Eufemismo: nem sempre dá…

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Quando eu era criança, passando em frente ao cemitério, perguntei ao meu pai o que significava a frase “Laborum meta”. Está lá no portão de entrada. Ele me disse que era latim. “Fim dos trabalhos”. É ali que tudo termina. “Aqui”, disse meu velho, “acaba o disfarce e todo mundo é igual”. Mas no calor da vida, as pessoas esquecem disso. E se crêem diferentes. Tudo bem, são diferentes. Mas não são melhores.

O que me distingue dos meus alunos é um pouco mais de leitura na área, talvez. Que é o que os distingue dos alunos deles. O que me diferencia da Lidiane, a minha empregada, é que eu sou o patrão dela. Mas não posso esquecer que eu também sou empregado de alguém. Zero a zero. Diferentes e não melhores. Ou seja, sejam lá quais forem as nuances diferenciadoras, nossa meta ao fim do labor é igual. Eu, a Lidi e todo mundo rimos, sonhamos, choramos, amamos, ganhamos, perdemos. Queremos, fugimos, tentamos, acertamos, erramos, caímos, levantamos, ficamos, partimos. E vamos um dia dormir de vez. Fato.

Aí vêm uns e outros com o chavão: “Você sabe com quem está falando?” Quantas vezes já ouvimos isso na vida… Quanto mais sou patinado pelo tempo, mais essa frase explicita e solidifica um significado para mim. Toda vez que a ouço – ela ou as suas paráfrases empafiosas – só leio na testa do indivíduo que a enuncia: “Você sabe com quem está falando? Se souber me diga, porque eu não consigo me ver como sou”.

A empáfia, que o honesto Aurélio diz que é “orgulho vão e soberba”, é a externalização de uma insegurança infinita. O empafioso, ao contrário do que aparenta, se eleva artificialmente em relação ao mundo para disfarçar sua pequenez, num processo inconsciente, instintivo. Sua agressividade é uma antecipação para não permitir que seu interlocutor lhe aponte a fragilidade, lhe desnude o ponto de vulnerabilidade. O soberbo é como o baiacu, peixe que se enche feito um balão frente a uma ameaça. O empafioso se sente eternamente ameaçado. Por isso vive sempre estufado.

Pode reparar. Há uma correlação. Os soberbos são inseguros. Fazem logo seu showzinho para que nenhum menino lhe aponte o dedo mostrando que ele está nu. Mas como na história, o rei está peladão. Seu orgulho vão é sua pretensa roupa, sendo que ele próprio é costureiro fake de si mesmo. Porque se há percursos distintos, todos têm uma jornada.

Corporativismo é soberba profissional. Preconceito é soberba umbilical. Fundamentalismo religioso é soberba em nome de Deus. Seja a soberba individual ou coletiva, equalizar as assimetrias da vida como se fossem assimetrias da espécie humana já trouxe guerras e o Holocausto.

Por fim, soberba não é o oposto de leseira. Não precisa ser leso para não ser soberbo. Humildade demais também é soberba. Fica-se aquém da linha para que alguém perceba e elogie. Se a soberba escancarada é a polícia, elogio planejado por falsa humildade é a polícia secreta.

Latim de novo: “In medio virtus”. A virtude está no meio. Como tudo na vida, balanço e equilíbrio. A dosimetria é chave.

Enfim, o que eu quero dizer mesmo é o seguinte: se você se acha o cu que matou Cazuza, se manque. Era isso.

14 comentários em “Eufemismo: nem sempre dá…

    Bianca disse:
    07/06/2010 às 23:09

    PERFEITO!

    Muita gente precisando de um “se manque” desse!

    Bernardo S Simoes disse:
    07/06/2010 às 23:14

    “Do you know who I think I am?” define.

    Anderson Briglia disse:
    07/06/2010 às 23:18

    Nunca tinha lido a última expressão, engraçada! 🙂 Você tem razão Sérgio. E o engraçado é que existem pessoas que possuem um ego tão grande que criam uma barreira e não conseguem enxergar nem quando uma alfinetada é proferida.
    Você já notou que quando os trolls reais brigam, nós, que somos os “mestres” ficamos calados? A soberba talvez nos falte e abunde em alguns colegas e amigos.
    Bom texto, como todos os outros.
    Abraço

    Daniel Santana disse:
    07/06/2010 às 23:28

    de fato o “Eu” se mostra por diferentes prismas, mas acredite todas as formas ainda são tentativas de ser visto, até o meio termo, hehe. Não há Sujeito sem o olhar do Outro, logo…
    Manda uma Skol aí!

    Tatiane Freitas disse:
    07/06/2010 às 23:46

    Genial!!!

    O texto todo é maravilhoso, mas me perdoa, não dá para não enfatizar:

    “o cu que matou Cazuza”!!! hahahah…você inventou isso!? rs

    Forte abraço, meu caro!

    #hugefan 😉

      Sérgio Freire respondido:
      08/06/2010 às 07:30

      Não… não inventei não. Circula por aí como paráfrase de “a última coca-cola do deserto”ou “a última jujuba do saquinho”. Mas o efeito é mais perfeito, eu acho.

    Rafael disse:
    08/06/2010 às 07:52

    Bom texto..
    O “dom” da soberba também vale praqueles que realizam ações desagradáveis, mas somente sabem enxergar e criticar as ações alheias. Certo?

      Sérgio Freire respondido:
      08/06/2010 às 08:30

      O soberbo tem os holofotes voltado pra dentro, Rafael. É cego, cego pra fora…

    ellen amazonas disse:
    08/06/2010 às 09:58

    “fazem logo seu showzinho para que nenhum menino lhe aponte o dedo mostrando que ele está nu”.
    pras pessoas que são assim, que adoram os holofotes e possuem um escudo revestido de espinhos, amargura e inveja, só lhes resta a solidão.
    essa é a verdade.

    antonio disse:
    08/06/2010 às 17:54

    Meu caro professor, vc tem toda razao, vide a atual corte muinicipal, mas enfim como tudo passa e nao existe mal eterno, nos resta torce e aderir a sua corrente contra esse povo triste que se acham necessarios.

    Camila Alves disse:
    09/06/2010 às 15:23

    Sérgio,
    com o tempo percebi que quem muito se promove está é tentando desesperadamente convencer-se a si mesmo de que tem aquele valor todo que está falando. E que, no fundo, faz isso por insegurança e medo. Insegurança do seu próprio valor e medo de ser rejeitado, diminuído, maltratada. Exatamente como você escreveu no texto.
    Isso até nos ajuda a “compreender” e tolerar melhor pessoas que agem assim. Ao invés de me enraivecer, eu penso, instantâneamente: “Coitado… Ele age assim porque tem medo…”
    Torna mais fácil – e menos penosa – a convivência com pessoas assim.

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