Tristesse

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Ah, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora…
Ai, que amar é se ir morrendo
Pela vida afora
É refletir na lágrima
O momento breve
De uma estrela pura
cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu…

Vinicius de Moares

Patinho feio dos sentimentos, a tristeza quase sempre tem sido deixada de lado pelos escritores. Só quem se lembra dela são os poetas. Nem todos, claro. Florbela Espanca foi uma das penas que mais homenagearam a tristeza. De uma forma exemplar, diga-se.

A tristeza é complicada de definir. A raiz latina, “strig”, remete à idéia de apertar e “districtus, apertado por todos lados. No latim vulgar, “districtum” deu lugar à “districtia”, que significa “estreiteza’’. Daí chegou-se à “tristeza”. No francês antigo, a palavra significava ao mesmo tempo passagem estreita, senso moral, severidade e constrangimento. Depois a expressão adquiriu o sentido de situação desesperada.

Estreiteza no agir. Constrangimento da decisão. Desespero do irreversível. A tristeza vem junto com a certeza da nossa incapacidade de resolver um conflito. Ficamos tristes quando um amor não dá certo, quando nos decepcionamos com um amigo, quando perdemos um espaço, quando perdemos alguém. Tristeza é perda. Não há tristeza que não venha colada com uma perda. Quanto maior a perda, maior a correlação com o tamanho da tristeza. A tristeza vem para nos lembrar que somos sujeitos incapazes de lidar com o mundo. É a reação humana a um constrangimento inelutável, à incapacidade de aceitar um “não” do mundo. É a vontade de “sumir do mundo”. Ela vem para não nos deixar esquecer o tamanho da nossa pequeneza frente às forças externas.

Todos os dias as pessoas desejam às outras sucesso e felicidade. Esquecem que quem vive no sucesso e na felicidade o tempo todo se aliena do mundo real, composto de muita tristeza. Só fica triste quem teve algo e o perdeu. Falo aqui da tristeza boa. A tristeza que faz pensar no quanto o mundo nos coloca em cheque todos os dias pedindo que decidamos pelo indecidível. Canto em meu teclado de computador a tristeza que nos ocupa os espaços da mente nos levando às reflexões mais difíceis, mais indesejadas e, por isso mesmo, as mais  necessárias.

É duro admitir, mas amadurecemos mesmo é na tristeza. Quando aquelas duas espessas lágrimas rolam silenciosas no canto do olho, levando com elas rosto abaixo os 21 gramas de nossa alma, sentimos uma dor fininha que faz pensar no que não mais podemos ter. Como conciliar a vida e a perda? Perder-se para se encontrar? Mas o encontro novo traz consigo a perda do encontro antigo. Eis que vem, de novo, a onipresente tristeza. E só ela. Ficamos desertos de emoções. Órfão de sentimentos.

Perder um amor. Beto Guedes canta essa perda em “Tristesse”. A dor é tanta que o sujeito precisa se exilar em outra língua, na qual as palavras doem menos e tem menos peso. Diz ele: “Como você pode pedir pra que eu fale do nosso amor que foi tão forte e ainda é. Mas cada um se foi. Quanta saudade brilha em mim. Se cada sonho seu virou história em sua vida. Mas pra mim não morreu. Lembra, lembra, lembra, cada instante que passou. De cada perigo, da audácia do temor. Que sobrevivemos, que cobrimos de emoção. Volta a pensar então. Sinto, penso, espero, fico tenso toda vez que nos encontramos, nos olhamos sem viver. Pára de fingir que não sou parte do seu mundo. Volta a pensar então. Como você pode pedir…”.

A tristeza da perda de um amor não se resume ao passado. A dor da tristeza é pelo futuro que nunca se terá. Passearíamos de mãos dadas na praia? E a nossa música? Cazuzanamente, ela nunca mais vai tocar? Será que ela tomaria conta de mim me fazendo beber mais água? E a nossa história? Que historiador no futuro resgataria dos papiros perdidos? Como reagiria o arqueólogo ao encontrar as letras de nosso nomes gravadas num coqueiro enterrado num deserto que um dia já fora uma bela praia? Com que espanto olharia o extraterrestre que achasse nossa foto numa cápsula enviada a Saturno como registro de que houve amor na terra? Como explicar o feitiço de Áquila que nos separou? Sol e lua, num amor impossível. Tristeza do desencontro. Tristeza do não-encontro. Tristeza.

Uma das mais belas canções que lembram a tristeza do amor impossível está na voz de Ney Matogrosso. Chama-se “Olhos de Farol”. A letra diz assim: “Por que só vens de madrugada e nunca estás por onde eu vou? Somente em sonhos vi a luz da lua cheia, o canto da sereia no breu da noite. Eu sei que reinas a me refletir, olhos de farol. Porque tu és a lua e eu sou o sol. Por que só brilhas quando eu durmo? Sou condenado a te perder. Eu só queria ver andar na ventania, luar do meio-dia, na minha fantasia, ainda sou teu pierrô. E disfarço mal a lágrima de amor no carnaval. Eu te vi em sonhos a boiar no meu jardim, lua de cetim, entre os lençóis e no céu sem nuvens. Podem as miragens se tornar reais. E são dois sóis. Eu te vi rainha, dona de nós, imitar a voz dos rouxinóis e no céu em chamas podem as miragens se tornar reais e são dois sóis”. Mas dois sóis não existem. Só há um sol. E uma lua. Um encontro impossível. “Impossível é alma humana”, retrucaria um poeta. Vá ao pólo norte, ponto de fuga da terra, em busca do encontro. Lá, sol e lua se vêem, se falam, fazem amor.

