A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?

24 comentários em “A descoberta do mundo

    Jan Rinaldo disse:
    10/01/2010 às 12:34

    Mandou muito bem…parabéns!

    Priscila Trovo disse:
    10/01/2010 às 12:34

    E Sergio, nos pais temos sempre a mesma fala, os mesmo objetivos com nossos filhos e esse desespero bate em mim tbm, quando penso que em breve (mto breve) minha pequena nao sera mais tao pequena quanto antes..Ira descobrir coisas boas e ruins.. Mas, ‘e preciso td isso, nossos pais passaram por isso e nos temos q passar tbm para sentir na pele o que eles sentiam e que mtas das vezes nao entendiamos…
    Choro qnd vejo minha filha crescendo tao rapido, falando coisas q eu jurava q so falaria com 20anos (pelo menos assim eu queria). CHoro mais ainda em pensar q um dia ela tera q sair da minha “asa” e tera que viver sua vida, ter sua familia, trabalhar e td mais..
    Mas como disso isso ‘e o ciclo e nos pais temos que aprender a lidar com td isso..
    Abracos..
    Priscila Trovo

    Carolina Coelho disse:
    10/01/2010 às 12:45

    Ainda tô chorando. Abri a caixa de comentários eo choro ainda insiste em cair… e nem tenho o que comentar. Texto lindo! É uma obrigação indicar esste texto. A cada palavra que li, imaginei a minha princesa Ana Luiza. Impressionante como estes seres de pouco mais de um metro de altura, são capazes de mudar a vida da gente, né? Abraços bem fortes pra vc e pra suas mulheres!

    Camila M. Fortunato disse:
    10/01/2010 às 15:17

    Ainda em lagrimas … Digno … Louvor … Melhor de todos que li … A vida eh assim … Eh o ciclo! Filhos heranca do que temos de melhor !!! Vou indicar …

    Adrienne disse:
    10/01/2010 às 17:54

    Não tem mais graça ficar elogiando o senhor…nunca vi um texto seu ruim… PERFEITO esse!
    DEMAIS!
    Sua fã,
    Adrienne

    Marta disse:
    10/01/2010 às 18:27

    Sergio,
    lindo o texto, como sempre.
    Como mãe de dois homens (25 e 23) tenho a dizer que se prepare…pois é só o começo! Crescem rápido demais….

    Fique em paz e que Deus continue abençoando sua linda família,

    Sua colega de DLLE,
    Marta

    Berenice Corrêa disse:
    11/01/2010 às 01:31

    Estava até demorando para me fazer chorar novamente, hein Doutor?
    Caro amigo, muito me comoveu esse texto porque ele retrata exatamente o momento que estou vivendo com a minha Giovanna, que tem a mesma idade da sua Marina. Compreendo perfeitamente esse seu desespero manso, por também senti-lo de quando em vez A maternidade me fez perceber o quanto é abrangente aquele velho ditado, “ser mãe é padecer no paraíso”. O que antes me parecia significar apenas a dor do parto, agora me descreve todas as outras dores e alegrias que, não somente as mães, mas também os pais vivem, simultaneamente, com seus filhos. Falo dessas dores irremediáveis que não podemos evitar, ou das quais não podemos fugir, desse sentimento de impotência que nos envolve quando vemos que a natureza nos tira o controle que temos sobre eles a cada dia que se passa. Mas também falo desse paraíso que, ao mesmo tempo, nos brinda com com momentos de indescritível felicidade… de um amor que, como você bem disse, para o qual não há adjetivos que possam descrevê-lo. Sinto muita pena de uma mãe ou de um pai que consegue abrir mão de tudo isso.
    Meu querido, hoje não sei exatamente em que você acredita, mas se em sua vida as coisas seguirem o seu curso natural (que você seja abençoado com isso), há uma grande possibilidade, graças à sua luz, de você continuar, mesmo de outra dimensão, cuidando das suas meninas, fazendo-lhes carinhos, dando-lhes colo e conselhos…sentindo-lhes o perfume. O seu exemplo de vida e o seu amor serão o seu maior legado a elas, portanto, continue aproveitando, ao máximo, cada descoberta, oferecendo-lhes sempre o seu melhor.
    A minha fé na humanidade se renova quando me deparo com um pai como você. Obrigada!
    Grande abraço

    Tanara disse:
    11/01/2010 às 08:56

    E eu quase um mês longe da minha filha. Aproveite bem os pescocinhos das suas que eu vou ficar só na vontade, que já era grande antes desse texto, agora está imensa.

    Goettenauer disse:
    15/01/2010 às 14:57

    “Quem tem amor pode rir ou chorar” música de Geraldo Azevedo que estava ouvindo no momento que lia o seu belo texto.
    Eu que ainda não tenho filhos senti desejo, medo e necessidade de ter, esses sentimentos vieram à tona em poucos segundos.
    Fiquei mesmo com os olhos cheios de lágrimas e com um orgulho enorme de meus pais, só de imaginar que ao amanhecer tinham que fazer um belo mingau de farinha láctea para o filhinho aqui.
    #fui

    Paulo Medeiros disse:
    17/01/2010 às 17:54

    …quando cheguei na parte “escrevo chorando.” eu já estava chorando.
    Muito lindo. Também sou pai.

