Um texto antigo para recordar

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EDUCAÇÃO PARA O NEXO

Quando minha mãe estudava, o bom aluno era aquele que tinha a melhor memória. Era fundamental saber de cor os afluentes da margem esquerda e direita do Rio Amazonas, bem como saber quem foram os Hícsos. Acredito que essa competência memorística era exigida porque não se tinha um Google da vida e o acesso à informação era restrito.

Hoje, a informação está em toda parte: revistas, TVs, jornais, rádio, internet, blogs. Basta esticar a mão (ou clicar o mouse) e pegar. A sociedade da indústria cedeu lugar para a sociedade da informação. Se antes o problema era acesso à informação, hoje é excesso de informação.

Essa mudança paradigmática da sociedade já há algum tempo aponta os novos caminhos que a escola deve tomar: deslocar-se da escola de informação para a escola da informação. Da competência memorística para a competência relacional. Nossos alunos precisam entender a conexão entre as informações a fim de filtrar dessa enxurrada aquelas que lhe são significativas para, com o processamento relacional, gerar novas informações para os que vêm depois. A escola deve privilegiar o conhecimento significativo por meio do exercício dessa competência pelos alunos.

Apesar dos discursos progressistas, a escola tende a ser bastante conservadora em suas práticas. Por isso, demora a fazer deslocamentos reais. Há um descompasso entre o que o aluno precisa para viver a vida vivida no mundo da informação e o que efetivamente recebe da escola no modelo atual. Esse descompasso resultou numa geração inteira (talvez mais) que sofre da incapacidade de articular a com bê. São pessoas que não conseguem compreender o que que o cós tem a ver com a calça.

Exemplo: uma professora pediu que fosse liberada de suas atividades na Semed, recebendo salário, para dar aulas no Proformar da UEA. Traduzindo: ela queria receber sem trabalhar ou, melhor colocando, queria trabalhar por um e ganhar por dois. Pediu por escrito, teve seu indeferimento e ainda ficou com raiva sem entender o porquê. Falta de competência relacional. Outro: você faz uma compra e raras são as lojas que dão a nota fiscal. Só dão se você pedir e ainda assim o pedido é tomado como ofensa. Esse mesmo infeliz que não dá a nota vai para a casa reclamando dos buracos do caminho, sem entender o nexo entre o imposto que sonega e falta de recursos do poder público para tapar os buracos. Capacidade de compreensão sonegada pela escola. Um exemplo final: um político defende a melhoria da qualidade de ensino. Aí ele vem e pede a disposição da professora das crianças para seu gabinete. A troca de professora vai causar prejuízo pedagógico, uma vez que as crianças já estavam acostumadas com a que saiu. Mas o político acha que uma coisa não tem nada a ver com outra. Padece, o pobre, de uma paupérrima competência relacional.

A escola tem como desafio se adequar ao paradigma da era da informação, deslocando-se urgentemente do modelo atual, criado para atender a revolução industrial. Ela é arena privilegiada para o desenvolvimento dessa competência semântica que ajude a pessoa a compreender o liame entre causa e conseqüência. Essa educação para o nexo é urgente.

Para sua informação: os Hícsos foram reis pastores do médio império egípcio. Um povo nômade que já conhecia o uso do ferro e que dominou a região por 200 anos, na época em que os Hebreus foram para o Egito. Minha mãe que me disse. De cor.

SF, Jornal EM TEMPO, 30/03/2007

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