamos dar sentido a ela. Essa angústia vem da languidez, desse estado de desmotivação, dessa falta de vontade e de energia. É preciso recuperar o sentido do amor, da convivência, das relações e do prazer em relação aos outros e, mais importante, em relação a nós mesmos.Viver é preciso. Sair da mofineza é fundamental.

Sigamos, pois.

Covid, negacionismo, discurso e psicanálise: flores no concreto

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Sérgio Freire
Doutor em Linguística (UNICAMP), Psicólogo
Professor da Universidade Federal do Amazonas

Com tantas informações disponíveis sobre a gravidade da situação e a necessidade de seguir orientações básicas da OMS, muitas pessoas ainda se recusam a aceitar a realidade dos fatos. Por quê? Afinal, que diabos acontece que faz com essas pessoas não aceitem algo que nos parece tão claro? É de deixar perplexo mesmo. Como a gente explica isso?

Motivado por vários comentários nas minhas postagens nas redes sobre a gravidade da situação da COVID-19 em Manaus, andei pensando na questão. Refleti e trago essa reflexão a partir da Psicologia e da Teoria do Discurso, que é por onde transito teoricamente.

Em “O ego e os mecanismos de defesa”, de 1946, Anna Freud nos apresenta as técnicas de defesa a que o ego recorre para não sofrer tanto com a realidade. No caso dos “teimosos” da Covid, trata-se claramente do acionamento de um desses mecanismos apresentados pela autora: a negação. Está na literatura psicológica que as pessoas desenvolvem estratégias para se proteger. Uma dessas estratégias é simplesmente negar a existência de qualquer fonte ameaçadora, seja ela um fato ou uma dor. A negação é uma forma que as pessoas encontram para se defender da ansiedade intrusiva, para fugir de algo que, inconscientemente, sabem que não podem enfrentar. Por exemplo: quando alguém da família morre e uma pessoa não chora, não sofre, mantém a vida como se nada tivesse acontecido, diz-se que está em negação. Situações que causam muita ansiedade, como a perda de alguém ou uma pandemia que mata muita gente, são percebidas como ameaças e podem, por isso, disparar o mecanismo de defesa da negação.

No caso da pandemia, a negação se manifesta de várias maneiras. Pode ser se recusando a usar máscara em público ou participando de grandes aglomerações. Pode ser, ainda, refutando a ciência porque ela contradiz sua crença de que a ameaça não é nada e por não ser nada pode ser controlada com medicamentos ou produtos sem comprovação científica de eficácia. Há ainda os que esvaziam a realidade, negando-a, criando teorias conspiratórias como a de que o vírus foi uma criação chinesa, ou a de que a vacina vai alterar seu DNA ou, ainda, de que o número de mortes reportados são alterados para algum fim maquiavelicamente planejado. O limite é a criatividade.

Basicamente, as formas de negar são variações daquilo que no discurso chamamos de frase de base. A frase de base é “Bem, como eu não quero ou não posso lidar com ela, a pandemia é uma farsa. Ela realmente não existe. É uma invenção com algum propósito escuso.”  É claro que essa fase de base que sustenta o discurso negacionista é um pilar inconsciente e, por isso, escapa à razão do indivíduo. O sujeito negacionista nunca admitirá isso – porque ideologia e inconsciente são transparentes ao sujeito – e ele continuará racionalizando, ou seja, achando razões que sustentem a sua negação.

Usar a negação como mecanismo de enfrentamento nem sempre é uma escolha ruim. Ela faz parte do repertório do sujeito para lidar com a vida. No curto prazo, a negação dá à pessoa tempo para se ajustar a uma situação. Quando se torna uma muleta de longo prazo, no entanto, ela coloca outras pessoas em perigo e passa a ser perigosa. É o caso da pandemia. Daí as pessoas continuarem a fazer festas clandestinas, a ir às praias lotadas, a minimizar o risco, sempre apoiados num discurso racionalizante de que a economia e convivência social não podem parar “por causa da gripezinha.” Mistura-se a isso o que o pai de Anna, Sigmund Freud, chamou de “pulsão de morte”, no livro “Além do princípio do prazer”, de 1920.

