Muito autoritarismo e pouca autoridade

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Discursos...A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no ‘You Tube’.

Fiquei pensando sobre o caso desde quando aconteceu. Li opiniões e comentários, tanto os que criticavam a ação dos alunos assediadores quanto os que parafraseavam em suas críticas o ato dos alunos agressores e, com isso, justificavam tal ato como resultado da provocação da moça. Dá para tentar compreender o fato de vários ângulos. Entro nele pela linguagem.

Parece que as opiniões se filiam, grosso modo, a dois discursos. O primeiro seria o discurso da “moralidade sexual” e dos “bons costumes”. Geisy foi “imoral” ao usar um vestido curto, provocando os assediadores que a perseguiram, “desrespeitando os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”, como diz a nota da Uniban que comunica sua expulsão.

O que seria o segundo discurso se caracterizaria, em tese, pelo respeito à “liberdade de se vestir e de se portar”, do “reconhecimento ao direito das mulheres”, da revolta contra o “preconceito”, do direito à  “democracia”. Segundo ele, todos têm o direito de, não vivendo na ditadura da burca, circular com bem entender. É a ideia de base.

Retirei palavras e sintagmas entre aspas dos comentários em blogs e no Twitter. Há variações, mas sempre são variações sobre esses dois temas: o da condenação da licensiosidade (a vadia mereceu!) e o da condenação do autoritarismo (alunos bárbaros!). Mudam-se as palavras, frases, comentários, piadas, mas ou se está em uma enunciação ou na outra. Qual é a sua?

Condenar a aluna pela saia curta ou condenar o ato dos alunos e agora a posição da universidade, filia o sujeito que condena a um discurso. Em sua nota, A Uniban diz que “a educação se faz com atitude e não com complacência”. Com isso, ela própria, como instituição, assina embaixo que concordou com o ato dos alunos, parafraseando de novo seu ato (dos alunos) com sua atitude (da universidade).

O que a primeira enunciação conceitua como abuso, a segunda chama de direito. O que a primeira chama de exagero, a segunda conceitua como liberalismo. O que a primeira conceitua como provocação, a segunda chama de preconceito. E vão-se infinitamente as falas diametralmente opostas porque vêm de discursos pretensamente diferentes e excludentes. Mas seriam mesmo dois discursos? Um da moralidade e um da democracia?

Todo discurso é funcionamento, prática. Discurso não é o quê se diz, mas como se diz e de onde se fala. Assim, na condenação moral à moça – leia-se moral cristã fundamentalista –, a imoralidade também se faz presente na total ignorância das regras de convivência social. E estou falando agora do comportamento instintivo dos alunos. Pensa-se assim: quando alguém passa dos limites que julgo razoável, tenho que suprimir esse alguém para resolver a desfeita. Superar a diferença é uma opção impensável. Para ficar na mesma linha de raciocínio, a título de exemplo: e se Jesus estivesse na Uniban naquela hora? Gritaria ele, como fizeram os alunos, “Pega a vadia! Liberta essa puta do cativeiro!” ou a cobriria com seu manto? Sentiu o drama?

Da mesma forma, na condenação ao ato dos alunos e da Universidade, podemos ver palavras cheias da intolerância e desrespeito à diferença. Alguns, se pudessem, pegariam os alunos e o reitor e os queimariam ou os empalariam em praça pública. Lei de talião pura. Olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazem na prática discursiva o mesmo que condenam na retórica linguística. Não, não adianta dizer que eu sou um reacionário defendo quem quer que seja. Se você está pensando assim, lembro que é de novo seu discurso dando os sentidos para os fatos. Só estou explicitando como os sentidos se fazem pela linguagem que, como disse, é minha praia e aonde vou de sunga, gostem ou não.

O que estou dizendo é que o que parecem dois discursos, por suas expressões linguísticas e enunciações diferenciadas, são de fato o mesmo discurso: o da intolerância, da irracionalidade motivada pela condenação do pensamento diverso, o discurso do pega pra capar. Há, no entanto, um outro discurso: esse sim é diferente porque condena a intolerância em todos os níveis e preza pela superação das diferenças dentro das regras jurídicas e sociais coletivas. Ainda bem que vi isso rolando também nas opiniões. O pensamento de base é: “Se há algo nas regras da Uniban proibindo saia curta, a moça errou e deve receber a punição prevista para a regra que quebrou. Se não há, morreu a história para ela. Se os alunos agressores igualmente quebraram alguma regra social, e devem tê-lo feito pela coisa cabeluda que foi, devem ser punidos também por quem de dever, no caso a Universidade”. Tolerância com o diferente, sem esquecer o respeito às regras. Ponto.

