Pais de poesia

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Marina, olhando o futuro. Eu, de pai, dando o suporte.Crianças são poesia. Crianças, como os poetas, vêem o que ninguém vê. Quando alguém lhes aponta a lua, elas olham o dedo. Numa loja de perfumes, se encantam mais com as tirinhas nas quais se borrifam as amostras do que com os frascos e fragrâncias. Figuras de revistas cortadas assimetricamente compõem seu mundo do faz-de-conta, sua terra encantada, seu quebra-cabeça individual. Para elas, basta levantar o velocípede e, num segundo, tem-se um carrinho de pipoca, com os pedais servindo de alavanca da tampa da pipoqueira que mexe o milho.

Em meio aos inúmeros cafés imaginários que bebemos, feitos dos mais belos grãos de imaginação e servidos nas mini-xícaras rosas com um carinho sem igual, nossas crianças nos lembram que o real se faz a partir de querências. Cansados pela nossa adultidão, esquecemos que fazíamos isso quando também vivíamos na época da poesia pura, antes de entrarmos na prosa sem graça do dia a dia.

Ao descobrir, olhos brilhando, que um botão acende a luz da lanterna, nossas crianças não nos deixam esquecer que a luz da vida é ligada por nossos botões do desejo. Com um facho de luz, elas desenham caminhos no teto, brincando de criar estrelas. Nossas crianças conseguem ver estrelas no teto do apartamento. Aliás, fazem das paredes e sofás suas telas onde desenham e pintam o que suas cabecinhas líricas imaginam. Sempre há a explicação para aquilo que adultos deseducados para a arte não entendem. Impossível não saber que aquela forma de massinha  irreconhecível é um barco! É lógico que aqueles rabiscos rupestres são flores no campo! E que aquele ponto verde feito com pincel no braço do sofá novo é uma borboleta igualmente nova! Como que alguém não entende que os riscos azuis são um rio e que a bola amarela é o sol? Na parede da casa, rabiscam nossas crianças traços de sua subjetividade, registros de Picassos incorporados em pequenos frascos  de mãozinhas pequenas.

E as brincadeiras da linguagem que fazem nossos Manueis e Manuelas de Barros? Para que “calcanhar” se “cotovelo do pé” é tão lindo? Serzinho de linguagem que se faz amazonense reclamando do “caparanã” que a picou. No sol escaldante dessa terra, nada mais lógico do que pedir para amenizar a quentura: “Pai, assopra o sol!”. Na lua crescente: “Pai, a lua tá rindo!”. Para pôr os brincos: “Pai, brinca eu!”. Do nada, de graça, para fulminar: “Pai, eu te amo!”.

Feitos Pitanguys da realidade, como sabem nossas crianças alterar a plástica de um dia feio para um dia lindo com um simples sorriso! Como os beijos que depositamos em seus rostinhos sonhadores pela manhã nos carregam as energias para um longo dia de trabalho! Como a cena de um creme espremido sem critérios pelo chão da sala e pelo corpo nos faz rir diante do estrago, ensinando-nos com a traquinagem que na vida saber rir de si mesmo é a maior poesia! Quais são os seus segredos para, às 22:52h, elas estarem fazendo a cama do papai e da mamãe de cama-elástica, num pique que mata de inveja a mais potente hidrelétrica?

E seus porquês? Além de poetas, filósofos… “Pai, onde eu estava antes de ir para a barriga da mamãe?”, “Pai, por que eu não tenho um laptop?”, “Pai, por que o Leo é pretinho?”, “Pai, por que a vovó Gracia mora em Campinas?”, “Pai, por que a pipoca faz barulho no microondas?”, “Pai, esse pipi é de você?”, “Pai, por que essa parede é ‘áspera’?”. “Áspera”?! Onde você aprendeu isso, minha filha?…

É dia dos pais. Somos pais de poetas. Somos pais de poesia. Adultos, hoje olhamos para os nossos pais e compreendemos o tamanho do amor de nossos velhos. Com erros ou acertos, a vida toda textualizando amor. Até Deus, que é pai, cometeu os seus erros. Tenho bronca com dois: Como que Ele não pensou numa maneira de nós, pais, transferirmos para nós as doenças dos filhos quando elas se apresentam? E os braços, eu acho que deveriam desenroscar na hora da gente dormir. Mas como todo pai, nEle há mais virtudes do que defeitos.

