O manto do Arlequim

Postado em Atualizado em

O filósofo Jacques Derrida desenvolveu a teoria da Desconstrução. Segundo ele – e aqui reduzo ao osso sua teoria – o nosso mundinho, centrado na razão, é visto como fundamentalmente binário. Há sempre dois pólos antagônicos que aparecem em qualquer situação. Analisar tal fato pela Desconstrução, desconstruí-lo, passa por localizar quais são os dois pólos envolvidos, qual é o hegemônico em relação ao outro e como se sustenta essa relação. Nessa teoria, amplamente usada na literatura, fica de fora, no entanto, um terceiro elemento. E sempre há um terceiro elemento a dar sentido aos fatos do mundo.

Em seu livro Modernidade e ambivalência, o sociólogo Zygmunt Bauman, indo além da dualidade de Derrida, chama a atenção para o que não é da ordem do maniqueísmo, para o que foge ao jogo da dicotomia. Ele diz que se existem amigos e inimigos, existem também estranhos. Amigos e inimigos colocam-se numa oposição uns aos outros. São diferentes, mas se localizam uns nos outros, se complementando, formando um todo único. O estranho, não. O estranho rebela-se contra essa colisão conflituosa entre amigos e inimigos. A ameaça que o estranho carrega, diz Bauman, é mais terrível que a ameaça que se pode temer do inimigo. O inimigo a gente conhece. O estranho não é amigo nem inimigo – e pode ser ambos. O estranho é um membro da família dos indefiníveis. Toda oposição (bem/mal, amigo/inimigo, amizade/inimizade) possibilita o conhecimento e a ação: a indefinição paralisa. “Os indefiníveis expõem brutalmente o artifício, a fragilidade, a impostura da separação mais vital. Eles colocam o exterior dentro e envenenam o conforto da ordem suspeita do caos. É exatamente isso que os estranhos fazem”, termina Bauman. Mas, parafraseio o autor: assim como pode ser o inimigo mortal, o estranho pode ser o amigo de uma vida. E quem saberá sem conhecê-lo?

Por que falo do terceiro elemento? Por que busco em autores lidos explicações que extrapolam os básicos e confortáveis “sim” e “não” e aponto para o incômodo “talvez”? Se pudesse classificar as formas de encarar os fatos no mundo no que diz respeito às relações desses fatos com outros fatos, diria que há três tipos de pessoas. Há os que pensam monossemicamente (ancorados sempre em uma e somente uma matriz de sentido), os que pensam binariamente (fixados numa política do “ou isso ou aquilo”) e os que pensam ambivalentemente (levados a se perguntar sempre pela especificidade de cada caso).

Os que pensam monossemicamente pensam, como diz a palavra, a partir de um único sentido. Aqui enquadro os alienados de várias espécies: político, religioso, afetivo. Não uso a palavra alienado de forma pejorativa, mas como categoria de posicionamento, buscando sua etimologia no latino “alienare”: “perder os sentidos”. São aqueles que só veem um sentido e uma explicação em e para tudo. Podem até ser felizes com sua visão em mono. Se algo bom aconteceu, foi “presente de Deus”. Se algo ruim bateu na vida, foi porque “Deus quis assim para provar minha fé”. É mais ou menos isso, jogando para o nosso bom Deus as responsabilidades pesadas de nosso livre arbítrio. Se o Fluminense perdeu a culpa é do presidente. As responsabilidades pelos males do mundo é do inimigo político. “Deixo você pensar desde que pense o que eu penso”. Por aí vai. Seja qual for a explicação, ela tem sua origem sempre no mesmo local definido, seja Deus, o ego, o partido político, o marxismo ou o Edir Macedo.

Os que pensam binariamente – e assim o faz a maioria das pessoas – trabalha dentro de um maniqueísmo fácil de lidar, mas muito perigoso. Fácil porque ou se faz isso ou se faz aquilo. Ou se ama ou se odeia. Ou se vive ou se morre. Nesse paradigma de pensamento se ganha pela extremidade, cortando-se pela raiz, mas se perde pelo miolo, levando para sempre com a raiz o bem que nela habita e que pode conter a cura das incuráveis doenças. Quem pensa assim, ou-ou-mente, esquece que entre oito e oitenta há setenta e duas outras possibilidades. Travestido de comodismo e resolução em estéreo, esse modo de ver o mundo aponta para uma intolerância em relação às especificidades da vida, às importantes filigranas do viver, aos casos e casos que fogem às regras e que, exatamente por isso, sustentam suas necessidades de existir.