Agora sim, minha opinião. E, claro, ela se filia a esse último discurso. Acredito na democracia, no direito de ir e vir. Acredito também que isso só se conquista no exercício da tolerância e do regramento social. Sem isso, a sociedade vira anomia, vira barbárie. O fato da agressão à moça é lamentável sob todos os aspectos, só servindo para nós pensarmos em que raio de sociedade estamos vivendo. A posição da Universidade foi infeliz. Ficou numa saia mais justa do que a da aluna, legitimando o desrespeito à diferença e sendo injusta porque justiça é tratar desigualmente os desiguais.

Se Geysi feriu alguma norma da Uniban com seus trajes, que os incomodados fossem buscar no regramento suas razões e suas consequências. Se ela fosse minha aluna, como alguém me perguntou no Twitter, daria a ela minha opinião de que assim como ninguém controla os efeitos das palavras ditas, ninguém controla reações exageradas. Há a lei da física da ação e reação, que não pode ser ignorada. Mas diria também que há a lei da sociedade democrática que diz que ações e reações devem respeitar o estado de direito.

Não limitar o comportamento antissocial da turba com a autoridade institucional é criar no juridismo (as leis práticas não escritas, mas exercitadas) um jurisprudência para que outras intolerâncias se repitam. Errou a Universidade. E feio, em minha opinião. O papel de quem regula é regular. Para lá e para cá. E deixar as regras claras, punindo quem as extrapola. Sem isso, cairemos facilmente no reino da impunidade, do moralismo fácil, da hipocrisia e da democracia retórica.

Está na hora do MEC, que é quem regula a Uniban, que não regulou direito a questão, perdendo as rédeas da situação, se posicionar. Porque autoridade não pode ser confundida com autoritarismo, que é exatamente querer mostrar autoridade sem legitimidade. E liberdade não pode ser confundida com licenciosidade, com um laissez-fair, com um tudo-pode. Ou voltaremos todos a usar tacapes e pintar gravuras rupestres nas paredes.

E sabe o que mais? Eu acho muito bonita uma mulher de saia. Por mim, está liberado.

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7 comentários em “Muito autoritarismo e pouca autoridade

    Fatima Segalla Coutinho disse:
    07/11/2009 às 23:50

    Com a roupa q/ela foi a simples aula de turismo, advinda de uma festinha de aniversário de criança, sapatos altíssimos, maquiagem carregada, lentes de contato verdes, na foto a pupila dela acusa, ela agiu como uma débil mental.
    O vestido extremamente curto n/coaduna com uma aluna que foi à aula aprender algo para seu futuro profissional. Já tinha sofrido advertências por suas vestimentas, era motivo de deboche por seus colegas, tipo música de Chico…’taca bosta na Geni’… e ela se achava linda e gostosa,..só ela achava..os outros riam, ninguém a quis para si…
    Tenha dó, será que não tem noção do que é ser bonita, sexy, gostosa… preferiu ser palhaça de tudo e de todos.
    Para encerrar ela encarnou a grande profissional Camila Pitanga, que fez papel de garota de programa, na última novela da globo, vestia vestimentas e adereços que +parecia “em transe”.
    Se,eu,…não tivesse corpo perfeito, e rosto..não daria opinião, pq vcs homens iriam achar que é despeito,mas…é uma pena..ver mais uma infeliz acabando nas sarjetas da vida…. ela já tem 24 anos, está no primeiro ano, ainda, da Universidade…deveria trabalhar…ser útil…ninguém vai querê-la p/ profissional pq graças a Deus, o tempo de gostosona já passou.. e faz tempo….agora é intelecto que conta.
    Deixemos para ser gostosa na cama com nosso parceiro!!
    Fátima

    dinoslender disse:
    07/11/2009 às 23:59

    Prezado Freire,

    Muito bom esse post, gostaria de ler uma posição feminina (Professora) sobre o caso.

