Shakespeare apaixonado

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[Gosto deste texto. Sem muita razão. Simplesmente gosto…]

“Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Shakespeare chama a atenção para nosso limite de compreensão dos fatos da vida. Algo que realmente me intriga é a empatia ou antipatia imediata em um primeiro encontro de duas pessoas que nunca se viram. Como a janela faz parte da paisagem, mil explicações podem ser dadas. Vou falar de duas.

Os espiritualistas dizem que os encontros e desencontros são acertos de conta de vidas passadas. Racionalizam sua fé na infinitude da existência humana. “Gostei de fulano porque em uma outra vida ele me salvou da morte”. “Desgostei de sicrana porque na idade média ela foi a mulher que me fez sofrer”. É uma explicação que não deixa de ter seu charme e que já serviu de enredo para filmes belíssimos, como “Amor Além da Vida”.

Os menos metafísicos preferem a versão biológica. É o cheiro da outra pessoa, imperceptível mas atuante, que nos liga a alguém de primeira. Química pura. Nosso instinto de preservação da espécie fala mais alto nas escolhas, sendo a fêmea eleita pela capacidade de gerar herdeiros e o macho pela promessa de ser um bom provedor para a prole. Pouco romântico, eu sei. Reduz a complexidade da simpatia, da paixão e do amor a convulsões hormonais.

Pare e pense nas pessoas com quem você simpatizou de bate-pronto. E naquelas outras com as quais seu santo não bateu, para usar outra expressão metafísica. É meio irracional, não? Por que gostei tanto de conversar com aquela pessoa que nunca vi antes, ansiando por encontrá-la de novo? Por que fujo daquele sujeito antipático, de quem não gosto sem saber o porquê?

Recuso a crer que somos só almas que se encontram no espaço cósmico já definido por alguém. Tampouco somos somente um amontoado de células com anfetaminas naturais correndo pelo corpo, suando a palma da mão e dando frio na barriga. Aposto que somos uma combinação: corpo e alma são as duas faces da mesma moeda de quem está vivo. Podemos achar que há razões místicas para o bem-estar de companhia de alguém que acabamos de conhecer. Podemos cientificizar as relações e dizer que Darwin tinha razão: é a sobrevivência da espécie e é assim que funciona e pronto, sendo o amor romântico uma balela.

Há pessoas de quem gosto muito apesar de vê-las e conhecê-las muito pouco. Ou até de nunca tê-las visto, a não ser em foto no Orkut ou no avatar do Twitter, colocando em dúvida um querer-bem vindo dos sentidos biológicos. Aí a teoria das vidas passadas cai como uma luva. Há outras de quem não gosto sem saber muito bem a razão, apesar de tratá-las nos limites da boa convivência social. Aparte: toda essa conversa, registre-se, vale tanto para o amor Eros quanto para o amor Ágape, aquele que Aristóteles chama de “philia”, afinidade. É possível querer bem a alguém sem querê-lo para si. Dei-me conta de repente de que estou querendo explicar o inexplicável.

Então, termino como comecei, com Shakespeare: “Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.” É melhor não buscar explicações para essas coisas. É mais prudente não se perguntar sobre seus motivos. “Pobre é o amor que pode ser descrito”, diz o bardo. Descrever para quê afinal?

Sérgio Augusto Freire de Souza
15 de agosto de 2008

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5 comentários em “Shakespeare apaixonado

    Tatiane disse:
    01/08/2009 às 16:06

    Very interesting. =)

    Lennon Jorge disse:
    05/01/2010 às 21:35

    Texto muito bom mesmo. =)

    Luna disse:
    20/07/2010 às 19:07

    meu amor gosta do meu cheiro.. ele sempre, muito antes de nos relacionar, falava nisso.
    o outro motivo é a admiração.
    ele me elogia e admira…
    fora a química, a física, a anatomia, o espírito, a alma, essas coisas que compõem o que não sabemos explicar até hoje.

    Emilia disse:
    17/01/2011 às 01:07

    Texto muito bem organizado, tem explicações espirituais, explicações fisico-quimicas, biológicas e no fim essas explicações não servem para explicar mais para divertir o autor e seus seguidores, pois é, somente para reflexão, nossas vidas não é necessario de explicação, pois o que queremos é ser elogiados e temos no fundo no fundo bem lá no fundo um egocentrismo maior ou menor, rss. Pessoas receptivas, educadas em nossa visão nos fazem bem, por isso podemos ter empatia e pessoas que não se enquadram em nossa visão podem parecer antipáticas.Muitas vezes achamos uma pessoa antipática e depois percebemos que na nossa conclusão que fizemos um “pré julgamento” afinal somos humanos e fazemos isso sempre a todos e a tudo que desconhecemos. rss Bem eu tentei.

    Neyde Silva disse:
    01/05/2012 às 11:16

    Incomensurávelmente belo, assim sendo não precisa de comentários… Precisa apenas ser lido , entendido e vivido, pois o que ainda falta no homem é sabedoria para viver de forma acertada! Neyde Silva

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