O mesmo vale para uma amizade que se vai. A decepção com um amigo corta como um navalha afiada. Porque ali queríamos um porto, um abraço, um ouvido. Contávamos com aquilo e de repente, puf! Nos é retirada a certeza do acolhimento. Amigo que se vai por uma decepção é como cobertor que se arranca numa noite de inverno no meio da praça. Ficamos nus. De afeto, de expectativas. A decepção dá um frio azul na barriga.

Perder um amor, perder um amigo. Triste é a perda da identidade. Triste é saber-se um outro de repente. Éramos assim e hoje já não mais o somos. Queria ser o que eu era, mas quero igualmente e ferozmente ser o que agora eu me percebo sendo. Triste é querer os dois “eus” sem poder decidir por nenhum sem que haja dor, sem que brote a perda, sem que impere a tristeza. Queria ser criança e dormir abraçado à minha mãe, enrolando seus cabelos que sempre foram meu abrigo mais aconchegante. Mas se fico em meu passado, como ter o aconchego do leito da mulher que hoje amo e que me faz sentir homem a cada dia, cuidando de mim como se cuida de uma criança? A criança e seus momentos se foram. Que triste! O adulto vai-se também para que chegue, um dia, o velho. O velho, um dia, vai-se para que fique a memória. A memória, um dia, vai-se para que fique o vazio. Triste o fim do ser humano: o vazio na memória do mundo. É triste se perder de si. É triste não se deixar achar a cada descoberta porque o mundo está de olho. Um dia, lá longe e distante, olhar para trás e dizer: como foi triste não ter sido eu e meus quereres!

Triste é perder alguém. Pai, mãe, tio, amigo, vó, vô, um amigo, um amor. O luto da consciência do impossível é o inverso da felicidade no sorriso do bebê que nunca nascerá, do segredo órfão de partilha. Perder alguém querido é se perder. Porque somos feitos dos outros que nos rodeiam. Vai-se o amigo? Foi-se um pedaço do peito. Triste. Apagar seu nome da lista de e-mail porque a mensagem jamais chegará de novo. Que triste… Vai-se o amor? Vão-se os planos de uma vida, desenhados cuidadosa e carinhosamente a quatro mãos que hoje já não se entrelaçam mais, nem na praia – por onde passeariam lépidas – , nem na cama – por onde se apertariam cálidas. Triste vazio de uma história rasgada sem pena por um dos donos das penas que a escreviam. Ou pelo destino, quando os dois queriam.

A tristeza é seca, como o estampido de um tiro. A tristeza é pesada, como o fardo no lombo do jegue do nordestino. A tristeza é azul, da cor e do tamanho do céu quando chega e azuleja o nosso mundo. A tristeza tem vida. A tristeza tem alma. A tristeza é uma alma que encarna em nosso corpo em uma sessão espírita indesejada, como um espírito obsessor do qual só nos libertamos com um exorcismo de amor. A tristeza é um filme búlgaro sem pé nem cabeça, que muito poucos gostam e recomendam. A tristeza é um silêncio que grita a todo minuto que a situação seria melhor se uma outra fosse e lembra de passagem, cínica, que a outra situação é mera quimera impossível e inviável.

Nunca mais isso. Nunca mais ela.  Nunca mais nós. Nunca mais a piada e o abraço do amigo. Nunca mais o colo da mãe. Nunca mais a bata da vó. A tristeza foi designada por Deus para ser substituta do que foi perdido, uma procuradora da ausência, um preposto da perda, uma intérprete do silêncio.

Pronto, sua tristeza filha da mãe! Escrevi um texto pra ti. Sai de mim agora e vai se gabar ao mundo de teu feito! Porque, saiba: o segundo suplente da perda, depois de ti, é o amor. Que ele venha, então! Porque ele sempre vem depois de ti, como o sol vem depois da lua. Como o bem-estar vem depois do choro. Para estar triste é preciso existir. Essa é nossa garantia. A vida segue sem quem se foi.

PS: Queridos leitores, eu não estou triste. Só o eu-lírico.

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3 comentários em “Tristesse

    Luciana Lenoir disse:
    29/05/2010 às 17:45

    Sérgio

    Mais uma reflexão sublime!

    Como escreveu uma certa “amiga”, desaprendemos a sofrer porque prevalece um grande lema contemporâneo: “Vamos ser magros, lindos, bem sucedidos, sem problemas no amor e nem na conta do banco.”
    No entanto, ninguém tem a obrigação de ser feliz sempre…
    Em alguns momentos, precisamos mergulhar intensamente nas raízes tristeza, reconhecer a dor e ir ao “fundo do poço” para assim reerguermos e valorizarmos a fraternidade, a simplicidade e aqueles que nos circundam. A partir de então, acumulamos experiências, vivências; conquistamos autocrítica, sensatez e fortalecemo-nos.

    Acrescento ainda uma citação de J. J. Lynch:

    “Toda a alegria que o mundo contém, vem de desejar a felicidade dos outros.
    Toda miséria que o mundo contém vem de desejar o prazer para si mesmo (à custa dos outros).”

    *P.S.: Também não sou triste, muito menos amargurada! Rsrsrsrs…

    Luana disse:
    21/12/2010 às 00:04

    morri.

    Déia disse:
    09/07/2012 às 09:39

    Um dia te vi menino, entre palavras soltas e desejos incertos, mas q alegria vê-lo homem com palavras concisas e desejos diretos….bjs

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