Um dia de domingo

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Pig, o peixeMeu domingo é meio padrão: acordo cedo para fazer os tetês das meninas. Lá pelas seis e meia, sete horas. E não durmo mais. Faço um café para Bia – pois eu mesmo não gosto de café de manhã – , vejo e-mails, dou umas tuitadas, leio as notícias do dia, compro pão, lavo a louça e arrumo a casa. Fico no computador até as minhas mulheres acordarem, lá pelas onze. Comemos algo e nos preparamos para sair. Hoje decidimos almoçar no Manauara para levar as meninas para curtir aquela brinquedolândia que inaugurou lá. E depois dar um pulo no Amazonas para comprar comida para o Pig, o peixinho que elas ganharam com um aquário como lembrança do aniversário da Maria Fernanda.

Todo mundo pronto. Cadê a chave do carro? Disse para Bia descer com as meninas e me esperar lá embaixo enquanto procurava. Virei tudo e não achei. Os gnomos da chave do carro fizeram um bom serviço dessa vez. Desci e confessei: não achei. Pedi para Bia subir e para ela procurar porque eu, como quase 100% dos maridos, nunca acho nada a um palmo do nariz. Ela subiu e demorou. Até que ligou para o celular pedindo ajuda. Também não estava achando. Sobe todo mundo. Procura todo mundo. Depois de algum tempo, achamos. Vamos! No caminho, no rádio, “Um dia de domingo”, Tim Maia e Gal Costa.

O shopping estava lotado. Véspera do dia das crianças. Resolvemos almoçar primeiro, pois  já eram quase duas horas. A Bia vira e diz: “vai lá no Bob’s, compra uns nuggets. Depois vai no Giraffa’s e compra qualquer coisa”. Aí eu comecei a ficar perturbado. Marido odeia vagueza. Como “compra qualquer coisa”?!  Eu prefiro assim: “vai lá e compra dois Girapratos, um com hambúrguer e outro com carne, um com batata girafinha bem fritinha e outro com batata comum, mais dois refrigerantes, sendo um grande, Coca comum, e um médio, Coca-zero. Um com gelo e um sem, e traz um brinquedo rosa e outro amarelo, se não tiver mais pode ser o roxo”. Dá mais trabalho pra memória, mas a chance de errar e levar um xingo é bem menor. E disse, para completar: “Vê isso aí que eu vou mostrar o parque para elas”. Eu odeio ficar sozinho nessas. Síndrome de caixa de supermercado. Na hora de pagar: “ah, peraí que esqueci a carne. Vou buscar”. Pet Peeve. Realmente me tira do sério.

Comprei os nuggets e sentei, esperando que voltassem. Finalmente voltaram e a primeira coisa que a patroa pergunta: “e as outras coisas?”. Respirei fundo, com as forças que ainda restavam no meu corpo dada a fome que faziam uma parede do meu estomago comer a outra. “Vou comprar, amor. O que você quer?”.  Todo mundo acomodado, recebi as instruções, dessa vez detalhadas, e fui repetindo na cabeça pra não esquecer. Nisso, uns alunos queridos, subindo a escada rolante, gritam: “professor!!!” Só percebi quando eles se esgoelaram. Quando olhei pra cima, dei um tchau xoxo para não desconcentrar e o esquecer o cardápio. Não adiantou. A Adrienne ainda disse no Twitter que eu caí no conceito dela por causa do meu tchau blasé. Voltei com as coisas. Batata errada, claro. A Adrienne e a Lívia me desconcentraram.  Tudo bem. Sexta tem o seminário da equipe delas e eu desconto. Bem blasé para não dar na cara.

As meninas começaram a comer. E a nossa comida? “Ah, quero picanha do Picanhamania”, disse a Bia.  É claro que a Picanhamania ficava do outro lado da praça de alimentação. Translado de bandejas. No caminho, a lata de Coca-cola ainda foi para o chão. Depois de muito desfilar com as bandejas na mão, achamos um lugar. Bia ficou alimentando as ferinhas e eu fui para a fila comprar nossa picanha.

