Faroeste caboclo

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Beavis vs Butt HeadRecebi um telefonema de uma amiga professora da Ufam. Ela  me relatou o ocorrido com o professor Gilson Monteiro, do Departamento de Comunicação. Para quem não sabe, o professor foi agredido por Amim Aziz, irmão do vice-governador do Estado, Omar Aziz. Gilson comentou em sala de aula que a imprensa de Manaus sofre influência política e citou como exemplo a cobertura insossa da mídia local no caso da CPI da pedofilia, em que circulava o nome do vice-governador.  A agressão se deu quando uma sobrinha de Omar, aluna do curso, sentindo-se ofendida, chamou o tio Amim. O tio chegou dando uma voadora em Gilson.

Vivemos em um estado democrático de direito, que pressupõe direitos e responsabilidades. Não sei o que o professor efetivamente disse, mas nada justifica o desfecho. Ao se sentir ofendida, a aluna deveria buscar os caminhos jurídicos que protegem os cidadãos. O código penal prevê os crimes de calúnia, injúria e difamação, julgados a partir de todo um processo com amplo contraditório, arrazoados e testemunhas que subsidiam a justiça em seu julgamento, absolvendo ou condenando alguém pelos crimes.

Ao optar pela lei de talião (do latim Lex Talionis, lex: lei e talis: tal, parelho), que consiste em retaliação, frequentemente expressa pela máxima “olho por olho, dente por dente”, o agressor ignorou a justiça, seus limites e se pôs, portanto, sujeito às penas jurídicas. Sem limites, a sociedade entra em colapso. Daí a necessidade de regramento. Gilson tomará suas providências jurídicas pela agressão sofrida e Omar, se quiser, tomará as suas pelo alegado crime de calúnia. Mas há desdobramentos.

O soco que Amim deu em Gilson o atingiu empiricamente, deixando-lhe um olho roxo. Mas tão grave quando a agressão empírica é a agressão simbólica. Essa não foi só em Gilson, mas na Universidade como um todo. Eu mesmo, como parte dessa Universidade, ainda sinto o pontapé no estômago. A Ufam, a meu ver, deveria ter reagido imediata e veementemente para resguardar o institucional. Hoje foi Gilson, amanhã serei eu. Imagine, leitor, se os professores da Arca de Noé resolvem me pegar no estacionamento por causa do meu “crime” de opinião? Se em uma aula de Análise de Discurso, ao criticar o discurso militar da perda de soberania ou o discurso falacioso dos rizicultores sobre a falência econômica de Roraima no imbróglio Raposa-Serra do Sol sou preso ou levo uns cascudos do arrozeiro Paulo Quartiero?

Interessante foram os comentários dos políticos estampados nos jornais e as opiniões emitidas em rádios como a Difusora e CBN. Todos condenam o professor por “estar se metendo onde não deveria”. Nenhum fala do crime que cometeu Amim ao agredir o professor dentro de uma Universidade Federal. “Professor deveria dar aula e não formar opinião”, diz uma deputada-professora, querendo formar opinião.  É assim que funciona: o poder político determina os limites do dizer e para que lado pendem as opiniões daqueles que orbitam ao seu redor. A cobertura do caso prova a tese de Gilson em sala de aula.

Fato é que esse episódio deve ser levado juridicamente às últimas consequências. A Ufam, como instituição, deve reagir. Se a moda pega, viveremos na música do Legião Urbana.

5 comentários em “Faroeste caboclo

    Cristiane disse:
    13/05/2009 às 13:58

    Sérgio, realmente a Ufam tem que reagir e logo, urgente. A sociedade precisa também se posicionar e não deixar se levar por declarações dotadas do discurso dominante dos que estão no poder, que foram contrários ao professor Gilson, coordenador do único mestrado em Ciências da Comunicação da região Norte. Temos que lutar contra qualquer tipo de violência e não a defendermos, como algumas pessoas estão fazendo. Parabéns pelo artigo, muito importante formar opinião neste momento. Solidarizo-me com todos os professores universitários.

    érika disse:
    13/05/2009 às 16:17

    Que vexame!
    Uma que cagoeta, um que dá porrada e outro que (…).
    Que família!

    João Lúcio disse:
    14/05/2009 às 17:36

    Agressão ao ambiente democrático.

    Isso é um absurdo e acaba nos mostrando qual é a pressão que um professor sofre por debater assuntos relevantes à nossa sociedade. Se isso aconteceu na UFAM de Manaus, avaliem o que acontece no interior, onde prefeitos possuem capangas que resolvem tudo na base da porrada.

    Lucinara disse:
    16/05/2009 às 17:51

    Isso que é decadência da sociedade…e se todo mundo se calar o caos irá tomar conta…E o que será do povo liderado por essas pessoas? Submissos? Omissos? Coniventes? Enfim…ainda bem que tem alguém como você que ainda tem pulso pra falar…e a justiça precisa ouvir mais…bjssssss

    Eduardo disse:
    15/11/2009 às 05:49

    No inferno, purgatorio, umbral, sei la é assim as coisas vao se repetindo como um eco numa caverna e se repetem como jogar uma pedra na agua começa- se formar aquelas ondinhas e nao para te o fim.

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