Ainda rolam os dados

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Concorri, junto com a professora Rosemara Staub, à direção do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Amazonas. Não vencemos. Ficamos com quase 40% dos votos. E na democracia é assim: respeita-se o resultado do processo. Sucesso ao professor Nelson Noronha e à professora Márcia Mello em sua gestão. Aceitar o resultado, no entanto, não nos exime de refletir pedagogicamente sobre ele e fazer a partir dele leituras políticas. Aliás, não só não exime como nos exige.

Primeiro, é necessário pensar o que o resultado significa politicamente. Tomar partido por projetos, sejam projetos políticos ou projetos de vida, nos coloca em uma posição e não em outra. É assim. Tomamos, Rose e eu, partido por uma sociedade e por uma universidade que precisam mais de gestão do que firulas democratistas, firulas essas que fazem parte de um discurso sedutor que junto com determinado physique du role credencia, na memória de alguns, o ser universitário. Por saber que é preciso tomar partido e decidir é que aceitamos ser candidatos. Por isso também, em outro momento, aceitamos participar de administração pública na prefeitura de Manaus. Por isso, ainda, que de lá saímos quando vimos que um partido político recém-chegado à base política da administração da qual fazíamos parte estava exercitando práticas políticas incompatíveis com nossa visão ética.

A tomada de partido é necessária, não como um exercício a priori, mas como decorrência de análises conjunturais. Ser a favor ou ser contra é produto, a meu ver, de juízos de valor formados nas contingências da dinâmica social e não no dogmatismo político-partidário. É uma leitura. É a nossa. Há outras, claros. A polissemia, palavra que tanto incomodou a outra chapa durante a campanha, faz parte da linguagem, sim. Ninguém tem a exclusividade de conceitos, a patente da verdade, o domínio exclusivo do conhecimento.

Assim, lemos a votação final como o resultado de um conjunto de fatores. Entendemos a votação como uma reação à administração atual da Ufam, que ajudamos a eleger, porque tomamos partido naquela disputa, recebendo os bônus e os ônus do pacote da escolha. É sintoma, mais do que causa, de que a administração superior precisa ver qual a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Queremos uma Ufam que dê certo e aquele foi o melhor projeto que se apresentou. Mas eleição, sabemos hoje mais do que nunca, não acaba quando sai o resultado. Até que ponto pessoas que fazem parte da administração atual em cargos de confiança atuaram nessas eleições para desenhar um cenário de dificuldade política para a própria administração de que fazem parte, por motivos pessoais ou de projetos de partido político? O letramento político necessita de exercício.

Outra opção que fiz foi a de aceitar a indicação do colegiado do meu Instituto para ser seu vice-diretor, quando o professor Ricardo Nogueira foi abandonado por seu companheiro de chapa. Isso permite a leitura de que nossa administração – e digo nossa porque embora não tenha participado desde o começo nela estou – não logrou êxito em se mostrar merecedora de crédito administrativo futuro. O que nos faltou e o que nos sobrou? Pensar sobre isso também é exercício de casa.

Uma terceira leitura possível dos resultados é a que nos faz refletir sobre a identidade do ICHL. Ancorado em enunciados sedutores de mudança, alça-se à direção um grupo democratista que, espero estar errado, terá problemas para lidar com a temporalidade da administração. São pessoas que na boa fé de suas convicções apostolam fundamentos – às vezes fundamentais e às vezes fundamentalistas – que não encontram o compasso da bateria da gestão administrativa, que falam muito bem de seus importantes lugares históricos de enunciação, mas gaguejam – no sentido figurado – ao perceber que quem administra tem de tomar partido (e não se trata aqui de partido político, esclareça-se, antes do sorriso), ao se dar conta de que não dá, na administração, para dividir a satisfação entre todos igualmente no sonho do marxismo utópico, sobre o que o velho Marx diferia do jovem Marx. Sob o manto do novo, velhas práticas dos companheiros se estabelecem no espaço de direção do meu Instituto, com suporte daquele mesmo partido que nos fez sonhar em outro lugar e não mais na prefeitura.

Outra lição pedagógica é a de nos faltou militância. Não paramos com nossas atividades. A nossa militância foi pontual e fragmentada. Nem Rose nem eu somos atuantes em partidos políticos. Nosso partido é o ICHL, é a UFAM. Alunos, professores e técnicos que compraram nosso sonho deram tudo de si por nossas propostas, mas seu belo e admirável voluntarismo não teve volume como o da chapa contrária teve. Isso, reconheçamos com honestidade intelectual, eles fizeram muito bem. Os alunos de filosofia, curso do professor Nelson, ficaram full time no processo, mostrando que só declarar o voto não basta. Aprendemos humildemente. E é preciso aprender porque professor, como diz Guimarães Rosa, é quem de repente aprende.

Há também as questões pessoais de sempre. Mas essas eu me abstenho de comentar porque para mim uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, ainda que muitos achem que elas sejam a mesma coisa. Aqueles que souberem entender me entenderão.

Enfim, o processo fechou um ciclo. Não ganhamos. Aceitamos o resultado, senão seremos sujeitos de uma democracia de conveniência que passamos a campanha toda criticando na chapa contrária. Mas não nos apagamos politicamente. Porque aprendemos que mesmo quando não há vitória numérica, há vitória política. Representamos quase 40% do Instituto que não quer mais discutir a análise de conjuntura de Honduras para fundamentar a compra de ventiladores para a cantina. Se vocês acham que estou derrotado, saibam que ainda estão rolando os dados. Toca aqui, Cazuza.

