Um texto antigo para recordar

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O Autor e o autordrasto

 

Ser autor envolve expor-se à crítica. Isso dá trabalho. Tem gente que prefere outro caminho: a cópia.

Autoria: um conceito em cheque?“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A chamada Lei de Conservação de Massa de Lavoisier serve de mote para começar a pensar o assunto desse escrito: a questão da autoria.

Na nossa sociedade ocidental, o conceito de autor surgiu junto com o de sociedade jurídica. Até então, no geral, os textos eram legitimados pela tradição e eram coletivizados. Com a sociedade de direito, aparece o conceito de responsabilidade por aquilo que se fala e que se escreve. Assim, autor é aquele que é juridicamente responsável pela circulação do texto.

Na teoria do discurso, ser autor é textualizar de alguma forma. Texto é entendido pelo discurso no seu sentido mais lato, como algo que produz sentido. Para o discurso, pode ser texto um conjunto de letras, um som, uma cor, uma imagem e até o silêncio. Sabemos que às vezes o silêncio grita, como na música de Abel Silva: “só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz”. No entanto, além de textualizar empiricamente (escrever, falar, calar), é preciso ainda por esse texto em circulação, pois circulando ele estará à disposição de outras pessoas para que elas possam lhe atribuir sentidos, fazendo o que chamamos de processo de fechamento. É por isso que não adianta nada escrever e engavetar o que se escreve. Posso até me sentir escritor, mas nunca serei autor.

A autoria é um conceito social. Alunos que fazem uma redação e a entregam para um professor como uma mera formalidade escolar não estão praticando a autoria. A redação escolar é um simulacro de um texto, pois não há fechamento, exposição à crítica. É só o professor que lê. Quando lê. Quando muito, talvez tanta redação ajude a melhorar a letra da criatura. Por outro lado, se os alunos preparam suas histórias como parte de um livreto a ser veiculado ou para uma exposição para o público externo da escola, a coisa vira uma experiência de autoria e de real produção de texto. Quem já fez essa experiência com seus alunos sabe como seu envolvimento e sua dedicação mudam quando sabem que a atividade vai ser socialmente visualizada. Para quem quiser ir mais a fundo nesses conceitos, sugiro a leitura do livrinho da minha querida amiga e professora Solange Gallo, Discurso da escrita & Ensino, da editora da Unicamp.

Sendo um conceito social, a autoria também age e sofre ação da sociedade em movimento. Hoje, há pesquisas buscando entender a redefinição de autoria a partir do advento das tecnologias de informação, como a Internet. Se antes o aluno copiava no muque seu trabalho na folha de papel almaço a partir das informações da Barsa ou Mirador, hoje ele dá uma googlada e um copy-paste no teclado do computador. Ao clique de um mouse, o texto está pronto. Ou o que ele acha que é um texto. Copiar não é textualizar. Copiar faz do copiador apenas um copista, manual ou digital, mas um copista. A facilidade da multiplicação dos bits está mexendo com a questão da autoria de forma inegável. Veja um exemplo: escrevi o texto Amazonês, um dicionário de regionalismos e mandei, como parte de um escrito para meus amigos leitores. O texto fez o maior sucesso. Fiquei todo gabado. Eu mesmo o recebi várias vezes. Ele, no entanto, chegava ou sem o nome do autor (no caso o belo que vos escreve) ou com o nome do remetente da mensagem (no caso o copista digital), como autor. Raras foram os e-mails que trouxeram meu nome e poucos foram os sites que deram os créditos. A apropriação ou o apagamento do autor se dá sem a menor vergonha e culpa. Faz parte da ethos da Internet circular bits.

A autoria também pode partir de um lugar já definido. Basta que eu diga que o texto é do Drummond, Caetano ou Luis Fernando Veríssimo que ele já será lido com olhos diferenciados. É o argumento da autoridade. Em seu site, O Millôr volta e meia desmente textos supostamente seus, como aquele sobre a Kelly Key. Claro que Millôr jamais escreveria algo tão canhestro. Quem conhece seu estilo mata na hora a falsa autoria. Então, podemos dizer que o falso autor não é o pai do texto, mas uma espécie de padrasto. Um “autordrasto”, por assim dizer. Por que alguém apaga a autoria ou apadrinha um texto com outro autor?

No caso da atribuição de autoria, a resposta até que é fácil: dar legitimidade através de quem é autor de fato, como no caso do Millôr e companhia. No caso do apagamento, há algumas outras razões. O primeiro motivo do apagamento da autoria é a inocência imagética. E o que é isso? É partir da imagem de que se um texto já está no mundo, ele é do mundo. Se o texto está aí, posso muito bem passar errorex ou deletar o autor,  assinar meu nome e mandar adiante. Só que um dia a ficha vai cair por bem ou por mal. O autordrasto vai ver que não é bem assim e essa imagem de que tudo se pode fazer com um texto alheio vai por água abaixo.

