Um texto antigo para recordar

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O Fusca de todos nós

Saudade do velho Fusca...Hoje dirijo um carro com ar-condicionado, ouvindo MP3, direção hidráulica, vidros que obedecem ao toque de um botão. Escolho o combustível e nem me preocupo com a bateria, que é selada.

O conforto atual, fruto de muita ralação, só valoriza o legado do meu velho Fusca 76. Com um adesivo da K&K no vidro, seu ar-condicionado era o morcego, um quebra-vento que, com o tempo, não quebrava mais nada e fechava sozinho. Para não de morrer de calor, tínhamos de esculpir a habilidade de dirigir com uma só mão para guiar e trocar a marcha. Na arrancada, era necessário segurar com força a alavanca de câmbio ou sair de segunda. Como quase sempre o fisher da caixa-de-marcha estava quebrado, o carro tremia mais do que refém de Talibã. Subir a ladeira da Tapajós ou a do São Jorge, nem pensar!

Com o Fusca, todos éramos um pouco MacGyver. O levantador de vidro era uma manivela de plástico, cuja rosca comia rápido.  Para substituir os mecanismos de sustentação dos vidros, que quebravam sempre, colocávamos um pedaço de pau por dentro do forro para segurá-lo na posição. A direção era macia, sim, mas por causa da sua tradicional folga de ¼. Para fazer uma curva, começávamos a virar o guidom meia hora antes. O som era um toca-fitas Roadstar, de gaveta, que tirávamos e levávamos a tiracolo, exercitando os bíceps. Por causa do tira-e-põe, volta e meia dava problema nos contatos, o que exigia uma batidinha para poder dar contato de novo e tirar o som da fita-cassete. O Fusca era um carro muito individual: só seu dono e mais ninguém sabia dirigi-lo.

A relação de um dono de Fusca com o combustível nunca foi amistosa. O marcador vivia quebrado e prego de gasolina era comum. Ficávamos voando sem o “transponder”, por assim dizer. O exercício mental para calcular o combustível restante era façanhoso. A bomba de gasolina escangalhava demais, graças ao péssimo combustível, comprado dos postos-pirata do São Jorge nos dias de postos proibidos. Era indispensável levar uma agulha no porta-luvas (por onde quase sempre se via o porta-malas) para desentupir o tal do giglê. Soprar a pecinha fazia com que o perfume compulsório dos motoristas de Fusca fosse o pouco chique “Gasoline by Esso”.

Na época dos Fuscas, baterias tinham que receber água, de preferência da chuva. Quando nos socorria dos pregos, meu pai dava bronca por nossa negligência em não pôr água na bateria. Monitorar a quantidade de água nos buraquinhos era dose. E as partes do Fusca, compradas em qualquer biboca? Quem nunca comprou uma longarina, um pé-de-porta ou uma mini-frente que atire o primeiro estribo.

Ter um Fusca era tudo que um jovem queria para exercitar seu lado mecânico. Trocar o cabo de acelerador, o de embreagem, limpar o carburador, brincar com o afogador. Bombear o freio para ele pegar, trocar velas, retirar entulhos do compartimento do banco de trás aos sábados, na lavagem caprichada com mangueira, esponja, cera Grand Prix e estopa, para dar o grau. Deixá-lo tinindo era o programa do fim de semana.

Há coisas que de vez em quando voltam, numa nostalgia saudável. Testemunha de tempos de desvairada juventude, o meu Fusca 76 resolveu me visitar as memórias. Troquei-o com meu primo por uma filmadora depois que o motor pegou fogo pela segunda vez. Um fim melancólico para tanta história bonita, como nas grandes histórias de amor, algumas das quais ele próprio testemunhou.

2 comentários em “Um texto antigo para recordar

    Rodrigo Araújo disse:
    24/08/2009 às 19:58

    Cara, um dia realizo meu sonho de ter um fusca, não como o seu era, lógico. Estilo clássico por fora, mas com as facilidades dos automóveis atuais…

    Sérgio Armstrong disse:
    26/08/2009 às 14:18

    Quantas caronas peguei no Fusquinha Branco para irmos até a escola que ficava na Av. Getúlio Vargas! Era infinitamente melhor que os mondrongos da Marlin pintados de vermelho (eram a visão do inferno) ou do “Cata” azul que partia de hora em hora rumo ao Mini Campus! Bons tempos de faculdade!

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