O medo da meritocracia

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[Texto que circulou na Comunidade Virtual da Linguagem – CVL -, que responde o artigo de Ângela Soligo e que acredito que vale a pena ler. Uma boa discussão]

Rerisson Cavalcante

Sobre o eloqüente artigo de Ângela Soligo, publicado na Folha de São Paulo:

Eu me pergunto: por que certas pessoas odeiam tanto a meritocracia? Não falo simplesmente de apontarem supostas incoerências ou falhas no processo.   Falo de odiar mesmo. Desprezar. Coisa que podemos perceber pelo tom de voz… ou pelo tom do texto. Nas primeiras referências da autora à  “meritocracia” no texto, ela nem se sente na obrigação de apresentar os  defeitos. Só mais à frente é que faz isso, com argumentos que ficam lindos de serem recitados, mas que não passam de clichês de que têm mais  atrapalhado a educação do que ajudado.

São trechos do texto:  “Esses processos avaliativos baseiam-se em instrumentos padronizados,  inspirados na ideia de meritocracia (…) Para atender aos índices de  desenvolvimento oimpostos pelo FMI .”  Ah, entendi! É baseado na meritocracia? Deus do céu! Faz parte das metas de  desenvolvimento do FMI? Que absurdo! Isso não presta! Precisamos combater com isso! Porcos imperialistas!!!  “O primeiro deles é o princípio meritocrático, que “enche a boca” de  políticos, estudiosos, curiosos etc”  Políticos concordam em premiar o mérito? Patéticos! Estudiosos concordam com eles? Traidores! E os curiosos? Típico deles, tão ingênuos…

E eu repito a pergunta: por que há tanta gente, principalmente na área de educação, que ODEIA a existência de métodos objetivos de avaliação? Aviso aos pedagogos navegantes: querem ser cientistas? Querem ter a pedagogia reconhecida como ciência de fato? Pois saibam: Faz parte da  ciência desenvolver métodos objetivos de tratamento dos fenômenos, físicos ou sociais. Quer dar um fim completo ao tratamento objetivo e adotar apenas, unicamente, o subjetivo? Vá assistir o Big Brother! Lá se pode escolher o vencedor apenas pela simpatia.

Eu posso até entender facilmente porque os incompetentes odeiem a premiação baseada no merecimento. É previsível. O que choca mesmo são os intelectuais terem comportamento idêntico. Eu, por exemplo, sou totalmente incompetente em futebol, e é exatamente por isso que eu ficava chateado quando não era escolhido para jogar. Em se  tratando de futebol, no meu caso específico, pouco importa para mim o mérito, a competência. Eu quero ter o mesmo direito de Pelé ou Maradona de  jogar uma copa do mundo.  O que me surpreenderia realmente é se o próprio Pelé ou Maradona fossem contra a idéia de que só os melhores jogadores fossem jogar na seleção. Afinal, vocês sabem como é: “ser um bom jogador de futebol é relativo. Não podemos avaliar um bom jogador de modo desvinculado das condições de produção do sujeito e suas competências”… Ninguém no mundo do futebol diria isso. Para eles, é muito fácil avaliar quem é o melhor centro-avante: é o que faz mais gols. Simples, objetivo, eficaz. Mas acontece que os nossos Pelés e Maradonas da educação, aqueles que se  passam por elite intelectual da nação, tomam exatamente esse tipo de postura  suspeita e a elevam a pensamento científico. Não, não se trata simplesmente  de defender a inclusão de outros meios avaliativos. Não se trata de defender a análise da “condição humana”. Trata-se de renegar, desprezar e desqualificar totalmente a idéia de que é preciso, sim, haver  método. Que é  preciso, sim, haver objetividade. Que é preciso, sim, haver avaliação de desempenho. Que é preciso, sim, incentivar, premiar o mérito, a capacidade, a superação.

