Longe Perto

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A etimologia nem sempre é o único lugar para começar, mas é um lugar. Rezam os registros dos deuses da linguística que a palavra “irmão” vem do latim “germen”, semente. Irmão seria, portanto, aquele vem da mesma semente. Quando falamos em “semente”, que também é uma palavra latina, nos referimos à origem. Qualquer pessoa mais sensível para as belezas do mundo sabe que a semente aqui referida não se limita à origem biológica, mas a origem enquanto lugar de partida, o ninho.

Irmão para mim é aquele que sai do mesmo lugar, simbolicamente falando. Aquele que, mesmo divergindo nos caminhos, converge em princípios e em bem-querer não só para os conterrâneos de origem, mas todos os bons do mundo. Irmão chora junto e enxuga as lágrimas. Estoura a champagne e faz o churrasco da vitória. Irmão segreda segredos secretos. Irmão é cúmplice. Na fala. No silêncio. Na arte. Irmão sente a presença da ausência do outro.

Fico pensando se fosse filho único. Não ter irmão para mim é um non-sense, um não sentido. Com quem aprender a dividir? De quem sonegar no egoísmo infantil? Na cabeça de quem bater o martelo de madeira? A quem recorrer nas ausências da alma? Ser irmão é falar, mesmo no silêncio. É estar presente, mesmo na distância. É compartilhar as coisas boas do mundo e puxar da lama das ruins, quando atolamos. Ser irmão é ter códigos secretos, impenetráveis. Uma linguagem criada pela história de vida que não é compreendida por nenhum forasteiro, por mais atento que seja.

Irmão protege. Ou sendo escudo, para receber em si as pedras da existência, ou abrindo a porta, para que nosso aprendizado se dê calejando os pés em caminhos não tão macios, mas necessários no crescimento do ser. Ser irmão é dizer o que é preciso, com o carinho e a verdade dos que amam. Ser irmão é ouvir o que é necessário: ninguém que nos ama nos diria algo se não fosse exclusivamente para nos ver bem. A vida nos põe junto dos irmãos por um motivo. Ela os escolhe para nós. O segredo da felicidade é compreender as razões secretas desse quebra-cabeça. Descobrir o que aprender com cada irmão.

Segundo os dicionários, há os irmãos de leite: indivíduos amamentados pela mesma mulher que é mãe de um e ama do outro; os irmãos uterinos: irmãos filhos da mesma mãe e de pais diferentes; os irmãos consanguíneos: irmãos filhos do mesmo pai e de mães diferentes; os irmãos germanos: irmãos filhos do mesmo pai e da mesma mãe e os irmãos siameses: biologicamente grudados. Irmão, para mim, resume-se ao siamesismo de alma. É a alma grudada que faz com que, nas nossas diferenças, sintamos a presença dos irmãos em nós, na nossa vida, na nossa existência.

Hoje é aniversário de um dos meus quatro irmãos. Pensei nele e no quanto dele tem em mim. Eu seria menos eu se não o tivesse tido. Caminhos bifurcam e se encontram sempre lá na frente. O poeta T.S. Eliot diz: “E, ao final de nossas longas explorações, chegamos ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez”. O poeta Nilson Chavez reza na música que dá título a este texto: “Toda vez que eu viajar é sinal que estou aqui e, quando estiver por lá quer dizer: nunca parti. A vontade de voltar não impede a de seguir. E, por onde quer que eu vá, estarei vivendo em ti”. Vale para lugares. Vale para pessoas. Te amo, mano.

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12 comentários em “Longe Perto

    Clareane disse:
    13/12/2009 às 09:46

    Lindo! Me fez chorar. Td bem que a situação é propícia (Rs.). Estou longe dos meus dois irmãos. Adorei o texto e a citação da música… perfeita! Abraço.

    maurofreiresouza disse:
    13/12/2009 às 10:57

    Lindo, mano! Como sempre. Obrigado. Também te amo!