    Fernando Filho disse:
    08/11/2009 às 00:45

    Oi, querido Mestre e Amigo!

    Como sempre é um prazer enorme ler os seus textos. Obrigado pelo convite.
    Acho que liberdade de expressão sempre será um assunto polêmico num país dito democrotático, como o nosso. Entretanto, o que me chama atenção pro caso é constatar que os alvos da tirania são os mesmos: a mulher, a criança, o idoso, o negro, homesexuais, pobres, dentre muitos. É vísivel a arbitrariedade. Nossa sociedade ainda está longe de respeitar os direitos do cidadão, muito menos de aceitar a diversidade cultural tão rica que existe no Brasil. É lamentável mais ainda pelo fato de se dar tanta importância ao estilo de roupa da garota quando há tantas questões mais importantes pra se resolver em nosso país: droga, pedofilia, corrupção, fome, etc.

    Valeu Sérgio

    Judy Tavares disse:
    08/11/2009 às 12:00

    Profº Sérgio,
    O senhor foi extremamente feliz em trazer para essa discussão a presença das duas visões que circulam nesse triste episódio.
    Como professora, aluna e mulher, fiquei bastante penalizada com a situação desta garota, afinal, não consigo me sentir tranquila sabendo que em nosso país há pessoas que se acham no direito de apontar o dedo para criar regras no que se refere a forma como nós devemos nos vestir. (e devemos a que, não é?!). E o que é bastante lamentável: a agressão sofrida pela aluna tem ficado em uma discussão de segundo plano.

    Berenice Corrêa disse:
    08/11/2009 às 21:23

    Caro Sérgio,
    A cerca desse autoritarismo hiprócrita e dessa triste falta de autoridade, prefiro parafrasear o discurso dos que defendem o direito de ir e vir, no qual não está previsto o modo como o cidadão deve cumpri-lo, ou seja, se dando cambalhotas, se vestido de monge ou de fio dental. Afinal, por que essa moça foi julgada e condenada por essa instituição?…Por usar uma roupa comum nos quatro cantos do planeta?…Será que usar uma saia curta agora constitui-se em crime de atentado ao pudor? Parece piada! Mesmo que tenha sido por quebra de um regimento interno, considero a expulsão uma atitude totalmente imoral, arbitrária, estúpida e ofensiva, digna de processo judicial.
    Por outro lado, praticar a justiça é respeitar as diferenças, ou seja, não é incentivar a intolerância para nenhum dos lados desse episódio, e sim, atribuir-lhes as devidas responsabilidades previstas nas regras e leis vigentes. Considerei a opinião que você daria para a moça, bastante coerente e confortadora. Sugiro até que você envie o seu texto para ela.
    Não querendo também justificar a atitude dos alunos, mas ao meu ver, essa reação coletiva também pode ser, entre outros motivos, simplesmente fruto de um mal que assola a sociedade moderna, a busca (para muitos) frustrada pela perfeição da forma física, que nesse caso, numa linguagem mais popular significa: o desdém dos homens e a inveja das mulheres. Tenho quase certeza que se a Geysi fosse uma baranga ninguém teria reparado na saia. Será que esse é o preço que se paga por ser bonita? Se for…Que as mulheres bonitas sejam mais complacentes com a imperfeição alheia e pensem duas vezes antes de incomodar as pessoas com seus “atributos”!
    Acho um absurdo alguém dizer que não se faz educação com complacência. Também acho que está mais do que na hora daqueles que representam a educação nesse país abrirem mão da “vista grossa” e legitimarem sua autoridade com atitudes descentes.

    Neilton disse:
    08/11/2009 às 21:23

    Oi Sérgio!

    Parabéns pela concisão e pela posição discursiva diante dessa polêmica.

    Gualter Beltrão disse:
    12/11/2009 às 09:36

    Olá Sérgio,
    Sempre bom ler teus textos e perceber nas pessoas o que de mais primitivo elas possuem, fiquei pensando sobre a UNIBAN localizada em São Paulo, a principal capital do país e percebi que não adianta a região onde moram, as pessoas sempre acham formas de mostrarem o quanto somos ainda dependentes dos nossos hormônios. Imagino na hora da confusão a quantidade de TESTOSTERONA emitida. Veja que mesmo sendo educados e sociais, emitimos traços de selvageria.
    Somos realmente CRO-MAGNO ?

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