Falamos de racionalizar. A negação às vezes se confunde com a racionalização, que é outro mecanismo de defesa. A racionalização se dá quando as pessoas tentam explicar ou diminuir a ameaça da fonte de ansiedade. Por exemplo: quando as pessoas dizem que “a Covid-19 é apenas uma gripezinha”, elas estão admitindo que ela existe, mas estão minimizando a coisa e dizendo que não é tão grave quanto todo mundo – “os conspiracionistas ou mal informados” – está dizendo. Quando citam uma médica ginecologista negacionista para legitimar práticas clínicas que desautorizam a ciência verdadeira – aquelas das pesquisas comprovadas –  e a refutam com crendices ou achismos, é a racionalização que está trabalhando. Acha-se sempre uma razão para o que se acredita. No fim, o argumento acaba sendo: “é a minha opinião e pronto!”. Como se ciência se reduzisse a opiniões. Portanto, há graus e graus de negação e racionalização.


Tanto a negação quanto a racionalização que se perpetuam são consideradas inadequadas. Isso significa que elas não ajudam o indivíduo a se adaptar à fonte da ameaça. Na verdade, podem expô-los a uma chance ainda maior de qualquer coisa que seja ameaçadora, como a vulnerabilização de pessoas que se automedicam, prejudicando seu fígado ao ingerir doses descontroladas de medicamentos prescritos por médicos negacionistas ou ao tratar baixos níveis de oxigenação no corpo com mastruz ou jambu.

Ok. Negacionistas são pessoas que se protegem da realidade negando que ela existe e agindo a partir dessa crença. Mas o que leva uma pessoa a ser negacionistas e outra não? Aqui entram de novo psicologia, psicanálise e discurso.

Segundo a psicologia do desenvolvimento, é por volta dos 6 ou 7 anos que uma criança é capaz de entender o que é fato e o que é ficção. Em nossa cultura, a ficção é reforçada. Há Papai Noel, há Fada do Dente, há Coelhinho da Páscoa. Essas construções fazem parte do desenvolvimento e ajudam as crianças com a fantasia e a fantasia é necessária para o desenvolvimento do simbólico e do imaginário. No entanto, a fantasia precisa ser balanceada como o aprendizado de como tomar decisões com base em informações factuais. E a escolarização tem, junto com os pais, um papel fundamental nisso. Quando os adultos foram criados em um ambiente onde crenças infundadas fizeram parte do discurso, é muito mais provável que acreditem em teorias da conspiração e boatos. Eles também tendem a tomar decisões com base em palpites e ideias preconcebidas e preconceitos, em vez de usar informações factuais e baseadas na ciência. Assim se constroem discursos: crenças são baseadas em ideologias e as ideologias sustentam as verdades em que acreditamos. Quando o sujeito se desenvolve dentro de discursos não acostumados a enfrentar diversidades, tem-se o cenário propício para o protonegacionista. A criança que aprendeu essa prática de pensamento sempre fugirá do enfrentamento como prática de comportamento na vida adulta. Sim, estou dizendo que há uma grande correlação entre negacionistas e sujeitos que tiveram escolarização falha e uma falta para a prática do enfrentamento a situações ansiogênicas na infância. É a hipótese.

John Cook, professor da George Mason University, nos EUA, passou a última década estudando a psicologia dos negadores do clima e os últimos meses tentando entender seus primos ideológicos: pessoas que zombam do coronavírus. Em uma entrevista para o The New York Times, ele diz: “A ideologia é um grande indicador das atitudes das pessoas em relação às mudanças climáticas, mas o tribalismo é ainda mais”, disse ele. “Em última análise, os humanos são animais sociais. Se minha tribo acredita que a mudança climática é uma farsa, é muito mais provável que eu acredite nisso também. E isso definitivamente também está em jogo com a Covid.” É o tal do comportamento de rebanho, de gado. Faz sentido o apelido da turma?  O pesquisador ainda é mais incisivo: “Em ambas as questões, [porque a questão é tribal], a liderança é crucial para mudar atitudes e conquistar a negação.” Mas não é isso que acontece no Brasil, com o presidente que temos, um negacionista também. Vamos é na direção contrária com Bolsonaro.

Até aqui explicamos por que as pessoas negam a realidade da COVID, de onde vem essa prática negacionista e qual é a importância de um líder para modificar comportamentos de grupos. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud apresenta suas considerações sobre o fenômeno psicológico que mantém coesa uma massa de pessoas. Vale a leitura, de tão atual que é.

Ok. Sabemos por que negacionistas se comportam assim, o que provavelmente faz as pessoas serem negacionistas e a necessidade de um líder para fazer esse grupo mudar de rumo ou ampliar seu comportamento negacionista, que é o caso do Brasil. Aqui, no Patropi, há saída para esse atoleiro?

