A dor

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[Escrevi este texto há uns sete anos. Relendo meus alfarrábios o encontrei, mas decidi modificá-lo em alguns aspectos por acreditar em algumas coisas diferentes em relação ao que lá dizia. Na essência, continua a mesma coisa: só sai da dor quem está a fim de encarar seus fantasmas. Quem não está sempre racionaliza. É um texto um pouco maior do que os que tenho publicado recentemente. Faz parte de uma fase José de Alencar, em que para dizer “o Sol nasceu” eu dizia “O Astro-rei de quinta grandeza arrebentou para  a vida descortinando a existência que lhe aguardava gélida…”. Fases.]

A dor: do corpo ou da alma?Dentre as sensações humanas, uma das mais indesejadas é a dor. Por que a dor existe? Por que somos forçados a encará-la, experimentá-la, conhecê-la? A dor é um misto de ódio e medo. Creio que até mesmo o medo da morte perde para o medo da dor. “Quando eu morrer eu só não quero sentir dor”, diz-se.  Morrer, vá lá que seja…agora, com dor?

Na guerra contra a dor não estamos mal servidos. A medicina nos apresenta armas eficientes, seja contra a dor aguda, como um alfinete que perfura o olho, ou a dor crônica, como a gota chinesa na testa; seja a dor física, que dilacera o corpo, ou a dor anímica, que corrói a alma. Há escolhas: de analgésico a antidepressivos; de aceitação à internação; maracujina ou marijuana; analista ou álcool.

As formas de lidar com a dor também têm sabores diferentes. Uns simplesmente a ignoram e seguem a vida, pseudo-heroicamente. Digo pseudo porque são pessoas que não querem, não podem ou não têm coragem de olhar a causa da dor de frente  e se entregar, se despojar de forma tal que deixem de ser estrangeiros a si mesmos. É o que resolve, segundo a psicanálise. Essas pessoas são como crianças que fecham os olhos para aniquilar o perigo que vêem na certeza de que assim que as pálpebras se tocam a realidade se esvai. No outro extremo, há os que se desesperam tanto que vêem somente no fim da própria vida a possibilidade do fim da dor. A dor altera paradigmas. Ignorar total ou se rendar total? Esses são extremos, mas há os meios.

A dor é uma experiência universal que tem como função vital disparar a proteção em relação a algo. Há pessoas que possuem uma doença congênita rara que faz com que elas não sintam nenhuma dor. O que parece ser uma benção dos deuses é um martírio, pois se deixa de ter os pequenos avisos sobre os perigos que podem levar até à morte prematura. Um braço queimado e não sentido pode ser fatal. A sensação de dor é constitutiva do ser vivo.  A dor vista do ponto de vista físico é um mecanismo de defesa fundamental do corpo. A dor é sempre um aviso: olha, aí tem algo. Ela é amiga.

A dor da alma também tem sua explicação, função e lógica. O componente emocional da dor é determinado por variáveis. Entre elas estão experiências passadas, fatores genéticos, estados gerais de saúde, presença da depressão ou outros diagnósticos psicológicos, mecanismo de gerenciamento em relação à vida, além das crenças e medos em relação à própria dor.

O que é interessante notar é que o estímulo ou o desestímulo para dor anímica é interno. São os pensamentos que influenciam a percepção, o tom e sabor da dor da alma. Andei lendo e descobri que esse mecanismo de controle, essa porta de entrada, esse registro de vazão, está dentro daquilo que na medicina se chama “teoria do controle do portão”. Assim, pensamentos (crenças, medos, depressão, ansiedade, raiva, sensação de impotência) e sensações geradas perifericamente podem bloquear ou amplificar a dor, dependendo de como se gerencia o relógio do registro. Na maioria das dores crônicas, a redução da dor só pode ser conseguida por meio da modulação dos aspectos psíquicos da dor. Como o peso dado à dor psíquica e a capacidade de gerenciar a chave do registro vão variar e muito de paciente para paciente, o tratamento da questão tem de se individualizado. É quando entra a análise.

Ter uma dor que não vai embora, ter a sensação de que ela irá se estender indefinidamente no tempo gera um caldeirão de emoções e comportamentos que paralisa. É contraproducente até para lidar com a própria dor que o gerou, lembrando o Efeito Tostines das dores: dói muito porque não sei lidar com isso ou não sei lidar com isso porque dói muito?

Se a gente deixar, a dor tomar conta, faz a festa. Ela monopoliza a atenção (não se faz mais nada), causa uma fadiga crônica (dormir para quê, se ela pode me pegar dormindo, como a morte?), paralisa (o movimento – qualquer um – aumenta a dor). Daí a vontade de nem se mexer. O resultado final da dor crônica engloba doenças depressivas, discordância afetiva, dificuldades profissionais, dependência química, reclusão social, distúrbios de sono, fadiga crescente, crenças inadequadas em relação aos fatos da vida e alterações radicais na personalidade anterior. A dor anímica, como a dor física, é um aviso de que há algo de podre no reino da Dinamarca. Ou cuida ou dança.

