A madre e o louco

Postado em Atualizado em

[Publicado originalmente no Portal Amazônia]

Geralmente nos é ensinado que devemos passar por etapas para atingir objetivos na vida. Planejar, ir atrás e atingir a meta. É uma idéia que conforta a maioria de nós. Quem dela se afasta corre o risco de ser chamado de irresponsável, de imprevidente, de alguém sem foco. A sociedade nos quer arrumadinhos numa linha do tempo de vida.

Segue o script quem estuda, busca fazer uma faculdade, procura ter uma profissão. E paralelo a isso, espera-se que se tenha um amor, um emprego e que se contribua com tudo isso para “o nosso belo quadro social”, como dizia Raul Seixas em “Ouro de Tolo”, uma música que traduz bem o que estou querendo dizer. Não há nada de errado em ser certinho.

Desconfio que até seja necessário. Tudo bem, convenhamos que a movência pela busca eterna é mais charmosa. No entanto, ela vale até quando não se tem mais fôlego para se estabelecer na serenidade do estabilizado. É quando o mundo todo começa a cobrar: “Cadê a família?” “Quando é que vai arrumar um emprego decente?”, “Será que vai ser esse porra-louca para sempre?”, “Será que a vida dele nunca vai ter um rumo?”.

Estou até aqui advogando pelos centrados. Eu sou um deles. Verifica aí: fiz faculdade, mestrado e doutorado. Sou professor de uma universidade federal por concurso público. Conquistei certo espaço profissional na cidade em que vivo. Tenho uma família estabelecida. Sou ou não sou? Mas aí, com Raulzito de novo, eu me pergunto: “e daí?”

E daí – aqui viro casaca e defendo os não certinhos – que a vida não é uma empresa feita só de planos e metas. Isso é importante, claro, mas assobiar enquanto se caminha é igualmente necessário, se é que me faço entender pela metáfora. Uma coisa não exclui a outra. Na verdade, uma coisa inclui a outra.

Na busca dos nossos necessários espaços estabilizados, é um risco se sedentarizar na mesmice. É preciso reinventar nosso emprego, nossa família, nossa profissão, nossos amigos, nossos amores. Sem se perder deles. Sem pô-los em risco. Aliás, põe em risco quem estagna. Porque vem a rotina, a frustração, a angústia. Se a vida estabilizada é “ouro de tolo”, para viver feliz é preciso da “metamorfose ambulante”. Ê, Raul!

Em cada um de nós há uma madre, que controla a razão, o cofre, os limites, os quereres. Que regula os passos e pensamentos. Mas há igualmente um louco, que se permite os delimites, os desejos, as doidices. Que dá pastos às liberdades. Encontrar o balanço entre a madre e o louco é encontrar um modo equilibrado de viver. A sociedade preza a madre e isola o louco. A sanidade abomina a madre, que recalca, e ama o louco, que liberta. Não há meta sem caminhos. Mas não há caminhos sem derivas. Os descaminhos constituem os caminhos.

Enfim, o que estou dizendo é que acredito que ser racionalmente louco é melhor do que ser loucamente racional. Se a sociedade espera de nós sanidade, o nosso bem-estar psíquico requer inquietude. A madre e o louco têm de conversar. Ou pelo menos se respeitar. Mas um tem de sair de cena de vez em quando para dar lugar ao outro. Mudar na regularidade. Clarice Lispector: “Mudar dói. Às vezes escorre sangue”. O louco corta. A madre cuida. E assim vai se delineando a linha do tempo da vida. Ou não?

3 comentários em “A madre e o louco

    Cassandra disse:
    05/06/2010 às 11:37

    Esta dualidade humana , ao mesmo tempo que parece nos corroer por dentro, é fonte de inspiração e das mais ricas para as nossas vidas! Que venha o equilíbrio entre as madres e loucos que vivem em cada um de nós! Parabéns pelo texto, professor!

    solzinhodalua disse:
    05/06/2010 às 13:12

    Obrigado, Sérgio…

    Você não faz idéia do quão importante foi a leitura deste texto para mim.

    Obrigado mesmo.

    Encontrar o equilíbrio entre a Madre e o Louco em nós é a chave para a felicidade…
    Lembrarei disso.

    Mais uma vez, um excelente texto. Parabéns!

    Zayra disse:
    08/07/2012 às 23:43

    Muito bom como vc definiu: “O louco corta. A madre cuida”. A cicatriz fica. Os que não estão no padrão determinado pela sociedade podem sofrer por isso. Os que estão, podem sentir falta dos caminhos que deixaram de percorrer na vida para que se enquadrassem. Sempre há um ônus. A cicatriz fica… e a gente segue fazendo limonadas. Adorei este texto!

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