Sinais

Postado em Atualizado em

Um homem tinha um cachorro que havia criado desde pequenino. Seu carinho era retribuído com uma fidelidade canina. O que dono fazia era aplaudido pelo animalzinho, que o lambia como a dizer “Você é meu ídolo!” Sinais de cumplicidade. O homem amava o cão e o cão amava o homem. Brincavam, explorando o terreno da chácara em que viviam.

O tempo passou e o cãozinho cresceu. O homem confiava no cão e o cão retribuía com sinais de carinho.  As pessoas da cidade, no entanto, viviam dizendo para o homem não dar muita  confiança para o cão. Bicho é bicho e nunca se sabe quando o instinto vai falar mais alto. Mas o homem confiava no cão. O homem casou e sua esposa teve um bebê. Fofo, como todos os bebês. Um riso de Curinga.

Um belo dia, o cão comia sua ração quando o homem se aproximou para lhe fazer um afago. Mas não era um afago sincero. Era um afago de teste. Ele queria ver se o cão preferiria o afago à comida. No fundo queria testar o que diziam na cidade. O cão não vacilou à aproximação. Rosnou e ameaçou morder. O homem forçou a barra, o que era uma sacanagem com quem só havia dado sinais de lealdade até então.

Ferido com a quebra de confiança, o cão mordeu o dono. Esse, assustado, recuou. Reagindo instintivamente, lançou um pedaço de pau contra o animal. Chegou a atingi-lo. O cão e o homem deram sinais de que ficaram ressabiados um com o outro. Principalmente o cão, que estava na dele no início de tudo.

E lá se foi o homem à cidade de novo. Ouviu as mesmas histórias sobre o instinto. Mas dessa vez os sentidos daquelas palavras foram outros. Passou a acreditar no que ouvia. Voltou  para casa convencido de que se desfaria do cão.   Ao chegar, a cena de horror. Rastros de sangue no chão.

O homem pensou na família. Entrou em casa, pegou sua arma, muniu-se de ódio para matar o cão. Eles tinham razão: o instinto se manifestara. Correu em busca da esposa e de seu  bebê. Ela estava no corredor, com as pernas dilaceradas. Fora pega antes de chegar ao quarto, para onde ia para proteger o bebê.

O homem começou a sangrar por dentro. Não queria ver a próxima cena. Fechou os olhos. Rezou para o bebê estar lá. Ao fechar os olhos, sentiu uma lambida na mão e ouviu um  grunhido. Era o cão, todo estropiado, ali na sua frente. O seu ex-melhor amigo era a razão de sua maior dor.

O cão olhou o homem nos olhos. E sorriu. Um riso de sarcasmo talvez. “Viu o que fiz com sua família!”.  O homem mirou e disparou. O cão caiu morto. Não teve nem tempo de gritar de dor. E o bebê? Dirigiu-se ao quarto, já preparando o espírito para o impreparável. Cão miserável!

De repente um choro. O bebê! Vivo! Correu para tomá-lo no colo. Ao entrar no quarto, o bebê estava no berço, chorando, respingado de sangue. Do lado do berço, a onça morta. A mordidas de cachorro. Deu-se o silêncio. Deu-se o vazio. Sentiu uma dor.   O homem sentiu-se só.  Os sinais! O olhar sorridente! A lambida na mão!  O grunhido de orgulho pela guerra vencida…  O homem  deixou de perceber os sinais. Não entendeu os sinais. Irreversível. O bebê, lindo, passa bem, com seu sorriso de Curinga, sem nada saber da história.

A vida é feita de leituras dos sinais do mundo. Às vezes nos equivocamos.

3 comentários em “Sinais

    Tati Amaral disse:
    10/02/2010 às 18:47

    Perfeito, como sempre!;)

    Berenice Corrêa disse:
    11/02/2010 às 23:19

    Sérgio, este texto me fez lembrar dois conceitos, o sentido da linguagem segundo você mesmo, fazendo-me pensar na diversidade do sentido dos sinais, e uma certa teoria platoniana, segundo a qual, nem tudo o que nos parece óbvio é o real, pelo fato de precisarmos de tempo para amadurecermos as leituras que fazemos do mundo que nos cerca. Um tempo que, como no seu texto, nem sempre é o suficiente para evitarmos certos equívocos.
    Ótima ilustração daquilo que nos acontece quando
    optamos por limitar a nossa visão a um único prisma ou quando não queremos ver, muitas vezes por medo ou mero comodismo, o que há além de certos horizontes…
    Grande abraço,

    @TadeuJn disse:
    21/11/2010 às 21:04

    Muito boom! =)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s