Curriculum Vitae

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Todos conhecem a expressão latina que dá título a este texto. Trata-se do caminho da vida. Fiquei pensando aqui com meus botões: por que será que quando se fala em submeter o curriculum vitae em busca de emprego se recorta a vida somente nas questões da escolarização e da vida profissional?

O caminho da vida é mais complexo. Qualquer calouro de psicologia ou sociologia sabe que personalidade, valores e comportamentos são frutos de nossa vivência social. Dizendo de outra forma: somos o que temos aprendidos a ser em todos os aspectos da existência, não somente nos processos de educação sistemática e na trajetória profissional.

Nosso curriculum vitae deveria se estender para outras áreas. A pessoa já sofreu por amor? Quem supera o fim de um investimento afetivo é um sério candidato a superar qualquer problema no emprego. Gosta de cachorro? Porque não gostar de cachorro é uma carência fundamental. Quando criança, dar banho e colocar o leite eram tarefas desse que vos escreve essas mal digitadas. Com as Laikas da minha vida aprendi a ter responsabilidades. Falhar era fatal com quem confiava em mim. E música? Que tipo de música gosta? Não gostar de música é complicado. Tudo bem, a pessoa pode até não gostar de Legião Urbana. E pode até gostar de Rolling Stones. Gosto é gosto. Mas tem de gostar de música. A vida sem música para mim é mais do que motivo para olhar enviesado para alguém numa entrevista de trabalho.

Outra informação que deveria estar nos curricula vitae por aí: o último livro que leu, com breve resumo. Tudo bem, para certos cargos não se exigiria um livro inteiro. Talvez um poema. Na seção sobre literatura do curriculum, escrever-se-ia algo como: li recentemente o poema “Verdade”, do Drummond, e ele me fez pensar como devemos ser tolerante com a diferença. Ou: No livro que li recentemente, “O Deus de cada um”, de Waldemar Falcão, aprendi que a fé em Deus tem vários caminhos, todos igualmente válidos.

Fato é que um curriculum vitae do jeito que é feito hoje não dá conta. E não dá conta porque não leva em conta questões essenciais para que se conheça uma pessoa. Não basta dizer que fiz um curso de informática ou de inglês. Preciso deixar claro em algum lugar que gosto de gente e não faço mal ao próximo de graça. MBA? Grande coisa diante do meu compromisso com o meio ambiente. Escreveria na Seção O Que Me Irrita: pessoas que jogam lata de refrigerante da janela de seus Fusions. Doutorado na Unicamp é fichinha frente à indignação contra o mal uso dos recursos públicos. Pós-graduação em Harvard é café com leite diante da minha genuína felicidade em ver o outro feliz. Mestrado no MIT? Nadica de nada frente ao prazer de reunir no fim de semana com a família para rir, felizes.

Como colocar isso tudo no currículo? Pode ser em novas seções. Sugiro algumas: Experiências Afetivas, Animais Que Tive, Cabeçadas Que Dei, Momentos Felizes Marcantes, Eu e a Música, Doidices Que Ousei, Coisas Que Li e Fizeram Diferença, Cinema e Eu, O Pior e o Melhor de Mim Por Mim Mesmo. Por aí vai.

Ah, claro. É preciso não esquecer as tradicionais Dados Pessoais e Experiência Profissional. Vai que você encontra um entrevistador do século passado por aí…

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7 comentários em “Curriculum Vitae

    Cleamy Albuquerque disse:
    15/04/2009 às 04:40

    Gostei demais desse texto! Em março, quando fiz aniversário, ensaiei várias vezes escrever o meu CV assim. Ri. Sorri. (Dei gargalhadas até!) Chorei. Senti felicidade. Senti orgulho. Senti o coração apertado de saudade também. (E isso foi bom!)Não passei do “ensaio” ; ), mas valeu esses momentos para pensar na trajetória vivida até aqui, respirar fundo e continuar, da melhor forma, o meu caminho da vida!

    Marília disse:
    05/11/2009 às 10:19

    Concordo com teu ponto de vista!

    Sempre achei evasivo o CV se não falarmos sobre nossa vida e somente dos nossos afazeres!

    Passe adiante esta ideia!

    Um abraço! \o/

    Tânia disse:
    11/03/2010 às 13:53

    Engraçado, o livro “Quem me roubou de mim?” aborda a subjetividade que tem tudo a ver com o que vc escreveu.
    Já assisti muita gente que apresentava um CV bem feito ser o oposto das qualificações apresentadas. Sem falar do conhecimento declarado no tal CV.
    Será que isso tb cabe no Curriculum “Au-Au” (Lattes?)

    Juliana Sá disse:
    11/03/2010 às 14:19

    Também concordo com a ideia de que numa seleção de carreira – emprego soa um tanto efêmero – um indivíduo deveria ao menos ser indagado sobre suas vivências mais relevantes e as experiências acadêmicas mais gratificantes, explicando o motivo das escolhas. Falar de música, então, seria, na certa, um bom critério classificatório. 🙂

    Porém, mesmo de acordo tenho de ressaltar que um currículo dessa natureza não é para qualquer um. Já imaginou como seria indagar acerca das experiências afetivas a uma mulher em depressão? Ou questionar a um narcisista daqueles bem chatos sobre seus principais atributos? Um vaidoso desregrado numa seleção de gestão de pessoas, no mínimo, daria uma conversa bem entediante. :/

    No fundo, tenho de confessar que adoraria passar por uma experiência dessa. Por enquanto, vamos partindo da ideias que um dia possa ser que se torne realidade.

    Parabéns pela genialidade, Sérgio.

    rafael d. disse:
    10/04/2010 às 10:39

    Ótimo post. Parabéns.

    kelly drummond disse:
    10/04/2010 às 10:51

    Ótimo texto! Uma visão diferente do assunto! Descobri que meu CV é muito mais rico se considerar meu nível de felicidade!!!!!

    Júnior Rodrigues disse:
    11/05/2011 às 00:13

    Seria um CV mais humano e assertivo,muito bom o texto! @junior_ciao

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