Memória e gênese

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Essa é a família Barbapapa...No rádio do carro toca “Hard to say I’m sorry”, do grupo Chicago. Comento com minha mulher: “essa música era da trilha de Sol de Verão, com o Jardel Filho”. Como resposta o silêncio. Em seu rosto um ponto de interrogação de quem pergunta: “Jardel quem?!”

Caiu a ficha. Percebi que estou chegando aos quarenta. É só ano que vem, mas meus 39 completados dia seis me colocam numa geração bem específica, aquela que ainda usa expressões como “cair a ficha”. Sou da geração Barbapapa.

A geração Barbapapa assistia ao Globinho, com a Paula Saldanha, e ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, na primeira versão. Sofremos com o anjinho da asa quebrada, tivemos medo do Minotauro e da Cuca. Fomos ao fundo do mar com o Aquaman e embarcamos no Seaview, o submarino do almirante Nelson e do marinheiro Kowaski. Torcemos pelos pequeninos em Terra de Gigantes, lamentamos que Tony e Doug não pudessem voltar ao presente em O Túnel do Tempo. Paquerávamos as panteras (a Kelly era minha favorita). E o Agente 86, que foi o precursor do usuário de celular? O dele funcionava num sapato. O tema da Swat embalou muita brincadeira nas ruas do Parque Dez.

Nossos desenhos preferidos eram Mighty Thor, Os Herculóides, Os Brasinhas do Espaço, Os Jetsons, Jambo e Ruivão, Matraca Trica e Fofoquinha, além das Turmas do Zé Colméia e do Manda Chuva.  Para nós, pessoa para baixo sempre será um Hardy, a hiena: “Ó, céus! Ó, vida! Ó, dor”. Ninguém se preocupava com o politicamente correto: Tom & Jerry era uma pancadaria só.

Solidarizávamo-nos com a recorrente solidão do desamado Didi e choramos quando sua cadelinha morreu em “O Trapalhão nas minas do Rei Salomão”. Soluçamos embargados em “ET”. Fomos aos prantos com o pranto do garotinho em “O campeão”. Perguntamos, curiosos, quem matou Odete Roitman.

Brincávamos de Vai-e-Vem, cangapé, Front, Forte Apache. Havia ainda as manjas, a Barra-bandeira e o Garrafão. Lutávamos com o Falcon olhos de águia. Colecionamos os Futebol Cards do chiclete Ploc e as tampinhas com personagens Disney do Bingola. Tínhamos álbuns de figurinhas de todo tipo. Paolo Rossi foi o carrasco de nossa adolescência.

Vestimos verde limão e laranja berrante para estar na moda do New Wave. Compramos o disco da Blitz e demos de presente no dia dos namorados o compacto em formato de coração do Melô do Piano. Odiamos os Menudos e curtimos Duran Duran, Phil Collins, Cindy Lauper, Barry White e Michael Jackson, antes da metamorfose. Fomos dançar na Brilho, onde hoje é o Amazonas Shopping, e na Red Zone. No fim da noite, lanchávamos no Rock Burger ou no Barra Lanche, no Parque Dez. Genesis, Tears for Fears e Pet Shop Boys eram a trilha de nossa noitada.

Escreveria semanas sobre isso. Mas já deu para eu lembrar com saudade o tempo que passou. Estou nesse momento ouvindo a música do desenho dos Barbapapas, que recebi por e-mail. Quem quiser, me peça no sergio@sergiofreire.com.br. A nostalgia é deliciosa.

Se eu parasse no tempo, hoje não veria o sorriso de minhas filhas, que agora tecem suas memórias afetivas da infância. Quando forem mães, seus filhos perguntarão: “Backyardigans?! O que é isso?!” Recordar significa “passar de novo pelo coração”. Quem não faz isso não conhece o que lhe sustenta como pessoa, vive uma vida sem história. A vida é feita de memória e gênese. Há o que alicerçou e há os novos tempos. Vide este jornal. Vide a vida de cada um de nós. E feliz aniversário para mim.

Sérgio Augusto Freire de Souza

Jornal Em Tempo, 05 de setembro de 2007

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4 comentários em “Memória e gênese

    Camila J. Ferreira disse:
    26/08/2009 às 23:49

    Adorei o texto! Vim a procura da leitura das tuas produções por ter lido a tua crônica sobre a vírgula, que achei o máximo! Foi tema da minha aula de Gramática. Parabéns pelo teu trabalho e por trazer uma leitura gostosa e agradável.
    Ah! e parabéns hahaha!

    Endy disse:
    27/08/2009 às 00:35

    Adorei!!!
    Nao é apenas quando fazemos 40 que se sente isso… Deixar de ter 20 e poucos anos é o marco inicial da despedida desses momentos que vc relata… Bom pelo menos assim está sendo comigo. =P
    E feliz aniversário!

    Aline disse:
    20/04/2010 às 14:29

    Ontem tive esta sessão nostálgica quando meu filho de 5 anos me chamou ao computador para mostrar um desenho “novo” que ele achou no Youtube e meu coração disparou ao ver que era a Família Barbapapa, que era meu desenho favorito quando eu tinha 5 anos. Fazendo uma busca no Google, encontrei seu blog e esta postagem já antiga, mas atualíssima para mim neste momento. Parabéns e obrigada pelo texto que me fez viajar no tempo (que parece que foi logo alí).

    Aline

    solzinhodalua disse:
    20/04/2010 às 17:22

    Chamou a minha atenção esta passagem do seu texto: Recordar significa “passar de novo pelo coração”. Quem não faz isso não conhece o que lhe sustenta como pessoa, vive uma vida sem história.

    Faz bem para o coração recordar. Aliás este verbo vem acompanhado de felicidade e tristeza, tudo ao mesmo tempo.

    Recordar um parente muito próximo que morreu, deixa um aperto no coração. Mas também nos faz pensar com carinho naquela pessoa.

    Recordar a 1ª bicicleta…PURA FELICIDADE…e lembrar do 1º tombo feio com ela…PURA TRISTEZA…

    Mesmo com esses sentimentos misturados a este verbo….é bom RECORDAR.

    Ótimo texto =)

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