    Jonária França disse:
    13/12/2009 às 14:49

    Adorei…quanta inspiração!!!
    Lindo texto, apaixonante, envolvente, reflexivo…Já estou recomendando para todas as pessoas amigas ou simplesmente conhecidas que tenham irmão de leite; uterino; consanguíneos; germanos; iameses ou os de coração (eu tenho vários nessa categoria).
    Parabéns professor.
    Quando crescer quero ser assim…
    Abçs.
    Jonária

    Ygor Neves disse:
    13/12/2009 às 16:24

    Sérgio, que belo texto…
    me emocionei… vou encaminhar aos meus 4 irmãos, que andam meio afastados uns dos outros…

    parabéns pelo texto e pelo aniversário de seu irmão

    Abs

    Lucinara Alessandra disse:
    13/12/2009 às 16:48

    Poxa! que emocionante…
    eu chorei ao ler…sabe porque? também tenho irmãos, que me protegem me ajudam e são tudo pra mim nas horas que eu mais preciso….talez até mais que minhas irmãs…
    Vou me inspirar no seu escrito, pra escrever um assim pra eles..
    ameiiiiiiii…bjs….

    Lucinara Alessandra disse:
    13/12/2009 às 16:51

    Poxa! Me emocionei muito…
    Sabe porquê? Porque também tenho irmãos que me protegem, me ajudam e são tudo pra mim nas horas que eu mais preciso…Talvez até mais que minhas irmãs…
    Vou escrever uma mensagem pra eles baseado no seu escrito…Posso?
    Ameiiiii…
    Bjssss…

    Nurian disse:
    13/12/2009 às 20:30

    Oi, Profº Sérgio.
    O texto me emocionou muito.
    Sou filha única. E me fez lembrar que durante todoa a minha vida, não aprendi a dividir, nem objetos e muito menos sentimentos.
    Já tentei mais é dificil. Acredito que ter irmão é ter um pedaço dele em nós mesmo.
    Enfim, não ter irmãos. É viver em silêncio eternamente.

    Berenice Corrêa disse:
    14/12/2009 às 01:12

    Sérgio, parece que emocionar e arrancar lágrimas de seus amigos e admiradores já se tornou uma das marcas de suas produções textuais. É bom ver que não sou a única chorona. Realmente, a convivência de irmãos, no mesmo ninho e especialmente na infância, imprime algo de mágico e único em nossas vidas, tive isso com os meus. Entretanto, compartilho muito mais da visão de que o verdadeiro amor fraterno vai muito além do aspecto biológico, ou seja, ele está fortemente (talvez eternamente) presente nas afinidades que nos aproximam de determinadas pessoas que encontramos pela vida. E é a importância desse siamesismo de almas e dessa sintonia que nos faz sentir a presença mesmo com a ausência, que tentarei passar para a minha filha, até agora única. Mas, depois de refletir sobre esse seu non-sense, estou pensando seriamente em providenciar para ela uma companhia (rsrs).
    Tive um breve contato com o Mauro, nos tempos do CCAA, mas entre tantas alunas suas, ele não lembrará, ainda assim, eu também gostaria de parabenizá-lo pelo aniversário. Acho que, de você, ele há de concordar que não poderia haver presente mais bonito e original do que esse texto.
    Amigo, apesar da distância física, sinto que nossas almas também estão grudadas…e viva a internet!
    Obrigada por nos proporcionar esses momentos de emoção. Grande abraço.

    Oswaldo Júnior disse:
    14/12/2009 às 22:09

    Meu amigo virtual, parabéns pelo texto.

    Aline Postigo disse:
    14/08/2010 às 15:00

    Só um amor verdadeiro, como o que irmãos, os de verdade, sentem é capaz de fazer escrever tão belas palavras.
    Tão triste eu era antes de ter irmãos, e hoje tenho 4 e mais alguns que posso dizer que somos siamesiados por alma.
    Parabéns ao seu irmão e a você pelo belo texto.
    😀

    Enedina Bentes disse:
    28/05/2011 às 13:26

    Vc imagina como deixou o meu coração de poeta? Sérgio vc tocou no intocável. Um texto e tantos sentimentos revirados…

    Cássia Casagrande disse:
    02/07/2011 às 21:34

    Me emocionei com seu texto. Como eu amo meus irmãos,os que partiram e o que ficaram….Parabéns pelo texto!

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