Voo 3744

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Avião sem asa, fogueira sem brasa...Fui de Ribeirão Preto a Brasília em um Brasília da Passaredo Linhas Aéreas. Foi a primeira vez que viajei em um avião pequeno com palhetas girando ao meu lado. A viagem durou cerca de uma hora e meia. O avião é barulhento, mas o barulho das hélices foi abafado pelo meu providencial MP3, com uma mescla musical que ia de “Manhãs de Setembro”, de Vanusa, a “Wish you were here”, do Pink Floyd. Ao meu lado esquerdo, viajou uma senhora de uns 60 anos, que recusou o saquinho de guloseimas oferecidos pela aeromoça – ainda se fala aeromoça? Ela, a senhora, no entanto, acabou com o estoque de Skol do avião. Foram cinco latinhas. Uma a cada 18 minutos em média. Vestindo um jeans apertado, a vizinha prafrentex – ainda se usa isso? – desceu a escada do avião firme e forte, desfazendo os meus temores de que cairia no caminho. Em Brasília, fiz conexão para Manaus num avião da TAM. Uma viagem mais tranquila e menos barulhenta, é claro. Doce ilusão. Duas horas e meia de terror. Eu conto.

Ao entrar no Airbus, identifiquei minha cadeira: 6D, corredor. Como os outros dois companheiros de fileira não haviam chegado, decidi ficar em pé para não ter que levantar a toda hora. Que minha mulher não leia este texto, mas sempre que viajo fico na esperança de ter como vizinha de poltrona uma tenista russa indo conhecer a Amazônia. De repente, uma senhora com uma cara fechada de caixa de loja do centro da cidade entrou e veio em minha direção. Rezei para não ser ela a vizinha de voo. Era. Saí da frente, ela passou, sentou, afivelou o cinto, pôs a bolsa na cadeira do meio e uma mochila no colo. Depois se deu conta de que sua mochila teria de ir no maleiro. Pediu licença, eu levantei, ela saiu, abriu o maleiro, socou minha mochila com certa raiva para abrir espaço e empurrou a sua para dentro. Voltou e sentou. Apertou a solicitação de serviço, pediu um travesseiro e um fone de ouvido. Sem cerimônia e licença, pegou a Revista da TAM da minha bolsa de canguru e foi ler.

Do meu lado esquerdo, vizinho de poltrona e separado pelo corredor, um sujeito de blazer, a cara do Ivan Lins. De repente, chegou o seu vizinho de poltrona. Pelo que deu para notar, eram conhecidos de outras épocas . Foi quando o Ivan Lins abriu a boca e soltou a voz. De Ivan Lins não tinha nada. Estava mais para Tetê Espíndola, com uma voz fininha que não combinava com a cara dele. E mais: com forte sotaque nordestino, que fica charmosíssimo na boca de uma mulher bonita, mas medonho na de um cara gasguita. Ivan era de Sergipe, como vim saber depois a contragosto. A tenista russa iria em outro voo.

“Senhores passageiros, a partir de agora está proibido o uso de aparelhos celulares”. Assim que o piloto falou isso, toca o celular da caixa de lojaao meu lado. Ela atendeu e começou a falar, narrando em pormenores sua estada em Brasília, reclamando da secura e de como tinha se arrependido de ter ido para lá. Com a sensibilidade de um paquiderme solto numa Vivara, mencionou na conversa qualquer coisa sobre o voo da Air France. Eu comecei a ficar preocupado porque o avião começou a andar e a mulher continuava a falar ao celular. E falava escondidinha, de modo que os tripulantes não a vissem. Mas eu a via. “Tripulação, decolagem autorizada”. A agonia aumentou. Quando já ia delatá-la para a aeromoça, ela deu uma última reclamada e desligou. Alívio. Que mulher mais sem noção.

Mas meu alívio durou pouco. Logo os dois amigos começam a puxar conversa. Ivan Espíndola começou a falar da vida e do Ministério Público de Sergipe. Ele era procurador e estava indo para um encontro da área em Manaus. O mais estranho é que Ivan falava olhando para frente, como se falasse sozinho. Um cara com uma voz gasguita, falando sozinho e sobre o mesmo assunto durante  o voo todo. Coisa de doido. Tentei usar a estratégia do MP3, mas foi em vão. Ivan Espíndola tinha uma voz subsônica, não porque não era audível, mas porque passava por baixo de outros sons e chegava ao destino: meus ouvidos. Descobri que o MP de Sergipe fica numa praça, que o Procurador Geral é a procuradora Cristina Mendonça, e que tem um tal de Valfran no gabinete da Procuradoria Geral que é o cão chupando manga. Isso tudo enquanto ouvia Marisa Monte, Vanessa da Mata, Cat Stevens, Tom Jobim, Vitor e Leo.

Começou o serviço de bordo. Descobri que minha vizinha se chamava Zenaide porque colocou seu nome na minha revista da TAM. Ela tinha cara de Zenaide mesmo. A aeromoça – sinto que estou denunciando minha idade usando isso –veio e Zenaide  se superou.    Quando a aeromoça – dane-se a idade! –   perguntou se ela queria suco, coca-cola, guaraná ou água, Zenaide perguntou:  – “Você tem água quente? Quero fazer um chá”, disse mostrando um saquinho. Tem gente que complica. Acabou de ter um concurso com muitas vagas no MP de Sergipe, informava Ivan Espíndola, sempre olhando para frente. E ainda estávamos na primeira hora do voo. No MP3, “Meu tormento”, Milionário e Zé Rico.