O segundo motivo é a incompetência de autoria. No plágio, na cópia, o autordrasto reconhece e passa recibo de sua incompetência em autorar, em criar um elemento gerador de sentidos. Essa incompetência se estende à incapacidade de entender que do mesmo modo que a informação circula para ser disseminada, ela circula para entregar o crime do copista ao mundo. Vejamos outro exemplo: depois de trabalhar trocentas vezes com Metodologia da Pesquisa nos cursos de pós, colecionei as dúvidas e problemas que geralmente surgem na elaboração de projetos. Criei um CD-ROM com todo o material necessário para alguém que vai elaborar um projeto. Plim-Plim: no cd tem um pouco de epistemologia, as normas da ABNT, um projeto pronto para servir de modelo, um esquema de escrita de texto, etc. Mais informações? Peça-me . Plim-plim. Qual não é a minha surpresa ao ver esse cd nas mãos de uma aluna de um curso de pós-graduação na área da saúde da minha Universidade. O encontro foi casual numa casa de fotocópias. Sugestivo. O detalhe: meu nome foi deletado e o cd foi assumido por um autordrasto. E pasmem: um professor doutor, colega da Universidade. Nesse caso, quero até acreditar que foi mais preguiça do que incompetência. Vamos dar um crédito aos doutores para não ficar muito feio. Não me incomodo que use, mas crédito intelectual é bom e a gente gosta. Afinal de contas, dá trabalho produzir textos e informações significativas.

A informação existe para ser divulgada e gerar nova informação. Mas informação vem de algum lugar. A esse lugar chamamos fonte. O que um autordrasto não percebe é que se ele se quer fazer reconhecido tem de entender as regras discursivas de onde atua. Quem está no métier escolar em qualquer nível, adquire reconhecimento por meio de conhecimento construído e não do conhecimento apropriado das fontes consultadas, o que aliás pega mal pacas. Simbolicamente, o aluno respeita mais um professor que cita suas fontes do que o que fica no blá-blá-blá conteudista anônimo ou quer fazer um texto passar como seu. O professor que sonega fontes deve ser processado pelo Imposto de Renda Ético. Depois fica por aí reclamando que o aluno copiou da Internet. Há aqui no mínimo uma incoerência entre retórica e discurso. “Faça o que o digo, mas não faça o que eu faço”, disparou a Dona Maria, que arruma aqui em casa e sempre tem um ditado para tudo.

O que estou querendo dizer com tudo isso é que acho que o comportamento do autordrasto é sintomático. É sintoma do desconhecimento do que pode e o que não pode legalmente (ignorância jurídica), sintoma de que não é capaz de se envolver em um verdadeiro processo de autoração do mundo (incompetência semântica), ou sintoma de sua incapacidade de se estabelecer profissionalmente se expondo à crítica (esvaziamento teórico). Em se tratando de um aluno de sexta série, em formação, até se admite que alguns desses sintomas apareçam. Em se tratando de um professor, aí não dá. Muito menos se for um professor universitário. Como diria aquela moça da novela: “‘É treva!”

Um autordrasto acadêmico quase sempre tem um problema freudiano com a autoria. Ele ama o autor e deseja sê-lo, mas não pode ou não consegue. E aí o rejeita, o nega, o recalca. Assim, no que depender dele, ele não deixará ninguém ser autor. Encastela-se em cargos administrativos e bloqueia a autoria de quem quer e pode ser autor, usando para isso trâmites burocráticos e institucionais que pode manipular. Claro que estou generalizando, resguardando as honrosas exceções de sempre. Mas há um grande número de autordrastos exilados em cargos administrativos.

Enquanto não desconstruirmos essa idéia de autordrastia que está se  tornando constitutiva do processo da escrita e enquanto não partirmos para um tratamento da prática textual como autoria real, vamos continuar reclamando que nossos alunos não sabem escrever. Como lugar privilegiado para a construção do autor, a Escola tem de perceber que o aluno que está aí é um aluno com um perfil diferenciado. É um aluno da imagem, que pensa de forma não-linear, um ser dos bits. Isso altera significativamente o papel e as expectativas desse aluno em relação à Escola e da Escola em relação a esse aluno, bem como requer a urgente redefinição do papel de professor. Professor autordrasto não pode fazer parte do processo de eliminação da autordrastia. Mutatis mutandi, é como colocar um policial viciado para tomar conta do depósito de drogas aprendidas. Professor autordrasto só serve de modelo para sedimentar a autordrastia do aluno.

Está na hora de uma mudança de atitude quanto a isso também. Digo também porque tenho escrito esses últimos textos sobre o professor. Pergunta para refletir: somos ou não somos autores? Textualizamos ou copiamos? Se não somos autores e somos autordrastos, por que os somos? Começar a se perguntar isso faz parte do início da escrita real de um texto: o texto de nossa identidade profissional. Se não fizermos isso, estaremos confinados a repetir o que textos alheios falam sobre nossa identidade. Pior: achando que o texto é nosso. Ser autordrasto de nossa identidade é cruel. Como diria de novo a D. Maria: “Assim, seu Sérgio, a coisa vai pra casa de Nola”. E vai mesmo, Dona Maria. Vai mesmo.

Sérgio Augusto Freire de Souza

20 de maio de 2004

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Um comentário em “Um texto antigo para recordar

    Anna Vasconcelos disse:
    05/09/2011 às 09:14

    gostei desse texto,agora ja entendi como fazer a resenha

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