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Procura-se um amor. Mas não qualquer amor. Um amor que considere as necessidades abaixo.
Procura-se um amor que goste de amar sem motivo, pelo simples prazer de amar.
Procura-se um amor que goste de dormir aconchegado, com um perna por cima da sua e tendo seus cabelos enrolados durante a noite inteira, com risco de nozinhos para tirar pela manhã.
Procura-se um amor que goste de arrumar contas em fichários, que goste de fazer listinhas de coisas a fazer e a comprar. E que mesmo que eu esqueça de falar, traga meu pacotinho de jujuba.
Procura-se um amor que goste de quem eu gosto como gosta de mim, pois será igualmente gostado por quem eu gosto e por quem gosta de mim.
Procura-se um amor que sorria ao me ver, que morda os lábios sempre que me abraçar.
Procura-se um amor que aceite pequenos defeitinhos como não ser capaz de achar nada, deixar a porta aberta sempre que passar e só tomar sopa passada no liquidificador.
Procura-se um amor que ralhe comigo quando houver exagero, mas que se delicie comigo de vez em quando com uma barra de chocolate com castanha de caju e uma compota de doce de cupuaçu.
Procure-se um amor extravagante nas suas formas de amar, que invente a cada gesto uma forma de mostrar o quando significo em sua vida.
Procura-se um amor com anomalia genética: que não tenha em seu DNA o gene da indiferença, cruel e dispensável.
Procura-se um amor disposto a uma entrega total, mesmo que isso às vezes pareça sufocar. Um ou outro. Beijo também sufoca.
Procura-se um amor que tenha sonhos, para que se possa sonhar juntos, que lute por causas, para que um possa carregar as flechas do arco do outro em suas batalhas. Mas procura-se um amor que tenha como sonho maior nosso futuro e como causa maior o nosso presente, o amor que nos une. E disso não abra mão.
Procura-se um amor que não tenha receio de encharcar-se ao enxugar as lágrimas de dor que eventualmente caiam sobre sua roupa, estragando-as; procura-se um amor que saiba igualmente se esbaldar como criança em banho de cachoeira com as lágrimas das vitórias compartilhadas.
Procura-se um amor que esqueça a razão e jure, de pés juntos e sem figuinha, que será para sempre, mesmo sabendo racionalmente que “o pra sempre sempre acaba”.
Procura-se um amor que goste de Coca Zero, com gelo e limão. De pimenta murupi. De tambaqui ao molho de camarão. De sorvete branco do Select. De tacacá da banca do Wande. De Pizza de pimenta. E que seja capaz de rir do day after.
Procura-se um amor que goste de verduras, para que possa receber em seu prato as que vierem para o meu.
Procura-se um amor que suporte saber tudo de mim, inclusive minhas fraquezas mais fracas. E que um dia não use essa informação contra mim.
Procura-se um amor que me faça queimar a pasta de planos alternativos para a vida, que seja capaz de me convencer de que não preciso mais dela.
Procura-se um amor que seja honesto e sincero, o que é uma redundância, pois todo amor verdadeiro o é.
Procura-se um amor que saiba ser menina, que saiba dengar. Procura-se um amor que saiba ser mulher entre as quatro paredes, amando sem medida, suando, gritando, gozando verdadeiramente com sua alma.
Procura-se um amor que não se sinta menor ou diminuído por cuidar de mim. Pois eu também vou cuidar desse amor.
Procura-se um amor que se orgulhe de minhas vitórias e saiba que a recíproca será sempre verdadeira; Que esteja lá, mesmo em silêncio, nas minhas derrotas, com uma mão em meu ombro e outro a me fazer cafuné.
Procura-se um amor que tenha ombro e colo, preferencialmente macios e aconchegantes, onde eu possa pousar minha cabeça e sonhar nossos sonhos ou simplesmente calar minha dor até adormecer.
Procura-se um amor que saiba que amar é mais do simplesmente dar as mãos. Que amar é dar as vidas, incondicionalmente, com todos os riscos.
Procura-se um amor que marque minhas consultas e vá comigo para ajudar na sempre chata sala de espera. E na saída pergunte, preocupado, o que o médico disse.
Procura-se um amor que me leve no aeroporto, que me apanhe  lá também. E que, mesmo quando a distância da viagem for infinita, não tire do coração o perfume que ficou no abraço da despedida, um amor que vibre com o reencontro como se fosse o primeiro.
Procura-se um amor que não minta, que não me faça sentir bobo (a não ser de amor), não diante dos outros, mas diante de si próprio, numa situação patética de amor desperdiçado num mundo carente de afeto.
Procura-se um amor que goste de eu comer seu nariz, num gesto imaginário de incorporação de sua carne à minha própria de tanto amor.
Procura-se um amor que saiba qual meu prato predileto, que saiba que eu odeio alcaparras e cebolas, que saiba que comeria bife-arroz-farofa todos os dias.
Procura-se um amor que goste de cachorro. Não precisa nem ter um, mas que goste. Não gostar de cachorro é sintoma de uma carência fundamental.
Procura-se um amor que acredite em mim. Mais importante: que acredite em si. Pois assim podemos, como diz Rubem Alves, jogar frescobol e não tênis, fazer a bolinha chegar ao outro e não buscar tirá-lo da jogada.
Procura-se um amor bom de coração como meu pai e decidido como minha irmã. Mas pouco impetuoso. Os impetuosos põem tudo a perder. Inclusive um grande amor.
Procura-se um amor que possa ser, comigo, alvo de frases como: “que casal lindo e feliz”, sem que o tom da frase seja de inveja, mas sim de uma melodia harmoniosa de admiração.
Procura-se um amor que saiba limpar meus óculos enquanto dirijo, para que eu possa ver melhor para onde estamos indo. Que segure os mapas em nossas viagens para que eu não me perca nas difíceis vias da vida.
Procura-se um amor e ele pode ser surdo, pois serei sua audição; ele pode ser cego, pois o conduzirei com segurança na falta de luz; esse amor pode ser inclusive mudo, pois gritarei por ele a todo momento.
Procura-se um amor romântico, que adore Norah Jones e Michael Bolton, que odeie o Rebolation, mas saiba, de repente, dançá-lo numa noite louca, regada à licor de chocolate.
Procura-se um amor que me faça rir com seus comentários e que possa entender meu riso como admiração pela genialidade e não desprezo por sua opinião inusitada.
Procura-se um amor que saiba não brigar com meu computador, pois ao fazer isso reduz-se a uma máquina.
Procura-se um amor que cuide de plantas, pois sou muito incompetente para fazê-lo e muito carente de verde ao meu redor para dispensá-las.
Procura-se um amor que tenha seu computador e que me chame para consertá-lo, instalar uma placa, colocar um programa. Que una sua necessidade a meu prazer e vice-versa. Que me peça para tirar um vírus. Seja do computador, seja de sua vida.
Procura-se um amor que negocie nossas coisas, nossas compras. Eu não sei.
Procura-se um amor que não me chame pelo meu nome. Nunca. Que me chame carinhosamente por um apelido tão nosso que os outros passem a me chamar assim também. Que me dê identidade sem tirar a minha, como os retalhos num manto de arlequim.
Procura-se um amor que não erre. E se errar, que reconheça. E que se reconhecer, que reaja.
Procura-se um amor que goste de tomar água de coco no final da tarde, vendo o sol se pôr. Que goste de vagar de carro pela cidade, sem rumo.
Procura-se um amor que converse comigo por olhar, por suspiro, por silêncio.
Procura-se um amor para quem eu possa dar a última almôndega do meu prato se ambos ainda estivermos com fome.
Procura-se um amor que me convença da inutilidade de classificados.
Procura-se um amor, enfim, que não saiba cuidar de mim quando eu estiver ferido de morte por ele. Pois se chegar a tal ponto, eu não o quero de início.
Procura-se um amor assim. Pode ser um pouquinho diferente. Aceitam-se contra-propostas.
Gentileza, caso haja interesse, procurar no fundo do poço mais escuro da terra.

