O preço de dizer-se azul

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AzulMuitos avaliam o mundo pós-moderno como o paraíso da relativização. Nesses dias de hoje tudo pode, todos os sentidos são possíveis. É o fim das certezas, das grandes narrativas, das receitas prontas. Essa leitura da pós-modernidade é só um lado da história.

Se tudo pode, se as grandes receitas – como a religião ou o marxismo – estão sendo postas em cheque, vivemos o advento das pequenas receitas e da emergência do local. Se o a priori fica prejudicado, abre-se espaço para o a posteriori. Se o que era dominante hoje já não o é é porque cedeu lugar para sentidos minoritários se estabelecerem. Portanto, é falsa a ideia de que o mundo se acomodou ao niilismo pós-moderno. Essa ideia  é desafiada pelo aparecimento das verdades fragmentadas dos grupos, das tribos. Nunca como antes o campo da certeza foi tão amplo e tão estreito. Não há mais verdade absoluta geral, só relativa. Mas não há relativização da verdade do grupo a que se pertence. Foi-se a grande certeza e vieram as certezas contingentes.

A própria democracia preza o respeito pelas diferenças. Mas os diferentes não abrem mão de suas verdades. Assim é com os negros, com os índios, com os capitalistas, com os religiosos, com os comunistas, enfim, como todo mundo. Por isso, ainda que vivamos na retórica da diferença, a intolerância de todos os tipos tem aumentado consideravelmente porque as certezas são mais certas. Porque se reconhece a diferença – o que não se fazia antes – para combatê-la e, se possível, suprimi-la.

Há verdade nos discursos que nos habitam e pré-construindo nessas verdades significamos o mundo. Mas afirmar-se azul sem reconhecer o direito dos outros em se afirmar amarelos, vermelhos ou verdes é sair da retórica padrão das expectativas pós-modernas. Ter convicção sobre sua azulidade é um problema. Não se pode. Ou não se deve. Dizer-se azul tem um preço a ser pago.

Eu sou contra cotas nas universidades, a favor da demarcação contínua na Raposa Serra do Sol. Sou a favor da interrupção da gravidez em bebês anencéfalos e em caso de estupro. Defendo o uso da camisinha por uma questão de saúde pública. Abomino qualquer forma de violência, física ou simbólica. Concordo com a proposta do vereador que quer conceder o título de utilidade pública à Associação das Prostitutas. Tenho preocupações ambientais com a sustentabilidade desde que não se fale de intocabilidade da natureza. Respeito quem pensa diferente, mas respeitar quem acredita no contrário não me faz acolhedor de suas verdades. Aliás, se puder convencê-los melhor ainda.

Aonde quero chegar? Quero dizer que o mundo da verdade única acabou. Em seu lugar, surge o mundo das verdades fragmentadas. Em sua fragmentação, essas verdades ganham mais sustança e convicção. O desafio é conviver com a diferença sem naturalizá-la, posto que ela é histórica, e fazendo-se sujeito do convencimento alheio pela superação da diferença e não por sua supressão, sua eliminação, seu silenciamento. No mundo cada vez mais colorido, dizer sua cor e assumir seus tons é um diferencial. Ainda que ter opinião incomode. Aliás, por isso, voto em Márcia Perales para reitora da Ufam.

SF, 31/03/2009, 09:00h

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Um comentário em “O preço de dizer-se azul

    orlando disse:
    31/03/2009 às 18:44

    É bom criticar o mundo pela suas verdades fragmentadas ou o que julga ser desleal com a conduta humana daqueles que não têm força para lutar e para corrigir os possíveis erros. A utopia paradisíaca que se deseja, tornar-se eterna e está configurada no dia-a-dia, onde é visível as mazelas da sociedade, ocorrendo o inaceitável para com a dignidade humana, que continua prevalecendo sobre cujas vozes permanecem em silêncio. Enquanto houver liberdade, mesmo que ideológia, pode-se usar o discurso em prol da isonomia de todos na sociedade.

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