Em um artigo de novembro de 2020, chamado “Psychoanalysis in combatting mass non-adherence to medical advice”, o pesquisador Austin Ratner diz: “Como os psicanalistas podem ajudar a tratar a negação em massa e a não adesão em massa? Tanto epidemiologistas quanto psicanalistas resolvem problemas aumentando a conscientização; epidemiologistas conscientizam sobre os perigos para a saúde pública, enquanto psicanalistas conscientizam as pessoas sobre suas próprias defesas psicológicas, que trabalham para tirar o perigo e a ansiedade da consciência, precisamente porque são difíceis de enfrentar. Embora os psicanalistas não possam tratar cada caso de negação individualmente, eles podem educar os profissionais de saúde e líderes governamentais sobre a negação e trabalhar com eles em mensagens eficazes que ajudem a dissipar e delimitar essa força psicológica serpentina.” Claro. Isso quando líderes estão dispostos a tal. Dançamos de novo no Brasil.

Ratner talvez aponte um caminho. Se as pessoas são negacionistas e não se cuidam, parece que o amor pelas pessoas de sua família seja a única coisa mais forte que pode fazer o negacionista cair na real. E o discurso deve ser esse: se não for por você, que seja pelo seu pai, sua mãe, seus filhos. Campanhas de saúde e prevenção devem sustentar essa linha discursiva, ao mesmo tempo que o governo deve agir com poder de polícia para decretar recolhimentos e lockdowns para os mais resistentes. Força e jeito.

Querer convencer individualmente a pessoa, em comentários infinitos nas redes sociais, tem se mostrado improdutivo, ineficaz e cansativo. Porque a barreira do negacionismo inconsciente é feita de concreto semântico. Mas resta a poesia: flores nascem nas fissuras do concreto. Parece piegas terminar o texto assim: mas só amor salva.

BIDEN, TRUMP, BOLSONARO E DISCURSO

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As reações à eleição de Biden e à derrota de Trump podem dizer, sob alguma perspectiva, como nós, brasileiros, entendemos a política. Foram basicamente quatro reações ao processo deles lá. Essas quatro reações sinalizam para o funcionamento de quatro discursos.A primeira reação é a do grupo de pessoas que dicotomizam tudo. É oito ou oitenta, ou é amigo ou é inimigo. É a turma tipicamente do Bolsonaro e daquilo que se tem chamado bolsonarismo. “Nós somos Trump? Então quem é Biden é inimigo”. Pouco interessa o mérito da discussão. O pacote é recebido fechado. Aí dentro rola tudo aquilo que a gente já sabe: delírio, fake news, acusação de fraude, China, teorias da conspiração. Tudo para dar conta do comportamento narciso-paranoico. É uma reação de manada automatizada e blocada, que recebe uma voz de comando, a ordem do dia, e a replica ad nauseam. Freud, em “Psicologia das Massas e a Análise do Eu” descreve bem esse grupo. Política aqui é guerra, confronto. “Ou nós ou eles.” E “eles” devem ser suprimidos, inclusive fisicamente, no limite, com todas as armas possíveis.

O segundo grupo é o grupo que surge da reação indiferente. “Não quero nem saber dessa eleição americana. Não tem nada a ver comigo”. Aqui, entram as pessoas que pensam a política como algo miudinho, paroquial e umbilical. “O que que eu ganho com isso? Nada? Então não me interessa.” É a turma que vota porque o irmão vai manter o cargo comissionado, porque o cara que ganhar vai continuar fazendo negócio com minha empresa e coisas assim. A política não tem a ver com a “pólis”, a cidade, o coletivo. Política aqui tem a ver com o “pragmaticus”, do latim, que significa “aquilo que é próprio dos negócios”. Os meus negócios, claro.

Um terceiro discurso é o que vem nas reações do tipo “o que vocês estão comemorando? Não tem nada pra celebrar!” É um discurso que às vezes defende uma retórica mais à esquerda, mas nega Marx – peguemos o Karl como referência, vá lá… – na sua premissa básica: o materialismo dialético como concepção filosófica, que, por sua vez, permite o exercício do materialismo histórico para o estudo da vida social, dos fenômenos da vida coletiva. Apesar da retórica, essa turma nega uma política entendida como dialética, como processo, como negociações. Esse discurso formulaicamente progressista (pero no mucho se pensarmos sua constituição) apareceu nas reações críticas e ácidas a quem celebrou a queda de Trump e de tudo o que ele representa. “Não há o que comemorar, gente!” Para esse discurso, o foco não foi posto na queda de Trump como um passo para mitigar os efeitos do fascismo na política mundial, mas foi colocado na eleição de Biden, “um imperialista porco”, “acusado de práticas pedófilas”, na base do “é tudo a mesma coisa.” É um discurso que não compreende que, em não havendo as condições ideais que gostaríamos que houvesse, às vezes é necessário ajudar, com o nariz tapado, a construir uma parede de madeira para derrubar depois em vez de se omitir e deixar que subam um muro de concreto, cujo trabalho para derrubar será muito maior. Para esse discurso, política aqui é a MINHA política. Tudo aquilo que não parta de mim ou não case exatamente com o que eu acredito não pode ser legitimado e é invalidado. “Não existe política possível sem mim.” É a política feita em caixinhas fechadas com um verniz de preocupação coletiva. É como se houvesse para esse sujeito e esse grupo uma reserva de legitimidade política. Só eles sabem, iluminados que são. E o que torna pior é que a formulação desse discurso é sempre bastante condescendente com quem não faz parte dele. Boa parte da esquerda brasileira mora aqui.

