Namorar

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É bom namorar. É bom namorar seu namorado, sua namorada, seu noivo, sua noiva, marido, mulher, chamego, chamega. Mas namorar é algo muito grande, incomensurável, que vai mais além do que o doce momento de dois amantes humanos.

Namoramos quando curtimos os bons momentos da vida, independentemente de se neles estão ou não nossas caras-metades. Namoramos o cãozinho de raça que olha pidão pela vitrine do pet shop, oferecendo sua amizade sincera e também o gato vira-lata que nos olha de cima do muro como se soubesse nosso mais secreto segredo. Namoramos o bebê que sorri ao estranho no colo da mãe. Namoramos a mãe do bebê quando ela percebe que namoramos seu filho. Namoramos o estranho que segura a porta aberta para passarmos com as mãos cheias. Namoramos um amigo, a despeito de sua piada velha, só engraçada porque contada por ele. Namoramos as memórias, retalhos de nossas vidas, e namoramos os planos, panos que a comporão daqui pra frente.

Namoramos o livro que lemos e que nos faz pensar. Namoramos o filme que lembra de nossa afetividade e causa o escorrer da lágrima solitária, que cai escondida no saco de pipoca para que ninguém veja, disfarçada num bocejo de um falso sono. Namoramos aquele pedaço de chocolate na porta da geladeira, troféu de nosso desejo, que nos vence numa derrota desejada. Namoramos o dia belo, azul e ensolarado, como hoje, e, traidores, namoramos igualmente a chuva forte, que marca a cadência de nossos sonhos em seus pingos. Namoramos o travesseiro na cumplicidade do sono esticado e namoramos igualmente a persiana que acoberta esse sono. Namoramos a velha revista na cesta do banheiro. Como uma velha amiga, ela sempre parece nova em sua solitária antiga companhia. Namoramos o espelho do elevador, lugar privilegiado para o ajuste de conta com nossos cravos. Namoramos a música que toca nossa vida, trazendo cheiros, lugares e pessoas que namoramos. Aquela virada bateria do Queen, o solo do Pink Floyd em Wish You Here, o amor injusto na lenta do Leo Jaime, o sax do Dire Straits, os questionamento dos cantores latinos, o convite de Adriana Calcanhoto em Vambora

Namoramos nossa profissão. Quem não namora o que faz é triste e mal amado porque não se deixa aprender a amar pela simbiose da vida, porque não sabe se namorar. Namoramos nossos professores porque nos fascinam pelo seu percurso e nos servem de horizontes, mapas de desejos futuros. Namoramos nossos alunos, seus olhares, suas descobertas, seus anseios, seus medos. Olhares, respostas, anseios e medos que um dia nos também já namoramos. Namoramos a lua. Namoramos o sol. E sem problemas, porque um nunca nos vê com o outro. Namoramos os minutos curtos e densos que são densos porque curtos. Namoramos a sincronia de pensamento que algumas pessoas têm conosco. Namoramos a sensação da química instantânea, indescritível como as sensações do primeiro namoro, da primeira vez que vemos o mar, da primeira vez que quebramos uma regra. Namoramos o toque nas mãos suadas e sinceras, o abraço do reencontro surpresa que tira o fôlego. Namoramos o piscar de olhos que clama nossa cumplicidade e sela a sinceridade plena. Namoramos o calor que aquece os corpos e os desejos nos quentes dias de Manaus, mas namoramos também o frio de Campinas em julho, que nos oferece a oportunidade de uma costa quente de alguém para nos aquecer. Namoramos o velho, que nos conforta e acomoda; namoramos bígama e desavergonhadamente o novo, que desafia nossas bases conceituais e valorativas e lembra que estamos vivos e em constante movimento. Namoramos o barulho, que nos faz rir na multidão simultânea e incompreensível de vozes amigas. Namoramos o silêncio da contemplação e da solitude, do momento nosso e de mais ninguém, em que namoramos nossa alma, nosso eu interior, ouvindo Kenny G ou Tom Jobim. Ou Kenny G tocando Tom Jobim.

Namoramos a razão, pois nos faz seguir a vida. Namoramos clandestinamente a loucura, que alimenta nosso id, animal de estimação do qual cuidamos ainda que de forma escondida e velada, atirando-lhe os ossos que conseguimos para que não morra. Namoramos o horário da rotina por sua certeza e namoramos o chute no balde dos compromissos para curtir o compromisso com a falta de compromisso por sua incerteza.  Namoramos os Beatles que dizem “lei it be”, amigo, “que passa”. Namoramos Reginaldo Rossi que rasga nossa vida como um confidente bêbado numa canção brega.  Namoramos Gonzaguinha porque, convenhamos, “é bonita e é bonita…”.

Namoramos a luz, que nos permite a clareza. Namoramos o escuro, que nos força o sentir e exige o aguçar da percepção e da sensibilidade. Namoramos a porta trancada da segurança. E namoramos igualmente a porta escancarada, que traz a novidade que muda nossa vida a cada chance. Namoramos os protocolos de intenção em relação a atitudes e surpresos descobrimos que estamos mais enamorados pela quebra do protocolo, pela surpresa do imprevisto, pelo “ah, deixa pra lá”. Porque agora é agora e não o será nunca mais.

