Finício de Moraes

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Em “Uma Breve História do Tempo”, Stephen Hawking afirma que só o tempo (seja lá o que for isso) tem as respostas.  A deixa: dependendo de como encaramos o tempo, os fatos tomam sentidos diferentes. Para mim, há duas formas de significar fatos: vê-los no tempo cronológico, privilegiando “chronos”, ou vê-los no tempo contínuo, rendendo-se ao “aevum”.

Tomando os fatos como partes do “aevum”, tempo contínuo, tenderemos a distendê-los indefinidamente, fazendo com que funcionem como fios tramados que atravessam nossa existência e que, mesmo após ela, permanecem. Nesse modelo, esses fios são a nossa própria sustentação. Daí a necessidade de que tudo esteja sob controle para que possamos estar sãos e levar uma vida normal. Enquanto funciona a ilusão do controle, a coisa flui. Mas se um desses fios do continuum se rompe, arrasta com ele a rede de sustentação que possuíamos e que funcionava como viga-mestra de nosso equilíbrio, desnudando nossa impotência. Aí vem a instabilidade nos comportamentos. O desequilíbrio afeta o nosso juízo de ser no mundo. O senso comum chama isso de piração.

Por outro lado, considerando os acontecimentos como orquestrados por “chronos”, o tempo cronológico, a coisa muda. No “chronos”, os fatos são sucessões que se substituem. Mesmo havendo uma relação causal entre o antecessor e o sucessor, os fatos são vistos como nós de uma rede que funciona descentralizada, como a Internet. Se um desses nós se rompe, o efeito é somente o de uma instabilidade passageira cuja dor é diminuída pela certeza do conserto. Ciclos substituíveis infinitos.

Diferença fundamental: no “aevum”, cada fato é o todo e, por isso, crucial. Em “chronos”, cada todo se encerra no fato, que é só uma parte, por isso substituível. No primeiro, enquanto o sistema funciona tem-se segurança, mas vai-se ao luto quando uma parte pára. Porque o todo pára. No segundo, a possibilidade da falha sempre existe, mas tem-se a segurança da pronta correção da porção avariada, o que permite a sobrevivência.

E aí? Apostar na felicidade eterna sob o risco de morrer se ela não vier ou ter a certeza de que nada é para sempre e que a vida se refaz, sem, no entanto, viver a sensação da feliz eternidade? Segurança aconchegante com sofrimento fatal ou incerteza com regeneração certa? Afinal, as pessoas têm domínio sobre a forma de lidar com o real?   Creio que revezar entre os paradigmas ajuda a sustentar a vida e lidar com o para-sempre que não se tem ou com a falta da paz da certeza eterna.

O psiquiatra escocês Ronald Laing dizia que vivemos num momento da história em que as mudanças são tão rápidas que só começamos a ver o presente quando ele já está desaparecendo. Confesso que sempre fui mais “aevum” do que “chronos”. Mas porque precisamos viver nesse veloz jogo de espelhos refletindo novos “eus”, entrego-me cada vez mais a “chronos”, cheio de fins. Cada fim marca um início. Neologismo necessário, o “finício” remete a quem igualmente me entrego: Vinicius. Não dizia o poetinha que não seja “aevum”, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto “chronos”? É assim, não é? Bom, o tempo (seja lá o que for isso) dirá.

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3 comentários em “Finício de Moraes

    mrtrancarua disse:
    31/01/2010 às 22:11
    Lelli Ramz disse:
    01/02/2010 às 17:49

    Olá

    t ahcie no tt e valeu a visita aqui… ñ li o texto.. mas algumsa palvras agradaram.. entã vou ler sim.. dá pra receber por email????

    bjihus

    @LelliR

    Lelli disse:
    14/02/2010 às 09:20

    Olá,

    acabei de ler seu texto!

    rrsrs

    vi sua ida a lavar a louça e lembrei da pendÊncia…

    sou bem mais aevum, quem sabe m renda assim como vc com o tempooooo

    bjinhus

    adorei!
    LElli

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