Uns pais são mais carinhosos, outros mais silenciosos. Uns são mais presentes, outros meio ausentes. Uns ainda estão por aqui, outros já são estrelas no céu. Ou no teto do apartamento, iluminados por uma lanterna empunhada por um neto. Fato é que nossos velhos são feitos de poesia também. São pais de poesia. Porque nos trouxeram aqui. Porque nos deram a tela da vida e as tintas da existência. Porque deixaram que pintássemos o quadro de nosso caminho. As cores, claro, por nossa conta.

Feliz dia dos pais para todos. Feliz dia dos pais para meu pai. Minhas duas meninas, paizinho, não me deixam esquecer a poesia da vida que me mostraste, a poesia que tento ser, a poesia que elas são. Um beijo de gratidão e gordo de amor do filho que os outros dizem, ingrata e injustamente, ser o preferido.

S.

Manaus, segundo domingo de agosto de 2009.

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13 comentários em “Pais de poesia

    Nelson Melo disse:
    09/08/2009 às 10:03

    Sérgio,

    Parabéns pelo dia dos pais de poesias. Taí uma coisa de que ainda não tinha me dado conta: sou pai de poesias (três poesias, já adultas). E poesia envelhece?

    Um forte abraço, papapoético!

    Nelson Melo

    Adelson disse:
    09/08/2009 às 12:06

    Palavras simples, mas que descrevem com perfeição está árdua e prazerosa missão que Deus nos deu.
    Parabéns pelo Dia dos Pais e pelo lindíssimo texto.

    Aline Costa disse:
    09/08/2009 às 16:38

    Nossa, que lindo tudo isso!! Geralmente as mães se apoderam dos filhos nas datas comemorativas, mas depois que li isso, fiquei pensando: se filhos são poesias e a poesia é universal, é justo que eles sejam compartilhados entre maes e pais. O fato é que em verso ou em prosa, filhos iluminam a nossa vida!!!!
    Feliz dia dos pais para vc que tem lindas poesias, mas que também é filhos de prosas maravilhosas que tantas vezes me encantaram.

    Gisele disse:
    09/08/2009 às 16:44

    Parabéns dia dos Pais!
    Usei seu texto para parabenizar meu pai que infelizmente esta longe…
    Abraços!

    Iana disse:
    09/08/2009 às 22:07

    Deu vontade de voltar a ser criança…
    Parabéns pelo dia dos pais.

    Cristiane disse:
    10/08/2009 às 08:03

    Maravilhosa descrição do que são as crianças e o efeito que causam em nossas vidas. Quem é mãe ou pai vivenciou situações similares às que você descreveu nesta bela demonstração de amor.
    PARABÉNS! Vc é um grande pai! e elas lindas poesias….

    ana carolie disse:
    10/08/2009 às 10:14

    olha achei lindo!!!!
    parabens!!!

    ana carolie disse:
    10/08/2009 às 10:14

    lindoooooooooo!!!!!!!!!!!

    Dilene Gonzaga disse:
    10/08/2009 às 11:42

    PARABÉNS! PAPAI.
    Um espetáculo o texto em relação aos pais. Agora, imagine só qnd vc se transforma em “vovó nininha”, tão cedo… Pois é assim q sou chamada pelo meu lindo netinho. Tudo o q escrevestes vira o dobro, ou até mesmo o triplo. Dizem q qnd se vira avó/avô ficamos mais bobos, ms n é n é q passamos a observar, ainda mais, todos os encantos q as crianças trazem dentro de sí. Que Deus continue te abençoando e fazendo teus dias cada vez mais lindos c/ tuas “pimpolhas”.
    Abrç!

    Bianca disse:
    11/08/2009 às 22:56

    Olha, mulher grávida não pode ler essas coisas. Já tô chorando… ridículo! Rs

    Lindo texto, Sérgio!

    Linda família! 🙂

    Dri* disse:
    12/08/2009 às 23:04

    Inspirador….
    “Pairabéns!!”

    xana disse:
    05/03/2010 às 11:47

    estou a fazer um trabalho para a escola sobre o dia do pai ! quem levar o melhor poema e o aclamar melhor ganhara um livro da biblioteca da escola !!!!!!

    achei que este blog era o que me podia ajudar e daqui tirei muitas ideias obrigada !!!

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