Namoramos aquele laptop ou sapato na prateira da loja. Eles também nos olham e desejam como a mulher do próximo que, vez por outra, namoramos. Cada dia um olhar comprometedor, cada vez mais envolvente, cada vez mais imã, com cada vez mais visgo que prende. Namoramos a água, porque mata a sede. Namoramos a sede de querer algo tão fortemente que a garganta seca, a boca racha, a respiração ofega. Namoramos o vinho, que embriaga e nos deixa leve, passaporte para uma terra dos sonhos, uma dream-away land, onde tudo pode, tudo acontece. Namoramos o amor comportado, pai e mãe, cabelo penteado, terço na mão. E namoramos o amor moleque, sem regras, desafiador, suado, cochino, incorreto, com seus cabelos embaraçados e esvoaçantes e tridente nas mãos.  Namoramos a vitória, que nos coroa os esforços; namoramos a derrota, professora sábia de vida para os que se ousam alunos. Namoramos o vigor juvenil, que vai, tenta e arrebenta ou se arrebenta. E namoramos a sabedoria cultivada de uma vida, pois fica porque pondera, se sustenta porque já viveu. Namoramos andar de terno pela imponência da estampa, ainda que falsa, e namoramos a estampa do Taz na cueca que nos veste em casa, no desfile solitário do quarto para a cozinha para fazer aquele sanduíche de salame no intervalo do filme de sábado à noite.

Namoramos o azul que acalma e o vermelho que atiça. Namoramos o dinheiro que nos permite namorar o desejo e namoramos o desejo que ignora solenemente o dinheiro. Namoramos a visão ampla e clara dos fatos da vida e namoramos a cegueira da paixão, da lubricidade, do querer maluco. Namoramos o olhar e o sorriso conhecido em tudo aquilo de novo que trazem consigo. Namoramos as mariposas porque buscam a luz. Namoramos os vaga-lumes porque vagam lumes, caixeiros-viajantes de luz na escuridão. Namoramos a pergunta, que conduz ao conhecimento e namoramos a resposta, que traz novas perguntas. Namoramos o som, que nos traz a reflexão pelo que nos adentra os ouvidos. Também namoramos o silêncio, pois nos faz pensar a partir da ensurdecedora paz no coração. Namoramos o rio, porque sabe de cor o seu caminho. Namoramos o vento porque faz o seu caminho a cada segundo. Namoramos o perfume francês por sua unicidade e namoramos a alfazema do bebê pela universalidade.

Namoramos quem joga as coisas para o alto ao vento, pois partilha. Namoramos quem engaveta, porque guarda. Namoramos quem guarda, porque sente, porque quer ter para sempre. Namoramos quem quer ter e sente porque se faz capaz de namorar. Namoramos o tempo, senhor da cura das memórias dolorosas. Namoramos o tempo, curador das memórias sem cura. Namoramos o destino, que nos prega peças moleques e muda o rumo de nossas vidas quando bem entende, alterando os pés-de-lebre nas linhas dos trens de nossas vidas. Namoramos as pessoas que o destino caprichosamente nos traz, mostrando sempre que há pessoas novas e, portanto, vida contínua. Ah, como é bom namorar! É bom namorar seu namorado, sua namorada, seu noivo, sua noiva, marido, mulher, chamego, chamega. É bom namorar a vida. Feliz dia dos Namorados, meus amigos.  Feliz dia dos Namorados.

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7 comentários em “Namorar

    Nana disse:
    23/05/2010 às 09:35

    Profundo e misterioso, como de hábito. Achei interessante a parte que diz “namoramos nossos alunos” e “namoramos a bígama”. Subjetivamente a inversão de gêneros. Uma boa pitada para uma análise do discurso. Sou tua fã, sempre. Apenas uma gota na imensidão do mar, mas uma fã. Continue assim. Misterioso e subliminar.

    luadosolzinho disse:
    23/05/2010 às 09:48

    “Namoramos quando curtimos os bons momentos da vida, independentemente de se neles estão ou não nossas caras-metades.” É verdade. Só acho que faltou você mencionar nossos primeiros namorados: nossos pais. São as primeiras pessoas com quem aprendemos a curtir os bons momentos da vida. É neles que inicialmente enxergamos perfeição, delicadeza, respeitro, vontade de estar junto, de abraçar, de beijar, de brincar… E os filhos também. Não somente os dos outros. Mas por que não os seus? Aqueles bebezinhos frágeis que você passa horas namorando enquanto os segura no cólo e, olhando pra eles, sonha seu presente e seu futuro? Namorar é bom demais, né?!

    Um abraço, Professor.

    Bom domingo pra você e pra sua família.

    Luciane Pimentel disse:
    13/06/2010 às 18:03

    “namoramos nossos alunos” … me deixou sem palavras seu texto, alais e vc é muito bom nelas!

    Sandra Toda disse:
    11/06/2011 às 11:40

    Pr varia, adorei… Bom dia dos namorados pra você também, e mais uma vez obrigada pelo lindo texto.Vou mostrá-los ãs pessoas, que acham que namorar só existe entre homem e mulher. bjsss

    Maria Helena Cordovil disse:
    11/06/2012 às 20:34

    Adorei este texto.Gosto do seu jeito de colocar o cotidiano em palavras simples mas que me faz pensar que nós, seres humanos, gostamos de complicar as coisas.Gostei de conhecer a faceta do Sérgio escritor, e principalmente , de pai e marido apaixonado. Antes eu te conhecia somente como um professor-gente, que conversava com alunos calouros, como um dia eu fui. Lembro-me quando eu estava barriguda da minha primeira gravidez e você falava que iria espocar e agora você vive uma experiência maravilhosa com suas três mulheres lindas. Parabéns! Um abraço.

    Adão José Gomes disse:
    11/06/2012 às 21:21

    Singular tudo isso!

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