Não precisa marcar hora. Há até uma certa urgência.

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8 comentários em “Classificados

    Berenice Corrêa disse:
    20/03/2010 às 09:55

    Olá! Tenho certeza que a minha alma gêmea é alguém que procura por um outro alguém exatamente como esse descrito no texto. Apenas uma ressalva, embora não tenha qualquer conteúdo significativo, não dá pra odiar o Rebolation pelo simples fato de gostar muito de dançar esse ritmo. Se esse amor aceitar uma dançarina de axé…rsrsrs.
    Caro amigo, atualmente procuro um amor assim. Caso conheças alguém, disponível, que se enquadre neste perfil, apresente-me, please!
    Ou ainda, se um dia você permitir que se criem clones de você, desde já quero reservar um todinho para mim. Sim, porque esse Sérgio Freire original já é da sortuda da Bia Eid, right!
    Cheers.

    lipe disse:
    20/03/2010 às 11:23

    Garotas que se encaixam na descrição do texto favor me add.

    Cyane disse:
    20/03/2010 às 18:17

    Que lindooooo!!!!!

    Especialmente delicado!

    Saudações,

    Cyane

    Adrienne disse:
    20/03/2010 às 19:35

    Sem comentários! Quase perfeito!

    Débora Paulino disse:
    20/03/2010 às 23:24

    Fascinante!!!

    Du disse:
    22/03/2010 às 01:41

    Será possível existir um amor assim? Espero que sim…
    Lindo texto, parabéns!

    Nathalie disse:
    22/03/2010 às 11:59

    Lindo e original!!!

    Deborah disse:
    06/06/2010 às 18:38

    Lindo e original, eu que tenho apenas 21 anos até esperaria encontrar um amor assim, mas não sei, as vezes minha realidade fala bem mais alto e penso que isso seria mera ilusão, mas o que custa sonhar as vezes né? 🙂

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