Um capítulo à parte. Fila imensa. Atrás de mim um casal, Jovaldo e Cinira, e Pai e Mãe, cujos nomes não fiquei sabendo, mas que pelo vocativo saquei que eram o pai e a mãe dela. Aí começou a tormenta. Cinira pegou o cardápio e foi explicá-lo: “se você quiser, pai, picanha, arroz com brócolis e batata frita é o 1. Se trocar o arroz com brócolis pelo arroz branco é o 5. Mas se quiser o arroz com brócolis e, em vez da batata, purê é o 13. Com arroz branco e batata é o 19” (que, a propósito, era a nossa escolha).  Imaginem as combinações exponenciais e a Cinira, tal qual um Galvão Bueno da Picanha, narrando uma a uma. A Mãe ainda perguntou para o Pai se ele ia tomar Coca Zero. Ele disse que não porque não queria ficar reprovado. Todos riram sinceramente dessa grande piada. Dose. Isso tudo entremeado por pedidos de licença das pessoas que precisavam passar, cortando a fila. Ou eu tenho cara de boa gente ou de leso porque tudo mundo só ia quebrar a fila no meu lugar.

Quase chegando lá, vejo a Bia acenando como quem diz: “Tá demorando… muda de restaurante”.  Balancei com a cabeça e fiz que não entendi. Chegando ao caixa, pedido na ponta da língua: Dois 19, duas Cocas-zero – reprovados -, Visa Electron, débito. A família Bueno ao meu lado, no outro caixa. Escolhendo, acreditem, ali, naquela hora, os seus pratos. “Não dá para tirar a farofa do  17 e colocar purê além das batatas fritas?”. Odeio quem quer mudar cardápio pronto.  E odeio gente do pescoço vermelho, como o do Pai. E gente com pulseira de prata grossa, como o Jovaldo. E gente com dente da frente separado, como os da Cinira. E gente cadeiruda, como a Mãe da Cinira. Juntou tudo ali. A caixa devolveu meu cartão, bem blasé, Adrienne, como só caixas de praça de alimentação do shopping e professores universitários sabem ser. Sexta tem seminário. Fui esperar a ser chamado. Meu número era 57. Estava no 50.

Na mesa, tentava entender a lógica das senhas. Para que senha se ela não segue a ordem? Do 50 foi para o 53, voltou para o 48, pulou para o 56, voltou para o 51, me irritou com o 58 e, so aí, derradeiro golpe, o 57. Fui buscar as bandejas. Cortei a fila onde havia um cara com cara de leso. Ou de gente boa. Fui e voltei pelo mesmo lugar. E comi a picanha, tentando descobrir que combinação, afinal, os Bueno tinham escolhido. Sim, amigos da Rede Globo, eles estavam na mesa ao lado.

Fui desintoxicar na Saraiva. Comprei um livro, como de praxe, e um DVD do Pokoyo para as meninas. Cansado, eu não via a hora de ir para casa. Mas a Clara, memória de mamute,  apesar dos seus três anos, lembrou: “Pai, a comida do Pig, no Amazonas!” Fomos lá. Mas não saí do carro. Estacionei perto da porta do petshop e a Bia desceu. Quando ia saindo, eu disse, blasé (Ah, sexta-feira…): “Vai lá e compra qualquer coisa”. Comprou o Básica Ball, alimento para peixes ornamentais. Chegamos em casa. O Pig se esbaldou na fécula de mandioca. Por coincidência e para acabar essa narrativa com chave de ouro, a vizinha do 604 colocou Fagner para tocar bem alto. Quem dera ser um peixe. Quem dera. Pig folgado.

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4 comentários em “Um dia de domingo

    Lívia disse:
    12/10/2009 às 02:41

    Hahaha 😀
    Agora tá explicaaado!

    carol zabisky disse:
    12/10/2009 às 02:53

    kkkkkkkkkkkkk….

    Adrienne disse:
    12/10/2009 às 14:14

    O senhor estava com complexo de “para-raio das desgraças do mundo” (é o que o meu irmão, quando acho que tudo dá errado pra mim)? Eu não citei nomes, quem disse que estava falando pro senhor, hein?… ahahahahahhahahaa
    E, by the way, o seminário é sexta? Essa semana não tem semana de letras? 😀

    suh.raposo disse:
    19/10/2009 às 21:51

    EITA, pê-pê-ô professor. ;p HAUHSUA

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