Millôr: na Veja de hoje

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UM

Tão mexendo de novo na tua língua. Quer dizer, na escrita, porque na língua falada e na outra, a propriamente dita, felizmente eles não conseguem mexer. E tiveram que abandonar qualquer pretensão etimológica, dava kagadas homéricas! Um competente dizia que a palavra vinha daqui, outro, mais competente, que vinha dali, o Lula não sabia de onde, mas achava que nunca antes.

Céus, o que isso dava de erudito por metro quadrado! Diria melhor, folha corrida. O próprio Aurélio, respeitadíssimo como linguista (além de ótimo escritor), caía na anedota. Etimologia e anedota, aliás, são irmãs gêmeas.

Procurem Canguru no Aurélio. Procuraram? É, taqui:

Canguru: marsupial. Nome dado por nativos australianos a um marsupial.

Segundo a versão do Aurélio, o próprio almirante Cook, ou um seu marinheiro, teria perguntado, em inglês, naturalmente, ao nativo: “What kind of animal is that one, that have a purse and jumps all the time? Has it a name?”. E o nativo, sem nenhuma dúvida, respondeu: “Kanguru (Eu não sei)”.

Isso sempre me lembra aqueles filmes de Hollywood em que os heróis americanos chegavam a uma tribo africana, ou à Índia, ou à Bessarábia, e a comunicação era facílima — os nativos, todos!, mesmo os mais primitivos, falavam inglês sem sotaque. Bons tempos. A produção saía muito mais barata.

A única curiosidade, parece, é que o nativo falou Kanguru com K. Os novos gnomonistas ainda não tinham decidido que era com C.

Pois bem, eu, que tenho orgulho de ser um leigo — aliás, a única classe gnomônica respeitável são os leigos —, vou explicar melhor de onde vem o Canguru.

Kangaroo – wallaroo; wallaby são palavras oriundas de verbos aborígines australianos. Saltar ou pular. Com dois sufixos, roo e by, significando quadrúpedes.

Onde é que encontrei isso? Cara, eu disse, sou um leigo. Não tenho obrigação ética de entregar meu ouro ao bandido.

DOIS

Mas o curioso é que a linguagem “civilizada”, tanto quanto eu sei, e o tanto aí é tão pouco quanto o quanto, começou pela escrita, pelo visual. Daí passou pro fônico.

Digamos grosseiramente. O cara desenhava um sol e um dado. O cara do outro lado sabia que era soldado. Mais tarde um outro cara de bom ouvido passou a usar os mesmos símbolos como adjetivo e para chamar um soldador — sol-dado-or, bombeiro hidráulico. Isso se chama rébus. Sencillo, no mamita?

TRÊS

Durante anos gozamos, no bom sentido, os tais dos sinais diacríticos diferenciais. A gente tinha que escrever acento no medo para diferenciá-lo de medo (aquele dos medos/persas, você ainda se lembra?). E também em tôdo de todo, parece que havia um passarinho português com esse chapeuzinho.

Não me queiram mal, mas não parece linguística de bicha (perdão de novo, de gay).

Pois bem, agora, depois de amplos, profundos, gigantescos estudos, eles vêem (veem) com essa bobajada dos hifens-não hifens, que vai fundir a cabecinha dos alunos e fazer com que alunos brilhantes tenham nota baixa porque não botaram um tracinho entre as pernas (entrepernas) de duas palavras. Porque a professorinha, funcionalmente medíocre, aprendeu e descolou toda essa besteirada.

QUATRO

Bem, mas, convenção por convenção, clitóris ou clítoris, por que não deixar os diacríticos (diferenciais ou não) nas palavras? Já estávamos acostumados. Com os acentos os eruditos pelo menos orientavam o pessoal da planície quanto à acentuação certa. Quer dizer, convencionalmente certa.

Convenção que pode ser feita em meia hora. Mas e as viagens? E o doutorismo?

CINCO

Não me sigam. Acho que a linguística atual é uma ciência fantástica, que cora diante dessas bobagens, deles e minhas. Depois de Chomsky, que li muito e entendi pouco, a língua dos homens passou a ser pra mim uma coisa ainda mais complexa e mais bela.

Agora, aqui pra nós — porque Chomsky abandonou tudo e foi ser um nome cultuado internacionalmente pela esquerda. Já que — um pouco mais, um pouco menos — ele se iguala a todos nos lugares-comuns.

SEIS

E a crase, hein? Que invenção genial! Até a palavra abessa, eles conseguiram dividir, transformar em a bessa, portanto com crase, à bessa, que depois transformaram em à beça. (Não, não vou dar minha fonte. Sou um leigo.)

Só pra terminar: vocês já ouviram alguém falar com crase?

Fonte: http://veja.abril.com.br/280109/millor.shtml

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