Diários

Postado em Atualizado em

Há uma ambivalência que nos habita. Somos o que não desejamos e desejamos ser o que não somos.

“Fui assistir a Diários de Motocicleta. Estava com medo de não conseguir vê-lo por se tratar de um filme que foge ao ethos hollywoodiano. Filmes assim ficam em cartaz somente uma ou no máximo duas semanas. Mas consegui.

O filme é uma adaptação para os cinemas do diário de Che Guevara. Dirigido pelo brasileiro Walter Salles, a história aborda a viagem de moto de Guevara e seu amigo, o biólogo Granado, pela América do Sul. A viagem foi feita antes de Che se tornar líder revolucionário em Cuba, viagem essa que acabou por mudar os rumos da vida do futuro guerrilheiro.

Ernesto Che Guevara e Alberto Granado saíram de Buenos Aires. Foram até a Patagônia, passaram pelo Chile e entraram fascinados no Peru. Lá visitaram a cidade histórica de Cuzco, capital do império Inca. Passaram por Lima e rumaram para Iquitos, na fronteira com a Amazônia brasileira. Depois da Colômbia, a viagem de sete meses terminou na Venezuela. Granado ficou em Caracas e Guevara seguiu para uma vida diferente, construída pela mudança de identidade possibilitada por seu contato com tanta desigualdade e injustiça encontradas pelo seu caminho.

Diários é uma carta de amor à América do Sul. Uma carta daquelas que só se escreve do fundo da alma e somente depois de se conhecer a alma do destinatário. Seus encontros com os mineradores explorados e com os leprosos de San Pablo acenderam em Ernesto o Che indignado e adormecido dentro de si.  O lado político do filme, o racional, é completado pelo lado afetivo nele entrelaçado, o emocional. São narradas histórias de amor, de desejo, de impetuosidade juvenil, de amizade. Impossível não lembrar daquele nosso amigo Alfredo, o de todas as horas. É essa bela mistura que faz com que haja uma intensa e imediata identificação com a história e seus protagonistas.

Na humilde opinião desse escriba barato, filme bom é aquele que faz a gente sair do cinema com algo martelando na cabeça. É aquele que incomoda nossas verdades e questiona nossas certezas e valores confortáveis. Diários consegue fazer isso de forma clara. Sua linguagem visual é um plus. Todas as vezes que aparecem os injustiçados e explorados no filme, a cena perde o colorido e as imagens ficam em preto e branco, como sem cores são as situações e as existências esmaecidas pela injustiça, vividas por quem não consegue espaço existencial, geográfico ou político. Semiótica trabalhada belamente na arte.

Mas o que o filme de Walter Salles me fez pensar foi exatamente na relação dialética entre a identidade e a existência do ser humano. Todos nós temos um eu mais fixo e centrado, como uma madre superiora e suas regras inflexíveis. Mas somos igualmente habitados por um outro eu mais maluco, porra-louca, pronto para topar todas, pegar uma moto velha e sair por aí como um destruidor dos valores.

A vida é um eterno cabo-de-guerra entre a madre e o louco. Para uns, a madre ganha sempre. Não permitimos que o louco nos surpreenda. Ele é esmagado impiedosamente e atirado no calabouço dos indisciplinados pelo autoritarismo do nosso superego e das cobranças sociais. Para outros, considerados mais normais pela sociedade, a madre quase sempre leva, mas vez por outra o louco rouba a cena e salta no bungee jumping, desce uma corredeira, nada nu num lago, come com as mãos, beija a mulher do próximo. Para outros ainda, a madre é uma figura que só existe como referência negativa do que não se quer ser e do que deve ser evitado. É o eu sempre inquieto e insatisfeito consigo, mutante de si próprio, eterno chutador de baldes.

É essa dualidade desbalanceada pelos fatos da vida que nos leva ter uma identidade. Fulano é certinho, doido ou normal. Rótulos que direcionam nossos atos em função não do que somos, mas do que os outros acham que nós somos e querem que nós sejamos.  E isso é muito forte. Viver é a forma de dar sustança à identidade. Che trazia consigo o revolucionário potencial. E se por acaso o louco não tivesse falado naquele aluno de medicina e decidido cruzar a América andina na Poderosa, nome dado à moto furreca que os levou ao encontro de suas identidades dormentes? E se não tivesse desafiado o estado vigente de coisas como algo que não é imutável, compreendendo a realidade daquele povo como produto de contextos naturalizados e por isso mesmo passível de mudança? E se não tivesse priorizado o vivido em detrimento do sonhado e tivesse ido a Miami para comprar o biquíni de sua namorada com os quinze dólares que ela lhe deu em vez de dá-los ao casal de mineiros lascados encontrados no caminho? A vida deu a Ernesto Guevara possibilidades para a emergência do louco dentro de si, o Che.

E nós? Fico aqui com meus botões perguntando: sou madre, sou louco ou as duas coisas intermitentes? E sendo o que sou, com uma identidade predominante, por acaso sou feliz? Gostaria de ser mais madre ou mais louco? Como anda o meu balanço identitário?

Existe a história e o real da história. A nossa história pode ser feita toda de imagens construídas por um simbolismo aprendido, teórico. Mas pode ser também construída pelo simbolismo vivido, material, historicizado. Saber identificar o estado atual de nossa identidade, seus efeitos sobre nossa felicidade e as atitudes que devemos buscar para mudar ou manter o estado das coisas é o que faz o individuo sentir-se bem consigo e com o mundo. Madres ou loucos reprimidos fazem mal à mente, à alma, à própria existência. Essa situação de repressão psíquica nos envelhece mais cedo, nos torna rabugentos, chatos, dispensáveis. Pare e pense nas pessoas de quem gostamos. Nem sempre a sintonia se dá porque o que somos bate com o que elas são. Às vezes a sintonia se dá por oposição, porque vejo naquele louco o louco que eu queria desesperadamente ser. Ou naquela madre, o porto seguro para a inconstância de minha movência constitutiva.

A madre dentro de mim também deve cantar e dançar mambo. O louco precisa dos momentos de paz de espírito, de reflexão e sossego. Precisa escrever um diário. Mas a questão é exatamente quando é o exato momento de fazer o quê. Aí, só a vida de cada um, o desejo de olhar-se por dentro, é que tem a vez e a voz para dizer. A meu ver, o problema é descartar a madre ou o louco a priori. Desse jeito, se descarta a vida e o que ela traz. Com isso, talvez o mundo ganhe um médico a mais. E um Che a menos.

Compreendo agora porque o filme foi aplaudido por 13 minutos seguidos em Cannes. Junto minhas mãos às palmas dessa platéia. E agradeço pela possibilidade da reflexão e confesso o desejo de buscar e ler tanto o livro de Che quanto o de Granado, ainda vivo. Como diz a Dona Maria, a senhora que limpa e arruma aqui em casa e que para tudo tem um ditado: “De médico e louco, todos nós temos um pouco”. O quão pouco é cada pouco em cada um de nós, cada um que o descubra percorrendo sua vida em sua motocicleta poderosa chamada Querer.

28 de maio de 2004

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s