Por fim, há um quarto discurso. Ele vem numa quarta reação à eleição de Biden: a celebração de sua vitória porque essa vitória é a paráfrase de uma quebra de uma importante coluna do muro da política fascista na geopolítica mundial. Quem celebra a vitória de Biden comemora a derrota de Trump. Comemora o enfraquecimento e a perda de lastro do fantoche brasileiro. Comemora o papel decisivo da comunidade afro-americana nessa eleição e o que isso representa na reacomodação do poder político dessa comunidade, como um grande reflexo do Black Lives Matter. Comemora a ascensão de Kamala Harris, uma mulher, a um cargo historicamente de homens e isso não é pouca coisa para quem luta por um mundo menos machista e racista (“Ain, mas ela…” já dispara o cara do discurso acima!). Política aqui é entendida como uma construção permanente, feita de pequenas e grandes vitórias que merecem ser gozadas plenamente para, no momento seguinte, suspender a festa e retomar a luta, que não cessa. Política aqui é compreendida como um processo de negociação contínuo com o adversário – e não inimigo – conjuntural, negociação em que se perde no varejo para ganhar no atacado, naquilo que importa mais naquela dada conjuntura. Política aqui vai buscar o conceito de pólis, como cidadania, como inclusão de quem está fora porque não tem poder político, como negros, mulheres, índios e todo tipo de excluídos econômica e socialmente. Política aqui é superação da diferença – não supressão – por meio do diálogo, dos embates intelectualmente honestos e sem o ressentimento que mina a interlocução. É do jogo.

Política como guerra, como pragmática, como reserva de legitimidade ou como processo de negociação inclusivo e permanente. São quatro sentidos de política que circunscrevo a partir da nossa reação – nós, brasileiros – à eleição de Biden e Harris e à consequente derrota de Trump. Há outros sentidos de política? Sem dúvida. Essa é a beleza da polissemia da língua. Mas trago esses quatro para pensar como esses discursos definem nossas práticas no dia a dia em relação à política, não só stricto sensu, não só em relação à eleição americana, mas também na política da vida do homem banal, como diria Foucault.

Descrever o funcionamento do discurso é o baratinho da Análise de Discurso. Perceber-se como encaixado em um ou outro discurso já é trabalho do dispositivo ideológico de interpretação. Porque todos nós, inescapavelmente, significamos de algum lugar. Não sem resistência, não sem deslocamentos, não sem dores e angústias. E você, leitor ou leitora? Qual é o seu lugar na política?

Pai é bem mais que um pau

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Recebi alguns pedidos para me manifestar sobre o lance da Natura ter chamado o Thammy Miranda para fazer o comercial do Dia dos Pais. Vou abordar o assunto sobre o ponto de vista discursivo, que é o meu baratinho.

Nessa discussão toda, há um embate claro sobre o sentido de família. De um lado, há um discurso de cunho religioso fundamentalista, tipo o dos malafaias da vida, que foca em família a partir do ponto de vista da forma, mais especificamente da forma biológica. Esse discurso entende família a partir de uma concepção pênis/vagina. Só há família se houver um homem e uma mulher, biologicamente definidos. Adão e Eva. O que acontece nessa família é menos importante. Pouco importa se não há uma relação saudável do casal, pouco importa que o pênis e a vagina não mais se tocam porque o casal leva a relação com a barriga. Para quem foca na forma, a discussão sobre a qualidade da relação é geralmente secundarizada.

