Soneto em prosa

Postado em Atualizado em

Em Estoril, no catorze de dezembro de 1938,

Amado V.,

Escrevo-te esta missiva para que tu possas saber o que se estar a passar em meu coração, antes um coração doirado e hoje sem luz alguma a iluminar sua tristeza, dum riso que fez-se, de repente, um pranto.

Reclamo a ti nestas linhas as tuas ausências. Onde estaria a flanar um gajo de graúdo olhar que prometera a essa moçoila missivista amor e atenção? Eu reconheço: sobrou-me o primeiro, todavia faltou-me receber a contento mínimo a segunda. A um homem que ama ou propõe-se a tal empreita não se lhe pode faltar um olhar de atenção ao objeto de seu amor cantado em versos e prosas. Sendo o amor a música, a atenção é a pausa que lhe permite ser. Portanto, meu jovem amigo, um conselho de quem te preza: zele por seu amor, tenha por êle atenção para além de uma noite de estrelas e palavras bonitas, meu braziliano.

Digo-te, poeta, e como poetas que és (gandarro não és de certo!), deves saber que à mulher a quem se fala de actos de amor importa muito mais que dela o pensamento se encante do que da noite em que o encanto de corpos habitou-lhes as carnes e que antecede a vindoira manhã em que ela prepara ao amado a bica quente, depositando-o na chávena com o afeto que transbordou do dia anterior. Isso não consta das sebentas dos bancos de escola, V. Este é um conhecimento que tu mo deste.

Queira viver o amor, V., em cada momento. Por mais vão que lhe seja. Dependure teus desenhos e partituras no estendal para que todos dele sorvam as belezas. Espalhe teu canto sobre êle aos quatro ventos. Que teu riso ria o seu contentamento a todo momento . Que até o pesar dêsse amor mereça de ti, um estudante das letras em Oxford, prantos escritos e derramados em sonetos shakesperianos.

À porta de nossa casa, com ou sem eira ou tribeira, cedo ou tarde baterá a angústia dos que vivem, com seu convite ao sono  que todos recusam. No entanto, muitos já estão amiúde a morrer em vida na solidão, pois êste é o fim de quem ama, como está quem te escreve depois de ti. Marialvas não são os favoritos de moçoilas, pois saibas tu.

Vou esquecer-te? Nunca! Vou amar-te com atenção para o sempre? Absolutamente! Nem te culpo,V.,  pois não posso cobrar que uma chama jamais cesse. Porém, não posso negar que ela também seja infinita enquanto permaneça dançando seu brilho.

Com afeto, de uma companheira de aventuras errantes.

A.

Post-Scriptum: Depois de pôr os olhos nesta missiva,  que a guardes somente em tua memória, como em minh’alma guardo o perfume de teu corpo. A fidelidade que te peço é à memória da tarde fria e quente de Estoril.

(Carta encontrada no arquivo estudantil da Universidade de Oxford por I. Stern, pesquisador de literatura brasileira)

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Um comentário em “Soneto em prosa

    Márcio Leal disse:
    14/01/2010 às 11:56

    Muito legal esse material, Sérgio!!!

    No site da Sociedade dos Poetas Tortos tb tem bons textos… Se puder nos visitar, agradecemos!

    Grande abraço

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