Fica sempre um pouco de perfume…

Postado em

Muita gente se orgulha de suas variadas coisas. Tem gente que fala toda serelepe de seu cachorro que dança tango, do seu papagaio que fala alemão. Eu também tenho algo de que gosto muito aqui no meu apartamento: um fantasma.

Para ganhar credibilidade com você, leitor incrédulo, vou lhe contar a história do dia em que ouvi um fantasma.

Em 1986, eu e meu irmão Paulo passamos no concurso para professor da SEMED, naquela época SEMEC. É sabido que as escolas da prefeitura são quase sempre localizadas na periferia da Grande Manaus, uma Manaus que naqueles tempos não era tão grande como é hoje, quase 20 anos depois. Ficamos lotados à noite na mesma escola – “Armando Mendes” -, por questões de conveniência profissional e financeira, uma vez que usaríamos a cada dia, em sistema de rodízio, apenas um dos dois lendários fuscas que tínhamos. O Paulo assumiu uma turma e eu fique como “professor de apoio”, figura criada para fazer de tudo na escola, como uma espécie de auxiliar da diretora e substituto ad hoc de quem faltasse.  A Escola “Armando Mendes” ainda hoje fica localizada no bairro do São José I, que naquela época era só São José, pois a Zona Leste da cidade acabava ali.

Um belo dia, estava eu na diretoria lendo meu livrinho e esperando o tempo passar quando uma professora, a Marília, que usava talco embaixo do braço, apareceu na janela e perguntou quem estava na cozinha. Falei que não podia ser ninguém, pois a cozinha não era aberta à noite. Única parte da escola com laje para evitar saques à merenda escolar lá armazenada, a cozinha não possuía janelas. A única entrada e saída era a porta, que estava trancada. A Marília, suando e empapando o sovaco pelo excesso de talco que marcava suas dobrinhas, disse que tinha certeza que ouviu barulhos vindos de lá de dentro. Apoiei sua dúvida, pois afinal era professor de apoio. Fomos verificar. Eu, macho pacas.

A porta estava trancada mesmo, mas de fato podíamos ouvir barulhos estranhos vindo de dentro. Todo colégio que se preze tem de ter uma Chiquinha de zeladora. Só a dona Chiquinha do nosso colégio é quem tinha a chave da porta da cozinha. Como a dona Chiquinha morava perto e eu, professor de apoio, estava investido de uma certa autoridade, mandei o Givanilson, do PEB3, chamá-la. Quando chegou à escola, dona Francisca estava braba, pois havia interrompido sua novela, Ti-ti-ti, justamente na hora que iam descobrir a fraude do Victor Valentin. Pedi que abrisse a porta e, para surpresa geral, não havia ninguém lá dentro. Os barulhos que ouvimos eram do fogão sendo arrastado de seu lugar para o meio da cozinha, onde se encontrava. O trajeto, riscado pelos pés do fogão, estava inquestionavelmente marcado no chão de cimento cru. Houve um silêncio cortante e longo, acompanhado de olhares espantados. Depois, Dona Chiquinha falou que era comum ver fantasmas por ali. Aos sábados, quando as zeladoras faziam faxina, ouviam-se gritos desesperados e bater de portas vindo de toda escola. Segundo ela, o prédio fora construído em cima de uma varadouro, onde haviam sido desovados vários corpos de bandidos. Depois de lá viver e conviver com muitas histórias do além, como a do Velho de branco que perambulava por lá e outras que um dia conto, pedi minha transferência para outra escola no centro, só por precaução, lógico. Meu ceticismo com fantasmas havia sofrido um choque, confesso.

Quando mudei para meu apartamento, ainda sem a Bibi, passei por várias situações que me lembraram o fantasma da Zona Leste. De vez em quando, ao trabalhar no computador do escritório, voltado para a janela que dá para a rua, no sexto andar, tinha a sensação de estar sendo observado, sensação essa inapelavelmente seguida de um arrepio na pele. O arrepio inapelavelmente também passou a ser seguido de um forte cheiro de rosas. Levantei todas as possibilidades lógicas e todas me contradisseram. Às vezes, o cheiro vinha de madrugada, jogando por terra a minha hipótese de ser algum produto de limpeza do prédio. E como vinha, ia, rápido. Zapt! Quando contei essa história para algumas pessoas, o cheiro sumiu por uns tempos, como se dissesse: “ah, contou nosso segredo, então não brinco mais!”.

Mas o cheiro de rosas voltou. A Bia já o sentiu também e diz ela que se sente observada às vezes, o que não é de se espantar, visto que ela é extremamente observável de bonita. Mas eu, feio e medonho, ainda que extremamente gostoso e insuportavelmente modesto? Por quê? Fato é que tenho um fantasma aqui. Ou uma fantasma. Presumo ser uma fantasma pelo cheiro de rosas. Se fosse cheiro de talco poderia ser o fantasma da Marília, de quem nunca mais tive notícias. Se fosse cheiro de Tênis-Pé Baruel poderia ser o fantasma do meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que usa o produto para ver se se livra de seu insuportável chulé, só heroicamente tolerado pela Janaína, sua namorada há treze anos. Mas não era nem talco nem Tênis-Pé Baruel. Era cheiro de rosas. É ainda cheiro de rosas.

