O peixe não vê a água

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O peixe, de MiróHá textos que lemos que passam batidos. Há outros que nos inquietam. Ou porque falam diretamente sobre questões que nos são caras demais ou porque falam demais sobre questões que nos são muito diretas. A linha entre um texto que merece ser ignorado e um que merece ser comentado é tênue. Esse preâmbulo é para dizer que decidi comentar um texto de Márcio Souza, publicado em um jornal de Manaus, apesar do apelo para ignorá-lo.

Márcio descobriu que vivemos uma nova era. Deixamos a era da leseira baré pela era da idiotia baré. Caracteriza esse momento como o tempo da “glorificação da ignorância em detrimento da inteligência”, da troca do “diálogo civilizado” pela violência. Lamenta que Manaus tenha se tornado uma “cidade de simplórios” que elegem apresentadores de programas de TV “hidrófobos”. Critica ainda as reações locais à posição de Carlos Minc quanto à agenda politiqueira de Alfredo Nascimento sobre a BR319, lamentando as “bravatas provincianas e insultos preconceituosos”, expressão do “raciocínio indigente”, “do mais baixo oportunismo” e de um “deslavado fisiologismo político” que ignora o mérito da questão. Finaliza dizendo que o idiota baré toma como “axiomáticas as idéias de que alpinismo social, privatização da coisa pública e aparelhamento do estado são reflexo de alto realismo político”. É sua tese.

Para justificar a argumentação, de forma pouco inteligente para quem tem um percurso literário como o seu, Márcio troca o diálogo civilizado por agressões violentas contra o atual reitor e contra a futura reitora da Ufam. Critica a lentidão da resposta institucional quanto à agressão sofrida pelo professor Gilson Monteiro e o silêncio da reitora eleita – com o que concordo e sobre o que já escrevi alhures – , mas o faz por vias simplórias da desqualificação acadêmica, usando insultos hidrófobos e fugindo do mérito. Cai no caminho fácil das bravatas provincianas e no raciocínio indigente do “ad hominem” ao julgar o comportamento da reitora eleita por sua tese “ininteligível [para ele] onde (sic) excreta erudição mal digerida”. E sentencia: “A Universidade do Amazonas já foi lugar de argumentação erudita e busca pelo saber”. Quando? Quando era “grupo escolar”, rótulo atribuído ao próprio escritor? Estou na Ufam e ela está em mim. Foi aí que cruzei a linha tênue entre ignorar ou comentar. Queria que o escritor respeitasse o meu trabalho porque respeito o seu.

É complicado falar em alpinismo social quando se faz autopromoção à custa do desrespeito profissional. É estranho falar criticamente em privatização da coisa pública quando se tenta vender apresentações teatrais para o município a preço de ouro, num ato que eu e “aqueles que aprenderam a separar o joio do trigo” lemos como fisiologismo político. Mais Márcio: “A diferença entre a leseira baré e a idiotia baré [é a de que] o leso toma a incredulidade como um bem absoluto e com isso é capaz de resistir. Já o idiota baré, este é fruto dos conflitos entre o conhecimento intelectual e o mais baixo oportunismo, do rigor ético com o mais deslavado fisiologismo político”. Concordo. Não deu para ficar quieto. Ficar quieto é coisa de quem não canta. Eu canto.

PS: Márcio e eu estaremos na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Quarta eu comento a Feira.

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