Vetores da existência

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“A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo até ser chutado para fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante para poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para faculdade. Você vai paro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta paro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando.E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”. Foi Chaplin quem escreveu isso. No século 19, o escritor irlandês Oscar Wilde abordou o envelhecimento no romance “O Retrato de Dorian Gray”. Nele, o personagem principal, um homem extremamente vaidoso, enlouquece ao permanecer jovem, enquanto um retrato seu, escondido num armário, envelhece.

Baseado num conto do escritor F. Scott Fitzgerald, “O Curioso Caso de Benjamin Button” também aborda o envelhecimento. Benjamin (Brad Pitt) nasceu no dia em que a Primeira Guerra Mundial terminou, em 11 de novembro de 1918. Enquanto as pessoas comemoravam nas ruas de Nova Orleans, o protagonista nascia de um parto que acabou levando a vida de sua mãe. Mas Benjamin nasce com uma doença: um bebê velho, à beira da morte, que rejuvenesce na medida em que os anos avançam. Dessa forma, ele está fadado ver morrer todos que ele ama, numa trama sempre pontuada por nascimentos e mortes. Abandonado pelo pai na porta de um asilo, é acolhido por Queenie, que, considerando o bebê idoso um milagre de Deus, o acolhe como filho. A fábula é acompanhada por meio de um diário escrito por Benjamin, que, no fim de sua vida, foi parar nas mãos de Daisy (Cate Blanchett), o amor de sua vida. Ela está no leito de morte enquanto o furacão Katrina ameaça destruir Nova Orleans, o que realmente ocorreu em 2005. Enquanto sua filha Caroline lê o diário, a história se desenvolve na tela.

O filme fez-me pensar nas finitudes, nos ciclos das coisas, que nascem, crescem e morrem. Envelhecer é o caminho de todos antes da morte, a única certeza que temos na vida e que, por isso, inquieta tanto. A metáfora possível é a de que uns envelhecem e outros rejuvenescem. Há vetores que escolhemos na vida: viver na memória, com a memória ou sem memória? Não damos conta, mas essas escolhas são nossas.

Este é um filme sobre oportunidades, mesmo as que não agarramos. Elas também fazem parte de nossa história. É preciso ter força para se levantar após a queda, para se saber diferente e conviver com a diferença. A vida é amor e perda, alegria e tristeza, felicidade e dor. Vivamos o presente porque nunca sabemos o amanhã. Aprendamos a envelhecer e a viver com o que temos, sem nunca perder o brilho nos olhos. Esse é um filme para sair do cinema, lembrar dos que amamos e jurar para si mesmo: preciso viver a felicidade aqui e agora. Com o nosso termpo marcado, é desperdício viver a vida alheia. Não adianta fazer um relógio magnífico que gire para trás, como faz relojoeiro cego que o instalou na estação de trem da cidade, para que quem o visse pudesse imaginar que seus filhos não tinham morrido na guerra, mas estavam retrocedendo da trincheira para a vida que poderia ter acontecido. Por mais que se dance, como Daisy, envelhecer é exato, preciso. Ainda que viver não o seja, como diz Fernando Pessoa.

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Um comentário em “Vetores da existência

    ***Su*** disse:
    19/01/2009 às 15:47

    Assisti ao filme também. Seu artigo está 10. Chorei bastante em diversas fazes do filme. Mas se fosse para falar do filme mesmo em si, eu diria que não gostei da forma meio Titanitesca como ele foi feito. De resto, tá tudo muito bom. Os diálogos, as mensagens…
    Fiquei mesmo pensando se seria bom se nascêssemos do jeito de Chaplin. Daí cheguei a conclusão de que está bom assim. Como disse o Benjamin ao fugir da paternidade “como pode uma criança cuidar de outra?”. Envelhecer é mesmo preciso.

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