O ouro e a madeira

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Diferente dos outros ou igual a mim?

O ouro afunda no mar/madeira fica por cima/ostra nasce do lodo/gerando pérolas finas/ Não queria ser o mar, me bastava a fonte/ muito menos ser a rosa, simplesmente o espinho/ Não queria ser caminho, porém o atalho/ muito menos ser a chuva, apenas o orvalho/ Não queria ser o dia, só a alvorada/ muito menos ser o campo, me bastava o grão/ não queria ser a vida, porém o momento/ muito menos ser concerto, apenas a canção.

 

Arrumando meus CDs, me deparei com um chamado Samba Bom Nunca Morre. Levei para o carro para ouvir e lá pelas tantas tocou “O ouro e a madeira”, de 1975, cantada pelo grupo Nosso Samba.

Como trabalho com discurso, aponto duas posições em jogo na música. A posição de quem quer, por um lado, estar em evidência, tem como ambições as expectativas do que é socialmente mais valorizado e, por outro, a posição de alguém cuja realização subjetiva está em ser, estar e permanecer em lugares simbólicos que podem não ter apelo social, mas satisfazem a subjetividade na sua simplicidade.

Há pessoas ouro e há pessoas madeira. Ambos reais e legítimos. Ser um ou outro é resultado das querências históricas que moldam as vidas. Onde habita a melhor da vida? Na fama, sucesso, prestígio social, com bastante dinheiro? Ou na realização pessoal de uma vida fora de tudo isso, no anonimato escolhido, no encaixe social previsível, no prestígio interno e com dinheiro o bastante para viver bem? Ser mar ou fonte? Rosa ou espinho? Caminho ou atalho? Chuva ou orvalho? Dia ou alvorada? Campo ou grão? Vida ou momento? Concerto ou canção? Até que ponto a busca pela provável grandiosidade simbólica não sombreia a paz de uma escolha simples pela felicidade? Quem define o tamanho das nossas ambições, materiais ou existenciais? Nós ou os outros?

Minha tese é a de que o valorativo não é inerente ao lugar, mas surge no encontro (ou desencontro) entre ele e o sujeito. Não há um lugar melhor do que outro a priori. Parece-me que o melhor/pior só aparece na coincidência ou não entre o lugar desejado e o desejo alcançado. Há pessoas que querem ser o mar, o são e são absolutamente felizes. Há pessoas que são o mar e prefeririam ser a fonte, como o eu-lírico da música. Há pessoas que são a fonte e prefeririam ser o mar. E há pessoas que são a fonte e estão realizadas em sê-lo. As duas pontas não são problemáticas. Os miolos sim, pelas não-coincidências.

Angústia, decepções, azedume, tristeza e incapacidade de viver feliz vêm dessa não-coincidência: o sujeito deseja um outro lugar, sofrendo por habitar o seu. O que fazer então? Há duas opções lógicas: continuar tentando migrar a todo custo ou redimensionar seus desejos em função dos limites. Desconhecer o que se quer e o que se é é o primeiro problema a superar. Ser feliz passa por refletir sobre a tristeza.

De que, afinal, estou falando? Estou falando que uma música me diz o que minha vó dizia: “Tudo é do tamanho que você faz. Se fizer pequeno será pequeno, se fizer grande será grande”. É isso. Não dá para criticar sonhos alheios. Nem que ele seja o de não sonhar. Cada um toca sua canção, carrega seu grão, faz o seu momento. A felicidade é escolha. Cada qual no seu quadrado.

 

SF, 15.03.2009, 7:45h

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3 comentários em “O ouro e a madeira

    Lucinara disse:
    15/03/2009 às 21:12

    Não importa rosa ou espinho…campo ou grão…vida ou momento..e sim com certeza realizações pessoais que trazem satisfação para o ego…

    Acner disse:
    15/07/2010 às 08:24

    Acho que essa música é do Batatinha, gosto muuuito dela.
    Eu, quando a ouço, penso não nas pessoas ouro, mas na posibilidade de ser feliz sem pretender ser o ouro do mundo. Isso. Cada um vive tentando ser melhor cada dia, mas nunca, nunca é suficiente. E pasa que o ouro pode afundar no mar por causa dessa obsessão. A vida tem muito de simplicidade que a gente tem que valorizar 🙂

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