Do outro lado da discussão, há um discurso que compreende família não a partir da forma, mas de seu funcionamento. Para esse outro discurso, família é um lugar feito por gente que se ama, se cuida, se protege, que dá amor e provê o afeto necessário para preparar uma eventual criança para ser um adulto sadio e feliz. Família, então, é algo independente da forma: o casal pode ter uma relação heteroafetiva, homoafetiva ou trans, como o Thammy. Tanto faz a forma desde que a dinâmica do funcionamento da relação seja a fonte de afeto sadio.

Essa dicotomia discursiva explica a grita sobre o comercial da Natura. Quem se identifica com o discurso do comercial, com a presença do Thammy como o pai homenageado, que privilegia o funcionamento e não a forma biológica, acha bacana demais o foco na diversidade. Porque pai é uma função simbólica, mais do que biológica, mais do um fornecedor de esperma. Quem não se identifica ou se ofende com a Natura, por outro lado, esperneia porque acha que chamar Thammy para um comercial do Dia dos Pais é uma afronta ao que é correto, ou, pelo menos, àquilo que seu discurso sustenta como correto, de Deus. Mas qual é sua concepção de Deus? Um outro texto seria necessário só para discutir isso, claro.

Há ainda uma outra discussão atravessada nessa: sobre moral e ética. Ambas dão liga à sociedade. Mas a moral é individual, para mim, para dentro. A ética é social, para o outro, para fora. Sua moral pode dizer para você que uma relação homoafetiva não é aceitável, não é correta, não é de Deus, whatever. É imoral, ou seja, fora da moral. Da sua moral. E por isso você não se envolve numa relação homoafetiva. Até aí é legítimo. Agora, querer impor a sua moral aos outros, a ferro e fogo, na marra, não é ético. Os outros têm direto à sua moral também.

“Ain, mas como se resolve isso?”. Isso é a diversidade social, amigo. Concordamos com certos discursos e de outros discordamos. Não só nessa questão da sexualidade. Mas na questão da educação, da saúde, das questões indígenas, ambientais, político-partidárias. Resolvemos essas questões nos organizando social e politicamente, buscando gestar garantias coletivas. A união civil entre pessoas do mesmo sexo foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2011. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos. Para mim, que penso em casamento como funcionamento e não como forma, isso foi um grande avanço. É desse tipo de organização que estou falando. A luta política na pólis. Ainda mais em tempos de um presidente xexelento, que defende o discurso da forma.

Tenho visto a proposta de Cancelamento, posta por alguns, de ambos os lados. Cancela a Natura. Cancela o Malafaia. O Cancelamento lacra. Mas é uma bobagem em longo prazo e uma porta muito grande para a intolerância e para o linchamento em curto prazo. Para mim, e tenho dito isso sempre que posso, Cancelamento é um atestado de incapacidade de organização social para implementação de mudança efetiva por vias políticas, que dão, essas sim, garantias para além dos holofotes imediatos das redes sociais.

Abordei aqui dois discursos sobre família. Só que, óbvio, a coisa não é tão arrumadinha quanto eu coloquei no texto, não. Atravessados nessa discussão, há outros discursos. Posso concordar com a Natura pela escolha do Thammy para o comercial, que vai ao encontro do que eu penso quanto às relações afetivas, mas discordar da Natura quanto a algumas de suas escolhas de sustentabilidade, por exemplo, entrando em jogo aí outro discurso, o ambiental. Por isso que dizemos: política é conjuntura. Meu aliado agora pode ser meu adversário amanhã. Depende do enfoque. Depende do discurso. É assim que funciona. Movimento. Movência.

Enfim, grosso modo, viver é isso: é fazer escolhas, é se posicionar. Achar que uma família se faz com um pênis e uma vagina é reduzir ao raso a questão da qualidade de uma relação que precisa de afeto, de amor. Como psicólogo que sou, defendo cada vez mais a ideia fundamental de que o afeto da infância é o que dá liga à saúde psíquica na vida adulta.

É Dia dos Pais. E pai é lugar simbólico, não é só biológico. É um lugar de quem tem pênis ou não, pouco importa, em uma relação homoafetiva ou heteroafetiva. Podem ocupar esse lugar o avô, a avó, o tio, a tia, o padrasto, a madrasta, o padrinho, a madrinha, um amigo da família.

Porque, convenhamos, tem pai que tudo o que fez na geração de um filho foi entrar com o pau para fecundar. E às vezes numa transa xoxa, sem graça. Que esses pais que são só biológicos e que se abstêm de ocupar seu lugar imprescindível de provedor de afeto fiquem bem longe do comercial da Natura ou de qualquer outro comercial do Dia dos Pais. Parabéns, Thammy. Parabéns, a todos os pais que não são só paus.