Brainstorm

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Deu vontade escrever num fluxo, sobre assuntos que surgirem na cabeça, num hipertexto de sinapses. Sobre trabalho, me vejo trabalhando demais. O que é bom, porque gosto do que faço. E o que é ruim, porque me tira dos meus em tempos preciosos que, como a pasta do tubo de pasta de dente que já saiu, não tem como voltar. Ontem fiz minha filha mais nova, a Marina, dormir. Nós dois contando histórias. Eu começava, ela continuava, com sua criatividade de Julio Verne. Juntos, fomos para o meio da floresta, de lá pegamos um avião e visitamos sua vovó em Campinas. Depois, fomos ao Shopping Studio 5, comprar nuggets e batata. Por fim, adormecemos na casa de tijolo porque o lobo mau e a bruxa estavam nos procurando. Se bem que a bruxa era da Disney, o que, segundo a Marina, era um problema a menos. É. Há bruxas boas e bruxas más. Já desconfiava disso. Como há princesas boas más. A bruxidão e a princesidade são estados de espírito, não são definitivamente uma questão estética. Falando de filha, a Ana Clara, a mais velha, parece comigo. Parece fisicamente, apesar de ela ser linda e eu nem passar perto disso. Eu me vejo em seus olhos, em seu semblante. Olho fotos de quando era pequeno e fico divagando como deve se dar esse processo de design divino do cut and paste em relação aos filhos. Tira os olhos do pai, põe a orelha da mãe, desenha os lábios pra ficar igual ao da avó. Mas, ao contrário do senso comum familiar, Clara também se parece comigo no espírito. É meiga, doce, racional sem perder a ternura. Mas vira bicho se pisarem em seu calo. Ontem aconteceu isso. Foi uma luta pra eu convencê-la de que estou do lado dela. Sempre estarei. Ela não queria nem papo porque eu a havia contrariado e suspendido o DVD até segunda ordem, até que arrumasse a bagunça que ela e a irmã haviam feito na sala. Cedi no meio. Dúvida de pai: ceder é ruim? Ando cedendo muito recentemente. Cedendo espaços, cedendo limites, cedendo pontos-de-vista. Tenho medo da crise dos quarenta estar se instalando aos 41, com um atraso perfeitamente compreensível pelo way of life brazuca, pois nesse país tudo atrasa, nada funciona a contento, homens públicos pintam e bordam e ninguém faz absolutamente nada. A crise, eu acho que pode ser ela, vem cutucar perguntando de vez em quando se escolhi, lá trás, a profissão certa. Do ponto de vista de realização pessoal, não tenho dúvidas. Gosto demais do que faço. A maioria das pessoas para quem faço o que faço parece gostar também. Ainda que sempre tenha os 20% da estatística que não gostem ou odeiem de graça. Problema deles. Dou o melhor de mim. Mas enquanto justifico gostar do que faço, a crise, irônica, provoca que certamente eu gostaria também de outras coisas pelas quais tivesse optado lá trás, mas com um retorno financeiro e uma qualidade melhor hoje. Aí eu calo. Aí ela me vence. Fico sem argumento, tentando justificar o injustificável, como o advogado dos Nardoni. Tenho pena desse cara e da mulher dele. Pena. Infelizes condenados eternamente à tristeza. A minha tristeza e da torcida do Flamengo, que somos relativamente normais, é conjuntural. Passa daqui a pouquinho. Logo estamos rindo do mundo, das leseiras dos amigos, do sorriso da criança. Preciso sorrir mais, a propósito. Tenho me pegado sorrindo pouco. Isso me preocupa. Sempre me considerei alegre, daqueles que têm por obrigação melhorar o dia de quem encontra, fazendo a pessoa sair melhor do que chegou ao encontro. Pretensão talvez. Mas sem pretender, quem há de? Pretender me lembrou o falso cognato em inglês, pretend. Fingir. Como fingem as pessoas! Como fingimos nós! Fingir, estou convicto, é tão necessário para sobrevivência social quanto ser honesto é para a paz psíquica. Aos 40 anos estou aprendendo a fingir, ainda que reconheça que meu fingimento é fingimento de poeta, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Camões. Queria ter mais tempo para ler. Ler não só o que tenho que ler para preparar uma aula decente, que é o mínimo que meus alunos merecem. Queria ter tempo para ler coisas que deixei em suspenso por falta de tempo, como a série de DVDs sobre a obra do Chico, como a biografia da Clarice Lispector. Estão ali, esperando meu retorno, como um cachorro espera o retorno de seu dono. Preciso comprar um cachorro. Minhas filhas precisam aprender com um animal de estimação. Lá em casa, quando morava com meus pais e irmãos, os cachorros eram sempre “meus”. Porque eu brincava mais com eles, eu dava banho, eu os abraçava na hora dos trovões. Eu chorava suas idas e mortes como ninguém. Aprendi a gostar, a cuidar, a perder com as Laikas, com o Pongo, com o Puck, com a Saussure. Minhas filhas definitivamente precisam de um animal. Não gostar de animal para mim demonstra uma carência fundamental. É