    Eduardo J.S. Honorato disse:
    21/02/2010 às 09:44

    Lí, chorei, não conseguí terminar de ler…..parei de chorar, lí de novo, e chorei de novo….o último parágrafo vai ficar pra outro dia….as lágrimas atrapalham a leitura.

    Acho que a paternidade nos transforma nesses seres “bobos”e sensíveis mesmo e nos abre as portas de uma nova matrix, q poucos tem a oportunidade de conhecer, e que acompanha novas dúvidas e angústias, q vc descreveu muito bem.

    Por coincidencia – se é que elas existem – lí o texto em um desses dias, que decidí não desgrudar do meu curumim, e sua capacidade contagiante de se alegrar e ME alegrar a todo momento.

    Ótimo domingo pra vcs. Parabéns pelo texto.

    abs

    Joyce Braga disse:
    27/02/2010 às 23:38

    adorei o texto,me fez refletir em muitas coisas!
    cheiro nas pequenas
    abs

    karinatostaeid disse:
    09/03/2010 às 17:11

    Parabens…como nao chorar??? Lindas e sabias palavras. Quem tem filho conhece bem esse amor.

    @tonycobarreto disse:
    27/06/2010 às 09:51

    Nem pai eu sou e, mesmo assim, fiquei emocionado. Amor de pais deve ser muito, mas muito grande mesmo. Pois tenho pais maravilhosos, que me amam muito e, ainda assim, quero ser um pai ainda melhor pros meus filhos. E, sinceramente, espero ser bem-sucedido
    Parabéns, Professor. Como sempre!

    Luna disse:
    27/06/2010 às 10:57

    Ainda que seja desesperador, um dos meus maiores sonhos é ser mãe, sentir esse amor todo que nem tenho idéia de como poderá caber em mim.

    Lindo, texto! Bjo!

    Tereza Teófilo disse:
    27/06/2010 às 18:49

    Essas meninas como sempre cheias de vontade mesmo.
    A minha (Anna Valentina) já com 9 e escolhe o que quer ouvir, ler, assistir. Sempre muito exigente com tudo e nós, reféns delas.

    Um abraço,

    chris disse:
    14/12/2010 às 12:11

    quem tem filhos se aprofunda na emoção desse texto.. eu, que tenho filhos crescidos e hoje sou uma avó de primeira viagem, fico pensando em tudo que o trabalho e o mundo me fizeram perder em sorrisos. olhares e momentos. me bateu o mesmo desespero.. tenho que pensar mais sobre isso..

    Sandra Toda disse:
    11/05/2011 às 18:59

    Cara que lindo esse seu texto, assim não vale eu gosto de todos, adorei a frase, vou até copiá-la, “não podemos consertar sua notas fora do tom o concerto de suas vidas”. Estou numa fase que já não posso mais beijar pescoço, contar histórias de coelhos, mas sim tentando mostrar que a vida não é tão cor de rosa, como era quando criança, meus filhos cresceram e com eles minhas preocupações aumentaram…..mas são meus meninos sempre. Um beijo grande pra você, agora por favor continue sempre me dando esse enooorme prazer com seus textos que arrancam-me lágrimas, mas lágrimas de felicidade.
    Sua fã
    Sandra Toda

    Priscila disse:
    07/11/2011 às 09:32

    Querido Sérgio, sou amiga da Bia da comunidade do orkut que agora virou facebook. Já nos conhecemos em uma de suas vindas a SP, no Parque da Água Branca. Prazer imenso conhecer vocês!
    Enfim, o que quero dizer é que nunca postei aqui mas gostaria que soubesse que AMO muito do que você escreve. Amo o amor que você traduz em palavras, em significados, em poesia – seja ele pelas suas filhas, esposa, mãe, cidade, amigos… Todos merecedores de cada letra, de cada vírgula.

    Que emoção ler esse post. E a emoção foi tanta que como havia postado um texto no blog da escola onde trabalho falando sobre amor de mãe, não pude deixar de disponibilizar o link desse seu post para os pais.
    Parabéns! Continue refletindo o sol da sua vida nos dias das nossas.

    Um beijo,
    Priscila

    Segue o link do blog pra vc ver: bercariopepequeno.blogspot.com

    Cel disse:
    12/03/2012 às 08:51

    Adorei! De novo…

    Renata Lima disse:
    06/11/2012 às 08:38

    Não tem como não se aprofundar na leitura, sabes pq? Pq o medo é inerente,universal aos pais, que se tornam egoísta por querer sempre estar perto, proteger,educar,acompanhar do nosso jeito, preparar para esse mundo, como vc sabiamente disse, Feito para Adultos… Desespero manso…traduz tudo que dizemos nós, pais… Medo de perder esses pequenos GRANDES momentos de nossos ” meninos” LINDO Texto Sergio, vc como sempre comovendo, tocando…

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