Amor perfeito

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Em frente à casa da rua três, Paulo, eu, Paula e Mauro. A lu ainda tinha chegado. Atrás, a leoa.

Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Essa mulher aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson e com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. É como o nascer do sol que damos por garantido todos os dias, mas que quando se permite ser sorvido no silêncio ganha um significado renovado. Ela deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe transcende o biológico. Mãe é concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Minha mãe me ensinou a exercer a autoridade sem violência, a ter compaixão sem assistencialismo, a curtir as vitórias sem humilhações, a compreender as derrotas como lições. Aprendi com minha mãe que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que, nessa simetria, se perca o respeito. Aprendi com minha mãe que antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe me ensinou a discordar sem agredir. Minha mãe me ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente. Ele sempre me diz o que eu preciso ouvir, não o que eu quero ouvir.

Nesse dia das mães, quero tornar (mais) pública a minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, por meio de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica. Minha mãe, não me ocorre metáfora melhor, sempre jogou o ping-pong da vida de salto alto. E sempre venceu.

Lembro de nossa despedida quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, a casa das minhas memórias, a minha mãe com olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Faltou pouco para eu desistir de ir. Mas ela ficaria desapontada. Pois minha mãe sempre me disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para desfazer-me em viscosas lágrimas no avião.

Hoje, como pai em relação às minhas filhas, sempre primeiro dou ouvidos a meus instintos (e aos da minha mulher, claro). Mas em segundo lugar, penso em como a minha mãe agiria. E ela só não vem primeiro lugar porque me ensinou de forma competente a acreditar em mim.

Inevitável voltar ao passado e recorrer à memória afetiva. O menino da foto, peito estufado, cantando: Andei por todos os jardins procurando uma flor pra te ofertar. Em lugar algum eu encontrei a flor perfeita pra te dar. Ninguém sabia onde estava a flor mimosa, perfeição. Ela se chama flor-mamãe. E só na nasce do jardim do coração. Enfeita nossos sonhos, perfuma nossa ilusão. Flor divina, eu suponho, faz milagre em oração. Nesse dia de carinho, quero senti-la no peito. Emoldurando a minha alma,  Flor-mamãe, amor perfeito.

Quando eu era menino, na época dessa foto e dessa música, eu achava a minha mãe a “melhor mãe do mundo”. Os superlativos de criança. Depois de quarenta anos de avaliação, com a objetividade de um pesquisador com doutorado, tenho certeza inconteste de que esse título é seu mesmo, minha mãe. Você é a melhor mãe do mundo.

Falando da minha mãe, desejo um excelente dia das mães para a mãe das minhs filhas, a Bia. Sem ela definitivamente não dá. E desejo um maravilhoso dia das mães para você que me lê. Aproveitando o incomparável cheiro de mãe no abraço, se estiver perto, ou com os olhos fechados para sentir e sorver a presença da ausência, se estiver longe. Sei que o dia das mães pode fazer o coração pesar para várias pessoas, por vários motivos. Que a leveza do amor, no entanto,  alivie esse peso e que a serenidade invada seu dia. É o meu desejo mais profundo e sincero.

Mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”.

 Te amo. Sua benção. E feliz dia das mães.

PS: Ei, mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, malcriadamente não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

6 comentários em “Amor perfeito

    Harley Barros disse:
    09/05/2010 às 13:19

    parabéns pelo artigo. A simplicidade de suas palavras extraídas do fundo da alma e do coração expressam verdadeiramente o inconteste amor materno.

    Gabriela Oliveira disse:
    09/05/2010 às 14:13

    Não sou Mãe, tenho Mãe viva e confesso não gostar do Dia das Mães pq sempre via minha mãe chorar por ela não ter Mãe viva, acho que isso marou.
    Parabéns pelo lindo e emocionante texto.

    Maurília Gomes disse:
    09/05/2010 às 15:35

    Acabo de me desmanchar em lágrimas. E, não é força de expressão. Estava evitando tudo que aumentasse a saudade que sinto da minha mãe. Mas, ao ler o seu twit, não resisti. Essa música representa muito o que sinto. Por um momento, visualizei o rosto dela ao me ver cantando essa música na apresentação da escola e chorando de emoção. Parabéns pelas belas palavras! A minha também foi a melhor mãe do mundo.

    Adrienne disse:
    09/05/2010 às 15:40

    Eu tenho medo até de ser mãe. Não quero representar menos que tudo isso para um filho!

    sonia lopes disse:
    22/09/2010 às 11:13

    Estou a procura de uma ampor perfeito por favor liga pra mim 6783-0152

      Bia Eid disse:
      05/05/2011 às 22:12

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