como não gostar de música. Como é que um ser humano não gosta de música? Tudo bem, qualquer música, não entro nem no mérito de qual tipo de música. Qualquer música, do Calypso ao Tom Jobim, Do Coldplay ao Jonas Brothers, da Nana Caymmi ao Sampa Crew. Eu gosto muito de música. E tenho me pegado ouvindo pouca música. Passava a tarde de sábado da minha adolescência ou estudando ou ouvindo música, deitado no chão frio do meu quarto, fitas espalhadas no chão, fone plugado no três-em-um CCE. Police, Leo Jaime, Air Supply, RPM, Hall and Oates, Pet Shop Boys, Dire Straits, Beatles, só Lennon, só Paul. Só George. Nunca o Ringo. Preciso arrumar meus CDs. Faz uns dois anos que digo que vou fazer isso. Literalmente centenas de Cds na gaveta do móvel da sala, esperando organização. Trilhas de momentos da vida que ficaram para trás. Porque a vida anda para frente. Porque a vida continua. Porque ela um dia vai acabar. Não gosto de pensar na morte. Confesso: não sei lidar com ela, com a finitude. Fico assustado. Perder sempre é perder-se um pouco. Às vezes um muito. A última grande perda – e primeira também, pelo menos do mundo adulto consciente – foi a da minha vó, em 2001. E lá se vão quase dez anos. Não quero outras perdas. Não agora. Não nunca. Deus foi muito bom comigo. Deu-me pais maravilhosos. Puta merda! Desculpem o palavrão, mas meus pais são do caralho. Desculpem de novo o palavrão. Ou não desculpem. Deixem de ler. Tenho 41 anos e quero dizer o que tiver vontade. Pelo menos nesse texto. Ele é meu. Se não quiser mais ler por causa de um palavrão ou dois vá ler outra coisa, vá ler a Lya Luft. Mas como estava dizendo, meus pais são do caralho. Minha mãe é admirável. Soube sempre começar sem desistir nunca, a não ser de si mesma em algumas coisas. Por nós. Eu já a amaria só por ser minha mãe. Mas a amo muito mais porque sei o que é renúncia por amor. Hoje sei porque tenho filhas. E meu pai. Meu pai é tão precioso que a brincadeira de mau gosto que fazemos entre nós irmãos, quando ligamos um pro outro, é dizer “Mauro… meu pai…”, assustando, como que sacaneando o outro com uma notícia ruim sobre o velho, como quem diz com isso: “Estou com saudade de ti, meu irmão! Tu estás tão longe que nem sabe que o velho não tá legal”. Tenho medo dessa brincadeira. Pavor. Porque sei que um dia essa frase não vai ser sacanagem de irmão para irmão, mas vai ser sacanagem da vida finita com a gente. Vai ser dos vera. Só de escrever isso, tenho que ficar enxugando as lágrimas que caem entre a tecla do espaço e a primeira fileira de teclas, mais precisamente no X e no M. Ainda bem que este texto é sobre fluxo de pensamento e os assuntos mudam. Esse é, definitivamente, um não-assunto para mim. Perguntaram se eu ia entrar para a política, me candidatar a algo. Porque ando muito aparecedorzinho ultimamente. Na mídia. Nunca tinha pensando nisso. Mas sabe que ando pensando? Será que não seria bom? A gente reclama que a política não está legal, que tem muito picareta (mas tem gente boa também. Conheço vários políticos do bem)… Será que é porque a gente não está ocupando espaço? Porque é assim: se a gente não ocupar o espaço, vem alguém e ocupa. Não há vácuo na vida. Estou pensando mesmo. Eu sei que teria que reforçar o estômago, porque se meter com política no sentido de se colocar como representante é desgastante. Sei porque fui candidato a diretor do Instituto em que trabalho na minha universidade. Uma eleição ali, pequena em termos de universo. Perdi. E foi desgastante demais. Passional demais. As pessoas ficam irracionais e não percebem que a vida e as relações pessoais continuam. E devem continuar. Se pintar o lance de ver o outro como inimigo, fodeu. Outro palavrão. Mas na norma padrão, com “o”. Já avisei que este texto está saindo do jeito que vem. Ninguém é inimigo. A gente é, no máximo, adversário conjuntural. Para tudo. Não há unidade sem fragmentação. Eu e a Bia, por exemplo, que aprendemos e estamos ainda aprendendo a conviver e a exercer nosso amor. De vez em quanto nos comemos, tanto no sentido bom do termo, o que é a maioria das vezes, graças a Deus, quanto no sentido ruim, de sair na porrada para aparar umas diferencinhas de compreensão dos fatos e do mundo. E faz parte. É assim. Ponto. Esse negócio de casal que não briga é coisa de novela. Casal perfeito é casal neurótico. Interprete essa frase do jeito que ela lhe fizer mais sentido. Meu texto propositadamente está escrito em um parágrafo só. Dá para entender que o estilo do texto mimetiza o fluxo da escrita, não? Vou fazer café. Vou tomar café. Pensei demais para uma manhã de sexta. Tenho duas reuniões de trabalho hoje. Duas. Tenho duas filhas. Duas. É muita reponsabilidade. E muito amor. Depois escrevo mais. Ou não. Beijo pra você que me deixou falar e ouviu pacientemente. Ponto. Seguido. Café?

