Administração da pessoalidade

Postado em Atualizado em

Uma amiga pedagoga me disse, triste: “professor, acabaram com o Prosed”.  O Processo Seletivo de Escolha de Diretores – Prosed – foi o mecanismo criado pelo ex-prefeito Serafim Corrêa, a partir de nossa proposta quando estávamos na Secretaria de Educação, para eliminar a indicação política como critério de escolha de diretores de escolas. Isso foi em 2005. Sempre acreditamos que é preciso despoliticar a educação para politizá-la, o que passa por instituir a impessoalidade na administração.

Em 2007, o Governo Federal editou o Decreto 6.094 , criando o Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação. São 28 metas a serem cumpridas por Estados e Municípios para que os índices da educação brasileira melhorem. A meta 18 diz: “fixar regras claras, considerados mérito e desempenho, para nomeação e exoneração de diretor de escola”. Antecipamo-nos em dois anos. A convite da Secretaria de Educação Básica do MEC, a proposta de Manaus foi por mim apresentada em reuniões de secretários de educação em Brasília como uma das experiências exitosas em gestão. Algumas cidades implementaram processos parecidos, como Recife, cuja equipe nos visitou para conhecer melhor o modelo.

Pois bem. A Prefeitura de Manaus acabou com o Prosed. Na contramão da história, revogou a escolha de diretores por mérito, com avaliação participativa da comunidade, e reintroduziu o apadrinhamento político para quem vai dirigir a educação. A secretária de educação justificou a mudança com o argumento de que ela “precisa confiar nos diretores”. Isso, ao bom entendedor, significa que a competência e o mérito acadêmico que levaram à posse dos atuais diretores são critérios menos confiáveis do que a indicação política. Diz mais: “Não se seguia a lista dos aprovados”. Posso assegurar, até o momento que lá estive, que esse critério era intocável por ordem expressa do ex-prefeito e do ex-secretário. Que o digam vereadores, que por várias vezes contrariei. A questão de fundo é que de novo se subjetiva o processo de escolha que antes era objetivo, por mais que a secretária faça jogos de retórica.

Para o sistema que volta, o prestígio do diretor indicado é a medida de sua “competência” e a fidelidade partidária o parâmetro de seu “compromisso”. Essa decisão retrógrada, que não surpreende pelo modelo político do prefeito, vem no conjunto de medidas como a recentralização de procedimentos que foram acertadamente descentralizados para a Secretaria de Educação para dar rapidez aos processos, como a criação da comissão de licitação e do setor de projetos de construção de escolas, que existiam na Semed e agora desaparecem. O material escolar vai entrar na fila de licitação geral da cidade, atrás das bolas do Fabrício Lima. Os projetos de novas escolas vão também para a fila da Secretaria de Obras, sem prioridade em relação aos boxes das feiras. No caminho inverso do administrador moderno, a Prefeitura está puxando para dentro em vez de delegar para fora.

Fato é que o anacronismo administrativo, político e paradigmático que se instalou na administração municipal está aparecendo. A sociedade organizada tem de estar atenta para as medidas desta administração que é, sem dúvida, uma administração da pessoalidade.

Anúncios

4 comentários em “Administração da pessoalidade

    Judy disse:
    24/01/2009 às 11:59

    Sem querer ser catastrófica, penso que nossa cidade ainda vai retroceder muito pela escolha feita nas últimas eleições municipais. Os jornais têm estampado (em especial, o “Estado perdido no Tempo”) as ações do atual prefeito como se fossem a luz no fim do túnel, uma reconstrução de Manaus. O que fica claro é que as ações da prefeitura estão “apenas” retribuindo os votos trocados entre candidatos e empresários / apadrinhados políticos. Realmente, a pior ignorância é a política!

    SiNiStRO_UEL disse:
    24/01/2009 às 16:47

    Impressionante a forma como essa Administração consegue retroceder tão rápido… Saber porque Sr. Freire? O TSE irá recolocar as coisas em ordem e eles não dispõem de muito tempo pra fazer o que só conseguimos saber através dos blogs, visto que não existe jornal impresso em Manaus-AM.

    M. Neto disse:
    25/01/2009 às 14:42

    Sofro como quem vê uma chuva e não tem para onde correr.

    É fato que toda administração tem fatos positivos e negativos a serem vistos. Mas também é fato que uma administração embasada em critérios de “afinidade pessoal” dificilmente consegue ser transparente. Esperança? Só tenho junto aos meus alunos. Espero que, ao chegarem à idade adulta, possam evitar os erros de seus pais durante as eleições.

    Por hora, estou correndo de um lado para outro, buscando onde ficar até esse tororó de quatro anos passar… Espero que não venham as enchentes com aquela lama antiga que já sabemos o quanto fede…

    Edson disse:
    30/01/2009 às 14:49

    Prof. Sérgio,

    Por que a categoria está inerte? Anestisiada? Com a consciência cauterizada? Não falam nada!!!!
    É isso e acabou? Cadê o aguerrido sindicato que exigiu sua saída da subsecretaria só por causa de um artigo que expunha a realidade do ensino público brasileiro?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s