A bunda da Siemens

Postado em Atualizado em

[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…

5 comentários em “A bunda da Siemens

    (marta) disse:
    10/05/2010 às 10:37

    quando me vem essa questão de censura lingüística, sempre me lembro de 1984, a ditadura que manda na nossa lingua e o pior, manda na lingua daqueles que repassam informacao pra gente, e aí nao tem como nao se perguntar se o que a gente ouve/lê/consome é de fato verdade.
    ótimo, texto, sérgio.
    se no nosso carnaval a bunda é tao valorizada, porque vamos ter que cobri-la no restante do ano?

    marco disse:
    11/05/2010 às 07:05

    Trabalho na Siemens.
    Não chega mesmo (não somente esta palavra – bund@(vou escrever assim pq não sei se ela sai também)).
    Opção da minha empresa, e-mail é para trabalho, tirando a empresa de Cingapura, esta palavra não nos interessa durante o expediente (somente a palavra, entenda bem).
    Quanto a ser flamenguista, não é uma escolha, mas sim uma falta de escolha (não sei para quem torcer…. vou ser flamenguista! – viva a Globo).
    abs

    Gianfracesco disse:
    11/05/2010 às 15:30

    não sabia, achei excelente a proposta da empresa; quem sabe desta forma circularão menos bobagens e mais trabalho nas empresas.
    quem não se interessa por uma (bela) bunda? claro, mas momentos para isso. Todos acham que empresa é o quintal da sua casa, quando muito seu escritório e se apropriando de material e cópias a seu prazer. boa idéia da empresa. deveria ser seguida por outras.

    luadosolzinho disse:
    19/05/2010 às 22:31

    Isso não acontece só na Siemens. Papai trabalha na Masa e o sistema lá é rigoroso. Pra conseguir falar com o papai via e-mail, tenho que mandar e-mail via provedor pago. Não chega NADA se for de origem: gamil, hotmail, bol e afins. Além disso, os funcionários não podem acessar sites de esporte, de redes sociais e afins (big brother principalmente). Só sites de notícias e financeiros (e outros deste grupo). Papai disse que um tempo atrás isto era possível. Mas agora que a empresa pertence ao grupo Flextronics, o acesso à internet é controlado pelo grupo nos EUA.
    Questões de empresas à parte, gostei muito do texto, o que nem é mais novidade, você sabe, professor. Me chamou (ou chamou-me, como prefeir – os gramatiqueiros estão sempre de olho, sabe como é) muito a atenção a parte do parágrafo que diz: “Não gostou, mermão?…” Concordo plenamente. Outro dia comentei isto no blog do @North_farias. Não dá pra agradar a todos. Mas você não precisa xingar ou viver reclamando ou proibir os outros de ter acesso a certas coisas porque você acha que não presta (quando tem gente que acha interessante), porque você não concorda, não gosta e etc. A outra parte da qual gostei muito foi: “É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio”. E como se pode! Mas de novo, tem gente que é tão egocêntrico e limitado que só enxerga no silêncio aquilo que quer enxergar: SUA razão. Também comentei isso no blog do Northon. Nem sempre calar, silenciar, dá ao outro a razão; nem sempre se consente com o silêncio. Mas sabe como é, né?! Tem gente que só interpreta isso. Ainda bem que aqui em casa quem regra a internet sou eu e palavras como “bunda” não são proibidas. Ia deixar de ler um TEXTÃO. 😉 Parabéns pelo texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s