Rose e eu passaremos agradecendo os votos recebidos da mesma forma que fomos pedi-los nas salas e corredores de nosso Instituto. E limparemos o ICHL de nosso material de campanha, como já havíamos decidido, caso ganhássemos ou perdêssemos. Renovo os sinceros votos de boa administração a Nelson e Márcia. Contem conosco no apoio às propostas  quando entendermos que elas são para a melhoria do Instituto e contem conosco também na crítica propositiva vigilante, que faz parte da construção de qualquer processo administrativo.

Quando cheguei em casa às duas da manhã, depois da apuração, minha filha Clara, de três anos, me disse: “Pai, você perdeu, né? Mas a gente não pode ganhar sempre, né?”. É, filha. Nem desistir nunca. Obrigado por terem acreditado. Vamos trabalhar.

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7 comentários em “Ainda rolam os dados

    blogdokokay disse:
    03/12/2009 às 08:08

    Meu irmão, como bem disseste, uma derrota numérica não representa uma derrota política. Tu, como doutor em discurso, sabes melhor que eu que esse discurso “blá,blá,blá” de “anistia geral e irrestrita”, “abaixo os ianques”, tende a morrer na praia, sozinhos, por eles mesmos. Teus opositores terão 4 anos para fazerem valer os votos que receberam ou se comerem a si próprios. O nosso querido Lula sabe bem disso. Ainda estão rolando os dados. Beijo, te amo e vamos e “a luta continua” (sem ironia, rs)

    Adrienne disse:
    03/12/2009 às 08:13

    É realmente difícil admitir isso, mas errei. As nossas ações vao muito além do nosso blá blá blá. Aprendi uma lição pra próxima vez.
    E o senhor nunca deixa de ser professor né? Ensinando o tempo todo. A ser professor e a ser gente!

    Sérgio Armstrong disse:
    03/12/2009 às 10:33

    O ICHL perdeu, mas o DINTER, o mestrado em Letras e a graduação ganharam e muito com o retorno do professor que com certeza por dever do ofício seria obrigado a se ausentar de sala de aula para dar conta dos deveres do gabinete. Vale o mesmo para o curso da professora Rosemary! Como citas Cazuza, “o tempo não para”, vamos retormar as atividades acadêmicas que há muito o que fazer nos quatro anos que virão. O discurso inconformista de sempre agora virou a possibilidade concreta de fazer! O ICHL precisa e a UFAM também, caso contrário, tudo não passará de mero bla, bla, blá! (ih! rimou, rs)

    Berenice Corrêa disse:
    04/12/2009 às 01:44

    Caro Sérgio, Você disse, entre outras coisas, que uma das razões desse resultado talvez tenha sido a falta de de uma militância orgânica e full time. Concordo, mas muito me surpreende ver que esse tipo de postura, típica da política partidária, ainda se faça necessária no ICHL, ou seja, que tenha alcançado o mesmo êxito que costuma alcançar fora desse contexto, o que nos faz ver que qualquer processo eleitoral neste país está caracterizado por estes vícios…fica a lição, certo?! Entretanto, penso que uma outra falha foi você não ter usado o sentido da linguagem a seu favor, certamente por uma questão de princípios éticos, mas na prática é o que funciona, mesmo numa comunidade que apesar de se considerar esclarecida, ainda se realiza com discursos recheados de firulas democratistas. Estrategicamente, nisso eles também acertaram, certo?!(rsrs) Como na política partidária, escolhas éticas quase nunca significam vitórias, esse é o preço. Mas, antes que você me julgue mal, gostaria de parabenizá-lo pela demarcação feita por vocês, isso mostra que o ICHL está progredindo, que o mundo ainda não está perdido. Também, pelas precoces porém sábias palavras de sua filha Clara, por já saber que, apesar dessa perda, o pai é um homem vitorioso, enfim, pela vitória da transparência e da dignidade. Como bem disse o Armstrong, a sua presença traz sempre algo positivo em qualquer circunstância no ICHL. A sua postura elegante em relação aos adversários e a sua humildade em tirar de tudo isso um aprendizado, fazem de você um grande vencedor. E ainda rolam os dados…
    Deixo aqui o meu abraço solidário.

    Fulano de Tal disse:
    09/12/2009 às 15:03

    Caro professor Sérgio, parabéns pela postura adotada de humildade e eterno aprendizado. Para incitá-la ainda mais, farei minha crítica: foste muito arrogante no discurso. E privilegiaste o confronto teórico sobre linguagem e tal. O que estava em jogo era o ICHL, não as representações do que ele é ou pode ser em termos de linguagem e conceitos. Isso pareceu mais uma grande enrolação, e dos dois lados. O Professor Nelson não me parece o cara mais preparado também. Mas aquela disputa que parecia uma briga de galos intelectuais prejudicou a imagem dos candidatos e você, não sei porque, pareceu mais arrogante, apesar de ser mais novo e menos feio. Aprenda comigo se fores capaz (sem boçalidade, falo com sinceridade): a emoção e a razão são irmãs gêmeas, diferentes, mas telepáticas. Não se exalte. Fica a impressão de é VOCÊ que quer muito alguma coisa, e não o ICHL que necessita. Use de argumentos não de convencimentos. Também fizeste firulas. Eu vi.

      Sérgio Freire respondido:
      09/12/2009 às 22:54

      Fulano de Tal, obrigado por compartilhar sua leitura. É, eu também me acho menos feio do que o Nelson…. rs.

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