Soligo é apenas mais uma das que defende que não se pode “avaliar desiguais”. O argumento soa convincente, soa lógico, parece ter sentido. Não  tem. É primitivo, é tolo. Carece de reflexão. Carece de compreensão do próprio sentido de se avaliar. Toda avaliação é avaliação de desiguais.  Simplesmente, porque não há iguais. Um professor de São Paulo e um professor de interior do Acre estão em condições desiguais? É claro. Dois professores de São Paulo, formados na mesma universidade, no mesmo ano, na mesma turma também estão. Tiveram todas as mesmas aulas? Um sempre terá dito experiências de vida, de leitura, de relacionamentos diferente do outro. O  que isso significa? Nunca avaliar? Só eu percebo como esse raciocínio já  nasce viciado?

Avaliar é exatamente identificar desigualdades. Até para poder saber lidar com elas. O desempenho é diferente por que as condições são diferentes? Nós podemos simplesmente aceitar isso como um fato da vida e, como conseqüência, nos opormos a avaliar. Ou podemos justamente usar instrumentos para mediar essa diferença de desempenho, para diagnosticar os problemas. A primeira postura é a do que diz “as coisas caem porque caem, é um fato da vida.  Aceite!”. A segunda postura é de quem acha que essa resposta não é
suficiente e que é preciso criar conceitos, métodos, testes para entender o fenômeno da “queda das coisas”. Adivinhem qual dessas duas posturas é a  científica.

Mas quem quer destruir o pouco da cultura meritocrática que ainda nos resta  (ou que se tenta adotar, após quinhentos anos de jogo de comadres) sempre  tem uma desculpa que faz parecer que o objetivo deles não é bem esse. Por  que não adotar outros métodos de avaliação? Avaliação “pelos pares”, “pelos alunos” (no caso de serem os professores a serem avaliados), pelos “produtos do processo de aprendizagem” (seja lá o que se queira dizer com isso), diz a  autora. Eu acho que ela devia ter ao menos coragem de admitir se é ou não a favor de instrumentos de avaliação.  Se ela é a favor, então o emprego dessas formas de avaliação não invalida  e, mais importante, não substitui um processo geral de avaliação, mas o
complementa. Até porque não dá para confiar inteiramente nesses “outros”  método. Sempre há corporativismo na avaliação pelos pares; os alunos podem  sempre avaliar por critérios deturpados. E a avaliar os “produtos do  processo de aprendizagem” significa o que, na fala dela, além de não avaliar nada. Se o aluno teve aulas de matemática, o “produto do processo de aprendizagem” significa ele saber fazer contas de multiplicação.

Mas se, por outro lado, ela simplesmente é contra a “avaliação”, a “cultura  da meritocracia”, coisa hodienta do FMI, do BIRD, da CIA ou do Mossad, blábláblá, que seja honesta e não use a desculpa da existência de outros  tipos de avaliação como instrumento estratégico para combater a incipiente  cultura avaliativa.  Eu sou a favor do fortalecimento da cultura meritocrática no Brasil. Sou a favor do pensamento liberal clássico de que as pessoas devem ser livres, mas  consideradas responsáveis pelos seus atos. E sou contra todas essa baboseira  esquerdista de que todos somos vítimas ingênuas do sistema, e, portanto, não  devemos nos esforçar porque sempre podemos jogar a culpa do nosso fracasso nas costas dos outros. E eu gosto de dar nome aos bois.

Rerisson Cavalcante

Um comentário em “O medo da meritocracia

    Luiza disse:
    08/05/2010 às 16:25

    Sou professora e só posso aplaudir.

    Gostaria de acrescentar uma questão: a FGV fez um estudo (tanto para o brasil quanto para o estado de são paulo especificamente) comparando o salário da vida inteira (incluindo aposentadoria) de um professor da escola pública e da escola privada. A conclusão principal do estudo é que o professor da rede pública ganha MAIS que o professor da rede privada, principalmente porque tem uma aposentadoria maior. O professor da rede privada até ganha mais de início, mas é obrigado a poupar porque recebe menos de aposentadoria do inss.

    Ou seja, se o problema NÃO é salário, do que os professores tanto reclamam? de ter que acordar e ir trabalhar todo dia? ohhhhhh!!!! coitados!!!

    O resumo do estudo está em http://www3.fgv.br/ibrecps/rede/seminario/pdf/Samuel_Pessoa_v.pdf

    O estudo está em http://www3.fgv.br/ibrecps/rede/ETAPAS/etapa5_Samuel.P_Fernando.Filho/rede.pdf

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