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12 comentários em “Brainstorm

    Carolina Coelho disse:
    26/03/2010 às 14:01

    Ufaa… que texto, hein?!? =D

    Ana Célia Costa disse:
    26/03/2010 às 20:00

    Parabéns pelo blog prof Sérgio! Mesmo de longe acompanho seu trabalho. 😉

    Ana Célia Costa disse:
    26/03/2010 às 20:02

    Ah..e o meu blog Prestenção veio do Amazônes OK!

    Fabio Fischer disse:
    26/03/2010 às 20:07

    Isso é que é um Brainstorm ! 🙂

    Tanara disse:
    27/03/2010 às 23:42

    Adorei o texto. Ultimamente ando meio assim também…brainstorm total.

    mario roberto disse:
    03/04/2010 às 16:31

    Desculpe-me a curiosidade, mas você inclui palavrões quando está dialogando com a Ana Clara e a Marina? Não se exalte! Eu só queria receber o mesmo respeito!!!

      Sérgio Freire respondido:
      03/04/2010 às 17:40

      Não, com elas não. E quase nunca uso. Muito menos escrevendo. Veja meus textos aqui. Esses fizeram parte do texto pelo gênero de escrita proposto. Liberdade poética. E sempre há a possibilidade de não ler. Um abraço. S.

        Bianca disse:
        03/04/2010 às 18:25

        Pois eu achei do caralho!

    luadosolzinho disse:
    06/04/2010 às 12:21

    Eu achei que tinha escrito muito no “Pede pra sair” do CretinaFeelings. Mas vejo que alguém estava precisando desabafar bem mais do que eu. Mesmo vivendo num ambiente onde quase nunca se ouve um palavrão, devo dizer que não me incomodou vê-los em seu texto. Desabafo é desabafo e quem se dispõe a ouvi-lo deve se preparar para ouvir o que quer que seja. Ainda que seja uma sequência nterminável de palavrões. Acho que é falta de respeito quando eles (os palavrões) são endereçados a nós, mas este não é o caso. Portanto, não me senti desrespeitada. Como você, também tenho medo daquela frase nas ligações… Morro de medo. Como já se sabe, só tenho a eles. Nem irmão eu tenho mais pra me dar uma notícia dessas (que espero levar ANOS para recebê-la). Também não sei lidar com a morte. Enquanto ela levava apenas conhecidos distantes, ela não me incomodava tanto. Quando levou meu único irmão, eu passei a MORRER de medo dela. Mesmo. E também gostaria de ter mais tempo para ler e ver filmes e conhecer lugares bonitos. Adorei o texto. E a ideia de escrevê-lo num único parágrafo foi muito boa. Quando precisar fazer outro Brainstorming, estarei aqui para “ouvir”. Adoro seus textos. Beijos nas filhas e na Bia! ;*

    solzinhodalua disse:
    06/04/2010 às 13:08

    Um texto que me levou a refletir sobre alguns assuntos:
    – Morte, sim tenho muito medo dela. Perder alguém de minha família é algo que me assusta e muito. Perder, na 13ª definição do Michaellis – “Ficar separado pela morte de…”, é um sentimento que não desejo à ninguém.

    – Tempo: de fato adoraria ter mais tempo pra conhecer lugares novos, ouvir minhas músicas, ficar de bobeira (pq não?). Mas nossos tempos estão sendo preenchido com nossas responsabilidades diárias. Poucos são os momentos que podemos dedicar a nós mesmos.

    – Convivência: casal perfeito NÃO existe mesmo! Concordo com você. Sempre existirá um ponto em que o casal irá se divergir. Isso pode vir acompanhado de briga ou não. Não é regra. Dependerá do casal determinar um meio termo. Além do mais, estamos sempre conhecendo a outra pessoa da relação. Discussões serão normais. Excesso delas é que complica.

    Não me senti insultado pelos seus palavrões. Não foram direcionados a minha pessoa rsrs. Só mais um detalhe. É normal desabafar quando se precisa. Toda pessoa tem esse direito. E se no processo sair alguma palavrão, que se dane! Lê quem quer.

    Seu texto é realmente um Brainstorm =)

    Gostei de lê-lo! o/

    Neyla Siqueira disse:
    09/04/2010 às 17:19

    Tenho sentido a mesma necessidade de sair falando/escrevendo a mesma coisa, sabia??
    PARABÉNS

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