Por fim, há os que pensam ambivalentemente. Esses buscam observar o preceito da terceira via. Não como decisão a priori por essa via, mas como possibilidade extra no horizonte das decisões. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como diz a sabedoria popular. Pode-se até decidir pelos extremos, mas passa-se necessariamente por se considerar o meio que os une. A vantagem de se pensar assim é exatamente seu problema: como lidar com o “inlidável”, que não conhecemos? Como encarar o estranho estranho, a que se refere Bauman? Será ele nosso oxigênio extra da vida ou nossa cicuta fatal da morte? O risco sempre se apresenta, mas junto com ele se apresenta a possibilidade os novos e deliciosos ganhos em Dolby surround, mais próximos dos verdadeiros sons da vida. Já dizia Caetano: o que ainda não é mesmo velho apavora a mente.

Pensar ambivalentemente, apesar de mais arriscado, me parece estar mais de acordo com a dinâmica do mundo real, multifacetada e caleidoscópica. Pensar que só há um sentido nas coisas é empobrecer a beleza da diversidade. Pensar que é ou uma coisa  ou outra é amesquinhar e positivar a dialética das relações. No entanto, pensar que tudo pode ser diferente é acrescentar à vida multiplicidade de escolhas e caminhos novos, construídos exatamente pela singularidade de cada fato e de cada relação. Por isso não há receitas, exatamente por esse produto das singularidades ser único e sempre diferente, determinado pelo histórico e pela historicidade, o material da história. Quem está de fora não verá nunca o porquê de certas coisas da mesma forma de quem está de dentro. Os olhos veem de onde os pés pisam. O de fora tenderá a sugerir uma visão monossêmica ou maniqueísta, impondo perdas que, no final das contas, não serão suas, mas nossas. Quando a gente está dentro do edifício, não podemos sugerir destruí-lo, pois iremos juntos. Podemos sugerir questioná-lo, alterá-lo aos poucos, de modo a permitir que vivamos sem o sobressalto do iminente desabamento.

É preciso ser tolerante com nossa história. É preciso dar sentido aos sentidos. Hannah Arendt, pensadora alemã, nos fala da importância da moldura semântica, de por algo em seu contexto de significação, quando nos fala da dor da perda: “Todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas”. Nas histórias, a dor se torna suportável porque deixa o tempo fútil da emoção pela imortalidade da duração. Toleremos, pois, o tempo.

Alguns poderiam questionar se essa tolerância do pensamento ambivalente não seria não a aceitação do valor do outro, mas ao contrário, uma maneira mais sutil e astuta de reafirmar a sua inferioridade e de oferecer um pré-aviso da intenção de eliminar a alteridade do Outro, como fazem os maniqueístas. Não seria a política da tolerância aqui apresentada um consentimento em adiar o acerto final de contas – com a condição, no entanto, de que o próprio ato do consentimento reforce ainda mais a ordem de superioridade vigente? São questões e leituras possíveis, mas que mesmo assim não me convencem da urgência de uma decisão fatal e fatalista, seja ela única ou maniqueísta. Decidir é, de certa forma, adiar pela análise. Adiar é, de certa forma, esperar. Mas é preciso esperar agindo sobre a espera, fazendo a hora. Parece mais sensato, apesar de mais trabalhoso.

