A política maior e a política menor

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Quando produzi um livro didático que foi utilizado na rede estadual de ensino, ouvi algumas críticas. Elas eram do tipo: “Mas você vai vender seu livro para ser usado no governo do Fulano?”. Meu argumento era duplo: primeiro, sou profissional e estava executando um trabalho técnico. Segundo, se havia a chance de implementar o que eu acreditava que era melhor pedagogicamente naquele contexto político, não seria o grupo político no poder que seria impeditivo para que eu o fizesse. E fiz. O livro foi vendido a uma editora que, por sua vez, ganhou a licitação. Por anos, nosso material foi usado nas escolas de ensino médio do Estado com bastante aceitação. No governo do Fulano.

Trago essa questão para introduzir outra: existem dois tipos de política, a política maior e a política menor. Enquanto a política maior se preocupa com políticas públicas, a menor se preocupa com o trânsito do particular nas políticas públicas. Exemplo: na administração municipal passada, estávamos preocupados com a forma de escolher diretores de escolas de modo menos pessoal e mais profissional. Criamos um processo que considerava o mérito e a avaliação participativa da comunidade. Isso, na nossa convicção, alteraria qualitativamente o ensino. Logo o Ministério da Educação estabeleceu a escolha meritocrática como uma das metas do Todos pela Educação. Enquanto essa preocupação com a política maior seguia, havia pressões políticas para tentar furar os critérios e manter diretores antigos, em um claro exemplo de política miúda.

Ao estabelecer o novo plano de cargos de professores, definimos que só fariam parte do plano, bem melhor que o anterior, os professores que efetivamente estivessem atuando na Secretaria de Educação. A ideia era trazer de volta os inúmeros professores em desvio de função em outros órgãos. Como há alguns professores que não querem dar aulas, logo a política menor começou suas pressões para que o plano contemplasse esses exilados.

Poderia desfiar um rosário de exemplo de como essa dupla política acontece. Não precisa. O leitor inteligente sabe que por trás de cada gesto de política maior, que privilegia uma maioria em detrimento de uma minoria – afinal são políticas sociais -, os parasitas da política menor se mexem feito formigas que têm seu formigueiro chutado. Havendo política de Estado, há sempre politiquinha de bastidores querendo miná-la.

O que nos cabe como sociedade organizada é apoiar as políticas maiores e rechaçar as poliquetas jitinhas. Seja por meio de organizações sociais, blogs, colunas de jornais ou o que o valha. Não dá mais é para deixar passar em branco sob o risco de ver a politiquinha tomar o espaço da política maior e virar prática descarada. Essa é nossa responsabilidade e nosso compromisso de cidadão.

Obviamente que tenho simpatias políticas, mas nunca me filiei a nenhum partido porque, geralmente, quando conflita a política maior com a menor, um partido opta pela segunda. Meu compromisso profissional e como amazonense é com a política maior. Onde ela estiver, lá estarei eu. Escrevendo, cutucando, apanhando. Mas convicto por lealdade a princípios. Seja com Fulano ou com Beltrano.

SF, 24/03/2009, 11:30h

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