Zenaide pegou a bolsa e tirou um negócio preto. Descobri que era uma máscara. Do Zorro. Do Zorro cego, pois não tinha os buracos dos olhos. Era uma daquelas máscaras de dormir. Graças a Deus, disse cá com meus botões – ainda se usa isso? Zê abriu a mesinha do meio, depositou seus restos alimentícios e o copo com o saquinho de chá sobre a mesa. Livre dos entulhos poderia dormir. Resolvi fazer o mesmo. Minha última lembrança antes do cochilo foi a informação de que o prédio do MP de Sergipe está sofrendo uma reforma para possibilitar acessibilidade. Comecei a gostar da Cristina Mendonça.

Quando acordei, olhei para Zenaide, que dormia. Máscara nos olhos, ouvindo música nos canais do avião. Mesinha aberta. Mãos sobre a mesinha e costas afastadas do encosto. Cena estranha. Dormia assim, ereta, como quem medita. Hare baba! O MP de Sergipe suspendeu o convênio da Caixa Econômica com o município de Propriá. E assim foi a viagem. Cochilei de novo, ao som de “Olhos nos olhos”, na voz de Marina Elali, música que Ivan Espíndola não devia apreciar.

Numa chacoalhada do avião, acordei do leve sono. Zenaide em alfa e Ivan Espíndola fazendo palavras cruzadas. Olhei bem e descobri que não eram cruzadas. Era Sudoku. Pronto! Completou! Tenho uma implicância gratuita com quem faz Sudoku. Aliás, tenho umas invocações sem razão, mas que são minhas. Não confio em gente do pescoço vermelho, em pessoas cadeirudas, em gente que usa pulseira ou cordão grossos ou que usa um anel grande no dedo mindinho. Ivan Espíndola usava. Ele era procurador. E fazia Soduku. Ah, e odeio quando abrem a manteiga e não retiram aquela lâmina de metal. Ela sempre mergulha no pote, fazendo a maior meladeira. Zenaide começou a batucar nas pernas, curtindo o som. Totalmente fora de ritmo. Mais até do que minha irmã Paula, para quem valsa e boi têm os mesmos compassos. O amigo de Ivan puxou conversa de novo e ele guardou o Sudoku. O MP está fazendo diligências nos hospitais de Aracajú, mas encontra resistência dos donos.

“Senhoras e senhores, estamos iniciando nosso procedimento de pouso”. Estava chegando em casa. Passou o tempo, não dormi direito e nem fiz amizade com uma tenista russa. Zenaide Zorro Cego fechou sua mesinha, tirou e enrolou o fone de ouvido – que pôs na bolsa junto com minha revista da TAM e colocou a poltrona na posição vertical – como se o encosto fizesse alguma diferença para ela. Tudo isso sem tirar a máscara. Que habilidade e competência! Tanta competência quanto o MP de Sergipe, que está passando um pente-fino no centro comercial da capital do Estado. Cristina Mendonça é das minhas.

O avião parou. Juro que senti saudade do voo da Passaredo. Aquilo, sim, era paz. Zenaide, claro, tirou o cinto e levantou antes da parada total dos reatores. Pediu licença, pegou sua mochila e foi-se, com sua cara de poucos amigos. Ivan Espíndola despediu-se do amigo, que usava um grosso cordão de ouro no pescoço. Foi a única vez durante a conversa toda que Ivan olhou seu interlocutor nos olhos. Saímos todos, ávidos por nossas bagagens. Fui seguindo Zenaide no percurso que ligava o avião ao aeroporto. Zenaide era cadeiruda.

O pior voo da minha vida. Juro que pensei em procurar meus direitos, processar alguém por assédio moral, acústico ou humorístico, já que tanto Zenaide Cadeiruda quanto Ivan Espíndola acabaram com meu humor nesse voo do terror. Mas se eu quiser mesmo fazer isso, tenho de procurar um advogado. Sabia que o Ministério Público não resolve? O MP só acata causas coletivas e difusas, segundo aprendi recentemente…

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5 comentários em “Voo 3744

    Paulo Medeiros disse:
    26/06/2009 às 12:49

    3744. Com tanta cavalice nesse voo, não custa nada arriscar nessa milhar. É a milhar do cavalo. De repente você pode até ganhar no jogo do bicho e contratar o tal do advogado e processar o trio parada dura. rsrs
    Abraços.

    Lou disse:
    29/06/2009 às 10:29

    Gostei desse negócio do sotaque…

      Ronney disse:
      26/07/2009 às 19:47

      Adorei o escrito sobre o voo, agora sem acentos…lembro que é necessário escrever certo, és o Serginho que ama a nossa língua, desde os tempos de CPPS. Isso denuncia a idade minha, mais que as aeromoças. Pensei que fosse um voo cheio de altos de baixos e tensões turbulentas, mas…nada como os humanos e as nossas impressões. Adorei mesmo o papo da cadeiruda e do Ivan Lins. saudades!!!!!

    Ana Pauxis disse:
    08/03/2011 às 18:43

    Quase me acabei de tanto rir com a historia do voo 3744
    Maravilhosa a historia mas infelizmente senti na pele toda a situação, era como se eu estivesse nesse voo” Affff
    Odeio viajar de aviao porque sempre tem essas zeneides cadeirudas e Ivan Spindola da vida

    Inara disse:
    15/12/2011 às 09:49

    não é SUDOKU? hahahaha amei o texto, já perdi a conta de quantos voos do terror fiz…

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