Esquadros

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Eu ando pelo mundo/Prestando atenção em cores/Que eu não sei o nome/Cores de Almodóvar/Cores de Frida Kahlo/Cores!/Passeio pelo escuro/Eu presto muita atenção/No que meu irmão ouve/E como uma segunda pele/Um calo, uma casca/Uma cápsula protetora/Ai, Eu quero chegar antes/Pra sinalizar/O estar de cada coisa/Filtrar seus graus…/Eu ando pelo mundo/Divertindo gente/Chorando ao telefone/E vendo doer a fome/Nos meninos que têm fome…/Pela janela do quarto/Pela janela do carro/Pela tela, pela janela/Quem é ela? Quem é ela?/Eu vejo tudo enquadrado/Remoto controle…/Eu ando pelo mundo/E os automóveis correm/Para quê?/As crianças correm/Para onde?/Transito entre dois lados/De um lado/Eu gosto de opostos/Exponho o meu modo/Me mostro/Eu canto para quem?/Pela janela do quarto/Pela janela do carro/Pela tela, pela janela/Quem é ela? Quem é ela?/Eu vejo tudo enquadrado/Remoto controle…/Eu ando pelo mundo/E meus amigos, cadê?/Minha alegria, meu cansaço/Meu amor cadê você?/Eu acordei/Não tem ninguém ao lado…/Pela janela do quarto/Pela janela do carro/Pela tela, pela janela/Quem é ela? Quem é ela?/Eu vejo tudo enquadrado/Remoto controle…


Por mais que se tente buscar com os olhos o que passou, tudo ficará cada vez mais distante de nosso alcance. Pessoas, fatos e experiências vão ficando sempre mais para trás, restando acompanhar o que se foi pelo retrovisor.

A metáfora do retrovisor é bela. Mas dentro de nós existe um outro mundo que está fora do tempo, desrespeitando as leis da física e nunca se distanciando: o mundo da memória. Nele ficam guardadas as coisas que amamos e que passaram, que não existem mais no mundo lá de fora, mas que movimentam-se reais no mundo aqui de dentro. Adélia Prado diz que “aquilo que a memória ama fica eterno”. As coisas ficam eternas na alma porque ela, a memória, é o lugar do amor. E o amor não suporta ver as coisas amadas engolidas pelo tempo.

Quais pessoas que passaram pelas nossas vidas e por suas presenças – ou suas ausências – nos tornaram outros? Que lembranças da infância nos voltam vivas por cheiros, músicas e lugares revisitados fisicamente ou no sempre bem-vindo passeio da mente? Ainda sinto o gosto do sagrado sorvete de coco que tomava aos domingos com meus pais. Volta e meia encontro pêlos dos meus cachorros grudados em minha alma. O primeiro beijo que dei acordou todas as borboletas do meu estômago. Minha memória brinda-me, porque os amo, com momentos cristalinos da minha infância. Meus amigos, as brincadeiras de rua, o futebol de moleque no campinho da rua seis. A briga de rua que me ensinou que eu seria uma pessoa da paz. Demis Russos cantando “Forever and ever” me transporta para a distante e presente época em que se tomava banho nos igarapés da cidade.

As memórias não precisam de retrovisor, apenas de coração. Ao olhar o passado pelo retrovisor corremos o risco de bater o carro da vida. Há de se olhar mais para frente. Preso ao que passou, o coração não vê outros ares e fica batendo descompassado com o presente, perdendo o futuro e se quedando ainda mais distante do passado. Pensar o passado pelo critério de memória é a chave. Outra frase a ver com isso: “só possuo aquilo de que lembro”. Está no belo livro “O infinito na palma da sua mão”, de Rubem Alves – ele próprio presente na minha memória de uma noite de conversa mágica nos meus tempos de Campinas.

Saudade vem do latim “solitáte”, solidão. O regresso, em grego, diz-se “nostos” e “algos” significa sofrimento. A nostalgia é assim o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar. Viver o passado pode ser um ato saudoso (se feito na solidão e por ela), nostálgico (se não foi vivido na plenitude e a ele nos prende, carecendo de exorcismo) ou memorioso (quando lembrado com amor e como parte inexorável da vida). Esquadros.

“Esquadro” tem a mesma origem que “esquadrinhar”, “escrutar”, “perscrutar”, que significam sondar, buscar minuciosamente; “esquadro” ainda acrescenta a idéia de medir algo minuciosamente. Juntando Rubem e Adélia, posso dizer que eternizo aquilo de que lembro porque a memória ama. Esse é o meu esquadro. Só não posso cair na hiper-consciência que lembra a angústia de um poema como “Os ombros suportam o mundo”, de Drummond: “Ficaste sozinho, a luz apagou-se,/ mas na sombra teus olhos resplandecem enormes”. Não dá para esquecer, claro, que o mundo nem sempre cabe num esquadro só. Quase nunca. Nunca.

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