Assim como a dor física, a dor anímica pode ser tratada ou pode levar à morte. Se para a dor física há medicamentos variados, para dor anímica, o sossego – mais do que dos Lexotans da vida –  vem a partir de olhar o fato causador de frente e dizer: “vou te vencer!” É intrínseco. É preciso forçar uma mudança em nossa sintonização interior, o que se refletirá em nossas palavras, pensamentos e comportamentos. É preciso redirecionar o íntimo, o psíquico. Nem sempre temos essa capacidade. O tempo e a história são muito peculiares para cada um.

Cada vez me convenço mais de que não existe nenhum tipo de injustiça nos efeitos recíprocos que nos atingem. Não há arbitrariedade. A arbitrariedade que lemos nas coisas são mecanismos nos quais precisamos acreditar para achar que tudo sempre tem uma explicação. Assim, estou convencido de que tudo que nos toca agora foi gerado por nós mesmos em algum momento de nossas existências. Com nossos atos e omissões acabamos, involuntariamente, gerando a dor no futuro. Os Hare Krishnas chamam isso de Karma, os cristãos de Lei da Reciprocidade, o Direito nomeia como Lei de talião (olho por olho) e os Bad Boys chamam da política do Bateu-Levou. Isso vale para a dor também.

O homem colhe o que planta, só percebe isso quando já está maduro – sem trocadilho – e é mais trabalhoso desplantar o que já dá frutos hoje, alguns podres, daqueles que fedem tanto que evitamos passar perto. É o reino da Dinamarca. Há uma correlação entre a dor que agora sentimos e a gravidade das nossas escolhas tortas. E digo tortas se vistas do prisma da maturidade, que só vem depois dos quarenta, e vista também a partir de uma perspectiva social e valorativa predominante, não portadora exclusiva da verdade essencial, que não existe. Até antes dessa fase da vida, grosso modo, as análises valorativas são pura retórica argumentativa, conversa para boi dormir. Podemos passar a vida toda segurando o nariz para não sentir o fedor e perder, com isso, a mão direita para sempre. Ou podemos respirar fundo a podridão de nossa dor, meter o pé do mar de merda, arrancar com raiva os frutos rotos e tentar voltar à mínima segurança e paz, se se conseguir sair vivo dessa batalha inglória, diga-se de passagem. Sai-se no mínimo, mal cheiroso. E assim fica-se por algum tempo.

A maioria das pessoas não está a fim de meter o pé na lama e resolver suas podridões. Prefere segurar o nariz, mesmo perdendo tudo que a mão que aperta a cartilagem poderia oferecer. É uma metáfora. E os que querem, coitados, os que se jogam com decisão na porcaria que os separa de sua paz são rotulados como uns desvairados idealistas que nadam loucamente contra a corrente, porque ninguém faz isso. “Todos fazem do outro modo” é a frase que se utiliza para dar uma falsa paz psíquica e justificar a acomodação. Diga isso às mamães-peixes, que nadam contra a corrente, sobem cachoeiras, enfrentam pororocas para dar a vida aos seus filhotes na cabeceira do rio. É necessário nadar contra a correnteza, mesmo que seja doloroso, exaustivo, dê vontade de desistir. É assim que se resolve a coisa. No final, extenuado, morto, sem forças, você tem algo de volta que nada paga: a vida. Limpa dos cheiros fétidos dos campos de outrora. Pronta para uma nova plantação, com sementes escolhidas a dedo, dedo da mão que agora está livre de segurar o nariz. A dor, no fundo, no fundo, é falta de compromisso com a vida. Ou foi.

Somos desde sempre indivíduos. Mas sujeitos mesmo só nos tornamos quando esfacelamos a mera contemplação e agimos. Quando fundamos nossa subjetividade. Se nossa subjetividade começa a se constituir como resistência é preciso refazer a categorização do sujeito. O sujeito do desejo sacrifica o sujeito do conhecimento. Para compreender um, o outro tem que morrer. E dói gerenciar tudo isso. Como dói.

Enfim, para resumir toda essa teoria acerca da dor, fica Caetano: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Que as dores passem. Que as delícias fiquem. É o que desejo para mim e para quem gosto, com os instrumentais psíquicos de que disponho. É nisso que sustento – ou busco sustentar – a vida, para ser sincero: na certeza de que, como diz a minha poetisa preferida, Florbela Espanca: “Tudo na vida é frágil, tudo passa”. Até a dor.

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3 comentários em “A dor

    Suelen de Andrade Viana disse:
    12/03/2009 às 22:51

    Porra Sérgio! Tu és foda mesmo. Desculpe-me pelo porra e pelo foda, mas tem coisas que só certas palavras conseguem dizer.

    Logo hoje que estou curtindo as dores da prerrogativa de ter um corpo feminino, em meio a cólicas e desejos insanos de matar alguém, você me vem com essa das dores. E ainda me termina com verso de Florbela Espanca para alimentar a dor de uma saudade que ainda é enquanto não passa!! Só você mesmo!!

    Sempre alerta!

    Sue

    Luana disse:
    20/12/2010 às 22:30

    Adorei! Sensacional!

    lio disse:
    15/03/2012 às 08:20

    Não é atoa que Dona Angela Bessa lhe admira. Foi muito bom ler nessa manhã!

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