Darwin e o bico do tentilhão

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Tentilhões e seus bicos...Charles Darwin desenvolveu uma teoria da evolução biológica cujo motor é o fenômeno chamado “seleção natural”. Segundo a teoria, os organismos mais adaptados ao seu ambiente tendem a sobreviver e deixar descendentes, transmitindo suas características genéticas.

Na sua viagem a bordo do veleiro Beagle, Darwin passou pelas ilhas Galápagos, pertencentes ao Equador, durante seis semanas em 1835. Entre os animais que descreveu estavam os tentilhões, aves que têm uma grande variação em tamanho, forma do bico e hábitos alimentares. Existem tentilhões que têm bicos que lembram alicates, capazes de esmagar as sementes mais duras. Outros comem insetos, outros são vegetarianos e um deles, o tentilhão vampiro, dá bicadas para chupar o sangue de aves marinhas.

Segundo Darwin, os variados bicos dos tentilhões são diferentes respostas da natureza para lidar com diferentes necessidades de sobrevivência. Os bicos foram se alterando na medida em que a realidade alimentar foi se modificando. Lendo sobre isso, fiquei pensando nos nossos bicos.

É obvio que a sociedade em que vivo não é a mesma de 1968, quando nasci. Não é a mesma nem de 1995, quando surgiu a internet trazendo a informação como o novo elemento organizador social. Seguindo Darwin, ou meu vegetarianismo se relativiza e meu bico endurece para lidar com as sementes duras dos tempos de hoje ou eu danço. Deixo claro aqui, no entanto, que a questão não é valorativa. É de mérito. Não se trata de se tornar pior ou melhor, mas de se permitir se tornar.

As angústias dos nossos tempos se dão mais por inflexibilidade conceituais do que por outros motivos. Temos dificuldade para entender que o futuro não é mais como era antigamente, que nada mais é como era antigamente. Que bom que eu brincava de cangapé, barra-bandeira, garrafão! Mas querer que minhas filhas brinquem disso é lhes impor uma violência simbólica. Seu tempo e seu espaço são outros. Eu adorava o Sítio do Pica-pau Amarelo. Elas curtem Backyardigans. Eu viajava ouvindo New Wave na minha adolescência, os jovens de hoje curtem Beyoncé.

Para onde a gente olhar, vamos ver que o pau come por essa incapacidade que nós, tentilhões do século 20, temos de nos adaptar às contingências do séc. 21. No século 21, nem algarismos romanos se usam mais. O trema caiu. Os quinze minutos de fama que Andy Warhol previu são uma eternidade num mundo que tem de caber em 140 caracteres. Anteontem o jornal impresso era quente e a revista fria. Ontem o jornal on-line ficou quente, o jornal impresso frio e a revista congelada. Hoje, o Twitter é fervente, o jornal on-line é morno, o jornal impresso é congelado e a revista é glacial. O Orkut, pasmem, já é coisa de ontem.

Ou nosso bico se reinventa urgentemente ou ficaremos anacrônicos e anatópicos, fora do tempo e fora do lugar. Isso vale para as relações profissionais, pessoais, para a comunicação, para a linguagem, para a educação, para qualquer processo social, enfim. A sensação de não-pertencimento, de sentir-se deslocado, é consequência de nossa inabilidade de perceber a mudança e se perceber nela. A mudança tem de ser de essência e não de aparência. Não adianta se vestir de hipertexto e ter a alma de mimeógrafo a álcool. A propósito, adoro Single Ladies, da Beyoncé. O clip então é show.

7 comentários em “Darwin e o bico do tentilhão

    Rodrigo Araújo disse:
    23/07/2009 às 10:42

    Darwin esculacha geral. Não como a Beyouncé, lógico. Mas comeria…

    Tati Amaral disse:
    23/07/2009 às 18:39

    Como sempre, sábias e delicadas palavras!
    Single ladies à parte, o clipe é show mesmo.rs. Ver minha filha dançando com ele, melhor ainda.
    beijão

    lucas disse:
    27/03/2010 às 13:09

    VALEU!!! consegui fazer o meu trabalho de ciências!!! 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂

    sarah disse:
    22/03/2012 às 21:05

    obigada assim pude fazer minha pesquisa e vou me dar bem na prova de ciencias

    carolina disse:
    04/03/2013 às 19:41

    a teoria de darwin eu a melhor mais consegi o q queria .uma tarefa feita

    carolina disse:
    04/03/2013 às 19:45

    🙂

    Paulo disse:
    20/11/2013 às 03:28

    Caro Sergio,
    o melhor exemplo de adaptação não está entre especies, está na propria especie. Mas muitas vezes nao precisamos nos adaptar a coisas ou teorias. Não sabia o que o blog iria falar, achava que podia ser algo sobre o conceito das origens, Criação X Evolução. Sou biologo, e criacionista. O que tenho para ti dizer, se para vc o importante de fato o é, é que a Teoria da Evolução já poderia ter sido eliminada se tão somente fosse feita uma releitura dela a luz da genética e da citologia. O conceito de que há um Criador, e um que se revela para além da criação, deveria ser um ponto de identidade entre todos os homens, mas teorias que tentaram negar isso acabam confundindo e trazendo insegurança. Só que posso te dizer que essas ideias foram reduzidas ao ridiculo pela ciencia, a verdadeira ciencia. Só que muitos nunca atinaram para isso. Porque? Porque não fizeram uma releitura da teoria de Darwin, a luz de novas descobertas. É facil de demonstrar. Espero que também pense nisso.

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