A cigarra e a barata em nós

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 A cigarra jazia de pernas para cima na cozinha. Talvez tivesse entrado pela janela aberta. Moro no sexto andar. Com a pá de lixo, a joguei pela janela. Lá pelo quarto andar, a cigarra acordou e passou a voar. Já vi muita coisa estranha, mas cigarra cataléptica foi a primeira vez. Fiquei pensando o que a cena metaforizaria.

Aquela cigarra é como algumas de nossas experiências de vida. Às vezes voamos livremente com uma idéia atrelada em nós. Uma idéia que é tudo. Vivemos por ela, cantamos sua canção para o mundo, lutamos por ela. No entanto, a vida vai propondo novas estradas, embolando nossos planos. De planos e claros, os planos vão a esburacados e obscuros. Começamos a duvidar de nossas certezas, a ter mais certeza de nossas dúvidas. A música que costumávamos cantar enjoa. Cansamos. E precisamos repousar. Precisamos deitar a ideia no chão da cozinha, como se estivéssemos mortos. Dar um tempo.

Essa catalepsia da alma nos acomete vez por outra. Pode ser um projeto engavetado, uma decisão adiada, um amor não vivido. Como a cigarra cataléptica, eles precisam apenas de algo que os sacuda, que lhes jogue no ar, que lhes dê o tom para que comecem a cantar de novo, devolvendo-lhes as asas.

Dentro de nós trazemos cigarras nossas, dormentes, mas não mortas. Elas estão prontas para serem revividas. São nossos lázaros particulares. Quais as suas cigarras catalépticas, leitor? Mais importante do que identificar quais são é identificar por que dormem. É medo de voar? Será que aquele canto não vale mais a pena? Em “Traduzir-se”, o poeta Ferreira Gullar afirma que uma parte de nós almoça e janta e a outra parte se espanta. Desde quando você não se permite o espanto? Desde quando você só almoça e janta, numa previsibilidade que empobrece a vida, se o bom da vida é a possibilidade de tudo poder vir a ser outra coisa?

Dias depois do episódio da cigarra, foi a vez de uma barata na varanda. Mesma coisa: perninhas para cima, imóvel, pazinha de lixo. Lá pelo quarto andar, lá se vai a barata voando. Se tem cigarra cataléptica, também tem barata. Esse é o outro lado da questão.

Temos dentro de nós um nojentinho adormecido que só precisa de oportunidade para reviver e infernizar a vida dos outros. É o prazer dos atos miudinhos. É a desnecessária sacaneada que damos em quem não gostamos. Coisas pequenas que dão um prazer sádico, mal, de autoafirmação. Todo mundo tem suas baratas catalépticas dentro de si, zumbizando na espera da chance de vir à tona.

Baratas nojentas ou cigarras cantoras? Quais bichos catalépticos você guarda aí dentro, prontos para emergir? Quais você deixa emergir? Por quê? Para quê? Quais não deixa? E por que não? Quais você finge que não existe? E por que finge? As pessoas vivem no balanço entre as duas. Nem só uma idealista cigarra pomba-lesa, nem só uma nojenta barata escrota. Somos um híbrido das duas coisas. Tenho percebido com o passar do tempo que as pessoas nos forçam a baratear nossas ações. O mundo gosta das cigarras, mas só respeita as baratas. O mundo platônico é das cigarras. O aristotélico é das baratas. E o seu, leitor, é de quem?

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