Vou agora remeter esse texto a um outro autor para ver se deixo mais claro um escrito tão cabeça como esse: Michel Serres, também filósofo. Em Le Tiers-Instruit – “O Terceiro-Instruído”, numa tradução sem graça, que é a que meu francês permite –, Serres fala que nós somos uma mistura original ou um original misturado. Dos genes de nossos dois pais nascemos nós, terceiros, como seres únicos. Mesmo nascidos canhotos, aprendemos a usar a mão direita eventualmente. Mesmo nascendo aqui no local, somos cidadãos do mundo, portadores de certas visões cosmopolitas. Assim, cada situação vivida representa um retalho colhido, somado e suturado ao pano que é nossa mente, que é nosso ser, que é nossa história, que é nosso discurso. São como os retalhos multicolores do manto do Arlequim, que representam as terras por onde passou. É um novo traje sempre sem deixar de ser o velho, mesmo com cada remendo acrescentado. Assim somos nós, a cada dia. Entre mim e a vida, sempre nasce um novo eu, um terceiro. Esse terceiro pode ser, se souber fugir do insosso mundo único e do intolerante mundo binário, um terceiro mais feliz, mais instruído. Um terceiro-instruído, como chama Serres.

Concluo dizendo: se na vida tudo é possível, o improvável está no meio. Lidar com o improvável como possibilidade nos faz mais fortes, menos acomodados, mais atentos e mais preparados. É a possibilidade do improvável que nos possibilita nos encontrarmos na hora da escuridão porque levamos – entocada no bolso – uma caixinha de fósforo, desnecessária para aquela jornada planejada, mas fundamental para uma outra que lhe tomou inesperadamente o lugar. Sejamos, pois, menos resolutos quanto às nossas decisões a priori. Duvidemos mais de nossas certezas e tenhamos mais certeza de algumas de nossas dúvidas. Fujamos da rotulação do diferente como sendo sempre o nosso contrário: a vida não é o boi de Parintins, simplesmente Azul ou Vermelho. Tiremos as vestes previsíveis, quando em quando, e vistamos o manto do Arlequim. O manto, produto dos retalhos das aprendizagens de nossas vidas, nos fará pessoas certamente mais felizes, pois nos lembrará que aprendemos com nossa história. Ou pelo menos, ele nos deixará mais bonitos e vistosos. O que já é um ganho nessa vida que insiste em se nos apresentar, falsamente, como feia e cinzenta. Certamente ela não é assim. Ou será que é?

Anúncios

2 comentários em “O manto do Arlequim

    Franklin Carioca disse:
    09/04/2010 às 08:59

    Belíssimo texto! Parabéns!

    Luciana Lenoir disse:
    14/04/2010 às 13:37

    Na era da “Modernidade Líquida” explanada por Bauman, é necessário propor uma análise acerca da flexibilidade em todas as esferas da vida social e, especialmente, diante das ações individuais e coletivas.
    O “engessamento” do indivíduo com suas certezas, julgamentos e paradigmas minimizando-o a uma condição comodista, impede-o de explorar de forma questionadora, a realidade que é abrangente, holística e “plural”. A gênese desta conduta é delineada pela tradição ocidental que impõe o acerto como precondição ao sucesso, enquanto a perspectiva do erro é associada ao fracasso… Errar é essencial para o aprendizado, o desenvolvimento e o equilíbrio.
    Trata-se, portanto, de uma questão cultural que reverencia o comodismo e a “alienação” e que desdenha a diversidade, a complexidade e, concomitantemente, o pensamento crítico.
    A postura dialética no contexto da “mundialização” – em que todas as nuances socioeconômicas são alicerçadas pelo universo concreto e simbólico – exige um confronto abstrato e subjetivo e, infelizmente, nem todos estão predispostos ao enfrentamento e às contradições. É preferível, mais fácil e mais rápido agir pelo caminho certeiro e experimentado a que aventurar-se pelas alternativas do desconhecido.
    Nessa perspectiva, o “talvez” justamente no meio do caminho é desafiante, desgastante, “sem sentido”, não é palpável uma vez que não há tempo para o “incompreensível”!
    Antes mesmo de vestir o heterogêneo e colorido “Manto do Arlequim”, evidencia-se a necessidade de construí-lo com os pequenos e grandes “retalhos” que nos envolvem e definem, mas que nos alteraram de forma sublime… Que nos fazem humanos, aprendizes, polivalentes e, lógico, felizes!!!

    E que sejam lindos e diversos “Mantos de Arlequim”…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s