Mexendo na minha memória olfativa, constatei que o cheiro de flores é muito parecido com o cheiro que senti no velório de minha vozinha. Seria ela que estaria aqui, marcando externamente sua sempre e infinita presença interna? Ou seria isso puro desejo meu que assim fosse? Não sei, mas fato é que de vez em quando sinto esse cheiro agradável e reconfortante em diversos e diferenciados cômodos de minha casa. E sabe de uma coisa? Não sinto medo, como senti do fantasma da Zona Leste. Sinto uma presença boa que parece dizer que está ali para me fazer companhia, me proteger, passar a mão na minha cabeça. Um anjo. Acho que é um anjo que vem quando chego em casa cheio de preocupações do dia-a-dia. Minha vó era um anjo…

Cada um tem sua relação com o divino e com a espiritualidade. Cada um configura e reconfigura seus conceitos, valores e crenças a partir de sua vivência histórica e social. Eu reconfigurei a questão dos fantasmas. Antes eram assustadores e perseguidores, como no Scooby Doo e hoje estão muito mais para Gasparzinho, o fantasma camarada.
Minha teoria é de que a alma é mais um órgão do corpo humano. Quando esse órgão falha, depois da falência dos órgãos físicos, a pessoa morre. Mas diferente do pulmão, fígado, rins ou coração, a alma é um órgão invisível, não detectado por ressonâncias magnéticas, dopplers, ultra-sons ou qualquer tipo de exame moderno. A tomografia da alma só é possível quando feita por outra alma. Só se conhece detalhadamente a alma de alguém quando há doação e amor verdadeiro envolvidos. Esse órgão, ao se desprender da carne e do osso – mais carne em alguns e mais osso em outros –, não desaparece, comido pela terra como os outros órgãos. Retorna ao inventário de almas daquele que a criou um dia. Ou, com Sua permissão e por algum motivo que ignoraremos para sempre, fica perto daqueles a quem se ligou nessa passagem por esse vale de lágrimas. Sei que é essa teoria é viagem, mas como hoje todo mundo tem uma teoria para tudo, por que não? Tem até um jovem estudante português questionando seriamente a física de Einstein? E já que a alma não tem mais boca para falar quando está presente, ela se diz de outras formas. Com barulhos ou com rosas, por exemplo. Pense nos seus fantasmas: como eles lhe chamam a atenção?

O Mauro, meu irmão mais novo, tem um indiozinho anão protetor, segundo ele foi informado por uma de suas ex-namoradas. A mãe dela tinha umas conexões com o além, parece. Para conquistar a filha, por várias sextas-feiras, o Mauro chegou até a quebrar garrafas, jogadas de uma pampa velha, de madrugada, nas encruzilhadas do aeroporto. Se ele acreditou ou não nessa história do indiozinho nunca se soube. O importante é que pegou a menina. Eu tenho minha fantasma da rosas. Doce, suave e apaziguadora, como as vós. Como a minha vó. E acredito na minha fantasma. Sua benção, vó. Pausa: o cheiro chegou e chegou forte agora. E não é retórica de escritor barato, não. Chegou mesmo. Se bem que desde cedo aprendemos que fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas. Só não damos a devida atenção.

PS: Ao ler a primeira versão do texto para a Bia, o cheiro voltou. Acho que queria ouvir de novo o escrito em que é protagonista…

12 de fevereiro de 2004
Anúncios

5 comentários em “Fica sempre um pouco de perfume…

    Paulo Fodra disse:
    27/05/2010 às 11:23

    Lindo texto, Sérgio. Gostoso de ler! Nada como uma história bem contada… seja ela verdade ou não!

    Abraço!

    professor antonio disse:
    28/05/2010 às 16:31

    É professor são situaçoes difíceis e sem explicação que nos acontecem, certa vez aconteceu comigo; parei minha motoclicleta em frente a uma residencia descí, e fui chamar uma pessoa do outro lado da rua, eu com a chave da moto na mao, mesmo assim a moto ligou sozinha e andou por uns 50 metros e depois caiu, eu e mais 2 pessoas que assistiram ficamos pasmos e até hoje nao entendí o que houve…

    Luiz Carlos Martins de Souza disse:
    04/07/2010 às 12:03

    seja o que for, não se aproxime das trevas, Caroline! Com certeza existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõem nossas vãs filosofias…

    seja como for, se for algo de Deus sempre trás paz e leveza. Nunca medo.

    Erlen Dias disse:
    04/09/2010 às 14:34

    Belo texto Sergio…e acho q é comum essas estorias de fantasmas em escolas. No Machado de Assis e Estelita Tapajós, existem parecidas c essa dessa escola da zona norte. E quanto ao cheiro de rosas, com certeza devem ser do bem..bjus

    Luana disse:
    21/12/2010 às 00:17

    queria sentir o cheiro do meu pai…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s